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Publicado em Março-Abril de 2006 (pp. 17-21)

A deficiência na ótica bíblica

Por José Luiz Gonzaga do Prado

O texto bíblico mais escandaloso sobre os deficientes físicos é Lv 21,18ss, em que se proíbe a pessoa com deficiência física de ter atuação direta no culto divino. Esse princípio, porém, não volta em nenhuma outra passagem — quer do Primeiro, quer do Segundo Testamento. Nem mesmo os textos rabínicos — pelo menos os colecionados por Bonsirven[1] — citam uma vez sequer Lv 21,18ss. A exclusão do ministério litúrgico parece ser apenas um eco da repetida proibição de sacrifícios de animais defeituosos[2]. Nesse caso a razão é óbvia: se vais oferecer alguma coisa a Deus, que não seja algo que já não te serve e não sabes o que fazer dele, como um boi velho, surdo e estropiado, uma vaca estéril, uma ovelha cega, um cabrito cambeta ou um novilho descadeirado ou de perna quebrada.

A única influência que Lv 21,18ss parece ter tido foi na antiga legislação eclesiástica católica. O Código de Direito Canônico de 1917, em seu cânon 984, excluía do ministério sacerdotal portadores de diversos tipos de deficiência. Uma possível dispensa da “irregularidade” era reservada ao sumo pontífice. E vários candidatos pelo mundo inteiro tiveram de se submeter a um exigente processo para alcançarem a dispensa e poderem ser ordenados padres. O atual Código de Direito Canônico (CDC 1.040ss.) excluiu explicitamente qualquer irregularidade ou impedimento ao ministério sacerdotal por motivo de deficiência física.

 

1. DEFICIÊNCIA E TEMOR DE DEUS

Quando falam da deficiência física como tal, os textos do Primeiro Testamento exigem um respeito total à dignidade da pessoa com qualquer deficiência. E ligam o respeito à dignidade do deficiente à ideia de temor de Deus ou do SENHOR. Como o mais fraco, qualquer que seja a sua limitação, não incute medo, temor ou respeito, deve-se temer a Deus, que está do seu lado e o defende, já que ele não tem como fazê-lo.[3]

Assim é que lemos em Lv 19,14: Não amaldiçoes o surdo, nem ponhas tropeço diante do cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o SENHOR. O texto hebraico parece dizer: Mas terás medo é do teu Deus. O deficiente visual ou auditivo não pode cobrar tua falta de respeito, não te ouve ou não vê o que fazes, mas o teu Deus está aí em defesa deles. Teu Deus é Javé, o SENHOR, o Deus histórico, o Deus que ouve o clamor dos explorados (Ex 3,7-14), o Deus defensor dos fracos; por isso é a ele que deves temer, respeitando a dignidade da pessoa com deficiência.

Dt 27,18, expressando os mandamentos em forma de maldições, diz: Maldito quem desviar o cego do seu caminho. E essa maldição se encontra entre a daquele que rouba terra do seu vizinho (v. 17) e a do que desrespeita os direitos do migrante, do órfão e da viúva (v. 19), dos quais Javé é o defensor (Sl 146[145],9).

Jó, ao relembrar seu antigo prestígio, quando era reflexo da glória de Deus, dá a razão central desse prestígio[4]: ele era os olhos do cego e os pés do coxo (Jó 29,15). E Davi (2Sm 9,13) sustentou até o fim da vida o seu possível rival, o neto de Saul, Meribaal, que, quando criança, tinha caído e quebrado as pernas, ficando deficiente.

 

2. DEFICIÊNCIA REAL OU SIMBÓLICA?

Em outros e mais numerosos textos do Primeiro Testamento, as deficiências, especialmente a visual e a auditiva, aparecem mais fortemente como símbolos de atitude, comportamento ou situação pessoal.

Assim é que em Ex 4,11, respondendo a Moisés, que alega falta de destreza para falar, se diz que Deus é quem dá boca ao mudo e visão ao cego. No Salmo 146(145),8 o SENHOR devolve a vista aos cegos e levanta quem caiu. Entre as maldições de Dt 28 encontra-se esta, nos vv. 28 e 29: O SE­NHOR te ferirá de cegueira, loucura e delírio. Em pleno meio-dia andarás tateando como cego na escu­ridão. Não terás êxito em nenhum de teus projetos, ao contrário, serás sempre oprimido e espoliado, sem que ninguém te socorra. É evidente que se trata de uma imagem, para falar de situações bem piores do que a simples deficiência física (cf. Lm 4,14). Por outro lado, fica também claro o que significa, por exemplo, a cegueira simbólica e quais as suas consequências. Quem não enxerga e é conduzido por outros será sempre explorado e nada conseguirá.

