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Publicado em Março-Abril de 2008 (pp. 3-9)

Deus, Cristo, a vida e nós

Por Pe. Johan Konings, SJ

I. Panorama teológico-bíblico[1]

1. Antigo Testamento

A vida como valor essencial

Não há dúvida de que a palavra “vida” — em hebraico significativamente indicada por um plural, hayyim — evoca aquilo que é mais caro ao ser humano. Ora, viver, para o homem bíblico, é mais do que apenas existir. É viver bem, em felicidade. Essa felicidade é muitas vezes expressa, na Bíblia, pelo termo “paz” (shalom), que, na realidade, inclui saúde, bem-estar, prosperidade. Outro termo quase sinônimo de vida é luz: “Em ti está a fonte da vida, em tua luz vemos a luz” (Sl 36,10) — “a luz da vida”, que inspirará o prólogo de João, como veremos adiante. O contrário, a morte, é escuridão, trevas.

A vida precisa também de um espaço seguro. Daí a importância de uma terra, de uma “herança”, como se diz (para os povos bíblicos, normalmente agricultores ou pastores, a “herança” era algum terreno para viver). O livro do Deuteronômio insiste muito na terra que Deus oferece a Israel para viver e se multiplicar (cf. Dt 8,1). Mesmo o povo oprimido deverá, nesse sentido, “herdar a terra… a paz imensa” (cf. Sl 37,11). O contrário da vida são a morte e as doenças, que diminuem a vida e são, se não um perigo real de morte, ao menos u ma espécie de símbolo desta.

Possivelmente porque sua perda provoca a morte, o sangue era considerado portador de vida (Gn 9,4) — não apenas o que circula nas veias, mas também em sua participação como meio de transmissão da vida. A procriação genética era compreendida como a transmissão do sangue pelos pais aos filhos. Tal imaginário explica o tabu do sangue: não pode ser comido, mas pode servir para o sacrifício, como expiação (Lv 17,11.14).

A vida é considerada o bem supremo, ainda mais quando prolongada e provida de honra e riqueza. Quem encontrou a sabedoria tem “em sua mão direita longos anos, e em sua mão esquerda, riqueza e glória” (Pr 3,16). “O homem dá tudo para guardar a vida”, diz Satã, quando quer provar Jó em sua vida (Jó 2,4), e até “um cão vivo vale mais do que um leão morto” (Ecl 9,4). A morte prematura é uma desgraça, talvez um castigo de Deus. Uma vida breve é lamentada. Contudo, os últimos escritos do Antigo Testamento mostram uma reflexão mais profunda; o mais importante não é a duração, mas a “qualidade” da vida, medida não pelos bens materiais, e sim pela existência honrada, corajosa ou justa que se vive diante da face de Deus: “O justo, porém, ainda que morra prematuramente, encontrará descanso; a velhice venerável não é a de uma longa duração, nem se mede pelo número de anos. O bom senso equivale aos cabelos brancos, a uma vida sem mancha, à idade avançada” (Sb 4,7-8). “O justo, morto, condena os ímpios vivos, e a juventude que terminou cedo, a prolongada velhice do injusto” (Sb 4,16). Mesmo sem pensar na eternidade, o salmista julga que a graça aos olhos de Deus vale mais que a vida (Sl 63,4). Por outro lado, a vida justa, no pensamento apocalíptico, é candidata à ressurreição para a eternidade (cf. Dn 12,2; 2Mc 7,9 etc.).

 

O Deus que vive e faz viver

Deus é o criador de toda vida, como o hino da criação em Gn 1 exprime de modo eloquente. Ele é a fonte da vida (Jr 2,13). Por isso, só na união com o Deus vivo, o Deus da vida, encontra-se plenitude de vida. A desobediência a ele rompe esse laço vital; a morte se torna então sinal desse rompimento, como aparece na história de Adão e Eva.

