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Publicado em Maio-Junho de 1990 (pp. 13-18)

Do campo para a cidade: o Evangelho de Paulo

Por Prof. Airton José da Silva

A partir da década de 1960 o Brasil entrou em acelerado processo de modernização. Isso foi uma consequência de seu ingresso ativo no mercado capitalista mundial. Rápidas mudanças começaram a ser feitas.

Uma delas, das mais importantes, consequência da industrialização, foi o crescimento urbano. As cidades aumentaram em número e cresceram enormemente em população. Os grandes centros sofreram o inchaço típico das concentrações industriais.

E isso colocou um problema para a prática pastoral, que se vê hoje obrigada a criar novos mecanismos, mais adequados ao mundo urbano. Na verdade, a Igreja estava acostumada a uma centenária pastoral rural. E enfrenta agora complicados problemas urbanos, para os quais as soluções tradicionais não são suficientes.

Motivados por essa problemática, talvez seja interessante verificarmos, nas origens do cristianismo, processo semelhante. O primeiro que se deu.

O evangelho foi anunciado por Jesus e seus seguidores imediatos em ambiente em eminentemente rural, que era o da Palestina do século I d.C. É o que podemos facilmente perceber na leitura dos evangelhos, onde o referencial das parábolas, dos milagres e de outros ensinamentos é o da roça, do gado, da terra. Mesmo quem morava nas cidades da Judeia ou da Galileia, cidades pequenas, vivia em permanente contato com o campo e seu universo de valores.

Além disso, é um evangelho pregado por judeus a judeus. O espaço geográfico e a mentalidade são restritos a um povo só e a uma nação apenas.

Acontece que, cerca de dez anos após a morte de Jesus, o evangelho já era fortemente anunciado em outros países e para outros povos. Quem começou este processo foram os “helenistas”, judeus nascidos no exterior, segundo At 11,19-26. Saindo de Jerusalém, eles pregaram o evangelho aos gentios de Antioquia. Com sucesso. Antioquia, com seus 500 mil habitantes, era uma das maiores cidades do Império Romano.

Mas quem assumiu com maior determinação esta nova tarefa de anunciar o evangelho aos gentios foi Paulo de Tarso. Durante toda a sua vida, cerca de trinta anos de atividade apostólica, ele percorreu as cidades mais importantes da Ásia Menor e da Grécia anunciando o evangelho de Jesus Cristo.

Foi um passo decisivo na história da jovem Igreja, que se espalhou progressivamente por todo o Império Romano. Enfim: o evangelho acabou dando mais certo fora do que dentro da Palestina.

Acompanhando os passos de Paulo, é essa passagem que queremos examinar. Passagem do evangelho de um ambiente nacional, judaico e rural, a Palestina, para um ambiente universal, greco-romano e urbano, as cidades do Império Romano.

Vamos desenvolver o tema em três momentos, perguntando-nos a propósito dessa passagem do evangelho do ambiente palestino para o mundo greco-romano:

• Quais foram as causas dessa passagem?

• Como foi feita essa passagem?

• Qual era a finalidade dessa passagem?

 

1. Paulo, chamado para ser apóstolo

1.1. Eu sou de Tarso, cidade célebre

Paulo era um homem da cidade. Sua linguagem, sua profissão, sua origem testemunham isso.

Ao falar dos perigos pelos quais passara, em 2Cor 11,26, sintomaticamente Paulo vê o mundo repartido em cidade, deserto e mar. Não menciona o campo, a roça, o mundo agrícola. Fora da cidade, para ele, era o deserto.

A maioria de suas comparações são feitas a partir do mundo urbano greco-romano. Como as competições esportivas (1Cor 9,24-26; Fl 3,12-14), o mundo da educação (Gl 3,24-25; 1Cor 4,15), o mundo dos negócios (Fl 3,7-8) etc. Sabe argumentar segundo os padrões da retórica grega e conhece bem a cultura literária e filosófica de sua época.

