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Publicado em Março-abril

Ecologia e Fraternidade

Por Pe. José Adalberto Vanzella

Introdução

 

Como acontece todos os anos, a CNBB realiza, durante o tempo da Quaresma, a Campanha da Fraternidade. Neste ano, a campanha tem como tema: “Fraternidade e a vida no planeta”, e como lema: “A criação geme em dores de parto”. Seu enfoque central é o aquecimento global, que causa as mudanças climáticas. A finalidade deste artigo é apresentar e analisar a proposta dessa campanha, que tem como objetivo geral contribuir para o aprofundamento do debate e busca de caminhos de superação dos problemas ambientais provocados pelo aquecimento global e seus impactos sobre as condições de vida no planeta.

 

1.     Aquecimento global e seus impactos sobre as condições de vida no planeta

 

O aquecimento global não é algo novo, pois sempre esteve presente na história do nosso planeta. Possui causas internas, visto que todo sistema climático é caótico e não apresenta uma linearidade. O aquecimento global também possui causas externas, que podem ser naturais ou consequência da ação humana.[1]

Entre as causas naturais, podemos citar, por exemplo, a variabilidade das atividades do Sol, a qual causou, no milênio passado, um processo de aquecimento que ficou conhecido como Período Medieval Quente, muito semelhante ao que estamos vivendo hoje. Também tivemos, no milênio passado, um resfriamento que ficou conhecido como Pequena Idade do Gelo. Alguns cientistas acreditam que boa parte do aquecimento global que estamos presenciando atualmente é um reflexo da Pequena Idade do Gelo.

Mas temos também a ação humana. Desde o início da Revolução Industrial, aumentou a emissão de gases produzidos principalmente pela queima de combustíveis fósseis e pela devastação das florestas. As emissões de dióxido de carbono aumentaram 31%, as de metano, 151%, as de óxido de nitrogênio, 17% e as de ozônio troposférico, 36%.

Foi constatado pelos cientistas um aumento de 0,6ºC na temperatura média da Terra durante o século XX, o que tem sido causa de mudanças climáticas – por exemplo, na frequência das chuvas, ocasionando tanto grandes secas como grandes inundações, tempestades cada vez mais violentas, aumento dos incêndios florestais etc.

As mudanças climáticas têm influenciado muito a vida humana. Muitas vidas estão sendo ceifadas por causa de secas, inundações, desmoronamentos, incêndios, ondas de calor, fome e doenças por todo o mundo. Também está aumentando o número de migrantes por causa das condições adversas do clima. Diante disso, as pessoas precisam saber o que está acontecendo para que possam assumir suas responsabilidades diante dos problemas e, de fato, se envolver na sua superação.

2.     Mostrar a gravidade e a urgência dos problemas

Segundo a ONU, as catástrofes naturais estão aumentando em média 6% ao ano. O crescimento das grandes inundações no século XX ilustra isso. Entre 1900 e 1909, houve duas inundações, entre 1910 e 1919, três, entre 1920 e 1929, duas, entre 1930 e 1939, três, entre 1940 e 1949, duas, entre 1950 e 1959, seis, entre 1960 e 1969, dezesseis, entre 1970 e 1979, dezoito, entre 1980 e 1989, quinze e entre 1990 e 1996, vinte e seis.[2] Como podemos perceber, o problema foi se agravando nas últimas décadas do século passado.

A mesma ONU afirma que as catástrofes climáticas, como inundações, secas, tempestades e ondas de calor, afetaram, em 2007, cerca de 200 milhões de pessoas, num total de 399 desastres.

Em 2010, o Brasil já registrou catástrofes climáticas de grande alcance, como as chuvas no início do ano, que causaram mortes e destruição nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Nos meses de junho e julho, tivemos as enchentes no agreste de Pernambuco e Alagoas. O número de mortos, só no primeiro semestre de 2010, aproximou-se da casa dos 200.

Como é possível perceber, o problema é grave, principalmente porque muitas vidas são ceifadas. Mas também devemos levar em consideração as mais diferentes formas de prejuízos e sofrimentos resultantes dessas catástrofes, como o número de desabrigados, as grandes perdas na área da  agricultura, as moradias destruídas, o aumento de doenças etc. Tudo isso deixa clara a necessidade de ações urgentes. Tais ações devem acontecer inicialmente no sentido de lutar contra as causas desses problemas, por meio de medidas seja em relação ao meio ambiente, como diminuir a poluição e o desmatamento, seja em termos de urbanização, como retirar habitantes de áreas de risco de inundações ou desabamentos, seja em termos de formação do comportamento humano, como promover a educação ambiental, seja, ainda, no que diz respeito às políticas públicas, tanto na área do meio ambiente como na defesa civil.

