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Publicado em Setembro-Outubro de 1992 (pp. 13-16)

Jó e o sofrimento dos pobres

Por Fr. Gilberto Gorgulho, op

Introdução

Jó descobre o Deus da Vida, justo e misericordioso, na partilha do sofrimento dos empobrecidos. Para descobrir o Deus que liberta, experimentar o sofrimento dos pobres (Jó 29,11-27) é mais importante do que conhecer.

O livro de Jó é um monumento da experiência religiosa a partir do sofrimento causado pela violência e agressão da sociedade. Aí se faz a descoberta do dom gratuito de Deus, através da dor, e do despojamento de toda segurança idolátrica.

Há três pontos que a mais recente análise sobre Jó nos leva a considerar:

1. A experiência do sofrimento é fruto da dinâmica social da violência que procura vítimas inocentes para tomar possível a vida em comunidade; a luta contra essa violência está na raiz da formação e desenvolvimento da cultura como um todo.

2. Nesse processo de violência destruidora Jó afirma sua esperança e integridade como um dom de Deus. Ele sabe que seu sofrimento não se explica pela teoria clássica da retribuição (Jó 21-23). Ele é um pobre diante de Deus. Como tal, sabe que existe para ele uma testemunha: é o seu sangue derramado (cf. Gn 4,10s) que grita por justiça, e defenderá a sua causa diante de Deus (Jó 16,19-20). A experiência do sofrimento no seu mais alto limite humano torna-se oração personificada, e o grito do pobre terminará por obter de Deus que se declare em favor de Jó, sofredor e inocente e que deve ser libertado da violência causada pelos “amigos” (Jó 19,25; 42,1-4)[1].

3. O Pe. Hugo Echegaray, sj, foi um dos grandes teólogos de Puebla. E aí começou a experiência do sofrimento que o levou à morte, logo depois da reunião dos bispos no México. Esse jovem teólogo inspirou as melhores reflexões de seu mestre, Pe. Gustavo Gutiérrez. Chamou a atenção para os protestos de Jó como o grito dos pobres. A constatação e a rebelde crítica de Jó têm mais profundidade do que a teologia superficial e convencional dos “amigos” (cf. Jó 12-14). O grito de Jó mostra que, no centro da teologia e da luta pelos “direitos humanos” é preciso concretizar o grito e a luta pelos “direitos dos pobres” (cf. Ne 5; Jó 24 e 29). Esse grito dos pobres, às vezes, até reduz o raciocínio religioso e teológico a cinzas sem consistência (Jó 12). Numa visão convencional e mecânica da justiça de Deus, o sofrimento dos pobres é a crítica de uma ética baseada no princípio da retribuição (Jó 21-23). O discernimento teológico de Jó é contemplativo e profético (Jó 12,16-24)[2].

Queremos indicar as bases da experiência de Jó como a esperança quando nasce do sofrimento, e revela o dom gratuito do Deus da Vida, justo e misericordioso. O sofrimento de Jó é um lugar teológico para criticar as imagens ideológicas de Deus, e para restabelecer a intimidade com o Deus próximo e doador da vida plena.

 

1. O pobre sofredor

A figura de Jó torna-se célebre no Oriente Antigo (cf. Ez 14,14). Sua história é muito antiga. Atravessou séculos. Seguiu as etapas da experiência religiosa do povo de Israel, no decurso de suas estruturas sociais fundamentais: o tribalismo, a monarquia tributária, e a comunidade religiosa colonial dominada. Jó é uma antiga figura que faz pensar, e coloca os verdadeiros problemas da existência humana e da cultura (Jó 3,20-26; 14,1-4; 17,1-16).

De fato, o nome de Jó, em hebraico se diz “Iyyôv”. Ele é encontrado nos documentos egípcios e mesopotâmicos do segundo milênio a.C. Pode-se supor que se relaciona com o verbo “âyav” que significa “ser hostil, tratar como inimigo”[3].

No segundo milênio a.C. a experiência do sofrimento fez nascer a história de Jó, fora do povo da Bíblia. Depois, essa história foi acolhida pelos Hebreus, provavelmente na região da Síria, ao sul de Damasco. Jó é apresentado nos moldes de um patriarca modelo, um filho do Oriente do país de Uz (Jó 1,1).

Durante o período da monarquia tributária em Israel e em Judá, na época dos reis e da defesa do direito dos pobres pelos profetas e sábios (cf. Pr 23,11 e Jó 19,25), a história do grande sofredor tornou-se popular e com um cunho sapiencial bem acentuado (Jó 1-2 e 42,7-17: sem a figura de Satã que entra na trama da narrativa na época pós-exílica).

