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Publicado em Setembro-Outubro de 2009 (pp. 25-32)

“Dar e receber” como expressão da gratuidade coletiva: Uma reflexão sobre Fl 4,10-20

Por Enilda de Paula Pedro, rbp

Introdução

No início do ano, os meios de comunicação social fizeram chegar às nossas casas a dolorosa situação causada pelas fortes chuvas. Inúmeras famílias perderam tudo — muita gente perdeu a vida ou foi atingida para sempre no próprio corpo.

Em Belo Horizonte (MG), uma dessas tempestades aconteceu na vigília do ano-novo. Eram mais ou menos 9 horas da noite quando caiu um temporal que alagou a Avenida Teresa Cristina e invadiu casas e lojas, derrubou paredes e muros, arrastou carros e até caminhões.

Uma das muitas famílias atingidas foi a do senhor Eduardo Gomes dos Santos e dona Tabita Ferreira dos Santos, com seus três filhos, nora e neta. Eles estavam começando a “ceia de ano-novo” quando uma vizinha bateu à sua porta, dizendo: “A chuva forte está alagando tudo e já está entrando na casa de vocês”. Olharam para o chão e viram a água entrando e tomando espaço, atingindo a altura de uns 20 centímetros. A família imediatamente começou a colocar tudo em cima dos armários.

Em poucos instantes, aquela água suja e lodosa do rio Arrudas avolumou-se e tornou a subir, ficando mais ou menos 1,2 metro acima do chão da casa. Os armários foram derrubados pela água e tudo foi embora… E o que sobrou já não pôde ser utilizado. Perderam tudo, menos o mais importante, a vida.

Se, de um lado, vimos a destruição causada pela natureza como consequência do descuido das autoridades competentes e da falta de formação do povo, de outro presenciamos o gesto generoso e gratuito de pessoas, grupos e comunidades. Embora tenha havido vários desvios de donativos, como vimos pela TV, muita gente doou objetos de valor, coisas boas e necessárias no seu dia a dia.

Dona Tabita e seu filho Cássio contam, emocionados, o que viveram e sentiram naqueles primeiros dias de 2009 sobre o “dar e receber” coletivos:

No momento foi sensação de perda, desânimo… O meu filho, pasmo e com a mão na cara, dizia: “Mãinha, tudo que lutamos para conseguir a vida toda perdemos em uma hora”. A gente via ir embora a mesa que acabáramos de comprar, as gavetas do guarda-roupa com nossos documentos, a compra do mês, a minha máquina de costura, único ganha-pão da família naquele momento, e tudo o que tínhamos caminhava por aquela água suja, malcheirosa. Meu marido, quase que “alucinado”, tentava empurrar a água com uma vassoura. Passamos a noite no meio da lama.

Ao raiar do dia, vimos, do outro lado da avenida, carros e mais carros de pessoas desconhecidas trazendo lanche, café, leite, marmitex, roupas, sapatos etc. Os padres da nossa paróquia[1] — padre João e padre Cláudio —, como todos nós, passaram a noite em claro, socorrendo o povo. Os dois envolveram toda a paróquia na ajuda solidária. Eles mesmos passaram o mês de janeiro transportando alimento, roupa, material de limpeza e outros donativos para ajudar as pessoas atingidas pela enchente. Padre João chegou a dizer: “Esse momento de profunda comunhão com a dor do povo fez do dia 1º de janeiro de 2009 o ano-novo mais feliz da minha vida”.

Que Deus dê a eles, em dobro, a vida que trouxeram para nós. Essas pessoas trouxeram conforto, tranquilidade para a gente, amenizaram a nossa dor. Nessa hora, a gente percebe que não está só.

Cássio interferiu na conversa da mãe e acrescentou: “Muita gente aqui na rua não se enturmava. Nessa hora, todos se abriram uns para os outros para somar forças e retirar a lama das casas e da rua. Foi impressionante como amanhecemos alegres naquele grande mutirão de sobrevivência”.