Paulo nasceu em Tarso, capital da província romana da Cilícia, nos primeiros anos da era cristã. O geógrafo grego Estrabão fala de Tarso como de um centro de cultura e de filosofia superior até mesmo a Atenas. A cidade teria uns 300.000 habitantes e era também um movimentado centro comercial.

Viviam em Tarso muitas famílias judaicas e Paulo nasceu nesse ambiente, onde recebeu sua primeira formação. E também onde aprendeu, certamente na oficina do pai, o ofício de fabricante de tendas e objetos de couro. Ainda adolescente Paulo foi para Jerusalém e recebeu acurada formação farisaica junto ao mestre Gamaliel, neto e discípulo do célebre Hillel.

Paulo era, portanto, um homem de três culturas: a judaica, por sua origem e formação; a grega, por sua cidade e ambientação; e a romana, por sua cidadania.

 

1.2. Quem não quer trabalhar também não há de comer

Do ponto de vista político e social, o que caracteriza essa época é a “pax romana” instaurada por Augusto.[1] Após sangrentas lutas, quando as classes populares enfrentam o bloco dominante e seus privilégios, cai a República e é instalada em Roma uma estrutura imperial de governo. O poder é concentrado nas mãos do Imperador, que realiza uma série de reformas, adequando Roma à sua nova condição de Estado mundial.

Começa então um grande processo de urbanização por todo o Império Romano, forma mais adequada à instalação das estruturas civilizatórias e do domínio romano.

A Ásia Menor e a Grécia assistem à migração dos camponeses para as crescentes cidades litorâneas. A navegação é o meio mais rápido e mais barato de locomoção e o comércio se aproveita disso. O Mediterrâneo, agora livre dos piratas, é um “lago interno” que banha as principais cidades do Império.

Além disso, os romanos desenvolvem cerca de 80.000 quilômetros de estradas, beneficiando os 50 milhões de habitantes do Império.

Há um notável crescimento da “indústria” nessa época imperial, com um artesanato de alta qualidade. O comércio desenvolve uma grande rede de exportação para todas as partes do Império. Circula todo tipo de mercadoria. A compra e venda de escravos acontece em grande escala.

Os campos vão passando para as mãos de grandes proprietários, enquanto o campesinato livre e autônomo vai sendo reduzido. Nas cidades, grandes indústrias, comerciantes e latifundiários formam, junto com a velha aristocracia, a classe dominante. Nas oficinas, nos centros comerciais e nas casas trabalha a maior parte da população.

 

1.3. O que era para mim lucro eu o tive como perda

Paulo acompanha esse movimento histórico gerado pela época de Augusto. Filho da cidade greco-romana, “rompe” com a cidade gentia e vai em busca de sua identidade judaica, retornando às suas próprias raízes históricas, à sua nacionalidade e à sua religião ancestral. Estuda a Lei com Gamaliel, da escola de Hillel (Fl 3,5-6; At 22,3-5).

Mas, de novo, rompe com o nacionalismo da Lei judaica e assume a pregação da utopia universalista do evangelho cristão na cidade greco-romana (Gl 1,11-24). Embora seus colegas judeus também pregassem a expectativa messiânica, o messianismo de Paulo é de ruptura, irrupção do novo, via ressurreição de Cristo, ao invés da rigorosa fidelidade judaica à aliança mosaica (Fl 3,7-16).

Percebemos, assim, que Paulo rompe com suas duas raízes: a judaica, através do messianismo de ruptura; e a gentia, aderindo à mudança universal, via comunidades cristãs, fundadas entre gentios.

Os judeus da época de Paulo viviam razoavelmente integrados às estruturas do Império Romano. Mas não deixavam de ter uma “identidade negativa”: eles se definiam e eram definidos por oposição aos gentios e por sua diferença em relação ao padrão cultural e religioso greco-romano.

De certa maneira, o judeu é um pária no mundo greco-romano. Ora, para o pária só há duas saídas: ou uma autonegação radical, assimilando-se à cultura dominante, “ou um questionamento radical dos valores da sociedade que desvalorizou sua alteridade. A consciência pária, devido à sua posição exterior e marginal, tende a assumir um olhar crítico” em relação à sociedade de sua época[2]. Esse foi o caminho seguido por Paulo.

