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Publicado em Setembro-Outubro de 2010 (pp. 14-20)

Os estrangeiros acreditam na ação de Javé: uma leitura de Jonas

Por Centro Bíblico Verbo

Certa vez, um bispo estava examinando a aptidão de um grupo de candidatos ao batismo.

— Qual é o sinal que permite aos outros reconhecerem que vocês são católicos? — perguntou.

Não teve resposta. Evidentemente, ninguém esperava a pergunta. O bispo a repetiu. Depois perguntou novamente, desta vez fazendo o sinal da cruz para dar uma pista para a resposta.

De repente, um dos candidatos entendeu.

— Amor — disse ele.

O bispo ficou surpreso. Ia dizer ‘errado’, mas se conteve na hora h.[1]

 

Que resposta o bispo esperava? Qual a nossa resposta? Em geral, ouvimos que o sinal do cristão é a cruz. A cruz lembra o gesto de doação, amor e compromisso de Jesus. Essa lição, as comunidades de João aprenderam bem: “Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisto reconhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,34b-35).

No livro de Jonas, encontramos um questionamento semelhante: “Conta-nos qual é tua missão, de onde vens, qual a tua terra, a que povo pertences” (Jn 1,8). Jonas tem a resposta na ponta da língua: “Sou hebreu e venero Iahweh, o Deus do céu, que fez o mar e a terra” (Jn 1,9). A resposta certa: Jonas decorou bem a lição da teologia oficial. Mas há uma incoerência entre o que sua boca diz e sua oposição a Deus: ele é enviado por Javé à cidade de Nínive, mas foge de sua missão e até de seu Deus.

Para os judeus do século IV a.C., Nínive, a capital da Assíria, permanece como a lembrança de um dos grandes inimigos do povo de Israel. Simboliza a opressão exercida por todas as potências estrangeiras. Os habitantes de Nínive são impuros e distantes de Deus. Por isso, Jonas, um judeu nacionalista que se considera membro do povo eleito e santo, tem preconceito contra os estrangeiros.

Nos tempos atuais, ainda há muitos conflitos provocados pela crença na superioridade de uma nação ou de um grupo sobre outros. A ideia de “raça pura” continua produzindo vítimas. Basta lembrar os grupos de extermínio que agem contra homossexuais, negros e pessoas prostituídas, entre outros. Nesse sentido, a releitura do capítulo 1 do livro de Jonas poderá nos ajudar a rever as atitudes e preconceitos que criam separações em nosso meio. Nessa caminhada, o primeiro passo será a tentativa de compreender o contexto em que nasceu o livro de Jonas.

 

1. O contexto do livro de Jonas

A tradição judaica preservou o nome de Jonas, filho de Amati, que anunciou a expansão territorial no tempo de Jeroboão II, por volta de 780 a.C. (2Rs 14,25). É possível que o autor do livro de Jonas tenha utilizado esse nome por se tratar de um profeta nacionalista, mas o livro foi escrito no final do período persa. Vejamos alguns elementos desse império para nos situarmos na história.

Ciro II foi o fundador do reino e do império persa (559-530 a.C.). Em 539 a.C., ele ocupou a Babilônia, que não lhe ofereceu resistência. A chegada de Ciro II foi recebida com grande expectativa, tanto que um sacerdote babilônico chegou a afirmar: “Em Babilônia, reina a alegria”. A tomada de poder foi festejada pelos povos dominados e, de modo especial, pelos judeus. O grupo profético do Dêutero-Isaías reconheceu em Ciro II o “ungido de Iahweh” (Is 45,1). Mais tarde, por volta de 525 a.C., ocorreu a conquista do Egito. Com isso, o reino persa tornou-se o maior império até então conhecido.

O motivo da alegria e da esperança era resultado da estratégia política adotada pelos persas: tolerância religiosa, que não pode ser confundida com um governo brando. Essa maneira de agir baseava-se no princípio de que assim a dominação imperial poderia ser melhor e mais duradoura. Os persas reprimiam violentamente qualquer ação que tivesse como objetivo a independência política.

Depois de enfrentar muitos conflitos, Dario I (521-486 a.C.) dedicou-se à organização administrativa do império, que foi dividido em 23 províncias, chamadas de satrapias. Cada uma delas era governada por um sátrapa, uma espécie de vice-rei em seu território, e todas tinham corte, palácio e funcionários.