Dona Tabita continuou:

 

O telefone não parava. Arrumamos um ciclo de amigos. Experimentamos a generosidade do dar coletivo — tanta gente nos ajudou — e abrimos nosso coração para receber também, e de maneira coletiva, a presença e ajuda de pessoas e comunidades que jamais esqueceremos. Depois de alguns dias, ganhamos uma geladeira e dois sofás. Para nossa grande alegria, uma comunidade de irmãs nos doou uma máquina de costura. Que Deus abençoe essa doação, que é, para nós, um instrumento de trabalho!

 

A experiência da vida nos mostra que o dar e o receber coletivos e gratuitos sustentam as relações e amenizam as dificuldades do dia a dia. Com essa experiência das pessoas atingidas pelas enchentes, vamos aprofundar, com atenção cuidadosa, o texto de Fl 4,10-20.

 

1. O chão de onde nasceu o texto de Filipenses 4,10-20

O texto de Fl 4,10-20 nos traz a experiência de Paulo recebendo a ajuda fraterna e solidária da comunidade de Filipos. É uma experiência que vai na contramão da sociedade do seu tempo, a sociedade greco-romana. Para melhor compreensão do texto, vejamos algumas características da sociedade da época.

Trata-se de uma sociedade centrada no comércio, ou seja, na compra e venda (cf. Ap 18,11-13). Nessa sociedade, o “dar e receber” não são gratuitos; ao contrário, são tratados na perspectiva do comércio e só ocorrem entre pessoas do mesmo status social. Isso significa que a gratuidade, a generosidade, o altruísmo e a partilha não eram valores ali. É importante notar que a simples posse da riqueza nada significava. Ela precisava ser distribuída, pois assim a riqueza se transformava em posição e poder (cf. 1Cor 4,9-13).

Toda doação ou donativo era um gesto público, que tornava o doador superior às demais pessoas, alguém que deveria ser respeitado. Quem se beneficiava tinha a obrigação de demonstrar gratidão e retribuir a dádiva. Era o sistema do patronato. Havia até regras para isso:

— se a retribuição fosse de valor superior, quem houvesse ofertado primeiro ficava em vantagem;

— se o valor fosse o mesmo, as duas pessoas ficavam no mesmo nível;

— se a retribuição fosse de valor inferior, quem se houvesse beneficiado se tornava dependente de quem o beneficiara e ficava com uma situação “em aberto” em relação ao benfeitor.

 

Oferecer qualquer tipo de benefício equivalia a oferecer amizade (cf. Lc 6,34-35). Rejeitar um benefício era rejeitar uma amizade. O dinheiro, por exemplo, emprestava-se entre amigos. Por isso, o melhor investimento de uma pessoa era fazer “amigos”, alimentar e consolidar essas amizades, oferecendo-lhes benefícios, festas, prestando homenagens, edificando um monumento em sua honra, elogiando o benfeitor e amigo em público etc. Tudo isso implicava retribuição, de forma que os laços de amizade se tornavam mais sólidos. A situação era tal, que havia disputas para ver quem era considerado a pessoa mais honrada… (cf. Lc 14,12-14). Nesse modelo greco-romano de sociedade, como ficava a situação do pobre?

Para entender melhor, vamos fazer uma comparação: enquanto, no Ocidente, temos a classe rica, a classe média e a classe pobre, ao nos referirmos à sociedade greco-romana, não podemos usar tais categorias. Para nós, a pobreza é uma realidade econômica e social, que se estende desde a luta por sobrevivência até a extrema indigência. Já na sociedade greco-romana da época de Jesus, de Paulo e das primeiras comunidades cristãs, havia duas categorias economicamente reconhecidas: os ricos, chamados plousios ou dives — os que viviam na abundância e não precisavam trabalhar — e os penêtes ou paupers — os que não eram ricos e precisavam trabalhar para sobreviver. Daí vem o termo pobre. Nessa categoria estão as discípulas e os discípulos de Jesus.

O que distinguia os penêtes dos dives era a necessidade de viver do próprio trabalho para se manter. Podiam ser artesãos, pequenos comerciantes, pedreiros ou profissionais. Mas podemos ainda detectar outro grupo “mais pobre”, constituído por pessoas que precisavam mendigar para obter seu sustento. Eram os denominados ptochos. Estes estão próximos da nossa categoria de indigente ou mendigo, aquela(e) que não tem nada a perder, os últimos da sociedade humana.

