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Publicado em Setembro-Outubro de 2004 (pp. 11-16)

O servo de Javé: uma nova liderança “Não apagará o pavio que está para se apagar” (Is 42,3)

Por Enilda de Paula Pedro, rbp

A Angola é um país dilacerado pela guerra civil. Esta guerra, provocada pela ganância e ambição dos líderes locais, durou quatro décadas. Enquanto o povo brigava, as autoridades roubavam as riquezas naturais do país — petróleo e diamantes. A situação chegou ao limite de o povo não ter nada para comer. Estradas minadas, pontes quebradas, escolas, fábricas, hospitais, casas, tudo destruído e depredado. Aldeias inteiras saqueadas e casas queimadas.

A Missão dos franciscanos ficava na linha vermelha entre o exército e os guerrilheiros. O risco de morte era constante. O povo tinha a sede da Missão como a “casa de Deus”, porque lá as pessoas se sentiam seguras. Em 1997, a Missão estava com cerca de 2 mil crianças entre 2 e 5 anos de idade e com quase 800 pessoas idosas. O Programa de Alimentação Mundial ajudava enviando milho da Europa — que chegava ao destino já bastante deteriorado. Não havia a lenha nem moinhos para preparar o milho — único alimento existente.

Certo dia, o Evangelho da celebração dominical desafiou o povo esfarrapado e oprimido a acreditar na força existente nele mesmo. Foi marcado um encontro com as mulheres, cujos maridos, de grupos diferentes, estavam nas trincheiras lutando uns contra os outros. Mesmo assim, elas se uniram para salvar as crianças e as pessoas idosas — principais vítimas da guerra. Todos os dias, chegavam mais de cem mulheres com seus pilões, preparavam o fubá e faziam o angu para alimentar as pessoas. As idosas e os idosos que podiam caminhar buscavam lenha com os missionários. Esse gesto de união criou um clima de paz na Missão. O ódio em tempo de guerra foi superado com gestos de solidariedade para salvar a vida.

 

A organização das mulheres em Angola é exemplo de organização solidária e não violenta. Uma nova liderança! Em meio à dura realidade de destruição, abandono e desolação provocada pela guerra civil, elas foram descobrindo, à luz da Palavra de Deus, caminhos para salvar a vida das pessoas abandonadas: crianças e idosas(os).

A vida é o chão que nos ajuda a ler a Bíblia. Na história do povo judeu há muitos grupos que tentam manter a chama da vida, especialmente nos momentos em que ela está para se apagar. Com essa compreensão, voltemos nosso olhar para o exílio da Babilônia, por voltado ano 540 a.C. Entre os vários grupos de pessoas exiladas, está o grupo da segunda deportação (587 a.C.), que carrega nos ombros uma história sofrida em razão da tirania e da opressão dos dominadores.

É nessa realidade que um grupo começa a criar consciência sobre a necessidade de uma liderança que nasça do amor solidário e do compromisso com os pequenos, que atue na contramão do sistema dominante, sem o uso da força e da violência. O projeto de uma nova liderança nasce da análise histórica do sistema da monarquia. Retomemos um pouco dessa história.

 

1. O rei: poder e violência

No Antigo Oriente Médio, o rei é a figura mais importante. Está no topo da pirâmide. É pessoa investida de poderes especiais para governar. Suas funções principais são a guerra, a lei e o culto. As guerras são a principal fonte econômica do Estado vencedor, que impõe tributos aos povos dominados e fica com seus despojos.

O poder e a força do rei estão fundamentados em sua capacidade de ordenar a sociedade. O exército é um dos instrumentos que mantêm a ordem e protegem o Estado dos inimigos externos. A Lei garante a estabilidade da nação. Portanto, o rei também exerce o papel de legislador e juiz. O culto dá legitimidade ao rei na ordenação política e econômica do Estado.

No início da história de Israel, o Egito é considerado o modelo de monarquia bem constituída. Esse país tem o mérito de ter construído um Estado independente, forte e estável (2800 a.C.-525 a.C.). Nessa sociedade, o rei é considerado uma divindade, é adorado e cultuado. O faraó tem poder divino para ditar as leis. As suas determinações são absolutas. Portanto, é impossível contestar o rei. Todos os poderes estão em suas mãos.