O rei contava com a assistência de um grupo governamental, constituído por um conselho de sete integrantes, e exercia algum controle sobre os sátrapas por meio da burocracia e de inspetores. Para consolidar esse controle, aperfeiçoou-se o sistema de comunicação entre o rei e as satrapias. Ao longo das estradas, havia postos para a troca de cavalos e cavaleiros, permitindo que uma mensagem chegasse de uma ponta a outra do império em pouco tempo. Cabia ao sátrapa recolher e enviar ao governo central o tributo anual. A língua oficial do império era o aramaico.

No domínio persa, o uso da moeda foi amplamente adotado. Dario I introduziu a moeda imperial, o dárico. Muito antes da introdução da moeda, existia dinheiro em forma de peso de prata e de ouro. As primeiras moedas citadas no Primeiro Testamento foram as dracmas persas de ouro (Esd 2,69; Ne 7,70-72). Existiam também as moedas de prata de Atenas (Ne 5,15; 10,33). O valor do ouro era muito alto, na proporção de 1 moeda de ouro por 20 de prata. O imposto da Judeia era de 350 talentos de prata. Para conseguir o dinheiro de prata exigido, os moradores da Judeia vendiam os produtos agrícolas excedentes. Em geral, os produtos valiam bem menos (Lv 27,16).

Os livros de Neemias e Esdras registram informações sobre esse período, mas elas devem ser olhadas com cuidado especial. De acordo com Esdras 1, o édito de Ciro II decretando a volta dos exilados ocorreu em 538 a.C. Isso não seria possível, pois nesse período a troca de poder havia atingido apenas o centro — Babilônia — e dificilmente Ciro II se preocuparia com uma região periférica tão distante como Judá. A permissão da volta foi uma estratégia política e não um decreto. A repatriação aconteceu aos poucos e em diferentes grupos. A reconstrução do Templo foi realizada com a permissão de Dario I.

Por volta de 520 a.C., Zorobabel e Josué, representantes da elite judaica, chegaram a Jerusalém com a missão de reconstruir o Templo. O grupo que voltou do cativeiro, chamado de Golá, veio com o apoio do império. Esse grupo se considerava como o verdadeiro Israel e legítimo dono da terra. Em Judá, ele entrou em conflito com o povo que havia ficado na terra — chamado de povo da terra — e com outros povos, como os moabitas e os amonitas, que estavam morando em Judá. Muitos grupos protestaram contra a construção do Templo, mas mesmo assim ele foi reconstruído em 515 a.C.

Alguns anos mais tarde, começaram a surgir revoltas no Egito e na província de Transeufrates, da qual Judá fazia parte. A instabilidade na região era muito grande. Em torno de 445 a.C., com a intenção de fortificar o corredor siro-palestino, os persas enviaram Neemias para organizar Jerusalém e transformá-la numa cidade-fortaleza. Apesar da resistência de vários grupos contra o projeto, Neemias conseguiu reconstruir as muralhas e executou algumas reformas que auxiliaram na reestruturação da comunidade. Em seguida, os persas enviaram Esdras (398 a.C.).

A cidade de Jerusalém e o Templo se tornaram um centro do poder político e econômico. A população do campo passou a pagar tributos ao Templo e ao império persa (Ne 10). A Lei de Deus foi promulgada como lei do rei (Esd 7,25-26). Ela foi apropriada pelos sacerdotes oficiais do Templo e se tornou um mecanismo de opressão religiosa e econômica. Os sacrifícios se multiplicaram e as leis da pureza atingiam todas as pessoas (Lv 11-15). A maioria do povo era explorada pelo império persa e pelas elites política e religiosa de Judá.

O projeto de Neemias e Esdras fortaleceu a posição do grupo da Golá. Só eles podiam ser considerados o verdadeiro Israel; os outros foram excluídos. A preocupação com a identidade de um povo exilado e enfraquecido contribuiu para a criação do conceito de povo eleito como privilégio, separação e superioridade em face de outros povos. Os habitantes da terra passaram a representar o maior perigo para a infidelidade de Israel. Ser fiel a Javé e seus mandamentos era manter a separação entre a Golá — semente santa — e as mulheres dos povos de Judá. A identidade da comunidade judaica é definida à luz do poder e dos interesses do império persa.