O texto-base da Campanha da Fraternidade de 2011 sugere algumas ações concretas para o enfrentamento dessa questão, como iniciativas de sensibilização e conscientização sobre a responsabilidade de todos, principalmente no que se refere aos problemas locais, criação e fortalecimento da atuação de agentes comunitários ambientais devidamente preparados e capacitados, divulgação de entidades sociais comprometidas com a questão ambiental, desenvolvimento de ações em parceria com o poder público em todos os níveis, com atenção especial ao Poder Judiciário, estímulo à participação das organizações populares etc.

Também é importante que todos procurem dar maior atenção às novas exigências decorrentes de catástrofes ambientais, principalmente no tocante aos desabrigados. Para que isso aconteça, é necessário aprofundar o conhecimento sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas. Precisamos conversar mais sobre o assunto.

 

3.     Discussão sobre os problemas ambientais com foco no aquecimento global

 

As nossas ações não podem ser ingênuas, mas, à medida do possível, devem ser fundamentadas em conhecimentos e informações sólidas e em princípios pertinentes que lhes garantam eficiência, eficácia e efetividade. Por isso, a discussão sobre os problemas ambientais, principalmente com foco no aquecimento global e nas mudanças climáticas, é de grande importância.

A discussão deve ser madura, fundada em argumentos que se justifiquem, realizada com a disposição de defender posições e de mudar aquilo que é necessário; além disso, deve obedecer a princípios éticos e democráticos.

É necessário haver o envolvimento de representações de todas as áreas do conhecimento na discussão, principalmente porque a atuação nas questões ambientais não pode acontecer de forma isolada, visto que o problema é complexo e impossibilita ações particulares; ao contrário, exige ações conjuntas e consciência das implicações da própria ação em outras áreas de conhecimento. Nesse caso, também é importante levar em consideração a sabedoria popular, detentora de muitos conhecimentos e informações que, embora não sejam homologados cientificamente, não deixam de ser importantes.

Para realizar essa discussão, podem ser realizados fóruns, seminários, mesas-redondas, oficinas de trabalho, palestras e audiências públicas promovidas pelo Poder Legislativo em todos os níveis. É importante que se documentem esses eventos a fim de que não se percam suas contribuições e, assim, as discussões possam produzir frutos na prática. Mas também é importante superar a superficialidade na abordagem da questão.

4.     Aprofundamento do debate

 

O debate sobre as questões climáticas é realizado, mas nem sempre significa avanço ou aprofundamento da questão e abre perspectivas para novas formas de atuação. É muito comum ouvir: “Esse negócio é sempre igual: falam sempre as mesmas coisas, mas ninguém faz nada de novo e tudo continua do mesmo jeito”. Isso mostra que precisamos avançar nas discussões, e não ficar patinando nas mesmas questões nem ficar presos só na conversa.

Todo debate deve ter como ponto de partida a realidade, mas também deve ser propositivo em relação a ela. Não podemos ser efeito, precisamos ser causa; não podemos simplesmente responder às necessidades, precisamos nos antecipar a elas, para que possamos controlá-las ao invés de sermos por elas controlados, dominá-las e não sermos dominados.

Assim, é importante que aprofundemos o debate sobre as questões climáticas. Precisamos conhecer melhor as questões implicadas, buscar as causas dos problemas, investir na formação das pessoas e na capacitação dos nossos agentes de pastoral. Também é importante o desenvolvimento de pesquisas científicas, tanto para novas descobertas como para o aprofundamento e a legitimação dos conhecimentos atuais.

Para isso, é necessária a promoção de cursos sobre questões ambientais por parte tanto da Igreja como do poder público, assim como atividades artísticas e culturais como exposições, teatros, festivais, concursos, gincanas, olimpíadas culturais, produção de curtas-metragens e documentários, manifestações culturais como festas folclóricas e tradicionais, músicas e danças etc.

Precisamos também envolver as escolas e universidades, principalmente no desenvolvimento de projetos de pesquisas que contribuam para o aprofundamento do conhecimento e para a formação da consciência nas questões relacionadas com o meio ambiente. É de suma importância que os cursos de pós-graduação, principalmente das universidades católicas, desenvolvam áreas de pesquisas voltadas para as questões ambientais, sobretudo nos níveis de mestrado e doutorado. Tudo isso vai significar a possibilidade de encontrarmos novos caminhos para a superação dos problemas ambientais.

