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Publicado em Julho-Agosto de 1988 (pp. 2-6)

A denúncia profética da corrupção (salmo 12)

Por Airton José da Silva

1Do mestre de canto. Para instrumentos de oito cordas. Salmo. A Davi.

2Socorro, Javé! O fiel sumiu!

Desapareceu a fidelidade entre os homens:

3cada qual mente ao seu próximo

com lábios enganadores e segundas intenções.

4Que Javé corte todos os lábios enganadores

e a língua arrogante

5dos que dizem: “Nossa força está na língua

e nossas armas são os lábios;

quem poderá nos dominar?”

6Javé declara: “Agora me levanto para defender

os pobres oprimidos e os necessitados que gemem;

vou salvar quem quer ser salvo!”

7As palavras de Javé são palavras sinceras,

prata pura, sem impureza,

sete vezes refinada.

8Sim, Javé, tu nos guardarás,

livrando-nos para sempre desta gente:

9por toda parte rondam os injustos,

quando a corrupção é exaltada entre os homens.

 

I. O SALMO 12 E A CORRUPÇÃO EM ISRAEL

1. O salmo 12 é uma exortação profética

Dizem os especialistas que este é um salmo de exortação profética contra os ímpios. O profeta, no meio da multidão reunida para uma festa, denuncia os infiéis à aliança por seus atos, sobretudo a injustiça e a apostasia. Outros quatorze salmos poderiam ser classificados da mesma maneira.[1]

Vamos acompanhar a leitura do salmo 12 com dois olhares: um voltado para o passado, outro para o presente. No passado, vamos investigar o contexto, o sentido e as propostas do salmo 12. No presente, abordaremos o tema da corrupção, tratado pelo salmo, e tão em evidência nos dias que correm.

Pois, como diz Ivo Storniolo, este salmo nos convida “a olhar para o fracasso e a derrota, o sofrimento e a marginalização do povo, aceitando o desafio de descobrir as estruturas do mal, escondidas por trás das estruturas e instituições da sociedade e da política internacional”[2].

Encontramos o assunto do Sl 12 em vários profetas. Com destaque para Oseias, Miqueias, Jeremias e Trito-Isaías.

Em Os 4,1-3, por exemplo, o profeta observa que a aliança javista não é mais respeitada no norte do país. Isto se manifesta como ausência de integridade e solidariedade nas relações sociais. Por isso aumentam o perjúrio, o assassínio, o roubo, o adultério.

Mq 7,1-7, no sul, denuncia o desaparecimento da fidelidade e da justiça na sua época. E garante que existe tremenda aptidão de seus contemporâneos para o exercício do mal:

“Para fazer o mal as suas mãos são hábeis:

o príncipe exige,

o juiz julga por suborno

e o grande expressa a sua ambição” (v. 3).

 

Oseias e Miqueias pertencem ao século VIII a.C. Jeremias é do século seguinte. Mas a corrupção continua. É só ler Jr 7,1-15 e 9,1-8. São duas intervenções do profeta na época do governo de Joaquim (609-598 a.C.), quase no final do reino de Judá, destruído poucos anos mais tarde. Em ambas ele denuncia o engano e a corrupção reinantes no país. O tema da língua/palavra, usada como arma destruidora, é central nas palavras do profeta.

“A radiografia impiedosa e pessimista que Jeremias faz da sociedade de seu tempo é, na prática, a mesma que o nosso salmista registra amargamente também para o seu tempo”[3].

Mas também no imediato pós-exílio um profeta anônimo, hoje citado como Trito-Isaías, grita:

“O direito foi expelido,

a justiça se pôs à distância

porque a verdade estrebuchou na praça

e a retidão não pode apresentar-se” (Is 59,14).

 

Vemos, em todas estas passagens proféticas, a denúncia da prática da injustiça e da violação do direito, acobertadas pelo próprio poder e mistificadas por um discurso enganador.

Estes paralelos levam-nos a pensar numa possível situação para o surgimento do Sl 12. Durante uma festa, como em Jr 7,1-15, um profeta adverte Israel contra a infidelidade à aliança (vv. 2-3). Consciente de seus danos, ele se dirige a Javé (vv. 4-5) pedindo justiça. Transmite, em seguida, na forma de um oráculo, a resposta solene de Deus (v. 6), terminando em sábio comentário (vv. 7-9).