E o livro de Jonas? É possível que essa história tenha surgido para defender uma posição mais aberta diante dos estrangeiros. O povo de Israel é chamado a ser instrumento da salvação de Deus em favor de todos os povos. Jonas representa um grupo de Jerusalém que não aceitava essa mentalidade. Desde o início, vemos o profeta rejeitando a ordem de Javé para ir a Nínive.

 

2. Jonas levanta-se e foge de sua missão

“A palavra de Iahweh foi dirigida a Jonas” (Jn 1,1). Essa expressão é comum na abertura dos livros proféticos. É a fala da divindade a seu mensageiro (1Rs 17,2-9; Jr 28,12; Os 1,1; Jl 1,1). Não há menção de data nem de lugar, nem se situa o acontecimento da palavra, mas o que se destaca é o conteúdo: “Levanta-te e vai a Nínive”.

Quem recebe a palavra é Jonas, filho de Amati. Conforme uma tradição de 2Rs 14,25, é o nome de um profeta oriundo de Gat-Ofer, uma aldeia na Galileia, que atuou no tempo do rei Jeroboão II (783-743 a.C.). Segundo a tradição, esse profeta anunciou ao rei o restabelecimento das fronteiras do reino do Norte, Israel. Trata-se de um profeta defensor da monarquia, que pregava bem-estar e sucesso para o rei. Muito diferente da profecia de Amós, que anunciou a morte de Jeroboão II e a destruição do sistema político de Israel (Am 7,11).

Por que o autor escolheu o nome de um profeta que havia atuado quatro séculos atrás? Não é possível saber com certeza, mas uma razão pode ter sido o fato de que muitas pessoas da época do surgimento do livro pensavam como o Jonas do século VIII a.C. Elas acreditavam que somente o povo de Israel era escolhido e protegido por Javé.

No fim do império persa, havia grupos que pensavam que a misericórdia de Javé existia somente para o povo de Israel. A escolha de um profeta nacionalista favorece a identificação com os nacionalistas do tempo do livro. E, além disso, o nome “Jonas” significa pomba, um dos símbolos de Israel (Os 7,11; 11,11). Isso leva a deduzir que Jonas pode ser entendido como a personificação de um grupo dentro do povo de Israel.

Ele recebe uma ordem: “Levanta-te, vai”. Essa fórmula é comum no envio de um profeta (1Rs 17,9; 21,18; Jr 13,4-6; Ez 3,22). A ordem dada a Jonas especifica o lugar e o que deve ser anunciado: “Nínive, a grande cidade, anuncia contra ela que sua maldade chegou até mim” (Jn 1,2). Pregar contra uma cidade estrangeira dentro da própria cidade é ordem totalmente nova. Outros profetas pregaram contra as nações, mas sempre em Israel. Por exemplo, o profeta Naum denunciou Nínive e Isaías proferiu oráculos contra o Egito (Is 19). O fato de o profeta ter de ir para uma terra estrangeira aponta para uma intenção diferente: Javé quer que sua palavra seja ouvida.

Jonas foge para Társis. Ele não é a única pessoa na tradição bíblica que opõe resistência à sua missão. O próprio Moisés achava que as pessoas não iriam acreditar nele: “Não sou um homem de falar (…) tenho a boca pesada, e pesada a língua” (cf. Ex 4,10). Na lista dos juízes, encontramos Gedeão, que, ao ser enviado por Javé, questiona: “Como posso salvar Israel? Meu clã é o mais fraco em Manassés, e eu sou o último na casa de meu pai” (Jz 6,15). Outra hesitação bem conhecida é a de Jeremias: “Ah! Senhor Iahweh, eis que não sei falar, porque sou ainda criança” (Jr 1,6). Ao ser enviado, Jonas não diz uma palavra, apenas age… Levanta-se e vai em direção contrária.

Társis era considerada pelos hebreus como o fim do mundo (Is 66,19). De acordo com algumas tradições do Primeiro Testamento, parece tratar-se de uma região de grande importância econômica, que fornecia prata, ferro, estanho e chumbo aos navegadores fenícios (Ez 27,12; Jr 10,9). Os navios de Társis eram construídos para enfrentar tempestades e empreender grandes viagens (Is 60,9). O desejo de Jonas é ir “para longe da face de Iahweh”, frase repetida duas vezes (1,3). Além do livro de Jonas, essa frase só se encontra na história de Caim: “Terei de ocultar-me longe de tua face” (Gn 4,14.16). É impossível fugir da presença de Javé, que está em toda parte, como expressa o salmista: “Se subo aos céus, tu lá estás; se me deito no Xeol, aí te encontro. Se tomo as asas da alvorada para habitar nos limites do mar, mesmo lá é tua mão que me conduz, e tua mão direita que me sustenta” (Sl 139,7-10; cf. Am 9,1-4).