É importante lembrar que, na sociedade greco-romana, a aristocracia (os ricos) tinha desprezo pelo trabalho manual e pelas pessoas que dependiam dele para sobreviver. Mas o grupo que integrava a força de trabalho constituía a maior parte da população das cidades e povoados. Os ricos viviam do trabalho destes últimos.

O relacionamento de Paulo com suas comunidades é o avesso de tudo que acabamos de ver sobre a sociedade greco-romana, como podemos observar na carta aos Filipenses.

Em Fl 4,10-20, constatamos que Paulo recebe uma ajuda econômica da comunidade de Filipos e a aceita. Será que foram criados entre ambos esses laços de dependência, típicos da sociedade greco-romana? No texto, Paulo diz que só aceitou ajuda econômica pessoal dessa comunidade (Fl 4,15). Será por quê? Nesse comentário, vamos procurar aprofundar essas e outras questões.

 

2. Comentando o texto de Fl 4,10-20

Percorramos, passo a passo, os versículos 10 a 20 do capítulo 4 da carta aos Filipenses. Trata-se da primeira das três cartas de Paulo à sua querida comunidade de Filipos conservadas pela tradição bíblica. Era por volta do ano 52-53 d.C.

Paulo deseja manifestar seu reconhecimento à comunidade de Filipos, mas, ao mesmo tempo, quer preservar sua liberdade e independência em relação às doadoras(es), tendo em vista a transparência no uso dos benefícios, para não atingir sua missão apostólica. Acima de tudo, o livre anúncio do evangelho!

Iniciando Fl 4,10, Paulo demonstra alegria pelo gesto generoso e terno da comunidade de Filipos, o que indica seu amadurecimento na solidariedade e no compromisso com o anúncio do evangelho (cf. Fl 1,4-5). Trata-se de mais uma contribuição financeira da comunidade filipense para o apóstolo. Parece que Paulo aguardava por isso, mas a comunidade demorou a enviar sua ajuda e ele pensou que havia desinteresse pelo seu trabalho. Mas logo se corrigiu e amenizou o juízo que fez.

Em Fl 4,11-13, Paulo parece se sentir constrangido pela ajuda que está recebendo, e isso é de estranhar. Não é a primeira vez que os filipenses o auxiliam. Eles já o fizeram quando Paulo esteve em Tessalônica (Fl 4,16) e em Corinto (2Cor 11,9), ocasiões em que o gesto deles foi bem-aceito. Por que, agora, o constrangimento? A resposta está no momento em que a ajuda chegou.

Paulo está preso em Éfeso (Fl 1,12-14). Naquele momento, vive alguns conflitos com as lideranças das comunidades locais quanto à perspectiva do martírio (cf. Fl 1,21-26). E, para complicar mais as coisas, acaba de pedir ajuda para os pobres de Jerusalém quando chega a comitiva de Filipos trazendo a tão esperada ajuda pessoal. Aceitar uma ajuda em dinheiro, naquele momento, poderia dar a entender que Paulo se apropriava do que era destinado aos pobres. Aliás, como hoje, isso era comum naquele tempo. Funcionários roubavam dinheiro público, e ajustes de conta só eram pedidos se o roubo fosse exorbitante. Além disso, filósofos e missionários das mais diferentes religiões tinham fama de ser mercenários do que ensinavam e exploradores dos crentes (2Cor 2,17). Paulo precisa ser cuidadoso. Está em jogo sua reputação de apóstolo íntegro. Por isso, mostra ser capaz de enfrentar diferentes situações: abundância, penúria, saciedade, fome…

Ele se diz autossuficiente. Esse termo era usado, por alguns filósofos, para dizer que eram indiferentes aos condicionamentos da vida. Mas o ideal de Paulo não é viver à maneira dos filósofos. Não quer mostrar que é uma personalidade capaz de se autossustentar. A liberdade que adquiriu diante da vida é sustentada por Cristo. Por isso diz: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,13). Paulo tem consciência de que quem vive na intimidade com Deus tem resistência diante das privações e necessidades (cf. Sl 23,1; Fl 4,11-12). Ele quer, de alguma forma, afirmar que Deus e a missão de anunciar o evangelho são suficientes em sua vida (cf. 2Cor 9,8-10). Quando a vida está centrada em Deus, os gestos de “dar e receber” se tornam gratuitos, transparentes, rompendo a corrente, por vezes mesquinha, da troca interesseira de favores.