 

2. Expus-lhes o evangelho que prego entre os gentios

2.1. Saudai a Igreja que se reúne em vossa casa

Quando Paulo e seus companheiros chegavam a uma cidade, como entravam em contato com seus habitantes para pregar o evangelho?

Segundo a narrativa de Atos, que se ocupa de Paulo a partir do capítulo 13, sempre que ele chegava a uma cidade ia à sinagoga, no sábado. Procurava, em sábados sucessivos, convencer os judeus, através de argumentos da Escritura, da validade do evangelho. Raramente conseguia convencer alguém, sendo que, na maioria das vezes, encontrava descrédito e até forte oposição.

Só então é que ele se voltava para os gentios, entre os quais sempre obteve muitas adesões. A partir daí, hospedando-se em casas particulares, Paulo e companheiros falavam em salas especificamente arranjadas para isso ou nas praças à multidão, à maneira dos filósofos ambulantes da época (At 17,1-9.17; 19,8-10).

Durante muito tempo esse foi o roteiro seguido pelos especialistas no estudo da ação missionária de Paulo. Lia-se o Paulo dos Atos para saber de sua atividade apostólica e o Paulo das cartas para conhecer a sua teologia.

Hoje essa visão entrou em crise. Um conhecimento maior da teologia de Lucas, autor de Atos, criou a desconfiança de que o seu Paulo não é tão real assim. Escrevendo na década de 1980, cerca de 20 anos após a morte de Paulo, em situação de Igreja já mudada, Lucas teria harmonizado dados conflitantes da tradição paulina. Especialmente, teria suavizado sua atitude de rejeição do judaísmo. Lucas procura, enfim, mostrar um Paulo aceitável aos judeus, conciliando-o com as práticas judaicas fundamentais. Quando, na verdade, o Paulo das cartas rompe com as práticas judaicas[3].

Pois, segundo as cartas, parece que Paulo e companheiros começavam sua pregação em casas de famílias, onde também as comunidades se reuniam (1Cor 16,19; Rm 16,5.23; Fm 2). E os contatos de comércio e trabalho teriam sido fundamentais[4]. Consta que Paulo vivesse de seu próprio trabalho como artesão, fabricante de tendas que era (1Cor 4,12; 2Ts 3,7-9; At 18,3).

É preciso, porém, considerar bem o significado de família naquela época e situação. Família não designava apenas os parentes próximos ou mesmo os distantes. Compreendia ainda os dependentes, os escravos, os trabalhadores e os amigos.

Outra coisa que vale a pena saber: a densidade populacional das cidades da época era bem maior do que as de nossas cidades atuais. A cidade antiga chegava a ter uma aglomeração de cerca de 200 habitantes por acre (4.047 m2). Densidade existente hoje apenas em grandes centros industriais.

Ainda: as casas eram, em geral, todas de meia-parede. Sob tais condições as notícias corriam muito rápido e a privacidade não podia ser muito grande. Além do que, as várias etnias costumavam morar agrupadas nos mesmos bairros, facilitando os contatos com os recém-chegados.

Essa atitude de Paulo, do Paulo das cartas, pode talvez nos oferecer pistas frente aos desafios da pastoral urbana hoje. Paulo sempre considerou fundamental a inserção do missionário no mundo do trabalho, por um lado; e, por outro, parece que recusou uma pastoral de massas, preferindo a criação de uma rede de pequenas comunidades que disseminavam a solidariedade evangélica através das cidades do Império.

 

2.2. Como bom arquiteto, lancei o fundamento

O movimento paulino se radicou em quatro províncias romanas: a Galácia, a Ásia, a Macedônia e a Acaia.[5]

Na Galácia, que tinha por capital Ancira, Paulo teria pregado o evangelho aos gálatas étnicos, do norte da província, agrupados em três repúblicas tribais. Paulo esteve entre os gálatas durante sua segunda viagem missionária (49-52), e evangelizou-os enquanto se curava de uma doença que o acometera.