A fuga de Jonas começa bem, mas Javé o colocará de novo no caminho de Nínive. Ao se rebelar contra a ordem de Javé, Jonas começa a descer… Ele desce a Jope e lá encontra um navio para Társis. Não tem dúvida: paga a passagem e embarca. Portanto, ele representa grupos bem estabelecidos economicamente, pois não pensa duas vezes antes de iniciar uma viagem que poderia durar cerca de seis meses. Jope é um porto que passou a pertencer aos fenícios no século V a.C., e a maioria da população do lugar provavelmente não era israelita. Era o porto mais próximo para quem morava em Jerusalém ou nas regiões vizinhas. Para quem escreveu a história, Jonas representava grupos israelitas que moravam em Jerusalém ou próximos dessa cidade.

 

3. Os marinheiros ofereceram um sacrifício a Javé

A fuga de Jonas provoca a ira de Javé: ele “lançou sobre o mar um vento violento, e houve uma grande tempestade” (Jn 1,4). Os marinheiros, com toda a experiência que tinham, não previram a proximidade do mau tempo. O temporal piora e põe a embarcação em risco. Os marinheiros têm consciência de que a tempestade não é simples coincidência, mas um acontecimento sobrenatural; por isso, cada qual invoca o seu deus (Jn 1,5). O texto mostra Javé agindo fora das fronteiras da Palestina.

Há várias passagens no Primeiro Testamento que afirmam que Javé controla o vento e o mar. Ele “faz subir as nuvens do horizonte, faz relâmpagos para que chova, tira o vento de seus reservatórios” (Sl 135,7; cf. Ex 10,12-19; Jó 26,12; Sl 89,10; Is 50,2; Jr 49,32-36). No Novo Testamento, Jesus é apresentado com característica semelhante: “Levantando-se, conjurou severamente o vento e disse ao mar: ‘Silêncio! Quieto!’ Logo o vento serenou e houve grande bonança” (Mc 4,39).

A reação dos marinheiros contrasta fortemente com a de Jonas: tiveram medo, começaram a gritar e lançaram a carga ao mar. Ao passo que Jonas desceu, deitou-se e dormia profundamente (Jn 1,5). Há três verbos para descrever a ação dos marinheiros e três para Jonas. Enquanto a atividade daqueles aumenta, diminui a do profeta. É provável que o navio, como era costume, estivesse carregado, pois estava a serviço do comércio. A carga é lançada ao mar. Enquanto isso, Jonas continuava dormindo.

Como é que Jonas não percebeu toda a agitação e o medo dos marinheiros? Ele se encontra afastado das pessoas e alheio aos acontecimentos ao seu redor. A palavra hebraica usada para dormir profundamente é radam (Jn 1,5.6; Jz 4,21; Pr 10,5). Outro sentido desse termo é “estar inconsciente” (Dn 8,18; 10,19). A palavra torpor, que designa o sono de Adão, vem da mesma raiz de radam (cf. Gn 2,21; 15,12). O fato de Jonas estar alienado da realidade pode indicar passividade ou depressão, por estar fugindo da ordem de Javé e de sua missão.

O capitão do navio depara com Jonas e questiona: “Como podes dormir?” Não se trata de um julgamento, mas de espanto. Sem rodeios, o capitão ordena: “Levanta-te, invoca o teu Deus!” Essa ordem contém os dois verbos usados por Javé quando enviou Jonas a pregar contra Nínive: “Levanta-te (…) e anuncia”. O verbo qārā pode ser traduzido por chamar, convocar, recitar, invocar. A origem de Jonas é diferente da dos que estão no navio; portanto, era natural que ele cultuasse outra divindade, e a sua oração poderia ajudar a solucionar a dificuldade vivida naquele momento, caso as outras divindades não respondessem a seus fiéis.