Em Israel, a monarquia tem início com Saul (1030-1010 a.C.), ganha consolidação com Davi (1010-970 a.C.) e consegue estabilidade e segurança nacional com Salomão (970-930 a.C.). Esse novo sistema de governo se espelha na organização dos povos vizinhos, especialmente do Egito.

Conforme a visão de alguns grupos judaicos, o rei é ungido e escolhido por Deus para governar o povo (cf. 1Sm 10,1; 2Sm 2,4; 1Rs 1,39.45), porém ele governa para uma minoria. Na monarquia, pouco a pouco, as terras se tornam propriedades do Estado, que submete as(os) camponesas(es) ao pagamento de tributos para trabalhar na terra. O exército é formado por profissionais mantidos pela população. A arca, que simboliza a presença de Deus no meio do povo, é levada para o templo de Jerusalém, que se torna a morada oficial de Deus (cf. 1Rs 8,1-13). A Lei, que está a serviço da vida das pessoas, passa a garantir os direitos do rei.

Aqui e ali, surgem protestos em Israel contra a excessiva autoridade do rei. Mas, como se costuma dizer, “um dia a casa cai”. A ambição e a ganância dos governantes provocam o fim da monarquia em Israel. Em 722 a.C., o reino do norte é destruído pelos assírios. Agora é a vez do reino do sul. Em 597 a.C., o rei Joaquin se recusa apagar tributo ao rei da Babilônia. A elite, juntamente com o rei, é deportada (cf. 2Rs 24,1.14-16). Dez anos depois, apesar dos protestos e das críticas do profeta Jeremias, o novo rei, Sedecias, comete o mesmo erro (cf. Jr 52,1-11). Dessa vez o castigo é pior. A cidade e o templo são saqueados e destruídos. Muita gente é levada como prisioneira para o exílio (cf. 2Rs 25,8-21; Jr 52,13-15).

A mão do império opressor pesa mais fortemente sobre o segundo grupo de deportados: A Babilônia “não teve compaixão dele, e colocou uma carga pesada nos ombros dos velhos” (Is 47,6b). “Os pobres e os indigentes buscam água, mas não a encontram; estão com a língua seca de sede” (Is 41,17; cf. 55,1-2). Muitos grupos estão cansados e enfraquecidos (cf. Is 40,29), sem esperança no futuro.

A aproximação de Ciro, o imperador da Pérsia, faz alguns grupos sonharem com a possibilidade de voltar para Jerusalém. Em meio à situação de escravidão, o grupo do Segundo Isaías revive experiência de um Deus libertador e começa a sonhar com um jeito diferente de organizar o povo. A história comprova que a monarquia, cujos poderes estão centralizados nas mãos do rei, gera violência, exploração e escravidão. A nova liderança deverá ser diferente, tendo como objetivo principal a vida das pessoas enfraquecidas.

Em Is 42,1-9, o primeiro cântico do servo, há uma reflexão sobre a nova liderança. Vamos ler esse texto, procurando identificar algumas características da liderança do servo.

 

2. “Não quebrará a cana que já está rachada” (Is 42,3)

A situação de sofrimento extremo pode levar a pessoa — a nação ou o grupo — a se tornar dura, inflexível, assumindo as mesmas atitudes do opressor, ou pode ser verdadeira escola de humanização. O caminho que o grupo profético do Segundo Isaías segue é o da humanização e da não violência.

Em meio à tirania do império opressor; o grupo do Segundo Isaías propõe a liderança do servo, que não será exercida por uma pessoa, mas por um grupo (cf. Is 42,1; 43,20; 45,4). O servo recebe o espírito de Javé para realizar a missão de promover o direito entre as nações, na fidelidade e com perseverança (cf. Is 42,1.3.4).

O termo usado para direito é mishpat, que também pode ser traduzido por julgamento ou justiça. É importante ter presente que o julgamento é o exercício da justiça, ou seja, devolver ao outro o que lhe é de direito. Observemos que o termo direito é usado três vezes. Na cultura judaica, o número três indica totalidade. Isso nos leva a pensar que a missão do servo é estabelecer completamente o direito.

O poder do servo nasce do amor, da ternura e do compromisso com as pessoas enfraquecidas. Sua ação é totalmente contrária ao poder oficial, está na contramão do poder oficial da monarquia: “Ele não gritará, nem clamará, nem fará ouvir sua voz na praça. Não quebrará a cana que já está rachada, nem apagará o pavio que está para se apagar, não desanimará, nem se abaterá” (Is 42,2-3a.4a).