A província romana da Ásia, com um território um pouco maior do que a Inglaterra, possuía antigas e célebres cidades gregas. Paulo atuou em prósperos centros comerciais, como Colossas, Laodiceia, Hierápolis e, é claro, Éfeso, a capital, onde demorou dois anos e três meses.

Na província da Macedônia, Paulo pregou, com sucesso, o evangelho em Tessalônica, o segundo maior centro comercial da Grécia (1Ts 1,2-10). Tessalônica, cidade grega livre na sua constituição e organização, era a capital da província.

Paulo esteve também em Filipos, uma colônia romana de veteranos do exército, cidade latina, portanto, centro agrícola mais do que comercial. Seria Filipos a única cidade que foge à regra geral paulina de procurar sempre grandes centros comerciais (e eventualmente portuários), onde a notícia evangélica se espalhava mais rápido. A cidade de Filipos era bem pequena, pois os colonos viviam em aldeias nas planícies e nos vales. Paulo pregou o evangelho em Tessalônica e Filipos entre os anos 49 e 52, durante sua segunda viagem.

A província da Acaia tinha como capital Corinto, célebre cidade onde Paulo fundou promissora comunidade e para quem escreveu quatro cartas, duas, porém, hoje perdidas. Corinto era o maior centro comercial grego, cidade possuidora de dois portos extremamente movimentados. Destruída pelos romanos, a cidade grega tinha sido recolonizada com libertos que se tornaram a aristocracia local. Seu governo era o típico de uma colônia romana. Corinto tinha quase 500.000 habitantes, sendo a quarta cidade do Império em população.

Durante sua segunda viagem Paulo morou um ano e meio em Corinto. Mais tarde voltou ainda à cidade para resolver problemas surgidos na comunidade.

Observamos, por fim, que enquanto os povoados eram conservadores no sentido de manterem sua antiga identidade, as cidades falavam o grego e caminhavam na direção de uma cultura comum greco-romana. Era na cidade que ocorriam as mudanças, era onde estava o “novo” e se acolhiam as novidades.

 

2.3. Não há entre vós muitos poderosos, nem muitos nobres

Outra questão, que agora se nos impõe, é a seguinte: observando essas comunidades, qual é o nível social dos cristãos paulinos?

É W. A. Meeks[6] quem nos alerta para a dificuldade de se estabelecer o nível social das pessoas numa sociedade antiga. A categoria de classe social é, em geral, pouco funcional para descrever o mundo antigo, pois as definições permanecem vagas e imprecisas.

No mundo romano, entretanto, havia três ordens que representavam o topo da pirâmide social. Só que correspondiam a cerca de 1% apenas da população. Eram as ordens dos senadores, dos cavaleiros e das aristocracias provinciais. Nenhum cristão paulino pertence a tal categoria.

É possível que o conceito de status funcione melhor para definir o cristão paulino. Entretanto, falar em status implica considerar muitas variáveis, como: origem étnica, cidadania, liberdade pessoal, riqueza, ocupação, idade, sexo, função pública…

No universo paulino, consideradas as cartas de Paulo, as cartas dêutero-paulinas e os Atos, são citadas, pelo nome, cerca de 80 pessoas. Dessas 80, cerca de 30 indivíduos podem ter seu status razoavelmente identificado. Somadas às evidências indiretas — grupos mencionados, mas sem nome — conseguimos o seguinte quadro:

•   o topo da pirâmide social não entra nas comunidades paulinas. São os aristocratas donos de terra, senadores, cavaleiros etc.

•   a base da pirâmide falta igualmente. São os agricultores pobres, os escravos agrícolas, os trabalhadores braçais da roça, os agricultores dependentes.