5.     Alguns critérios necessários para a abordagem da questão

 

É importante determinar não só a ótica de enfoque da questão, como também os valores que fundamentam a análise dela. Como a Campanha da Fraternidade é promovida pela Igreja Católica,[3] esta é que determina os critérios adotados para sua realização. No caso da Campanha da Fraternidade de 2011, os princípios teológicos iluminativos são:

a)     Teologia da criação: presente principalmente nos dois primeiros capítulos do livro do Gênesis e na literatura sapiencial bíblica, apresenta-nos o Deus amoroso que cria todas as coisas, possibilita seu crescimento e evolução e abençoa sua obra. Tendo criado o ser humano à sua imagem e semelhança, confere-lhe o encargo de cuidar do jardim e o responsabiliza pela administração e conservação, a fim de dar continuidade à sua obra criadora, seguindo os princípios que nortearam o agir criador divino;

b)    O mistério da encarnação: que une o divino e a natureza na pessoa de Jesus, de forma que nada é estranho ao reino de Deus, nem mesmo a natureza;

c)     A moral da nova aliança: que implica novas relações entre os seres humanos e Deus, entre eles mesmos e entre eles e a natureza, na construção do shalom;

d)    A restauração de todas as coisas em Cristo: ele é o primogênito da criação, que reconcilia em si as coisas do céu e da terra e possibilita que toda a criação gema em dores de parto à espera da vinda do reino.

Esses iluminativos teológicos deixam bem clara a nossa responsabilidade perante o mundo criado, assim como o valor da criação e a necessidade do amor a Deus, aos irmãos e irmãs e à natureza como critério fundamental para o nosso pensar e o nosso agir em relação ao meio ambiente.

6.     Busca de caminhos de superação dos problemas ambientais

 

As iniciativas desenvolvidas até agora em relação às questões ambientais têm sido de grande valia, porém muito ainda precisa ser feito, assim como novas perspectivas precisam ser levadas em consideração. Não se trata de negar o valor das óticas atuais sobre o meio ambiente, mas de avançar, ir além, ampliar horizontes e perspectivas.

Os iluminativos apresentados no item anterior são de grande importância para a busca de novos caminhos, pois não limitam a natureza ao social, ao político, ao econômico e ao cultural, mas abrem perspectivas para o simbólico, o sobrenatural, o espiritual, o místico e o escatológico, fazendo da natureza revelação, comunicação divina e caminho de santificação para as pessoas.

 

7.     Formação da consciência ambiental

 

A questão da formação da consciência adquiriu uma importância muito grande nos últimos anos. Discute-se sobre consciência pessoal, consciência coletiva, consciência histórica etc. Assim, também é necessária a discussão sobre a formação da consciência ambiental, ou seja, sobre a nossa capacidade de nos compreendermos como parte de um meio com o qual nos relacionamos em interdependência, com o qual trocamos gratuidades, favores e serviços, submetendo tudo isso a uma hierarquia de valores que tudo norteia e a tudo dá significado em vista da mútua realização e perfeição.

É tarefa da Igreja e da sociedade a formação para uma reta consciência ambiental, que não signifique mera apropriação da natureza em vista dos próprios interesses, legítimos ou não, ou recusa a uma relação de alteridade sadia e madura por motivo de consciência escrupulosa, que vê culpa em qualquer forma de agir. Tal consciência deve significar, antes de tudo, a compreensão da relação com a natureza como um caminho de amadurecimento e de conquista de uma vida melhor para si, para a comunidade, para as pessoas em geral e para as gerações futuras.

8.     Trocar experiências

Embora tenhamos muitas iniciativas de enfrentamento dos problemas ambientais, essas experiências muitas vezes são desconhecidas da maioria das pessoas, principalmente no que diz respeito aos seus princípios, objetivos e fundamentos, e acontecem de forma isolada e desarticulada.

É necessária a troca de experiências para que ações possam ser multiplicadas e tenham alcance maior, além de serem seriamente analisadas para a superação de erros e desvios e para a obtenção de maior eficácia.

Essa troca de experiências possibilita também o estabelecimento de objetivos comuns que permitem articulações e parcerias, unindo organizações, instituições e poderes, o que encorpa e empodera as ações, conferindo-lhes maior alcance.

O texto-base da Campanha da Fraternidade de 2011 oferece algumas pistas de ação para a realização de troca de experiências, como a realização de feiras ambientais, a promoção e a valorização dos movimentos populares, a criação de um site independente, a realização de um Fórum Nacional Ecológico que seja precedido por um processo de participação das bases, a continuidade da realização das Romarias da Terra e da Água, que já são uma prática comum em muitas regiões do Brasil.

 

9.     Contribuir

 

A preocupação com o meio ambiente, com o aquecimento global e com as mudanças climáticas não é nova. Estamos diante de desafios gigantescos e temos muitas pessoas envolvidas.