Há uma expressão bíblica que nos parece muito estranha: Deus jura por sua própria vida. A expressão soa “Deus vive” ou “Eu (Deus) vivo”, mas podemos traduzir: “Certo como Deus vive” (Hb 6,13 chega a dizer que Deus jura por si mesmo porque não há maior que ele pelo qual possa jurar). Assim, essa expressão sugere o poder e a eficácia de Deus. Que realmente “vive”, ele o mostrou no êxodo, na vocação dos seus servos, na voz que ressoou no Horeb (Dt 5,26).

A comunhão com Deus significa a vida dos seus amados. Procurá-lo significa viver (Am 5,4: “Procurai por mim e havereis de viver”). Moisés exorta Israel a amar a Deus, a escutá-lo, a ligar-se a ele, “pois ele é a vossa vida” (Dt 30,20). Ele tem poder sobre morte e vida, pela sua palavra, seu mandamento: “Vê, eu ponho hoje diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal. Se obedeceres aos mandamentos do Senhor teu Deus, que hoje te ordeno, amando ao Senhor teu Deus, andando em seus caminhos e guardando seus mandamentos, seus preceitos e suas normas, viverás e te multiplicarás, e o Senhor teu Deus te abençoará na terra em que entrarás para dela tomar posse. Se, porém, teu coração se desviar e não quiseres ouvir, se te deixares seduzir para te prostrar diante de outros deuses e servi-los, eu vos declaro hoje que certamente perecereis. Não prolongareis vossos dias sobre o solo onde, atravessando o Jordão, entrareis para dele tomar posse. Cito hoje o céu e a terra como testemunhas contra vós, de que pus diante de vós a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e tua descendência, amando ao Senhor teu Deus, ouvindo a sua voz e apegando-te a ele — pois ele é tua vida e prolonga os teus dias —, a fim de que habites na terra que o Senhor jurou dar a teus pais, Abraão, Isaac e Jacó” (Dt 30,15-20; cf. 4,1).

Nesses textos transparece o entendimento dos autores bíblicos de que a lei não é uma imposição, mas um dom, um ensinamento, mais exatamente um ensinamento de vida.

Além da lei, a tradição sapiencial exprime o ensinamento para a vida. Ele é alcançado pela palavra dos sábios (Pr 3,2; 4,4.10.22; 13,14), pelo mandamento de Deus (Pr 19,16), pelo temor (= respeito) de Deus (Pr 14,27: “O temor do Senhor é fonte de vida”; cf. Eclo 1,12) e pela disciplina (Pr 4,13; 6,23). Assim, a sabedoria é “árvore de vida para os que a alcançam” (Pr 3,18; cf. 11,20), e, aos que por ela se esforçam e a acham, ela promete vida e o agrado do Senhor (Pr 8,34-36; 9,6).

A insensatez é contrária à vida, “seus convidados [da Dama Insensatez] estão nas profundezas do Xeol” (Pr 9,18). Assim também pecado e desobediência levam à diminuição, à destruição da vida até. É o que Deus dá a conhecer a Adão: este deve comer da “árvore da vida” (infelizmente pouco mencionada em nossa catequese), mas, se comer da árvore proibida, morrerá (cf. Gn 2,17; 3,19). O culto do prazer a curto prazo é um pacto com a morte (Sb 1,16), que é a marca do ciúme do diabo (Sb 2,24). Mas a vontade de Deus chama o homem de volta para a liberdade da virtude e da vida. Deus não quer a morte do pecador, mas que ele “se volte e viva” (Ez 18,23; cf. 18,21-32; 33,10-20). Isso vale até para a cidade de Nínive — símbolo do mal e da opressão —, como mostra a profecia de Jonas (Jn 3; 4,11).