A ação do servo é descrita com sete atitudes que ele não realizará. Na cultura judaica, o número sete indica perfeição. Parece tratar-se de uma crítica contra o poder oficial e da afirmação de que a liderança do servo será totalmente nova. Ele estará ao lado das pessoas enfraquecidas, agindo nas margens. O reino de Deus acontecerá com base na compaixão e no direito, no cuidado extremo com a vida frágil e ameaçada.

A ação de Deus se manifesta na fraqueza: “Se Javé se afeiçoou a vocês e os escolheu, não é porque vocês são os mais numerosos entre todos os povos; pelo contrário, vocês são o menor de todos os povos!” (Dt 7,7). Essa mesma ação de Deus continua na prática de Jesus e das primeiras comunidades cristãs: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos” (Lc 10,21; Mt 11,25).

Para confirmar a palavra, o grupo relembra que Javé é o criador do céu, da terra e de tudo o que existe: “Ele dá respiração ao povo que nela habita e o espírito aos que sobre ela caminham” (Is 42,5b). O espírito não está sobre uma pessoa, mas em todas. O texto reforça que todos os membros da comunidade são responsáveis pelo serviço da justiça. E mais: o grupo coloca o próprio Deus se dirigindo ao servo: “Eu, Javé, chamei você para a justiça, tomei-o pela mão, e lhe dei forma, e o coloquei como aliança de um povo e luz para as nações” (Is 42,6).

O serviço da justiça é abrir os olhos dos cegos e realizar a libertação (cf. Is 42,7). Nesse serviço, Deus garante a sua presença: “Eu sou Javé, esse é o meu nome”. Essa expressão nos faz voltar à história do êxodo. Vamos relembrar? “Moisés disse a Deus: ‘Quando eu for aos israelitas e disser: O Deus de vossos pais me enviou até vós; e me perguntarem: Qual é o seu nome?, o que direi?’ Disse Deus a Moisés: ‘Eu sou aquele que é’. Disse mais: ‘Assim dirás aos israelitas: EU SOU me enviou até vós’. Disse Deus ainda a Moisés: ‘Assim dirás aos israelitas: Javé, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó me enviou até vós. Este é o meu nome para sempre, e é assim que me invocarão de geração em geração” (Ex 3,13-15).

O Segundo Isaías afirma que é Javé o anunciador das coisas novas (cf. Is 42,9b; 41,26). “As primeiras coisas já aconteceram; coisas novas é o que eu agora anuncio” (Is 42,9a). No passado, Deus libertou o povo da escravidão do Egito. O mesmo vai fazer no momento presente, porém de maneira nova. Coisas novas representam a participação de todas as pessoas. Deus quer que o seu povo assuma uma nova liderança.

O novo jeito de agir passa pela defesa da vida ameaçada, é um caminho feito na pequenez e na fragilidade, com as pessoas enfraquecidas e desanimadas. E Deus está ao lado, fortalecendo e encorajando, sustentando e animando aquelas e aqueles que fraquejam.

O texto de Is 42,1-9 faz parte de uma coleção de quatro cânticos, a saber: Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-9; 53,13-53,12. O primeiro cântico apresenta a maneira solidária e amorosa de agir do servo, oposta à do rei, sem o uso do poder nem da violência. Assumir essa liderança implica ir contra o poder oficial. Por causa de sua prática, ele sofre, resiste, é perseguido e acaba sendo morto, em nome de Deus, pelos poderosos. A missão e as consequências da prática da justiça na vida do servo estão descritas nos outros cânticos.

 

3. “Eu ainda estava no ventre materno, e Javé me chamou” (Is 49,1b)

No segundo cântico do servo de Javé (cf. Is 49,1-9), o servo se autoapresenta como alguém escolhido antes do seu nascimento: “Eu ainda estava nas entranhas de minha mãe, e ele pronunciou o meu nome” (Is 49,1c).

O servo é capacitado e protegido para anunciar a Palavra: “Ele fez da minha língua uma espada afiada e me escondeu com a sombra de sua mão; ele me transformou numa seta pontiaguda e me guardou na sua caixa de flechas” (Is 49,2). A palavra deve reunir o povo disperso: “Agora fala Javé, que desde o ventre me formou para ser o seu servo, para eu lhe trazer de volta Jacó e reunir Israel para ele” (Is 49,5).