 

2. O salmo 12 é oração da comunidade

É quase certo que este tipo de salmo tenha sido usado nas celebrações cultuais. Os vv. 4-5 podem ser lidos como uma resposta do povo aos vv. 2-3. A passagem da 2ª pessoa (“Socorro, Javé”, vv. 2-3) para a 3ª pessoa (“Que Javé…”, vv. 4-5) ampara tal leitura. Ainda: os vv. 8-9 poderiam ser igualmente lidos como uma resposta, em coro, dos presentes, ao comentário feito pelo salmista nos versículos anteriores.

Este salmo poderia até ser representado como um drama litúrgico em três atos: o pedido do salmista e do povo (vv. 2-5), a resposta de Javé (v. 6) e, por fim, a reação do salmista/povo à resposta dada (vv. 7-9).

O desaparecimento da fidelidade (v. 2) e o triunfo (aparente) da corrupção (v. 9) formam uma inclusão temática que parece encerrar o salmo na vi­tória da injustiça.

Entretanto, a direção é outra: o tema central do salmo é a salvação. Sim, ele começa com um pedido de “socorro”. A salvação é pedida, prometida e esperada com certeza: o salmo, na verdade, se articula ao redor destes três momentos[4].

Agora, é fundamental, especialmente tendo em vista as nossas práticas litúrgicas, chamar a atenção para um pequeno detalhe: trata-se de oração da comunidade israelita.

Nas palavras de Ivo Storniolo: “Estes salmos (de exortação profética) convidam a usar a palavra de Deus na liturgia também como denúncia e acusação (…) da corrupção das instituições e estruturas sociais, tarefa que deve ser o testemunho profético de toda a comunidade cristã”[5].

 

3. O salmo 12 denuncia a exploração tributária

Neste ponto, porém, é interessante perguntar: o que teria provocado a denúncia profética da corrupção e o pedido de ajuda a Javé, tanto da parte do salmista quanto da parte do povo?

É muito difícil dizer se este salmo surgiu antes ou depois do exílio. A sua redação definitiva é pós-exílica, mas o seu parentesco é com o mundo profético pré-exílico.

Seguindo esta pista, poderíamos dizer que o nosso salmista denuncia a mesma estrutura social descrita pelos profetas dos séculos VIII e VII a.C.

Apoia tal perspectiva a observação das fortes imagens militares do v. 5. Elas indicam que as armas dos dominadores são as suas palavras, os seus projetos, a sua doutrina.

Aliás, o símbolo dominante no salmo é a palavra. O texto coloca em forte contraste as palavras humanas dos dominadores, que são falsas (vv. 4-5), e a palavra divina, que é autêntica, “prata pura, sem impureza, sete vezes refinada” (v. 7).

Tudo isto aponta para o período monárquico israelita, onde a relação da aristocracia com o campesinato é uma relação de exploração. O Estado cobra pesado tributo dos camponeses e, além disso, obriga-os a periódicos trabalhos forçados[6].

Os camponeses e seus porta-vozes, os profetas, protestam, então, contra as injustiças a que são submetidos e contra a corrupção e o luxo da classe dominante, dona absoluta do poder.

Mas protestam também contra a concepção oficial da divindade enquanto associada à exploração. Os profetas denunciam, com especial vigor, a inadequação entre o discurso teológico oficial, que continua a ser javista, e o funcionamento perverso das instituições, que rompem os laços do javismo.

Este abandono real do javismo quebra a aliança, rompe os laços da solidariedade, e o pobre é oprimido. Por isso, denuncia o salmista, “desapareceu a fidelidade entre os homens” (v. 2b) e a corrupção cresce como onda avassaladora (v. 9). Mas o discurso dominante procura ocultar, de todos os modos, esta realidade, simulando a prática do javismo. Daí porque a língua/palavra é uma temível arma usada pelo dominador.

 

4. No conflito, de que lado está Javé?

É o que, de repente, podemos perguntar ao nosso salmista. E a resposta vem no v. 6, que está bem no centro do salmo 12. Como sua estrutura é concêntrica, os elementos se alinham aos pares para que o v. 6 fique em destaque. Até mesmo o seu ritmo poético é diferente do ritmo dos outros versos.

O v. 6 afirma sem rodeios: Javé está do lado dos ‘anȋyȋm (= pobres) e dos ’ebhyônȋm (= necessitados).

O termo ‘anȋ, que aparece 32 vezes nos salmos, é um adjetivo verbal de forma passiva e indica aquele que se curva, que se submete, que cede. É a atitude do servo diante do senhor. O termo “pobre” não deve ser espiritualizado, pois “a inferioridade social permanece, de qualquer modo, como a conotação fundamental”, adverte-nos Gianfranco Ravasi. Até mesmo porque uma leitura meramente espiritualista da ‘pobreza’ bíblica “estaria em contradição com a perspectiva unitária permanente da mentalidade semítica”[7].