Em Fl 4,14, Paulo mostra que a comunidade filipense não ficou alheia a tudo isso. Ela esteve com o apóstolo nas privações, nas perseguições, nas prisões… Tal solidariedade é autêntica participação na luta que Paulo trava no anúncio da boa-nova, e ele reconhece isso: “Fizestes bem em participar da minha aflição” (Fl 4,14). O verbo “participar”, sinkoinoneo em grego, que aparece em Ef 5,11 e Ap 18,4, quer dizer participar em algo com alguém; é estar ligado por profundos laços a essa pessoa e ao projeto que ela está assumindo. Como o apóstolo, a comunidade é participante da graça (Fl 1,7) e da alegria do anúncio do evangelho.

A comunidade de Filipos foi a única que estabeleceu com Paulo uma relação de “dar e receber” (Fl 4,15). Parece que o apóstolo usou, propositalmente, um termo ligado ao comércio; é uma relação de débito e crédito, de compromisso recíproco, que se estabeleceu entre ele e as(os) filipenses desde o início da pregação do evangelho. Em Tessalônica, Paulo recebeu, mais de uma vez, ajuda da comunidade em suas necessidades (Fl 4,16.19). Necessidade, em grego chreia, significa “ausência”, “falta de alguma coisa”, “precisão de algo” (cf. Fl 2,25).

Nesse sentido, a carta aos Efésios faz um apelo para que as pessoas trabalhem para sobreviver e para partilhar com aquelas e aqueles que têm necessidade de alguma coisa (cf. Ef 4,28; Mc 2,25).

Paulo reconhece o gesto de partilha generosa da comunidade de Filipos, mas quer enfatizar que o relacionamento dele — de “dar e receber” — com aquela comunidade é diferente do que existe na cultura greco-romana. Paulo não busca presentes (Fl 4,17), em grego doma. Essa palavra é bastante usada no Segundo Testamento para se referir às coisas boas que devemos pedir ao Pai do céu (cf. Mt 7,11); sobretudo, a sua graça, pela medida de Cristo Jesus (cf. Ef 4,8), e, em última análise, o maior dom, o Espírito Santo (cf. Lc 11,13). Este é o verdadeiro presente que podemos pedir a Deus, uns pelos outros. Assim sendo, o lucro que Paulo busca não é para si, mas para a comunidade.

“Não que eu busque presentes; o que busco é o fruto que se credite em vossa conta” (Fl 4,17). O vocábulo fruto, karpos, recebe vários significados no Segundo Testamento. Aqui, como em Rm 1,13, ele tem o sentido de “vantagem”, “ganho”. Esse termo é comumente empregado no Segundo Testamento para manifestar o testemunho da fé, especialmente na maneira de agir das pessoas e da comunidade. Paulo usa essa maneira de falar para se referir ao resultado de sua obra missionária, realizada com grandes desafios (Fl 1,22).

Por que Paulo aceita ajuda pessoal apenas da comunidade de Filipos (Fl 4,15)? A explicação parece estar no tipo de organização daquela comunidade. Em Corinto, as doações eram essencialmente individuais. Isso poderia trazer algum tipo de obrigação de Paulo para com o(a) doador(a), além de gerar ciúme entre os membros da comunidade.

Em Filipos, a situação era bem diferente. A dádiva era fruto do esforço comunitário (cf. Fl 4,3). A comunidade se organizou e criou um fundo comum, um tipo de “caixa comunitária”, de modo que todos os membros contribuíam. Além disso, formaram uma comissão responsável por encaminhar a oferta, também de forma coletiva.

Continuando sua exposição aos filipenses, Paulo diz que agora ele tem em abundância; não precisa de mais nada. O apóstolo não quer mesmo ser sustentado, mas reconhece a oferta e diz que ela “é perfume de suave odor, sacrifício aceito e agradável a Deus” (Fl 4,18). Paulo expressa gratidão e demonstra o significado profundo que essa oferta tem para ele, usando termos que remetem aos rituais de sacrifício do Primeiro Testamento. Por isso, somente Deus, em Cristo Jesus, saberá retribuir, de maneira muito superior, tudo o que a comunidade filipense fez para o anúncio da boa-nova (Fl 4,19). Terminando a correspondência de agradecimento, Paulo reconhece que tudo o que foi feito acha o seu sentido e significado final na glória de Deus: “E ao nosso Deus e Pai seja a glória, pelos séculos dos séculos! Amém” (Fl 4,20).