Os profetas, quando anunciam a esperança de retorno do exílio da Babilônia, falam de deficientes que podem ser reais ou/e simbólicos. Seriam deficientes reais quando os textos parecem aludir aos que tiveram os olhos vazados ao ser levados para o exílio e aos mutilados de guerra. Por outro lado, a presença deles entre os que retornam é símbolo de enorme alegria e cura de todos os deficientes físicos, psicológicos ou sociais. Assim é que lemos em Jr 31,8: Pois vou trazê-los do país do norte, dos extremos da terra hei de reuni-los. Entre eles cego e aleijado, mulher grávida e parturiente. Em grande multidão voltam para cá. E em Isaías 29,18: Os surdos nesse dia vão ouvir a leitura das palavras deste livro e, sem névoa ou escuridão, os cegos hão de ver.

A evidência do sentido simbólico aparece em Is 43,8: Manda vir este povo que é cego, embora tenha olhos perfeitos, manda vir este povo que é surdo, embora tenha ouvidos. E, vendo a gravidade maior ainda das deficiências simbólicas, mesmo quando ligadas a deficiências físicas ou sendo consequências delas, lemos em Is 42,18-22: Escutai, ó surdos, cegos, olhai bem para ver! Quem é cego, senão o meu servo, quem é surdo, senão o mensageiro que estou mandando? Muita coisa viste, mas nada guardas, abriste os ouvidos e nada ouviste. Por amor de sua justiça, o SENHOR queria engrandecer e glorificara sua Lei. Seu povo, porém, é um povo espoliado e roubado, todos presos nas masmorras, todos internados nos presídios. É en­tregue ao saque e ninguém para livrá-lo! Em Is 56,10-11 os governantes são comparados a cachorros cegos e mudos: Nossos guardas estão cegos, nenhum deles percebe. São todos cachorros mudos, nem sabem latir. Estão sonhando deitados, seu prazer é dormir. Cachorros gulosos, nada os deixa satisfeitos. Tais são os pastores, incapazes de entender. Todos, a começar dos últimos, só pensam na carreira, cada qual em busca do próprio interesse.

A esperança da restauração após o exílio, comparada a uma cura de toda a deficiência, explode em poesia especialmente em Isaías. O servo do SENHOR tem como missão não só unir o povo de Israel, mas ser luz para todas as nações e abrir os olhos aos cegos (cf. Is 42,6-7). A beleza toda do sonho aparece no capítulo 35 de Isaías: Fortalecei esses braços cansados, firmai os joelhos vacilantes. Dizei aos aflitos, “Coragem! Nada de medo! Aí está o vosso Deus, é a vingança que chega, é o pagamento de Deus, ele vem para vos salvar!” Então os olhos dos cegos vão se abrir e abrem-se também os ouvidos dos surdos. Então os aleijados vão pular como cabritos e a língua dos mudos entoará um cântico.

 

3. NO SEGUNDO TESTAMENTO

Os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos estão recheados de episódios de cura de deficientes físicos. Com a cura de outras doenças ou enfermidades, também a dos deficientes significa a compaixão de Jesus e de seus discípulos pelo povo sofredor (cf. Mt 9,16) e a chegada de um mundo novo, o reinado de Deus (cf. Mt 10,7-8; Lc 9,2; Lc 10,9).

Por sua vez, as narrativas evangélicas, especialmente as de Marcos e de João, estão carregadas de simbolismo e mostram algo mais profundo, que vai bem mais além da simples cura de uma limitação física. Esta é superável com a ajuda dos meios adequados e, superada, pode até se transformar numa força moral maior para aquele ou aquela que parecia mais débil. O mais sério e ne­cessário é superar a deficiência por razão social, psicológica ou espiritual: a incapacidade — por medo, por submissão, por opressão, por engano ou por alienação — de ver, saber, falar, tomar iniciativa, agir. É mais para isso que apontam os episódios de cura nos Evangelhos e é nesse sentido que vamos ler alguns.