Já o termo ’bhyôn, que é usado 24 vezes nos salmos, vem, da raiz ’abhah “desejar”, implicando a noção de necessidade e pedido. O ’bhyôn é o pobre mendicante, é o miserável que geme pelos cantos das ruas.

Por outro lado, o fato decisivo: a ação de Javé — “agora me levanto (’âqûm) para defender” — tem conotação militar e jurídica. É Javé que se levanta para julgar, destruir e punir. E imediatamente. Javé, deste modo, não só desautoriza a mistificação do discurso do poder, como, definitivamente, se alinha com os pobres e oprimidos.

 

II. A CORRUPÇÃO NO BRASIL ATUAL E SUAS CAUSAS

1. A insuficiência da noção de “crise moral”

Da corrupção de ontem à corrupção de hoje. Neste ponto, voltamos o olhar para o presente. E perguntamos: por que a corrupção é tão comum em nossa sociedade?

A visão corrente da corrupção existente no Brasil de hoje fala de “desvio moral”, fruto de uma “crise moral”, exigindo, em consequência, uma “reforma moral”.

Esta noção de corrupção como “crise moral” deve ser rejeitada, porque é insuficiente para dar conta do problema. Na verdade, ela fica na aparência da realidade social, porque pressupõe uma visão harmônica de sociedade, que não seria constituída por classes sociais, mas apenas conteria divisões sociais. Daí bastar uma “reforma moral”, uma “mobilização das consciências” para resolver a crise.

Mas por que se fala tanto em crise?

Observa-se que os próprios detentores do poder sempre se amparam na ideia da crise para justificar a sua permanência no governo…

É que a noção de crise não coloca em xeque a estrutura social. Ela “permite representar a sociedade como invadida por contradições e, simultaneamente, tomá-las como um acidente, um desarranjo, pois a harmonia é pressuposta como sendo de direito, reduzindo a crise a uma desordem fatual, provocada por enganos, voluntários ou involuntários, dos agentes sociais, ou por mau funcionamento de certas partes do todo”[8].

Na verdade, a crise nomeia os conflitos para melhor ocultá-los. Por isso, não é sem razão que os discursos autoritários dos governos reacionários e ditatoriais sempre privilegiam a noção de crise. Por um lado, ela justifica a desordem social e, por outro, mobiliza a sociedade, temerosa de perder sua identidade coletiva, numa reação contra a mudança revolucionária, salvando, assim, a ordem constituída dos riscos a que estava submetida[9].

Deste modo se explica a aparente contradição entre o atual discurso da “redemocratização” ou da “transição democrática” e a permanência da corrupção em todos os níveis da sociedade brasileira.

Reafirmamos: esta visão da corrupção como “crise moral” é a típica noção liberal que vê as desigualdades entre os homens como mero fruto das diversas funções exigidas pela organização social ou, no máximo, como característica defeituosa da natureza humana. Não existe, segundo esta visão, antagonismo estrutural de classes, mas apenas conflitos conjunturais, “fruto de abuso do poder e deterioração das consciências. Para solucionar tais tensões são necessárias a transformação moral dos homens, a intervenção do Estado, as associações de classes”[10].

 

2. As raízes da corrupção no Brasil

Defendemos, de nossa parte, uma abordagem da questão da corrupção que considere a complexidade e as contradições da sociedade brasileira.

Por isso, para se analisar a corrupção no Brasil, é preciso olhar mais fundo na formação social. É preciso, por exemplo, levar em conta o paternalismo presente na ação das elites brasileiras, que sempre consideraram o Estado um negócio seu. O paternalismo conduz à ideologia da benevolência e, concretamente, ao favor como forma de ação política. Do favor para a corrupção…

Vários estudos sociológicos chamam a atenção para as características autoritárias que, historicamente, marcam as relações do Estado com a sociedade no Brasil.

Como, na sociedade brasileira, não se formaram grupos autônomos capazes de formular e canalizar institucionalmente seus interesses específicos, a participação política está “voltada prioritariamente para a conquista de posições de poder e prestígio dentro da esfera burocrático-administrativa”[11].

O Estado brasileiro exerce uma óbvia política de clientelismo. Uma de suas manifestações mais conhecidas é o coronelismo. A outra, em pleno vigor, é o populismo.

Os coronéis são os representantes da oligarquia agrícola-mercantil. Controlam os negócios públicos, afastando do poder as demais classes e mantendo seus privilégios.