 

3. O “poço” onde Paulo e a comunidade de Filipos beberam a água pura do “dar e receber”

O gesto comunitário de “dar e receber” faz parte do sonho do ser humano de um mundo novo, de justiça e fraternidade. Na Bíblia, suas raízes remontam ao tempo tribal, quando muitos grupos, na Palestina, procuraram se organizar de forma igualitária. Isso se deu por volta dos anos 1200 a 1000 a.C.

Esse sonho foi vivenciado pelo povo das aldeias e cultivado pelos profetas populares, como Elias, Oseias, Amós, Miqueias, Sofonias, Segundo e Terceiro Isaías, até chegar a Jesus de Nazaré e a Paulo.

Em sintonia com esse projeto, que marcou a história da Bíblia, encontramos textos antigos que trazem gestos e leis de hospitalidade, de solidariedade, de defesa e proteção dos pobres entre os pobres: o órfão, a viúva, o estrangeiro, o empobrecido. Tais leis e costumes são explicitações do “dar e receber” próprio à vivência dos clãs e tribos, na sua originalidade.

Textos antigos, lidos e relidos no decorrer da história, foram preservados no Pentateuco; por exemplo, no livro do Deuteronômio. Algumas tradições demonstram a preocupação das comunidades/clãs, que querem se organizar tendo no centro das atenções aqueles e aquelas que passam necessidade em decorrência de guerras, violências, catástrofes, perda das plantações e outras intempéries.

 

a) Em Dt 23,20-21, podemos ler: “Não emprestes ao teu irmão com juros, quer se trate de empréstimo de dinheiro, quer de víveres ou de qualquer outra coisa sobre a qual é costume exigir um juro. Poderás fazer um empréstimo com juros ao estrangeiro; contudo, emprestarás sem juros ao teu irmão, para que Iahweh teu Deus abençoe todo empreendimento da tua mão, na terra em que estás entrando, a fim de tomares posse dela”.

Nesse texto, a palavra “irmão” significa o israelita. Os juros costumavam ser muito altos, o que poderíamos chamar de usura, que lesaria o outro. E, num povo de irmãos, o empréstimo seria partilha, sem objetivo lucrativo. Enquanto, em Ex 22,24 e Lv 25,35, o apelo é em favor da ajuda ao necessitado em caso grave, no livro do Deuteronômio essa ajuda se estende a qualquer caso de necessidade.

b) Dt 23,25-26 afirma o seguinte: “Quando entrares na vinha do teu próximo, poderás comer à vontade, até ficar saciado, mas nada carregues em teu cesto. Quando entrares na plantação do teu próximo, poderás colher as espigas com a mão, mas não passes a foice na plantação do teu próximo”.

Numa sociedade baseada na fraternidade e na partilha, os bens necessários à sobrevivência são de todos. Mas isso não dá a ninguém o direito de prejudicar o outro. Ou seja, o projeto é usufruir, sem destruir (cf. Mc 2,23). O texto não abre espaço para o roubo, por exemplo.

c) O livro do Deuteronômio ainda conserva outra lei antiga, chamada “lei da respiga”, que é retomada em outros livros — por exemplo, no livro de Rute, capítulo 2, em que a aplicação dessa lei favorece a jovem viúva, estrangeira, sem filhos. Vejamos o que nos diz Dt 24,19-22:

Quando estiveres ceifando a colheita em teu campo e esqueceres um feixe, não voltes para pegá-lo: ele é do estrangeiro, do órfão e da viúva, para que Iahweh teu Deus te abençoe em todo trabalho das tuas mãos. Quando sacudires os frutos da tua oliveira, não repasses os ramos: o resto será do estrangeiro, do órfão e da viúva. Quando vindimares a tua vinha, não voltes a rebuscá-la: o resto será do estrangeiro, do órfão e da viúva. Recorda-te que foste escravo na terra do Egito. É por isso que eu te ordeno agires deste modo.