 

Agora e sempre

Geralmente o Antigo Testamento situa a vida no horizonte deste mundo terreno; é o que significa “viver na terra dos vivos” (Sl 27,13; 116,9; 38,11). No entanto, mostramos acima que a piedade e a justiça podiam valer mais que a vida. Nessa perspectiva, em alguns textos abre-se o espaço para a comunhão com Deus que a morte não poderá destruir (Sl 16,10ss; 49,16; 73,23-26). Como já vimos, Dn 12,1-3 e 2Mc 7 atestam a ressurreição dos mortos. E em Sabedoria, especialmente nos capítulos 1-5, sob a influência do pensamento helenista, encontramos elaboradas declarações sobre a vida além da morte: “As almas dos justos, porém, estão na mão de Deus… Aos olhos dos insensatos parecem ter morrido… mas eles estão na paz. Aos olhos humanos parecem ter sido castigados, mas sua esperança é cheia de imortalidade… no tempo do seu julgamento hão de brilhar, como centelhas que correm no meio da palha; vão julgar as nações e dominar os povos, e o Senhor será o seu rei para sempre. Os que nele confiam compreenderão a verdade, e os que perseveram no amor descansarão junto a ele, porque a graça e a misericórdia são para seus santos e a visita divina é para seus eleitos” (Sb 3,1-9; cf. 1,15; 2,23).

 

2. Novo Testamento

Vivificados com Cristo

O Novo Testamento tem plena consciência da precariedade desta vida. Tg 4,14 lembra Eclesiastes quando compara a vida a uma neblina que passa. Limitando-nos a esta vida provisória, na carne, não temos fundamento para uma esperança maior: “Seríamos os mais miseráveis dos homens”, diz 1Cor 15,19. A verdadeira vida não é limitada a este mundo (1Tm 4,8). O fundamento dessa nova perspectiva é a ressurreição de Cristo. Nossa vida é valorada à luz da sua ressurreição e da união eterna com ele: “Para mim, o viver é Cristo, e o morrer, lucro” (Fl 1,21). Para Paulo, a ressurreição de Cristo está intimamente ligada à nossa. O apóstolo, em 1Cor 15,45, exprime isso numa frase que abarca toda a história da humanidade: “Como está escrito, o primeiro homem, Adão, foi um ser dotado de alma viva; o Adão derradeiro, um espírito que dá vida”. A vida natural é a da alma; a vida divina, a do espírito. Isso não se deve entender no sentido da filosofia dualista grega. Na antropologia grega, a alma é o espírito, o elemento não material e chamado à sobrevida. Na antropologia bíblica, a alma é que faz o ser humano viver (e muitas vezes corpo e alma são usados como equivalentes para indicar o ser humano), e o espírito é o sopro de Deus que o faz viver mais: “Se o Espírito daquele que ressuscitou Cristo dentre os mortos habita em vós, Aquele que ressuscitou Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós” (Rm 8,11). Pela ressurreição de Cristo, o quadro antigo está rompido.

 

A vida nova do cristão

Pelo que acabamos de dizer, a perspectiva de Paulo em relação à vida é determinada pela ressurreição de Jesus, a qual significa para nós uma vida nova em Cristo. Com frequência, Paulo fala sobre “a vida” como um bem já presente, porém intimamente ligado ao futuro: “Se já morremos com Cristo [pelo batismo], cremos também que viveremos com ele” (Rm 6,8). Para ele, a vida terrestre tornou-se um “morrer diariamente” (2Cor 4,11), mas nesse morrer vai se revelando a vida de Cristo.

Nos evangelhos sinópticos, o termo “vida” é pouco usado; quando aparece, quase sempre o faz no sentido de “vida eterna”, na era vindoura. As traduções bíblicas são enganosas nesse ponto, porque muitas vezes substituem o termo “alma” por “vida”. Isso se justifica em parte porque (como dissemos acima), na cultura ocidental, o termo “alma” ficou marcado por um sabor dualista, ao passo que, biblicamente, ele significa exatamente a animação vital de nossa vida humana presente (hebraico néfesh/neshamá). Mas vale a pena reler algumas frases usando o termo original “alma” no sentido de alento; por exemplo: “Quem acha sua alma a perderá, e quem perde sua alma por causa de mim a encontrará” (Mt 10,39; cf. Lc 17,33 e Mt 16,25 = Mc 8,35 = Lc 9,24).