 

3.1. O tetraplégico e o pecado

Os Evangelhos segundo Marcos e segundo João falam da cura de um paralítico, e as duas cenas têm em comum a relação estabelecida entre doença e pecado.

O paralítico de Marcos (2,1-12) vem carregado por quatro. Simboliza o gentio que vem dos quatro cantos do mundo, dos quatro ventos ou pontos cardeais. O gentio era considerado pecador só pelo fato de não ser judeu.

Jesus está em casa, formando a sua comunidade no meio dos judeus; os estribas ainda estão ali sentados, isto é, ensinando, ditando as leis. Não permitem que o gentio se aproxime de Jesus, que chegue ao menos à porta. É preciso, rompendo todas as conveniências, abrir um buraco no teto e descer o homem até onde está Jesus.

A condição de pecador do gentio, sua inconsciência, é que o tornava paralítico, sem um mínimo de ação. Jesus vê a fé deles, dos quatro, símbolo de todos os gentios que procuravam com tanto esforço aderir a ele, e diz ao paralítico, que os simbolizava a todos: Teus pecados estão perdoados! Livre do pecado, da inconsciência, da alienação, ele pode sair do local ainda dominado pelos escribas e ir para a sua casa, a sua comunidade, carregando a maca em que era carregado! Já não é inválido, incapaz de se movimentar e de agir por si mesmo. Livre da antiga condição de pecador, está livre da paralisia e carrega a padiola que o carregava.

O de João (5,1-18) está doente há 38 anos. Por pouco, apenas dois anos, essa doença não se torna definitiva. Ele está acompanhado de uma multidão de cegos, coxos e paralíticos prostrados junto aos cinco pórticos da Porta das Ovelhas. Aqui o domínio farisaico dos cinco livros da Lei, o Pentateuco, é que tornava cegas e inválidas suas ovelhas. O sistema religioso em que uma pequena elite domina o saber e a consciência de todos cria essa multidão de cegos, surdos, coxos, paralíticos.

Quando Jesus pergunta ao doente se quer ser curado da paralisia, ele responde que não há um homem que o leve à água… Jesus é esse homem. Ele o leva à água do batismo e o livra da paralisia que a Lei apropriada pelos fariseus impunha. Agora o curado carrega a padiola em que era carregado. Agora é certo que o homem não foi feito para a Lei, mas a Lei para o homem.

Mas era sábado e vem o conflito. Carregar objetos no sábado é obra proibida pela Lei, ainda mais quando aquela maca pode simbolizar a própria Lei… Quem tem o domínio da Lei, a não ser os dirigentes que tudo sabem?

Jesus encontra o ex-paralítico no Templo: terá voltado para a antiga instituição comandada pelos fariseus? E diz-lhe: Olha, estás curado. Não peques mais para que não te aconteça coisa pior. O pecado do cristão judeu será voltar à antiga religião e deixar-se guiar e carregar novamente pelos seus dirigentes. Sua situação, sua paralisia, ficará ainda pior do que a anterior.

 

3.2. Os cegos

Vamos ler três episódios de cura de cegos — dois de Marcos e um de João. Marcos emoldura o trecho da subida para Jerusalém, subida para o enfrentamento final, com duas curas bem significativas e questionadoras dos dirigentes atuais da comunidade cristã. João, antes de apresentar Jesus como o verdadeiro e único pastor, mostra-o curando um cego de nascença, destinado a ser guiado a vida toda pela mão de outros.

 

3.2.1. Os cegos de Marcos

Antes da profissão de fé de Pedro, a qual marca, no Evangelho segundo Marcos, o fim da missão na Galileia e o início da subida para Jerusalém, temos o episódio do cego de Betsaida (8,22- 26).

Levam o cego, então dependente, até Jesus e pedem-lhe que toque nele. O cego não parece capaz nem de pedir. Bastará o toque de Jesus? Não é tão simples. Primeiro Jesus o leva para fora da cidade. A cidade tal como se encontra estruturada, impede que a pessoa enxergue. É preciso primeiro afastar-se dela.