Estamos diante de uma lei bastante abrangente. Não “limpar” a terra após a colheita é gesto generoso, que permite a preservação da vida dos seres humanos mais pobres, dos animais e da natureza, pois os grãos que permanecem na terra servem de alimento para as pessoas famintas e os animais; o que sobra se torna adubo que fertiliza a terra. É um “dar e receber” ecológico! Essa lei mantém os seres humanos, os animais e a natureza na liberdade das filhas e filhos de Deus, pois a natureza é universal!

 

No tempo do exílio na Babilônia (587 a 538 a.C.), surgem vários grupos, em Judá e na Babilônia, com uma diversidade de projetos e sonhos. Um desses grupos, chamado “Segundo Isaías” ou “Deutero-Isaías” (Is 40 a 55), vive forte experiência de confinamento e escravidão no interior da Babilônia (Is 42,22). Nessa situação, mulheres e homens, velhos, jovens e crianças recriam uma vivência solidária, na gratuidade, para resistir ao sofrimento e explicitam isso com palavras convocadoras:

Ah! todos que tendes sede, vinde à água. Vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; comprai, sem dinheiro e sem pagar, vinho e leite. Por que gastais dinheiro com aquilo que não é pão, e o produto do vosso trabalho com aquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me com toda atenção e comei o que é bom; deleitar-vos-ei com manjares revigorantes (Is 55,1-2).

 

O sonho embutido nessas palavras nos aponta o desejo da comunidade de excluídas e excluídos de viver um mundo novo, de gratuidade, de troca e partilha solidárias, que permite a sobrevivência independentemente de dinheiro. O grupo profético assume o “jeitão” de um pregador ambulante (cf. Pr 1,20; 8,1).

No decurso do domínio persa e do domínio grego, o livro dos Salmos é elaborado, trazendo salmos que incentivam o espírito de gratuidade do “dar e receber” comunitário por meio da hospitalidade e da partilha na mesa — por exemplo, o Sl 23, que provavelmente tem suas origens no tempo tribal.

Após esse percurso pelo Primeiro Testamento, vamos averiguar a maneira de agir de Jesus de Nazaré — preservada e vivida pelas primeiras comunidades cristãs — no que se refere ao “dar e receber” de forma gratuita e coletiva.

A vida de Jesus foi pautada pelo “dar e receber”. Como o servo de Iahweh, discípulo de Deus, do povo, da tradição, ele vivia a estrada de duas mãos: “dar e receber”. Jesus leva ao extremo a gratuidade, a ponto de dar a própria vida.

Um dos seus gestos que marcaram a vida das discípulas e discípulos foi a partilha do pão, registrada nos quatro evangelhos (Mc 6,30-44; Mt 14,13-21; Lc 9,10-17; Jo 6,1-13).

Os evangelhos apresentam Jesus retomando o projeto tribal, expresso na atitude da viúva de Sarepta e de seu filho (cf. 1Rs 17,1-24). Ele diz: “Dai-lhe vós mesmos de comer”. As discípulas e discípulos estão tão arraigados no projeto greco-romano, que ainda retrucam: “Iremos nós, compraremos duzentos denários de pão para dar-lhes de comer?” (Mc 6,37).

Jesus não tem dúvida: diz às suas discípulas e discípulos que é preciso dar de comer à multidão e não forçá-la a ficar no sistema de compra e venda, sustentando o mercado injusto, que provoca a exclusão dos pobres. É o apelo ao “dar e receber” comunitário, de maneira gratuita — dar até aquilo que nos faz falta, preparando para dar a própria vida, se necessário for. A caridade também se apresenta de forma organizada: em grupos de cinquenta (cf. Ex 18,18-27). Ou seja, é um gesto que ultrapassa a caridade pessoal e envolve o grupo, a comunidade.

Nessa sociedade de troca, de “barganha”, as seguidoras e os seguidores de Jesus propõem uma “virada de mesa”, mediante gestos de partilha, de generosidade gratuita, sem esperar recompensa. Veja bem. Certamente você será recompensada(o), mas por quem, onde e como você menos espera!