O termo “vida”, propriamente, aparece em Mc 9,43 (= Mt 18,8); neste texto, o que se chama “vida”, sem mais, não é a vida na carne, mas a eterna, junto de Deus. Em Mateus, as palavras sobre a “vida eterna” ou a “salvação” estão a serviço da ética. Lucas fala sobre a vida em contextos relativos à realidade da ressurreição de Jesus (cf. Lc 24,36-43; At 2,27.31) e à sua importância escatológica (At 3,15; 26,6.7.23), mas também como meta do “caminho para a vida”, pela conversão e pelo perdão dos pecados, pela caridade e pelo bom uso dos bens deste mundo (At 11,18; 13,38; Lc 10,28; 12,15; 18,18-30).

 

Vida como “vida eterna já”: João

Quem mais usa o termo “vida” no Novo Testamento é João (36 vezes no evangelho, 13 vezes nas cartas). Menciona especialmente a “vida eterna”, que, para ele, é uma realidade já presente. Para João, de fato, vida é o conceito abrangente da salvação, é tudo o que o salvador do mundo, enviado por Deus, traz aos homens. Nessa “vida” estão incluídos todos os demais bens da redenção; para isso é que o Filho de Deus foi enviado ao mundo (Jo 3,15.16). Quem crê em Jesus já passou da morte para a vida (Jo 5,24). A ideia de vida remete à filiação divina por se ter nascido de Deus (Jo 1,12-13; 1Jo 3,1-2), bem como ao Espírito vivificador (Jo 6,63), à comunhão com o Cristo glorificado e, por ele, com o Pai (1Jo 1,1-3), à garantia da ressurreição (Jo 6,39ss.44.54).

A insistência com que João acentua a presença da “vida eterna” naqueles que, pela fé, aderem a Jesus merece uma consideração mais profunda. Existe a tendência de considerar João espiritualista, por tanto falar em vida eterna e tão pouco nas realidades socioeconômicas. Mas talvez devamos inverter a perspectiva e dizer: se, para João, a vida presente, vivida na fé, é vida eterna, como deve então ser a realidade material e histórica, para que possa abrigar essa vida que ultrapassa nosso horizonte terreno?

A resposta está em Jesus. O Jesus de João não é um Jesus espiritualizado a ponto de se tornar um extraterrestre. É aquele que verte lágrimas por seu amigo Lázaro (Jo 11,35). João escreveu seu evangelho em forma biográfica, como os sinópticos, e não em forma de mensagens celestes, como se dá nos evangelhos apócrifos, porque quis situar a realidade divina na vida humana de Jesus. Ele é o evangelista da encarnação por excelência. Nesse Jesus de carne e osso revela-se a vida na sua dimensão mais profunda, divina (pois é isso que se quer dizer com o termo eterno).

Em Jesus está a vida, luz dos homens (Jo 1,3-4; cf. 1Jo 5,11). O Pai possui a vida e confia ao Filho o poder de doá-la (Jo 5,26; 6,57); o Filho, como o Pai, torna vivo quem ele quer (Jo 5,21). Cristo é a vida em pessoa, enviada para este mundo. Ele é a vida por ser o revelador de Deus; seu mandamento é vida eterna (Jo 12,50). Portanto, a vida de Deus — a qual, segundo o prólogo, em Jesus se torna presente no meio de nós, como a shekiná no pensamento de Israel — não é uma pseudossubstância etérea, mas uma realidade encarnada num mandamento, isto é, numa práxis a ser executada — nem mais nem menos que o amor fraterno, que Jesus nos deixa como sua marca e legado (“Nisto todos reconhecerão que sois discípulos meus: se vos amardes uns aos outros”, Jo 13,35). Se, em 1Jo 5,20, Jesus é chamado “Deus verdadeiro e vida eterna”, não devemos entender isso como uma posse mística confiada a alguns gnósticos, mas como um programa de vida para, orientando-se pela palavra-mandamento de Jesus, viver tal como ele, sendo presença de Deus no mundo.