A cura não se dá instantaneamente, passa por etapas. A saliva e a imposição das mãos, a palavra, a ação… começam a produzir efeitos, o cego começa a ver alguma coisa, mas ainda confunde gente com coisas, pessoas com árvores. Nova imposição das mãos, mais ação diante dos olhos, e o cego passa a ver perfeitamente, até de longe.

Jesus o manda para casa, proibindo-o de entrar na cidade. A maioria das traduções, para evi­tar a incoerência narrativa (como irá para casa sem entrar na aldeia?), dizem apenas que Jesus o despediu, em vez de mandá-lo para casa, como está no original. A incoerência continua. Por que o cego curado não pode entrar na aldeia onde morava? No grego está literalmente: Mandou-o para a sua casa, dizendo: “Não entres de maneira nenhuma na aldeia!”.

Se ele retornar à cidade — aos critérios, mentalidade e estrutura da sociedade —, voltará a ficar cego, tornará a confundir gente com árvores e não enxergará mais. Por isso não deve entrar na aldeia. Por outro lado, a sua casa é a comunidade cristã. Para lá ele deve ir. Ali será ajudado a continuar enxergando e a enxergar cada vez mais longe.

Logo em seguida vem a profissão de fé de Pedro e começa a subida para Jerusalém, com os três anúncios da paixão e a resistência (ou cegueira) dos discípulos — principalmente dos Doze — em aceitar que Jesus seja o Messias sofredor, que ele tenha de passar por todo o tipo de humilhação, como vinha anunciando. Os discípulos admiram a coragem de Jesus, comportam-se como torcida — os que o seguem talvez enxerguem, vão com medo, enquanto os Doze preferem discutir a partilha do poder.

Em 10,46 chegam a Jericó, a última cidade antes de Jerusalém. Vem, então, o episódio do cego Bartimeu (10,46-52).

A multidão e os discípulos estão andando com Jesus, enquanto o cego está sentado à beira do caminho. O cego chama Jesus de Filho de Davi, todos mandam que se cale, mas ele continua: Filho de Davi, tem pena de mim! Na época em que o Evangelho foi escrito, os revoltosos que disputavam o poder em Jerusalém davam-se o título de Filhos de Davi, atribuindo-se o messianismo nacionalista, a esperança de um rei, Filho de Davi, que libertasse a nação do poder romano.

Mesmo assim, Jesus o chama. “Coragem! Levanta-te! Ele te chama!” O cego jogou o manto fora, deu um pulo e aproximou-se de Jesus. Curioso é o cego jogar fora seu manto, dar um pulo e ir até Jesus sem ajuda de ninguém. É indício de que o simbolismo fala mais alto do que a coerência narrativa. O manto significa a própria pessoa, sua vida. Abandonar o manto significa o que Jesus tinha dito a quem quisesse segui-lo (8,34): Renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me!

Pedro havia censurado Jesus quando falava da paixão em Mc 8,32. Em 9,32 os discípulos não entenderam, mas ficaram com medo de perguntar, e, mais adiante, em 10,35ss, os Doze interrompem a fala de Jesus sobre a cruz, para discutir a partilha do poder. Agora o cego que estava sentado à beira do caminho joga para trás o seu manto, a sua vida, e de um pulo vai até Jesus. Está curado: Tua fé te salvou! E ele foi seguindo Jesus pelo caminho!

 

3.2.2. O cego de João

Os dirigentes da religião judaica, como mostra o final do capítulo 8, querem matar Jesus. Ele se esconde e se afasta deles, sai do Templo. Ao passar, já no capítulo 9, Jesus vê um cego de nascença. Jesus toma a iniciativa, vê e se interessa. O cego é de nascença. Não pergunte como se pode reconhecer que um cego seja de nascença ou não. Ele nasceu na instituição religiosa comandada pelos que, sabiam, nasceu cego, para continuar cego, mendigo, dependente, comendo pela mão dos outros a vida inteira.

De quem é o pecado não é importante aqui — o caso dele vai mostrar qual o projeto de Deus. Com a saliva e a terra do chão, com a palavra e a realidade da vida, Jesus faz barro — vai refazer o ser humano. O cego, mendigo, que ficava sentado, totalmente dependente, vai se tornar mais gente, senhor de si. Com o barro Jesus unge os olhos do cego. Lembra a unção batismal e manda que ele vá se lavar nas águas do Enviado. Desde o início do cristianismo o batismo é chamado de iluminação, de abrir os olhos. O cego vai, lava-se e volta enxergando. É essa a obra de Deus: que o ser humano seja iluminado, enxergue por si, seja plenamente humano. O texto grego desse capítulo repete à saciedade o termo ánthropos.