O servo recebe um mandato divino: “Faço de você uma luz para as nações, para que a minha salvação chegue aos confins da terra” (Is 49,6b). Quando o povo de Israel que se encontra escravo na Babilônia conseguir a sua libertação, deverá se empenhar para reunir os judeus que estão dispersos em outras nações.

Os versículos finais deste Cântico (cf. Is 42,8-9) retomam os vv. 1-6. O servo recebe a missão de reconstruir o povo e a terra: “preparei e designei você para ser a aliança do povo, para reerguer o país, para redistribuir as terras arrasadas” (Is 49,8). Trata-se de uma reorganização política e social. Como podemos constatar, o servo toma consciência de sua missão. É preciso dar mais um passo e assumi-la. Esse é o tema do terceiro cântico (cf. Is 50,4-9).

 

4. “O Senhor Javé abriu meus ouvidos e eu não

fiz resistência nem recuei” (Is 50,5)

No primeiro cântico (cf. Is 42,1-9), o servo é chamado para serviço da justiça. No segundo cântico, o servo reconhece a importância de sua missão (cf. Is 49,1-9). No terceiro cântico (cf. Is 50,4-11), o servo assume a missão: falar e ouvir como discípulo. O objetivo dessa missão é “ajudar os desanimados com uma palavra de coragem” (Is 50,4).

O servo assume a prática da justiça e suas consequências: “Apresentei as costas para aqueles que me queriam bater e ofereci o queixo aos que me queriam arrancar a barba, e nem escondi o meu rosto dos insultos e escarros” (Is 50,6). A teologia oficial dizia que o sofrimento é castigo por causa do pecado. Porém, a vida do servo — do povo de Israel prova o contrário. A realidade de sofrimento é gritante. Muitas pessoas que sofrem são inocentes.

O servo deposita a sua confiança em Javé (cf. Is 50,7-9). O servo é perseguido, mas, por sua fidelidade, resiste. Manter resistência contra o sistema opressor traz sofrimento e morte, mas o projeto de vida triunfa. Vejamos o quarto cântico (cf. Is 52,13-53,12).

 

5. “Vejam! O meu servo vai ter sucesso, subirá e crescerá muito” (Is 52,13)

A realidade de fome e violência imposta pelos opressores deforma o servo. O exílio, a perseguição, a dor, a injustiça, o desprezo eram vistos como castigo de Deus. Porém, o cântico vira a mesa: o sofrimento do servo é consequência da sua prática da justiça, de sua capacidade de doação até a morte (cf. Is 53,1O-11). O servo é morto por causa de sua prática, mas devolverá a verdadeira justiça a muitos. Ele morre, mas a sua vida terá continuidade por meio de seus descendentes. O projeto de salvação, ou seja, de libertar o povo da situação de escravidão, triunfará (cf. Is 53,11).

A leitura dos quatro cânticos possibilita-nos entender que o sofrimento e a morte do servo não são castigos de Deus, mas consequências de sua prática da justiça e da solidariedade. Mas a pergunta continua sem resposta: que Deus é esse que quer o sofrimento da pessoa? Como explicar que Javé queira esmagar o seu servo com o sofrimento? (cf. Is 53,10). Procurando responder a essa pergunta, vamos aprofundar um pouco mais a leitura de Is 52,13 a 53,12.

 

6. “O projeto de Javé triunfará” (Is 53,10)

Uma leitura atenta do quarto cântico nos ajuda a entender que existem duas camadas. No início e no fim, Javé confirma e exalta a missão do servo (cf. Is 52,13-15 e 53,11b-12). Mas, no centro, há um grupo que vê e analisa o sofrimento do servo (cf. Is 53,1-11). Por enquanto, vamos chamar esse segundo grupo de espectadores.

 

Eis um esquema do texto:

A. 52,13-15: Javé apresenta o servo e garante que ele terá sucesso.

B. 53,1-11a: Os espectadores observam a paixão, a morte e a glorificação do servo.

1) 53,1-3: a origem e a situação atual do servo.

2) 53,4-6: um grupo admite a culpa pelo sofrimento do servo.

3) 53,7-10a: o grupo fala sobre o julgamento, a morte e a sepultura do servo.