Nesse sentido, Jesus pode dizer a quem — como Marta e seu irmão Lázaro — pela fé se liga a ele: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25; cf. 14,6). Então suas palavras são espírito — sopro atuante de Deus — e vida (Jo 6,63.69), e seu ensinamento o alimento, o “pão da vida” (Jo 6,35.48). Este, em última análise, se identifica com a vida que, morrendo materialmente na cruz, ele doa por nós, o pão vivo que é vida eterna (Jo 6,58). Esse dom está presente também na imagem da água viva, que significa o espírito que Jesus dá a partir de seu enaltecimento na cruz (Jo 4,10; 7,37-39; cf. Jo 12,32). É com referência ao seu próprio viver que ele diz ser “caminho, verdade e vida” (Jo 14,6); ou seja, o caminho no sentido ético que esse termo recebe na Bíblia, por sua prática, à qual nos unimos numa vida como a sua para encontrar nele a vida verdadeira.

Como diz também Paulo, o próprio Cristo é nossa vida (cf. Gl 2,20; Fl 1,21; Cl 3,4). É este o conteúdo de sua missão, a finalidade de sua vinda: que nós “tenhamos a vida e a tenhamos em abundância” (Jo 10,10; cf. 1Jo 4,9). Foi para isso que João escreveu seu evangelho: para que, crendo, tenhamos vida no seu nome (Jo 20,31).

 

Viver a vida

Depois da leitura teológica do tema da vida nos principais escritos do Novo Testamento, podemos perguntar qual seria o conteúdo concreto dessa vida. Se, na sabedoria veterotestamentária, a vida valiosa era descrita como exercício da justiça, também no Novo Testamento temos textos como Rm 14,17, ensinando que “o reino de Deus” — isto é, a vida praticada no reino inaugurado por Cristo — “não é comida e bebida, mas é justiça e paz, e alegria no Espírito Santo”. Em outros termos, a vida, na “novidade cristã”, menos ainda que a vida do justo antes de Cristo, não pode limitar-se à satisfação imediata dos impulsos vitais humanos. Ela tem um dinamismo interno que visa a algo mais.

Tal dinamismo é apontado pela expressão “vida eterna”. É objeto de esperança, mas desde já antecipada. Com efeito, vida eterna não significa simplesmente duração sem limite, mas, antes de tudo, plenitude de felicidade, embora estando ainda para ser revelada. O que fazemos na prática tem valor para esta vida e também para a que há de vir, diz 1Tm 4,8. Ora, para o cristão, a vida eterna já está presente como dom de Deus, que nos “con-vivifica com Cristo” (Ef 2,5ss), embora, por outro lado, ainda esteja “escondida junto de Cristo, em Deus” (Cl 3,3). A revelação dessa realidade, que age como o fermento escondido na massa, virá no fim (Ef 2,7). Dessa plena manifestação da vida que já vivemos faz parte a ressurreição do corpo, isto é, a restituição da vida plena a quem está unido com Cristo, como sugerem numerosos textos do Novo Testamento (por exemplo, Jo 5,21; 6,40.54; 11,25; 1Cor 15,35-55; 2Cor 5,1-5). A vida eterna não significa desprezo pela existência presente. É sua plenitude. Ela já começou, já ressuscitamos com Cristo (Cl 3,1), já passamos para a vida, o que se verifica no fato de amarmos nossas irmãs e irmãos (1Jo 3,14). Assim, a existência do cristão traduz-se em viver o que ainda é promessa, uma vida que antecipa o que está por vir: “levar uma vida digna da vocação que recebemos” (Ef 4,1). A crítica dirigida aos cristãos segundo a qual “não vivem o presente, mas sempre o futuro” passa ao largo do fato de que essa perspectiva futura transforma o rosto do presente. O momentâneo já não mantém fechado o horizonte de nossa vida; o morrer com Cristo faz a vida se renovar dia a dia (2Cor 4,16-18).