Começa o conflito. Os guias não querem perder o seu cego. Os outros cegos não querem perder o companheiro, os vizinhos e conhecidos levam o ex-cego aos dirigentes, era sábado quando Jesus amassou o barro — e amassar barro era uma das obras proibidas no sábado. Os guias vão saber se não há alguma coisa errada aí. Ele cometeu um pecado — é evidente, infringiu claramente a Lei! —, mas fez algo que sem Deus não se pode fazer. Os próprios guias já divergem entre si. Para o ex-cego não há dúvida, Jesus é alguém que fala em nome de Deus, é um profeta.

Quem sabe esteja ocorrendo um engano — ele nunca tenha sido cego e Jesus não tenha feito mais que o pecado de amassar barro no sábado? Os pais do cego que abriu os olhos testemunham, mas não se comprometem, pois têm medo dos donos da verdade.

O raciocínio dos letrados não pode falhar, mas os fatos afirmam o contrário: o “pecador” fez algo que só alguém vindo de Deus poderia fazer. É evidente que os donos da verdade não podem aceitar a lição dos fatos, principalmente se é um cego de nascença que tenta mostrar o que os fatos ensinam.

Jesus veio — e esta é a obra de Deus — fazer que os guias, os donos da verdade, apareçam como cegos e que os destinados a permanecer sempre cegos comecem a ver e dispensem os guias. Se há algum pecado, este é dos guias que não se aceitam como cegos, que não querem ver nem aprender da realidade.

O projeto de Deus é este: iluminar, abrir os olhos, acabar com a submissão cega da multidão a uma pequena elite que domina o saber e os meios de comunicação, de convencimento e de atemorização das ovelhas. Nossos projetos pas­torais bem que poderiam também caminhar por aí, mas…

 

3.3. A ressurreição de Lázaro — uma síntese

O episódio da ressurreição de Lázaro traz uma frase (Jo 11,44) que, considerada do ponto de vista meramente narrativo, diz algo totalmen­te incoerente, senão absurdo. O morto saiu com as mãos e os pés amarrados, enquanto seu rosto era envolvido pelo sudário. Onde já se viu morto sair de mãos e pés atados e, ainda, com o rosto totalmente coberto, enrolado por um pano? O absurdo é indício de que o simbolismo, e não a coerência dos fatos, guiou o texto do autor.

Quem está de mãos e pés atados, incapaz de se mover e de agir, com o rosto totalmente coberto, sem enxergar, sem ouvir, sem perceber, sem possibilidade de falar, sem cara reconhecível, sem identidade, está morto. E quantos desses mortos encontramos por aí?

E Jesus só diz uma coisa aos discípulos de então e de todos os tempos: Desamarrai-o e deixai-o ir!



[1] J. Bonsirven. Textes Rabbiniques des deux premiers siècles chrétiens. Roma: Pontifício Instituto Bí­blico, 1955.

[2] Cf. Dt 15,21; Ml 1,8.

[3] Veja Ex 22,22-23(23-24) e 26(27): se o oprimido clama, Deus está do seu lado. Gn 42,18: José do Egito, porque tem temor de Deus, não prejudica seus irmãos. Ex 1,17: as parteiras do Egito, por temor de Deus, não matam os meninos hebreus. Is 11,3-9: inspirado pelo temor do SENHOR, o novo rei dará a sentença em favor dos humilhados do país. Lc 18,1-2.4: o juiz sem temor de Deus, ou que não respeita ninguém, não atende a viúva.

[4] Esse versículo fica exatamente no centro, entre os versículos 12 e 17, que se correspondem, segundo a retórica semita, em forma de sanduíche (pão, queijo, presunto, queijo, pão): (pão) socorria o pobre e a viúva (vv. 12 e 13) e arrancava a presa dos dentes do injusto (v. 17), (queijo) vestia-se do direito e da justiça (v. 14) e, pai dos pobres, examinava com cuidado a causa do migrante (v. 16).

José Luiz Gonzaga do Prado