 

O “típico” cristão paulino seria o artesão livre e o pequeno comerciante. Muitos deles têm casas, até alguns escravos, profissões definidas e outros sinais de uma vida com certa estabilidade social. Os mais ricos dentre eles — mas havia também escravos nas comunidades paulinas — providenciavam moradia, locais de encontro e outros serviços para os grupos cristãos.

Uma observação bastante interessante de W. A. Meeks, cujas pesquisas estamos seguindo, é a de que os membros mais ativos do círculo paulino, incluindo Paulo, são de alta inconsistência de status. São pessoas de grande mobilidade social, sendo o seu status conseguido maior do que o seu status herdado[7]. Em outras palavras: pessoas mais disponíveis, mais abertas às mudanças, mais receptivas às novidades.

Coincide com esse dado a observação de M. Rostovtzeff[8] de que as guerras sociais que antecederam a instalação do Império, e mesmo a estrutura imperial, tinham criado nas camadas médias da população uma profunda descrença nas instituições e um desejo de novidades que oferecessem outras esperanças e melhores alternativas. Nesse meio, a receptividade às novidades religiosas tornou-se muito grande, o que, até certo ponto, explica o sucesso de Paulo.

 

3. O homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei

A passagem do evangelho de um ambiente nacional e rural para outro universal e urbano, suscita duas questões: uma teológica, outra pastoral.

 

3.1. Não há judeu nem grego: vós sois um só em Cristo Jesus

A transferência do evangelho, de um ambiente nacional (judaico) para outro universal (greco-romano), enfrenta um problema teológico: a salvação é só para o judeu ou também para o gentio? Se a expectativa da vinda do Messias é uma crença judaica, que valor tem ela para os não judeus, os gentios?

Esse problema receberá respostas diferentes. Segundo o judaísmo da época, a Lei mosaica legitimava a distinção, e até a oposição, entre o judeu e o gentio. A revelação da Lei a Israel lhe dava exclusividade na ordem da salvação. O gentio deveria converter-se à Lei judaica se quisesse ter acesso à graça de Deus.

Segundo Paulo, a fé em Jesus Cristo eliminava as barreiras existentes entre judeu e gentio, que agora deveriam caminhar juntos. “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus”, assevera Paulo em Gl 3,28.

O evangelho de Paulo acentuava muito mais o senhorio de Cristo (Kyrios) sobre os homens e o universo todo do que a sua messianidade, segundo o modelo judaico. “A convicção principal de Paulo não era que Jesus tinha vindo como o Messias, mas que Deus tinha constituído Jesus Cristo Senhor e que ele ressuscitará ou transformará aqueles que são seus membros por causa de sua fé nele”[9].

 

3.2. Quem ama o outro cumpriu a Lei

A passagem do mundo rural palestino para o mundo urbano do Império Romano suscita um problema pastoral: como ser cristão neste universo greco-romano? Que práticas distinguem o cristão do não cristão?

Também esse problema receberá respostas diferentes. Segundo os cristãos de origem judaica, aqueles que os especialistas costumam chamar judaizantes, era preciso seguir a Lei mosaica, tornando-se um (quase) judeu para viver o evangelho. Além da fé em Jesus Cristo, era preciso “ser justo” segundo o modelo judaico, chegando a Deus através de ritos e práticas específicas. Tais como a circuncisão, a observância do sábado, as prescrições alimentares judaicas, a realização das obras de misericórdia etc.

Esses cristãos procuraram impedir o trabalho missionário de Paulo, durante toda a sua vida. Consideravam-no um falso apóstolo, alguém que chegara depois, não conhecera Jesus e pervertia o evangelho.

Paulo, por sua vez, considera-os como “intrusos, esses falsos irmãos que se infiltraram para espiar a liberdade que temos em Cristo Jesus” (Gl 2,4).

A fé dos judaizantes é mistificadora do evangelho na medida em que as suas garantias estão no passado, são estáticas, vivem procurando autoridade para sustentar uma burocratização da instituição e a institucionalização de seu discurso. Discurso que só pode ser reacionário, defensor das estruturas de poder, pois é uma tal estrutura de poder que o garante e o legitima.