O coronel é alguém de poder e prestígio que atende às demandas, públicas ou privadas, de sua clientela. Em troca destes favores exige lealdade absoluta de seus correligionários e dependentes. A ruptura destes laços leva a severas punições, não raro à eliminação física do “traidor”[12].

Com o desenvolvimento da industrialização e da urbanização, a partir dos anos 1940, o coronelismo entrou em declínio, embora, talvez, não se possa falar, ainda hoje, de seu fim. Especialmente nas regiões mais tradicionais do país.

A emergência política das massas populares, especialmente a partir de 1945, cria as condições para o populismo.

O populismo surge quando há “massificação”, provocada pela proletarização — por sua vez, provocada pela expansão do capital —, e perda de representatividade da “classe dirigente”, que se transforma em “dominante”, e, ainda, quando aparece um líder carismático.

Observam os sociólogos que nas sociedades em processo de desenvolvimento capitalista, como a brasileira, as camadas médias da população são sempre numerosas. Só que, pela lógica da expansão capitalista, elas tendem à condição de massa. Daí que, na impotência histórica das camadas médias da população está a raiz da demagogia populista.[13]

O populismo permanece limitado pelo horizonte das camadas médias, traindo as classes populares. Na sua visão, histórica e socialmente limitada, o mundo é constituído por “pobres” e “ricos”. A única maneira do pobre (leia-se, neste caso, “classe média”) ascender socialmente é através do paternalismo do Estado, que é um negócio bem sucedido das elites.

O irônico desse processo é que não são apenas as classes populares as vitimadas pelo empobrecimento e pela marginalização política. Também as camadas médias acabam esmagadas pela expansão dos grandes capitais.

Concretamente, a corrupção possui mil faces e manifestações, que não vamos descrever aqui. Como a de um sistema econômico que incentiva a especulação improdutiva do mercado financeiro, gerando lucros não operacionais centenas de vezes maiores do que os lucros operacionais. O desemprego e o empobrecimento da população são consequências imediatas deste jogo.

E não se pode esquecer, em momento algum, a dívida externa e sua pressão sobre os brasileiros. Além do que, ela é contraída, na maior parte das vezes, para financiar obras faraônicas que visam prestígio político da elite no poder e não bem-estar da população. Quando não tem parte de seus recursos desviados para contas particulares secretas no exterior.

Podemos concluir com o que afirma o próprio Banco Mundial, em recente relatório confidencial: embora aplique significativos recursos na área social, o Brasil possui um dos mais baixos níveis de bem-estar do mundo. Entre as causas elencadas encontram-se o clientelismo e o desvio de verbas.[14]



[1] Cf. Marina Mannati, Les Psaumes I. Paris: Desclée de Brou­wer, 1966, pp. 57-59; Para rezar com os Salmos. São Paulo: Paulinas, 1981, p. 69.

[2] Luís Alonso Schökel e Ivo Storniolo. Salmos e Cânticos, a oração do povo de Deus. 2ª ed. São Paulo: Paulinas, 1984, p. 548.

[3] Gianfranco Ravasi. Il libro dei Salmi I. Bolonha: EDB, 1981, p. 244.

[4] Cf. Marina Mannati, op. cit., pp. 156-161.

[5] Luís Alonso Schökel e lvo Storniolo, op. cit., pp. 559-560.

[6] Cf. Clodovis Boff. “Como Israel se tornou povo? Evolução de Israel do estado de clã até a monarquia”, em Estudos Bíblicos. Petrópolis: Vozes, n. 7, 1985, pp. 7-41.

[7] Gianfranco Ravasi, op. cit., p. 249, nota 10.

[8] Marilena Chauí. Cultura e democracia. O discurso competente e outras falas. 3ª ed. São Paulo: Moderna, 1982, p. 37.

[9] Idem, ibidem, p. 37.

[10] Luigi Bordin. O marxismo e a Teologia da Libertação. Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1987, p. 107.

[11] W. AA. O que se deve ler em ciências sociais no Brasil (BIB). São Paulo: Cortez-Anpocs, 1986, p. 11.

[12] Cf. Maria de Lourdes Jannoti. O coronelismo: uma política de compromissos. São Paulo: Brasiliense, 1981, pp. 7-13.

[13] Cf. Francisco Weffort. O populismo na política brasileira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986, 3ª ed., p. 34.

[14] Cf. Document of the World Bank. “Brazil: Public spen­ding on social programs. Issues and options, vol. I”, fevereiro 17, 1988, citado na Folha de S. Paulo, 16/4/1988, p. A-28.

Airton José da Silva