A Campanha da Fraternidade de 2011 não está apresentando uma proposta nova sobre um assunto novo. Mesmo na Campanha da Fraternidade, as questões ambientais não são novidade. Podemos citar, entre outras, a Campanha da Fraternidade de 1979, que teve como tema: “Por um mundo mais humano”, e como lema: “Preserve o que é de todos”; a de 2004, que teve como tema: “Fraternidade e água”, e como lema: “Água, fonte de vida”; a de 2007, que teve como tema: “Fraternidade e Amazônia”, e como lema: “Vida e missão neste chão”; e a de 2008, que teve como tema: “Fraternidade e defesa da vida”, e como lema: “Escolhe, pois, a vida”.

A atual campanha quer significar a adesão ainda maior da Igreja Católica no Brasil e das instituições, religiosas ou não, que quiseram ser parceiras à causa do meio ambiente, principalmente no que diz respeito às questões relacionadas ao aquecimento global e às mudanças climáticas. Com isso, a campanha quer contribuir para que a discussão avance, a consciência cresça, novos caminhos se abram e a população seja mais solidária com os que sofrem as consequências dos fenômenos climáticos.

Antes de tudo, devemos valorizar as iniciativas já em curso, mesmo que sejam imperfeitas, tenham poucos resultados ou passem por grandes dificuldades, desde que se fundamentem numa visão ética aceitável. Essas iniciativas mostram pessoas de boa vontade comprometidas com a vida e com um mundo melhor.

Devemos dar a importância devida e a nossa parcela de contribuição aos que trabalham nos campos da reflexão, da pesquisa e da busca de uma sociedade fundamentada em valores que possibilitem a sua sustentabilidade. Também é importante contribuir com os que se dedicam ao combate da poluição, à preservação do meio ambiente, à geração ecologicamente correta de energia, à reciclagem, à educação e à formação da consciência ambiental. Não podemos nos esquecer também dos que atuam no campo da solidariedade, por vezes se dedicando ao trabalho de amenizar os sofrimentos resultantes das enchentes, dos deslizamentos, das secas, das ondas de calor prolongadas e das tempestades violentas.

É importante fazermos tudo isso com a consciência de sermos uma Igreja samaritana, que foi chamada pelo papa Paulo VI de serva da humanidade e deve estar presente no coração da história, assumindo “as alegrias e as esperanças, as dores e as angústias da humanidade” (GS 1).

Análise conclusiva

 

Estamos vivendo tempos difíceis e não podemos fugir dos desafios que nos são impostos. Porém, não podemos simplesmente adotar qualquer caminho na busca da superação dos problemas relacionados ao aquecimento global e às mudanças climáticas: precisamos ter critérios.

As mudanças climáticas exigem de nós consciência e responsabilidade. Precisamos conhecer os problemas, suas causas e, principalmente, posicionar-nos diante da questão. Esse posicionamento deve ser o princípio de algo novo. Deve alargar horizontes, trazer novas motivações e possibilitar a todos os fiéis um caminho de conversão e de vida nova, expressão do tempo quaresmal, no qual a Campanha da Fraternidade se realiza.

Para que busquemos verdadeiramente a conversão, precisamos nos recordar do nosso batismo, que nos configura a Cristo. Essa configuração exige que descubramos novas faces de Cristo, para podermos ter seus sentimentos (cf. Fl 2,5). A Campanha da Fraternidade de 2011 quer que descubramos o Deus criador e o seu Filho, que realiza, com a sua encarnação, a nova criação. Precisamos responder a isso com a mudança de vida, para que o novo se faça presente já, ainda que não seja em plenitude. E o novo é o que possibilita vida, pois Jesus veio para que todos tenham vida, e a tenham em abundância (cf. Jo 10,10), e não existe vida em abundância se não houver condições naturais que a sustentem.

 

* Secretário executivo do Regional Nordeste 5 da CNBB (Estado do Maranhão), doutor em Teologia pela PUC do Rio de Janeiro. É presbítero da Diocese de Taubaté – SP.

 



[1] Para mais informações sobre esse assunto, cf. <http://www.terrazul.m2014.net/spip.php?article231>.

[2] Dados do World Almanac.

[3] Com o Projeto Rumo ao Novo Milênio e o destaque dado à exigência da evangelização inculturada do serviço, houve a experiência da Campanha da Fraternidade Ecumênica, no ano 2000, promovida pelo Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (Conic). O sucesso dessa campanha possibilitou a realização de Campanhas da Fraternidade Ecumênicas a cada cinco anos pelo Conic, mas estas devem ser autorizadas pela Assembleia Geral da CNBB para serem realizadas dessa forma, uma vez que a CNBB é detentora legal da Campanha da Fraternidade.

Pe. José Adalberto Vanzella