Os marinheiros têm certeza de que a tempestade é uma punição divina. Alguém dentre eles ofendeu a divindade. Assim, decidem tirar a sorte, que recai sobre Jonas. Antes de tomar qualquer atitude, os marinheiros querem saber quem é ele: “Qual é a tua missão, donde vens, qual a tua terra, a que povo pertences?” (Jn 1,8) Não se trata de um conhecimento amigável; a tripulação quer entender a situação e saber exatamente quem é Jonas, o que implica tomar conhecimento de qual Deus ele ofendeu. Dessa forma, Jonas é posto contra a parede.

Jonas não responde à primeira questão, embora ela seja muito importante. De maneira decorada, o passageiro responde: “Sou hebreu e temo a Iahweh, o Deus do céu”. Em geral, “hebreu” era o termo usado pelos israelitas para explicar aos estrangeiros quem eram. No sentido jurídico, distingue os israelitas dos não israelitas (Dt 15,12). Conforme alguns salmos, os tementes a Javé são os que participam do culto em Jerusalém (Sl 22,24.26; 31,20; 66,16).

O verbo temer é usado três vezes para expressar o sentimento dos marinheiros. No início, trata-se de medo: eles têm medo de naufragar e morrer afogados (1,5). No v. 9, Jonas afirma que teme a Javé. No v. 10, os marinheiros tiveram um grande temor. Agora, os marinheiros sabem qual divindade enviou a tempestade. E, no final, repete-se o grande temor dos marinheiros, que parece indicar respeito e veneração (Jn 1,16).

Afirmar que Javé é o Deus do céu equivale a dizer que ele é a divindade suprema. Chamar Javé de Deus do céu tornou-se comum no pós-exílio (2Cr 36,23; Esd 1,2; Ne 1,4.5; 2,4). Um termo também encontrado nos textos em aramaico (Dn 2,18; Esd 5,11; 7,12). A confissão de que Javé fez o céu e a terra faz parte da crença do povo de Israel. Assim proclama o salmista: “Iahweh é Deus grande, o grande rei sobre todos os deuses (…) é dele o mar, pois foi ele quem o fez, e a terra firme, que plasmaram suas mãos” (Sl 95,3.5). Entre o que Jonas proclama e seu comportamento existe grande distância. Diz temer a Javé, mas faz exatamente o contrário do que ele pede. Não põe sua vida a serviço de Javé. Parece uma confissão “da boca para fora”, sem convicção.

Jonas sabe ser o culpado pela tempestade que ameaça vidas inocentes. Ele relata aos marinheiros sua tentativa de fugir da presença de Javé (Jn 1,10). Não há dúvida de que a tempestade é o julgamento divino. Os marinheiros compreenderam que a desobediência de Jonas era muito séria: “Que é isso que fizeste?” A ofensa era grave. Os marinheiros perguntam a Jonas o que fazer com ele para que o mar se acalme, pois o temporal aumentava cada vez mais. A resposta é imediata: “Lançai-me ao mar e o mar se acalmará em torno de vós” (1,11). Jonas admite sua culpa. Conforme a Lei, quem causou o mal deve ser castigado (Dt 24,16; Ez 18).

Jonas aceitou sua responsabilidade? Ele ofereceu a si mesmo como vítima sacrifical para salvar os marinheiros (Jn 1,12). Que generosidade! Será mesmo? Ou sua intenção continuava sendo fugir da presença de Javé? Egoísmo visto como atitude generosa. Morrer é o caminho mais fácil para Jonas, pois assim ele não precisa ir a Nínive. Jonas é um profeta que está sem esperança. Enquanto ele continua se opondo ao projeto de Deus, os marinheiros e o capitão são descritos como pessoas de esperança, integridade e justiça.

A tripulação não tem dúvida de que a tempestade foi enviada por Javé, mas mesmo assim procura formas de salvar a vida de Jonas. Eles não querem lançá-lo ao mar, pois têm medo de ser punidos pela sua morte. Remam para atingir a terra, mas sem êxito, pois não podem mudar os planos de Javé. Assim, decidem seguir a opinião de Jonas. E eles próprios rezam a Javé: “Não ponhas sobre nós o sangue inocente desse homem, pois tu agiste como quiseste” (Jn 1,14). Derramar sangue inocente era um crime terrível (Dt 21,8-9; Jr 26,15). Os marinheiros se declaram inocentes, pois a ação deles segue a vontade de Javé.