4) 53, 1Ob-11a: a entrega gratuita do servo o glorificará.

A’. Is 53,11b-12: Javé acolhe a entrega do servo em benefício de muitos.

 

Vemos o servo com os olhos dos espectadores, que o apresentam como homem experimentado na dor, desfigurado: “não tinha aparência nem beleza” (Is 53,2). A dor, o sofrimento e a doença eram vistos como castigo de Deus (cf. Dt 7,15; 28,59; Is 53,3.4.10a). E mais: sem beleza equivale a dizer sem honra. Por isso, o servo é desprezado e rejeitado.

Os espectadores afirmam: “Todavia, eram as nossas doenças que ele carregava, eram as nossas dores que ele levava em suas costas. E nós achávamos que ele era um homem castigado, ferido por Deus e humilhado” (Is 53,4). O verbo carregar é usado no sentido de carregar a culpa, o castigo pelo pecado, ou levar a iniquidade (Lv 5,1.17; Nm 5,31). Os espectadores continuam no sistema do sacrifício e afirmam que Deus precisa de uma vítima expiatória para salvá-los.

Mas quem são essas pessoas que falam do servo? E quem é esse Javé que fere e esmaga? Voltemos ao contexto em que foi escrito o texto. Sua redação e autoria ainda estão em discussão. Porém, podemos observar que o quarto cântico usa alguns termos próprios do período de Neemias e Esdras, especialmente o sacrifício de expiação; o termo em hebraico é asham, muito frequente no livro do Levítico como “culpa pelo pecado” (Lv 5,6.7). No livro de Isaías esse termo só aparece em 53,10b.

É possível que os quatro cânticos tenham surgido nas comunidades do Segundo Isaías, entre 550 e 540 a.C., na Babilônia. Mais tarde, as comunidades de Judá, no contexto da dominação persa (520-400 a.C.), fizeram uma releitura desses textos, procurando encontrar novas luzes para ajudar o povo a enfrentar a opressão da elite religiosa e política de Judá, que tinha se aliado ao império persa. Nessa época, a teologia oficial, conhecida como teologia da retribuição, afirmava que Deus recompensava a pessoa justa com riqueza, descendência e vida longa; e os pecadores com pobreza, esterilidade e vida breve (cf. Dt 30,15-16; Pr 3,2).

A teologia da retribuição foi consolidada pelo grupo de Esdras, um doutor da Lei. E quem era esse doutor? Um judeu que tinha se tornado um importante funcionário da corte persa. Ele foi enviado pelo imperador persa a Jerusalém com a missão de reorganizar o povo em torno da Lei e do templo. A Lei de Javé foi transformada na Lei do rei (cf. Esd 7,24-26).

O código de santidade (cf. Lv 17-26) e as leis referentes à pureza foram relidos e reforçados. A estrita observância da Lei do Deus oficial tornou-se um meio para a salvação. Não observar a Lei implicava castigo político: “todo aquele que não cumprir a Lei do teu Deus com exatidão, que se lhe aplique a sentença, seja a morte, o desterro, uma multa ou prisão” (Esd 7,26).

A sociedade estava dividida entre puros e impuros, santos e pecadores, justos e injustos. A Lei se tornou uma barreira que separava as pessoas umas das outras, das coisas e dos animais. A santidade era controlada pelos sacerdotes, por meio de ritos purificadores. As leis da pureza definiam quem estava mais perto e quem estava mais longe do Deus oficial. Uma pessoa doente ou com alguma deficiência física era considerada impura por causa de algum pecado (cf. Ex 20,5; Sl 38,2-6; Ez 18,20).

A pessoa impura não podia participar do culto e, consequentemente, estava excluída da sociedade. O sacrifício era a condição para a pessoa poder voltar a participar da sociedade teocrática. As principais vítimas eram os pobres, especialmente os doentes. Os leprosos deveriam oferecer para a sua purificação duas aves, madeira de cedro, púrpura escarlate, hissopo, dois cordeiros e uma ovelha, doze litros de flor de farinha amassada com azeite e um quarto de litro de azeite. Se o leproso fosse pobre, pegaria um cordeiro, quatro litros de flor de farinha e um quarto de litro de azeite (cf. Lv 14,4.10.21).