São inúmeros os textos dos evangelhos que nos apresentam a gratuidade de Jesus, seguida pela vivência das primeiras comunidades cristãs. É nesse caminhar que se insere Paulo e suas comunidades.

 

4. Aplicações à pastoral e conclusão

Como podemos observar, o cristianismo, na sua originalidade, carrega o sonho de um mundo novo, onde todas e todos vivam o “dar e receber” de maneira comunitária, igualitária, fraterna e gratuita.

Desde os primórdios, esse sonho se transformou em projetos concretos, que não mudaram o rumo da história, mas estabeleceram parâmetros de prática do evangelho em conformidade com o agir de Jesus. Podemos citar, entre outros:

a) a ceia comunitária, cuja expressão máxima é a eucaristia, manifestada em gestos simples como o encontro do povo de rua para um “sopão”;

b) a caixa comum, ou coleta, em favor dos pobres realizada por muitos grupos;

c) a acolhida a estrangeiros: prática tão forte nas comunidades das cartas atribuídas a Pedro, como podemos ler em 1Pd 4,9. Esse gesto continua até hoje em diversas comunidades que procuram abrigar aquelas e aqueles que se sentem perdidos quando chegam às grandes cidades à procura de emprego e de tratamento de saúde;

d) a ajuda a órfãos e viúvas, imperativo profético que vem desde o tempo tribal, é assumida por Jesus e pelas primeiras comunidades cristãs, como vemos na carta atribuída a Tiago: “Se alguém pensa ser religioso, mas não refreia a sua língua, antes se engana a si mesmo, saiba que a sua religião é vã. Com efeito, a religião pura e sem mácula diante de Deus, nosso Pai, consiste nisto: visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações e guardar-se livre da corrupção deste mundo” (Tg 1,26-27). É bom lembrar que, na sociedade greco-romana, as viúvas eram numerosas. As mulheres se casavam muito jovens, e os maridos, além de mais velhos, comumente morriam nas guerras. As comunidades estavam atentas para acolhê-las e lhes dar proteção (cf. At 6,1). Esse gesto se perpetua na história. Comunidades, grupos, congregações religiosas nasceram para desenvolver esse gesto humano e cristão;

e) assim também outras práticas, como: o enterro dos mortos; a proteção aos perseguidos; o resgate dos escravos; a acolhida em momentos de epidemia; a acolhida aos drogados, às crianças abandonadas, aos alcoólatras, às mulheres prostituídas, aos homossexuais e a outras pessoas discriminadas; o socorro em momentos de enchentes e calamidades em geral ou em outras situações desafiadoras.

 

A realidade atual desafia nossa vida para o “dar e receber” de maneira comunitária e gratuita. O que é possível à sua comunidade fazer nesse sentido?

Voltando ao fato mencionado no início deste artigo, percebemos que o sonho de um mundo novo — onde a prática de “dar e receber” entre pobres e pobres, entre ricos e pobres e entre ricos e ricos se estabeleça de maneira comunitária e gratuita — está presente no coração das pessoas, grupos e comunidades. Situações desafiadoras têm o “poder mágico” de fazer eclodir, de maneira concreta, gestos de solidariedade e partilha. No cotidiano, temos inúmeras oportunidades de dar e receber. A posição de “dar” é privilegiada. Ela nos põe em uma situação de destaque e até de certa superioridade. Já “receber” exige de nós abertura, acolhida — atitude de discipulado —, que supõe esforço, conquista. É questão de cultivar tais gestos nas pequenas coisas de nossa convivência diária. Grandes gestos não se improvisam!

Os gestos de “dar e receber” são como estrada de duas mãos. Essa circularidade, esse vaivém têm o potencial de nos proporcionar alegria interior, como tão bem expressou o padre João Vianey: “Esse momento de profunda comunhão com a dor do povo fez do dia 1º de janeiro de 2009 o ano-novo mais feliz da minha vida”.

A oração atribuída a Francisco de Assis explicita bem esse processo: “Pois é dando que se recebe. É perdoando que se é perdoado. E é morrendo que se vive para a vida eterna”.

 


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[1] Padres João Vianey e Cláudio Lúcio Mesquita, da Paróquia São Vicente de Paulo, Nova Suíça (BH).

Enilda de Paula Pedro, rbp