Tem grande importância considerar essa vida eterna como dom de Deus (At 13,48), como “herança” que dele recebemos (Mc 10,17.30; Mt 19,16; Lc 10,25), pois assim ela não é objeto de um questionável exercício do poder humano, tal como sucedeu aos faraós, que mandaram seus escravos construir pirâmides para as suas imagens mortuárias a fim de garantirem a vida eterna… É diferente também da questionável busca de fama e honra que devia garantir a imortalidade aos gregos e aos romanos (e aos membros da Nacional Academia de Letras)… A vida incorruptível do cristão depende apenas da atitude com relação a Deus e a Cristo, a qual nos torna dignos dessa vida (Mc 10,29-30; Rm 2,7). Decisiva para ela, portanto, é a palavra de Deus, a qual nos leva a nova maneira de viver. O ser humano já não deve viver para si mesmo, mas para Deus (Rm 14,7s; 6,11.13; Gl 2,19), para Cristo, que por ele morreu e ressuscitou (2 Cor 5,15). A vida no Espírito exige uma conduta segundo o Espírito (Gl 5,25).

 

Fé e vida

Essa relação de comprometimento com Deus e Jesus Cristo é o que se chama fé, condição fundamental para a vida (eterna). Certas denominações cristãs recorrem com insistência a expressões como “o justo viverá pela fé” (Hab 2,4) ou “quem crer e for batizado será salvo” (Mc 16,16). Tenha-se claro que fé/crer significa aqui, como na maioria dos textos bíblicos, não uma ortodoxia dogmática, mas uma adesão prática e fiel a Deus e sua aliança (no Antigo Testamento) e a Cristo (no Novo). É nesse sentido que aquele que crê no Cristo terá a vida (Rm 6,8-13; 1Tm 1,16). Romanos 1,17 aprofunda o acima citado texto de Habacuc, especificando que o justo é justificado por Deus; ou seja, não seu esforço próprio, mas a graça de Deus é que o torna justo. A fé constitui, então, a atitude de confiança pela qual o ser humano se deixa invadir e transformar pela graça que Deus nos manifesta em Jesus Cristo. Quem é justo por essa fé, viverá (Rm 1,17; Gl 3,11).

João sublinha, mais uma vez, o caráter presente dessa vida obtida pela fé em Cristo (Jo 3,16.36; 20,31): “Já passou da morte para a vida” (Jo 5,24). É esse o sentido profundo da revivificação de Lázaro, pois esse “sinal” ilustra “ao vivo” aquilo que é dito no diálogo introdutório entre Jesus e Marta: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que tenha morrido, viverá, e todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais” (Jo 11,25-27).

Notável é o parêntese inserido nas palavras da oração de Jesus em Jo 17,3: “Esta é a vida eterna: que conheçam a ti, o Deus único e verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que enviaste”. Parece-me que esse texto deve ser entendido na mesma linha que os anteriores, só que, em vez de fé, se fala de conhecimento. Não se trata do conhecimento gnosiológico, mas do conhecimento existencial de Deus, grande tema das profecias de Isaías (Is 1,2-3) e de Oseias (Os 6,3). É possível que João aqui (como em 1Jo) recorra ao termo “conhecer” para contrastar com o “conhecimento” tão diferente promovido pela gnose (doutrina cujo nome significa precisamente conhecimento). De qualquer modo, o evangelista ensina a fé em Deus mediante seu enviado, Jesus Cristo, como a opção que leva à vida eterna.

Não pode haver fé sem anúncio (Rm 10,14-17). Como a fé, também o anúncio do evangelho é condição prévia para a vida, é “a palavra da vida” (Fl 2,16). A própria palavra de Jesus é chamada assim em Jo 6,63.68 e em 2Cor 2,16; em 2Cor 3,6 o ministério do apóstolo é descrito em termos semelhantes. Se o evento pascal é o centro desse anúncio, podemos dizer que o anúncio da “vida” de Jesus (“Ele está vivo”: Mc 16,11; Lc 24,5; At 1,3) é o centro do anúncio cristão (Rm 6,10; 14,9; 2Cor 13,4). A proclamação da vida de quem deu sua vida por nós abre-nos as portas da vida.