A ação de jogar Jonas no mar produziu o efeito desejado: “O mar cessou seu furor”. A oração dos marinheiros foi ouvida. De fato, Jonas era culpado (1,15). Esse capítulo termina com uma conclusão: “Foram tomados por um grande temor para com Iahweh, ofereceram um sacrifício e fizeram votos” (Jn 1,16). Dificilmente um sacrifício poderia ter ocorrido a bordo do navio. Naquele tempo, não era costume transportar animais num navio. Em todas as religiões do Antigo Oriente, os sacrifícios eram realizados nos santuários ou nos templos.

No tempo de Neemias e Esdras, o lugar oficial do sacrifício era o Templo de Jerusalém. E só os sacerdotes da linhagem de Aarão, os puros, podiam oferecer sacrifícios a Javé. O estrangeiro nem podia entrar no Templo: “Moisés, Aarão e seus filhos tinham o encargo do santuário em nome dos israelitas. Todo estranho que se aproximasse devia ser punido com a morte” (Nm 3,38).

Como podemos entender a perspectiva do autor do livro de Jonas, que mostra os marinheiros estrangeiros fazendo sacrifícios em alto-mar com a aceitação de Deus? Qual é o sentido e o objetivo desse protesto? Ao que tudo indica, o livro é uma ironia e, ao mesmo tempo, uma reação contra o fechamento religioso e a opressão ideológica de uma elite nacionalista que rejeita e exclui os judeus impuros e os estrangeiros. A narrativa apresenta Javé, o Deus dos hebreus, agindo para os estrangeiros. Os marinheiros fizeram sacrifícios e votos para Javé! Descrever os estrangeiros como pessoas que vivem a justiça e creem em Javé pode ser uma crítica à visão nacionalista. Essa mesma concepção está presente em outras novelas; por exemplo, no livro de Rute.

 

4. Crítica ao nacionalismo

Na tradição judaica, a exigência de casamento dentro do mesmo grupo étnico começou no exílio da Babilônia. Foi uma forma de manter a identidade e a unidade dos grupos exilados. No período de Neemias e Esdras, os conflitos relacionados a casamentos mistos aumentaram. As proibições de união já existentes na tradição da Torá (Ex 34,16; Dt 7,3) foram retomadas, aplicadas e radicalizadas. Segundo o livro de Neemias, a comunidade assumiu o compromisso de obedecer a algumas exigências da Lei, entre as quais a de não realizar casamentos mistos (Ne 10,31).

No livro de Esdras, lemos: “O povo de Israel, os sacerdotes e os levitas não se separaram dos povos das terras mergulhados em suas abominações — cananeus, heteus, ferezeus, jebuseus, amonitas, egípcios e amorreus —, porque tomaram esposas para si e para seus filhos entre as filhas deles. A linhagem santa misturou-se com os povos das terras: os chefes e os magistrados foram os primeiros a participar dessa infidelidade” (Esd 9,1-2).

Para Esdras, os habitantes da terra representavam o maior perigo para a fidelidade de Israel, com o risco de perda da terra. Nesse contexto, a fidelidade a Javé e aos seus mandamentos era manter a total separação entre a semente santa — o grupo que volta do exílio — e as mulheres dos povos da terra presentes em Judá. Os judeus que não haviam sido exilados eram tão estrangeiros quanto as pessoas de outras nações.

As reformas empreendidas por Neemias e Esdras foram importantes para manter a identidade e a coesão do povo no pós-exílio. Mas a consolidação da teologia da retribuição e a lei do puro e impuro provocaram exclusões de diversos grupos considerados impuros: estrangeiros — especialmente as mulheres —, doentes, pobres e pessoas com deficiência física.

Na contramão da teologia oficial, temos o livro de Rute. O cenário dessa novela é a emigração de uma família de Belém para Moab e a volta para Belém. Em terra estrangeira, a família enfrentou grandes sofrimentos. Elimelec e seus dois filhos, Maalon e Quelion, casados com mulheres moabitas, morreram. As três mulheres viúvas, Noemi e suas noras, Rute e Orfa, iniciaram a viagem para Belém, mas Orfa decidiu retornar para a casa de sua mãe. Em Belém, Rute recolheu espigas nos campos de Booz, fazendo uso do direito dos pobres (Lv 19,9-10). Depois que um parente próximo se recusou a exercer a lei do levirato (Dt 25,5-10), Booz casou-se com Rute. O primeiro filho desse casamento, Obed, foi considerado filho de Noemi.