O judaizante é adepto feroz da continuidade e avesso às rupturas. É inimigo das práticas políticas e sociais de libertação. É não cristão, embora faça o mais “cristão” dos discursos e siga uma rigorosa ortodoxia religiosa. Tal comportamento continua muito vivo no cristianismo atual.

Segundo Paulo, para ser cristão não era necessário ao gentio seguir prática judaica alguma. Era preciso “praticar a justiça”, segundo o modelo profético, chegando a Deus através do próximo. “Pois toda a Lei está contida numa só palavra: Amarás a teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5,14). “Em Cristo Jesus, nem a circuncisão tem valor, nem a incircuncisão, mas a fé agindo pelo ágape” (Gl 5,6). “O ágape é a plenitude da Lei” (Rm 13,10). Afirmações como essas estão espalhadas por todas as cartas paulinas.

Paulo insiste em que é a experiência concreta dos cristãos, lida a partir da fé em Jesus Cristo, que deve ser colocada como elemento fundante dasmotivações e ações cristãs. É a sua prática do ágape, a percepção da presença de Deus na realidade concreta, nas práticas políticas e sociais, que devem ser levadas em conta. É um sistema dinâmico de fé, aberto às possibilidades da experiência.[10] Isso está muito claro em 1Cor 13, que trata do ágape (mal traduzido, em geral, por “caridade”), o amor efetivo e eficaz ao próximo.

Obviamente, essa atitude levará o cristão a se afastar de várias práticas gentias, como as elencadas em Gl 5,19-21; Rm 1,28-32 ou 1Cor 6,9-11. Pois “manifesta-se a ira de Deus, do alto do céu, contra toda a impiedade e injustiça dos homens que mantêm a verdade prisioneira da injustiça” (Rm 1,18), garante Paulo, completando: “Então não sabeis que os injustos não herdarão o Reino de Deus?” (1Cor 6,9).

Queremos concluir retomando uma frase de D. Patte: “O pluralismo, o dinamismo e a liberdade são características essenciais da fé paulina e por conseguinte devem ser as características de uma comunidade paulina”[11].

É possível que aí resida uma pista de grande validade para a atividade pastoral urbana hoje.



[1] Cf. M. Rostovtzeff. História de Roma. Rio de Janeiro: Zahar, 1977, pp. 161-252; M. Legido López. Fraternidad en el mundo. Un estudio de eclesiologia paulina. Salamanca: Sígueme, 1982, pp. 15-46.

[2] M. Löwy. Redenção e Utopia. O judaísmo libertário na Europa Central. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, pp. 38-39.

[3] Cf. J. Comblin. Atos dos Apóstolos, Vol. 1: 1-12. Petrópolis: Vozes/Metodista/Sinodal, 1988, pp. 16-19. Para uma tese radicalmente contrária, cf. J. Rius-Camps. El camino de Pablo a Ia mision de los paganos. Madrid: Cristiandad, 1984.

[4] Cf. W. A. Meeks. The First Urban Christians. The Social World of the Apostle Paul. Yale University Press, New Haven, 1983, pp. 26-32. (Publicado em português por Edições Pauli­nas.)

[5] Cf. Idem, pp. 42-50.

[6] Cf. Idem, pp. 51-73.

[7] Cf. Idem, p. 73.

[8] Cf. M. Rostovtzeff, op. cit., pp. 157-158; 183-192.

[9] E. P. Sanders. Paolo e il giudaismo palestinese. Studio comparativo su modelli di religione. Brescia: Paideia, 1986, p. 704.

[10] Cf. D. Patte. Paulo, sua fé e a força do evangelho. Introdução estrutural às cartas de São Paulo. São Paulo: Paulinas, 1987, pp. 104-107; 172-176. Na página 428 diz Patte: “Para Paulo, mediante a fé, os cristãos constantemente descobrem na sua experiência novas intervenções de Deus que são eleições e, portanto, novas revelações de suas vocações”.

[11] Idem, p. 429.

Prof. Airton José da Silva