Durante o exílio, entretanto, Israel viveu coletivamente o drama de Jó. O grito sofredor (Jô 3) retoma o clamor de Jeremias, o profeta perseguido em Jerusalém por reis, sacerdotes e profetas, e que descobriu o Deus da Vida através do seu sofrimento e de sua coerência nessa perseguição sociorreligiosa (Jó 3,3 = Jr 20,14-15; cf. Jr 12,1-7).

Ezequiel, no exílio, afirma a responsabilidade pessoal e cita os três heróis populares como modelo de sabedoria e de vida religiosa (Ez 14,14: Noé, Daniel e Jó). Essa é a primeira citação de Jó por um outro livro da Bíblia. As “Lamentações” choram a situação do povo sofrido que se assemelha à situação quase desesperada de Jó (Jó 19,7-12; cf. Lm 3,2.6.8.14.18).

Depois da volta do exílio, e da restauração do Templo, o povo entra numa profunda crise econômica e religiosa. Essa crise é testemunhada pelo profeta Malaquias (Ml 2,17). É ocasião para o discernimento sobre a imagem de Deus, e sobre os fundamentos da ética: Onde se encontra o Deus da justiça? Vale a pena ser justo, uma vez que os ímpios injustos prosperam e gozam dos bens da sociedade e os pobres sofrem terrivelmente humilhados? (cf. Ne 5 e Jó 24). Nesse contexto cultural e ideológico o autor do livro atual retoma a história popular antiga, e articula a sua discussão de maneira magistral, através da forma literária do “monólogo” e do “diálogo”[4].

A figura de Jó torna-se, então, o modelo eminente do “pobre”, tal como era concebida após o exílio. O autor, ou uma escola de escribas, retomou a velha história que nasceu e circulou desde o sul de Damasco, na região de Hauran, e apresenta-a como um modelo proverbial (um mashal) para a reflexão sobre a justiça de Deus e o futuro dos pobres sofredores e oprimidos.

 

 

2. A pobreza libertadora

A figura de Jó, vítima da violência de seu próprio povo que se exprime pelas palavras dos “amigos”, sábios e religiosos doutores, serve para traduzir a experiência religiosa que procura controlar e sair do circuito satânico do esquema vitimário.

Pode-se entender o dinamismo dos diálogos como a lógica perversa dos homens violentos que procuram, num bode expiatório, a experiência fundante para a vida comunitária e cultural. Jó é objeto de escárnio e o receptáculo da violência coletiva (Jó 17,7): “Apresentam-se como uma parábola (mashal) dos povos e, de fato, eu sou um Tophet” (idêntico à vítima sacrificada pelo fogo, no lugar denominado Tophet no vale da Geena, sobre o qual se cospe com desprezo: cf. 2Rs 23,10; Jr 7,31-32; 19,6-15), desprezado, humilhado e vítima da violência, até mesmo religiosa. Os sofrimentos principais vêm da violência unânime. Vêm dos outros homens que condenam Jó, sem exceção e piedade, e dizem que ele está sendo justamente castigado. Faz-se mister, portanto, assumir a condição de vítima para salvar a vida da comunidade e ser reintegrado através da ética da retribuição. O mais terrível para Jó é ser o último dos últimos, e ser tratado como bode expiatório em nome mesmo da justiça divina, e tornar-se o pária solitário e isolado do circuito dos “justos” do próprio povo de Deus (cf. Jó 19).

Contudo, neste dinamismo da experiência do sagrado violento e destruidor, perpassa a busca do Deus da Vida. É a busca da justiça com todo o seu dinamismo e força libertadora (cf. Jó 9). A pobreza de Jó torna-se um caminho libertador porque é uma verdadeira teofania do Deus justo e misericordioso.

Com efeito, no fundo do debate apresentado no diálogo com os “amigos” dá-se a revelação do significado do sofrimento do pobre. Satã (Jó 1,6ss) contesta o desinteresse absoluto de Jó, cuja inocência é negada pelos três “amigos”, por causa dos sofrimentos que torturam o sofredor. A justiça divina parece ser colocada à prova, e os três “amigos” não conseguem defender a sua imparcialidade. Quem é injusto: Deus ou Jó? Eis o dilema fundamental!