Nessa novela, Noemi representa a imagem de Israel, que se encontra sem perspectivas de futuro. E, por ironia, o único fio de esperança que restava dependia de uma mulher viúva, estrangeira e ainda por cima moabita, um dos povos inimigos de Israel. A lei deuteronômica proibia a entrada de moabitas e amonitas na assembleia de Javé até a décima geração (Dt 23,4).

Esdras proclama a Lei de Deus como a lei do rei, impondo a obrigatoriedade de cumpri-la (Esd 7,25-26). O grupo por trás do livro de Rute fez uma releitura de antigas leis que não estavam sendo cumpridas. Uma delas era a lei da respiga: “Quando estiveres ceifando a colheita em teu campo e esqueceres um feixe, não voltes para pegá-lo: ele é do estrangeiro, do órfão e da viúva, para que Iahweh teu Deus te abençoe em todo trabalho das tuas mãos. Quando sacudires os frutos da tua oliveira, não repasses os ramos: o resto será do estrangeiro, do órfão e da viúva. Recorda que foste escravo na terra do Egito. É por isso que eu te ordeno agir deste modo” (Dt 24,19-21; cf. 23,22).

A lei da respiga garantia o direito dos pobres. Outra lei importante era a do resgate da terra. A lei afirma o seguinte: “Se o teu irmão cair na pobreza e tiver de vender algo do seu patrimônio, o seu parente mais próximo virá a ele, a fim de exercer seus direitos de família sobre aquilo que o seu irmão vende” (Lv 25,25). O livro de Rute é o único que une a lei do resgate da terra à lei do levirato. A primeira, além de não poder ser realizada sem a segunda, amplia a compreensão desta, incluindo o parente próximo, e não apenas os cunhados.

Nesse contexto, a novela de Rute é muito significativa, pois defende as mulheres estrangeiras, evidenciando que a pertença ao povo eleito não se restringe à nacionalidade judaica, mas se vincula à prática da justiça e da solidariedade. É um protesto contra a política pós-exílica de isolamento social e eliminação dos estrangeiros defendida pela teocracia de Jerusalém. Ao apresentar uma mulher moabita como modelo de solidariedade, a história propõe o acolhimento dos estrangeiros e protesta contra a proibição de casamentos mistos.

 

5. Uma palavra final

A mensagem do livro de Rute, como a do livro de Jonas, continua atual. O estrangeiro é sempre visto como alguém de fora e, muitas vezes, ironizado em piadas ou imitações grotescas. Quem não é estrangeiro hoje? Há um constante vaivém de pessoas, seja dentro de seu próprio país ou dele para outra nação. Em alguns casos, a migração é motivada por aventura, mas a grande maioria busca melhores condições de vida.

A crise mundial agrava as dificuldades para a emigração, levando milhões de pessoas a viver de maneira ilegal — sem cidadania e, portanto, sem direito algum. Além das fronteiras externas, crescem as barreiras internas, manifestadas
nas diversas disposições e ações contra estrangeiros.

A novela de Jonas continua nos desafiando a conhecer a realidade dos migrantes e emigrantes que vivem ao nosso redor. Esse é o primeiro passo para uma convivência solidária.

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

CARDOSO PEREIRA, Nancy. “Lições de cartografia: pequena introdução ao livro de Jonas”. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, nº 35-36, 2000, pp. 199-205.

KILPP, Nelson. Jonas. 2ª ed. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 1994.

LIVERANI, Mario. Para além da Bíblia: história antiga de Israel. São Paulo: Paulus, Loyola, 2008.

MAGONET, Jonathan. “Book of Jonah”, in: FREEDMAN, David Noel (org.). The anchor Bible dictionary. New York: Doubleday, v. 3, 1992, pp. 936-942.

TRIBBLE, Phyllis. “The book of Jonah”, in: KECK, Leander E. (org.). The new interpreter’s Bible. Nashville: Abingdon, 1996, pp. 463-529.

 

 



[1] Anthony de Melo. O enigma do iluminado. São Paulo: Loyola, v. 2, 1991, pp. 114. Veja a bibliografia consultada no final do artigo.

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