A situação da mulher também era complicada. A menstruação e o dar à luz a tornavam impura, e, se nascesse menina, o tempo de impureza seria exatamente o dobro: 80 dias! A purificação exigia a entrega de ofertas para o sacrifício. Portanto, a mulher vivia endividada com o templo e excluída da sociedade (cf. Lv 12). Dessa forma, o pecado foi transformado em meio para garantir a concentração de riquezas no templo, a submissão política e a acomodação diante das desigualdades sociais.

No contexto da dominação persa, o quarto cântico do servo de Javé foi reescrito. É uma ironia contra o sistema implantado pelos teocratas. O cântico apresenta a situação do servo: desfigurado pelos maus-tratos, nem parece gente (cf. Is 52,14). A situação de Judá no tempo da dominação persa era de fome, escravidão e exploração (cf. Ne 5,2-5). Isso desfigura as pessoas.

Os responsáveis pela miséria eram os espectadores. Mas quem é esse grupo? Provavelmente a elite corrupta de Judá e os seus aliados. Os espectadores veem que o sofrimento está definhando o servo. O sofrimento, segundo a teologia oficial, é castigo de Deus. Portanto, o servo é um impuro. Isso gera desprezo e abandono (cf. Is 53,3; Jó 19,4-5). Os autores do texto fazem os espectadores reconhecerem sua culpa: ele carregava as nossas doenças, as nossas dores, os nossos crimes (cf. Is 53,4-6). A lei do puro e impuro justifica a situação de opressão imposta pela elite política e religiosa local, aliada ao império persa.

Na visão teológica dos espectadores, os seus pecados precisam de um sacrifício de expiação para a purificação. Esse sacrifício era exigência da Lei oficial (cf. Lv 5,1-26). Os espectadores veem o servo como a vítima substituta no sacrifício de expiação exigido pelo Deus do templo. Os espectadores afirmam: “Javé queria esmagá-lo com o sofrimento” (Is 53,10a).

Em seguida, o grupo profético do Segundo lsaías põe na boca dos espectadores uma afirmação totalmente nova: “se ele entrega a sua vida em reparação pelos pecados, então conhecerá os seus descendentes, prolongará a sua existência e, por meio dele, o projeto de Javé triunfará” (53,10b). A prática da solidariedade substitui o sacrifício de purificação. Isso provocará espanto entre as multidões e as elites religiosas de Judá, pois o servo, considerado impuro e desprezado, vai purificar a muitos. Que reviravolta, não!? O impuro purifica o puro.

O quarto cântico do servo apresenta uma nova teologia: aquelas e aqueles que sofrem por causa da prática da justiça e da solidariedade com as pessoas enfraquecidas na luta pela defesa da vida ameaçada tornam-se mediadores de salvação para todas e todos. Esse é o sonho e a proposta do grupo do Segundo Isaías. Mas é também denúncia profética contra a teologia do templo, que está tirando a vida das pessoas.

E mais: esse texto mostra que as pessoas oprimidas estão conscientes. Não são ingênuas para aceitar as verdades impostas pela teologia oficial. Sabem quais são as causas da situação de opressão e quem são os responsáveis por ela e não assumem o projeto do puro e impuro. Ao contrário, denunciam a falsidade da teologia oficial e anunciam que a salvação não está no cumprimento da lei do sacrifício, mas na prática da partilha e da solidariedade, na qual o sagrado, o Deus da vida, se manifesta.

 

7. Nossa missão hoje

A liderança que assume o projeto da partilha e da solidariedade não cai do céu. Ela é forjada no dia a dia, no enfrentamento das dificuldades, sofrimento e morte provocados por uma sociedade regida por pessoas e grupos que buscam os próprios interesses. Em Angola, as mulheres que convivem com a realidade de tantas pessoas abandonadas aprendem a partilhar, a usar da própria força para salvar as vidas enfraquecidas.

Realizar esse projeto é um desafio para todas(os) e provoca até a morte de muitas “servas e servos” de hoje. O projeto do servo é apelo para agirmos na contramão de uma sociedade materialista e individualista, criando verdadeira rede de solidariedade para com as pessoas enfraquecidas. A nossa liderança, como a do servo, deve ser norteada por atitudes capazes de alimentar a chama de vida que está para se apagar, somando forças com os grupos que agem nas pequenas brechas e na fragilidade, buscando implantar a justiça.

Enilda de Paula Pedro, rbp