É certo que nenhum ser humano é inteiramente puro aos olhos de Deus, e não pode ter razão contra ele (Jó 4,17; 9,2; 15,14; 25,4). Jó, porém, está seguro da justiça de sua causa (Jó 27,6). Ele fecha a boca de seus “amigos” por sua apologia intransigente. Como ele crê na justiça de Deus, chama a Deus diretamente, contra as falsas imagens de Deus. O sofrimento é caminho contemplativo e profético para Deus manifestar-se na revelação de sua justiça misericordiosa. O pobre sofredor critica a ética tradicional da retribuição mecânica, a qual levará ao farisaísmo (cf. Jó 21-23); procura assim descobrir a identidade de sua vida por um ato de entrega à gratuidade divina que se faz presente (cf. Jó 29-31).

Jó faz a experiência da conversão na busca de sua identidade diante de Deus. Ele não abre mão de sua “honra” e de sua integridade. Ele é mesmo o justo que vê na comunhão e na defesa dos pobres o sentido da amizade com Deus e da integração social (cf. Jó 29). Mas é no ato mesmo dessa apologia intransigente que se dá a grande revelação da relação entre “graça” e “pobreza”.

Os diálogos de Jó com os “amigos” querem mostrar o lugar fundamental da “pobreza” (a “‘anawâ” que vem desde os tempos de Sofonias 2,1-3; Pr 15,3; 24,4) como o fundamento da justificação, ou da relação íntima da pessoa humana com o Deus justo e misericordioso (cf. Jó 9; 19,25).

A figura de Jó servirá de parábola (mashal) para se compreender a condição requerida para ser justificado gratuitamente pelo dom de Deus. A justiça, dom de Deus, supõe na pessoa humana o despojamento total e incondicional da vontade e do amor próprio. A pobreza torna-se, assim, o caminho da entrega de si na força da esperança.

A experiência de Jó é a descoberta, através do sofrimento, do espírito de criança que se sacia da bondade de Deus que vem libertar. Tal experiência é profundamente apresentada pela densidade do Salmo 131. É somente quando Jó renuncia à sua justiça e “honra”, quando se torna pobre diante de Deus que este lhe dá a graça e o reabilita publicamente (cf. Is 66,2; Sl 24,7.9). A vida na graça é um ato de conversão que descobre a grandeza e a proximidade do Deus misericordioso que vem comunicar-se sem limites (Jó 42,1-4; cf. Pr 30,1ss).

A pobreza de Jó acontece no dinamismo libertador da esperança.

 

3. O dinamismo da esperança

Tem-se percebido que o livro de Jó possui uma estrutura dinâmica muito bem articulada. Não iremos salientar aqui esse plano orgânico. Mostramos a espinha dorsal do conjunto da obra, através dos dez discursos de Jó. Eles começam com o monólogo de Jô 3, e terminam com o grande monólogo sobre a identidade humana em Jó 29-31. Entre esses dois monólogos básicos, os discursos de Jó exprimem o dinamismo da esperança, no qual se dá o nascimento do pobre pela graça de Deus.

 

A. O dinamismo subjetivo

1. O primeiro discurso (Jó 3) vai ao limite da experiência humana. Mostra que a esperança nasce da experiência mais forte da suprema fraqueza do ser humano e se exprime na dor e no sofrimento. Ao evocar a morte como saída, a esperança é basicamente um caminho de ressurreição e de renascimento.

2. A esperança não é teoria vazia. Realiza-se na materialidade física e espiritual dos diversos sofrimentos. É a experiência concreta do sofrimento e da dor. Quando o sofrimento manifesta-se na sua força destruidora, a fraqueza humana torna-se mais evidente. A esperança é a força que nasce por dentro da própria fraqueza e limitação humanas para redescobrir o sentido do caminhar para um futuro novo. Assim o segundo discurso de Jó 6-7 baseia-se numa meditação do Salmo 8, sobre a grandeza e pequenez do ser humano (cf. Jó 7,17-18).

3. O terceiro discurso (Jó 9-10) indica que a essência da esperança está no relacionamento direto e pessoal com o Deus vivo e transcendente. É relação amorosa e confiante com o Deus da Vida que governa o mundo, e manifesta sua presença no próprio ato humano de vida e de amor comunicativo. Jó começa a questionar a imagem convencional de Deus: contra o “deus” do poder esmagador, ele invoca o Deus da justiça. A essência da esperança é despojamento do poder para deixar agir toda a força irresistível da graça, na gratuidade da busca e da comunicação do bem e da integridade da vida. Com isso Jó dá um primeiro passo decisivo no seu ato de esperança (Jó 9,32). Deus será o árbitro entre Jó e ele próprio. Isso significa que o ato de esperança é uma penetração e participação direta na própria intimidade da vida e da bondade criadora e libertadora do Deus misericordioso.