Citemos, enfim, a conclusão de J. Marböck: “Pela fé e pelo batismo, o cristão alcança a ‘novidade da vida’ (Jo 3,5; Rm 6,4.11). Desde que morreu com Cristo, Cristo vive nele; ele participa na vida eterna de Cristo (Rm 6,1-11.23; Gl 2,19s), que não terá fim (Jo 4,14; 6,27; 12,25). Sua carne e seu sangue são alimento e garantia de vida (Jo 6,27.30.50-51.58). A vida é efeito do amor divino (Jo 3,16); nós também passamos da morte para a vida por amarmos nossos irmãos (1Jo 3,14), até à prontidão para entregar a vida por eles, segundo o exemplo de Jesus (Jo 15,13). A última consequência do ‘seguir a Cristo’ significa o sacrifício desta vida a fim de ganhar a vida eterna (Mt 16,25; Jo 12,25)”[2].

 

II. Algumas reflexões

Vida histórica ou vida eterna?

O panorama acima esboçado dá a impressão de que, no Antigo Testamento, a palavra “vida” evoque as condições materiais, a terra, as relações de justiça social, a partilha no meio do povo e as demais realidades históricas, enquanto no Novo Testamento o uso da palavra pareça mais espiritualizado. Vale, porém, observar que o Novo não vem abolir o Antigo, mas levá-lo à plenitude. Exatamente esse empenho material pela vida — afinal, criação e dom de Deus (cf. Gn 1; Sl 8; Sl 19; Sl 104 etc.) — encontra seu pleno acabamento no dom da vida de Jesus Cristo, que veio para que “tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Essa abundância não é a de nossos shopping centers, mas a que vem da ligação à sua fonte inesgotável, Deus, o Pai, que enviou Jesus ao mundo. Não se deve opor a vida material à vida espiritual ou eterna: ambas estão na mesma linha. A “vida da eternidade”, como diz João, é verdadeira vida com todas as suas dimensões humanas, mas inscrita no âmbito de Deus, que nos transcende.

Empenhar-se por uma vida material justa e fraterna, em fidelidade a Jesus e à sua palavra, significa realizar desde já uma vida “de que Deus não se esquecerá”, mas à qual ele dará a sua plenitude — a nova vida de nós mesmos — não como conquista nossa, mas como graça. É essa a razão pela qual podemos dizer que a vida eterna — para João, sinônimo do reino de Deus — está presente já naqueles que encarnam a sua fé e agem segundo a palavra deixada por Jesus como mandamento e herança: “Amai-vos uns aos outros”.

 

Vida para todos, em abundância

É impossível dizer que Deus é o Deus da vida para todos, em abundância, quando se olha a desigualdade nas condições de existência, situação que dispensa comentários. Mas Deus suscitou um verdadeiro “filho” para mostrar — com o radicalismo divino chamado por nós de santidade — que ele deixa o ser humano participar na plenificação da vida em todos os sentidos. O que chamamos Deus não é necessariamente um ente estabelecido de modo imutável. Pode também ser um projeto que nos ultrapassa e do qual participamos. A divindade de Jesus significaria, então, entre outras coisas, que a vida em plenitude para todos conta com nosso empenho em seu legado, o amor fraterno.

 

O cuidado da vida criada

No tempo da Bíblia não havia um problema ecológico como o atual. Pode ter havido um problema chamado dilúvio, pode ter havido a vida na aridez do deserto, mas não havia o perigo de a terra deixar de ser habitável para o gênero humano. Esse perigo, hoje real, leva-nos a dar maior importância ao conteúdo material e físico dessa vida da qual a ressurreição de Cristo e o amor do Pai são a plenitude, como acima dissemos. Uma nova teologia da criação torna-se necessária, incluindo uma ética da criação. Não podemos pedir a Deus a plenitude da vida e, ao mesmo tempo, pôr a perder a criação na qual ele nos faz existir.



[1] Ampliamos aqui os dados de Joannes Marböck. “Vida”, in: J. B. Bauer; J. Marböck; K. M. Woschitz. Dicionário bíblico-teológico. São Paulo: Loyola, 2000, pp. 440-442.

[2] Op. cit., p. 442.

Pe. Johan Konings, SJ