4. O quarto discurso (Jó 12-14) coloca o problema da verdade que está encarnada na experiência do sofrimento do justo inocente. O caso de Jó encerra dentro de sua dinâmica uma verdade profunda sobre Deus e sobre o ser humano (em sua limitação, fragilidade e mortalidade: cf. Jó 14). Essa verdade não pode ser percebida pelo discernimento prepotente e “farisaico” dos “amigos” dogmáticos e impiedosos!

Jó questiona o “deus” convencional que era usado para cimento e sustentáculo da ordem do universo e da ordem social (cf. Ne 5; Ml 2,17). Jó se compraz em dizer que essa ideologia não explica as mudanças e as transformações da natureza, e nem mostra que Deus subverte e destrona os poderosos, os dominadores e os sacerdotes do poder (Jó 12,14-20). Jó foge da imagem do deus da ira para descobrir a face do Deus misericordioso.

5. O quinto discurso (Jó 16-17) é o desfecho da estruturação do ato de esperança. Dá o segundo passo. Em Jó 16,19 ele afirma que Deus é o seu juiz e sua testemunha imparcial que se manifesta em um grito personificado. E em Jó 17,3-4 Deus é o seu próprio penhor que assumirá a causa e a defesa da integridade e da vida de Jó, a vítima oprimida pela violência unânime. Jó introduz uma ideia ética revolucionária: a vida justa deve ser vivida em si mesma e por si mesma, e não pelo desejo de uma recompensa extrínseca. A bondade do ato humano amadurece dentro dele mesmo como um dom gratuito de Deus. É a realização plena da Nova Aliança como já afirmara o profeta Jeremias (Jr 31,31-34).

 

B. O conteúdo da esperança

Os cinco últimos discursos apresentam de modo denso o conteúdo da esperança[5]. Jó 23,7-9 é um marco no processo de crescimento da esperança de Jó:

A. A esperança de que Deus poderia esmagá-lo: 6,8-9

B. A espera de que Deus o esconda no Xeol até um dia: 14,13

C. A ESPERANÇA NO DEUS DOS POBRES: 19,22-25

B’. A esperança no Deus que assume sua causa: 23,7.9.10.15

A’. Esperança no Deus que se manifesta definitivamente: 31,35-37

(O ATO DE ESPERANÇA DO POBRE: 42,1-4).

 

Salientamos aqui apenas o dinamismo do conteúdo da esperança que Jó descobre como a fonte de sua salvação pessoal.

1. Despojado de sua honra (Jó 19,9.25), ele não encontra na tese da retribuição mecânica e autoritária uma resposta adequada e suficiente para o seu sofrimento e sua justiça (Jó 21,9).

2. Trata-se de um paradoxo misterioso (Jó 23,7.16) que acontece na relação direta, pessoal e íntima da pessoa humana com Deus. Por isso Jó tem a segurança de afirmar, na dor e no sofrimento, que ele é inocente e íntegro (Jó 27,6).

3. A sua existência em união com Deus aqui nesta terra, e mesmo que a vida caminhe para a mortalidade, é busca de identidade e de plena realização humana no passado (Jó 29), no presente (Jó 30) e na abertura para o futuro que é um abraço ao Deus da Vida que vem (Jó 31). Assim, o grande monólogo termina com a grande confissão ética da integridade de Jó, no caminho que leva para a Vida do Deus justo e misericordioso.



[1] René Girard, Job the victim of his people, Stanford University Press, 1987. G. Gorgulho, op, Os sábios na luta do povo, 2ª ed., São Paulo, CEPE, 1991, pp. 68ss.

[2] R.-J. Toumay, op, Seeing ano hearing God with the psalms (The prophetic liturgy of the second temple, JSOTs, 118, Shefield, 1991, pp. 131-132. L. G. Perdue, Wisdom in revolt (Metaphorical theology in the book of Job), JSOTs, 29, Shefield, 1991.

[3] J. Lévêque, Job ET son Dieu, I-II, Ebid, Gabalda, Paris, 1970.

[4] G. Gorgulho, op. cit., pp. 69ss.

[5] Robert Gordis, The book of Job (Commentary, New translation and special studies), The Jewish Theological Seminary of America, New York City, 1978, pp. 195ss.

Fr. Gilberto Gorgulho, op