Artigos

Publicado em Setembro-Outubro de 1985 (pp. 27-33)

Formação do agente de pastoral e missão da Igreja na América Latina

Por Pe. Hermilo E. Pretto

Enquanto mediação do Reino de Deus, a Igreja tem uma missão universal. Sua identidade, contudo, assume também os contornos do contexto em que ela é chamada a atuar. A realidade da América Latina tem uma configuração que lhe é própria. Daí surgem exigências e desafios em referência à sua identidade e à formação de seus agentes.

 

1. A realidade latino-americana e seus desafios

Nos últimos decênios muito se tem teorizado sobre a realidade latino-americana no esforço por desvendar, a partir de sua História, os mecanismos geradores e sustentadores da situação presente. Embora, tantas vezes, se tenha feito um discurso globalizante, não levando devidamente em consideração as peculiaridades de cada país, é inegável que algo de comum existe: a herança cristã; a situação de dependência em relação aos países desenvolvidos; a riqueza acumulada nas mãos de poucos. Ainda não se tem condições, no entanto, de se falar em povo latino-americano. É possível até que não represente ganho uma evolução neste sentido, sobretudo se a consequência for o empobrecimento da originalidade de cada povo. De qualquer forma, não se tem como fugir à constatação de que estamos, em nível de América Latina, diante de um processo vertiginoso de espoliação em todos os níveis: sociopolítico, cultural, econômico e religioso. As formas de resistência são relativamente tênues sobretudo se comparadas ao poderio econômico dos países industrializados e à força dos meios de comunicação que lhe são subservientes.

Mas o que há de mais grave em tudo isso é o fato de que é a própria alma do continente que está sendo lentamente sufocada. Isso significa que a espoliação atinge o que há de mais importante e significativo: quando a esses povos não se permite, a livre escolha de um sistema de governo que atenda aos seus interesses; quando se lhes impõe uma cultura que não brota de suas raízes; quando os frutos do suor e do sangue de seus filhos fortalecem o poderio econômico dos países ricos, perpetuando a dependência; quando a riqueza inesgotável da fé, enquanto portadora de uma utopia que transcende concreções setoriais, é identificada simplesmente com algumas dessas concreções que, embora reconhecidamente particulares, são apresentadas em caráter normativo como universais, torna-se evidente que estamos diante de uma situação global de violência. E uma vez que se ignora esta violência estrutural (situação global de luta de classes) a condenação da luta de classes como prática revolucionária chega a ser uma afronta que se faz aos pobres.

Esta realidade levanta sérios desafios em todos os níveis de sua configuração. Isso porque nenhum nível pode ser compreendido como um compartimento estanque, havendo uma profunda relação de mútua dependência entre cada um deles. Na perspectiva que nos interessa nesta abordagem, a fé não tem como fugir de uma imbricação essencial coma realidade sociopolítico-econômica. Esta, com efeito, oferece à fé a única possibilidade de tornar-se real, pois, em caso contrário, permaneceria morta por não passar da condição de projeto. A conclusão de tudo isso é muito simples: o compromisso com a transformação da realidade não é opcional. Simplesmente, não existe a possibilidade de se viver a fé sem um efetivo compromisso político, em sua acepção mais ampla, enquanto tradução objetiva essencial da fé.

Os desafios desta realidade interpelam, evidentemente, todos os homens de boa vontade. Qualquer forma de omissão representaria uma fuga do único compromisso que pode dar sentido à existência humana: a busca de uma vida em plenitude, no emaranhado global de suas dimensões. Não representaria exagero, no entanto, afirmar que este compromisso envolve particularmente a responsabilidade dos cristãos. Temos aí, com efeito, o cerne do Evangelho enquanto reconhecimento do Pai como princípio e autor da vida; de Jesus comprometido, na práxis de seu ministério, com a vida em plenitude; do Espírito que ressuscita Jesus dos mortos constituindo-o Senhor e Cristo, Homem Novo, Nova Criatura; do homem convidado, na fé, na esperança e na caridade, a viver esta mesma plenitude de vida. Esta é a razão pela qual não existe qualquer possibilidade de ser cristão sem um efetivo compromisso com a vida. Se, tantas vezes, os cristãos revelam miopia ou insensibilidade frente aos graves problemas que afligem o homem (ausência do sentido da História) isso se deve à pretensão, que não é de hoje, mas de sempre, de se viver a fé sem as obras, de cultuar a Deus ignorando os irmãos.

 

2. A Missão da Igreja: Libertação do homem?

a) Abertura ao autenticamente novo

Nenhum avanço de uma instituição ocorre sem que surjam novas perguntas quanto à sua identidade. Como, de acordo com a sabedoria dos antigos, o agir procede do ser, os questionamentos em referência ao ser serão tanto mais sérios quanto mais profundas forem as transformações no agir. Não se pode ignorar, por outro lado, que o agir incide sobre o ser dando origem, em casos particulares, a uma nova identidade. Existe, por conseguinte, entre o ser e o agir uma relação dialética, de mútua influência e condicionamento. O reconhecimento desta verdade só é possível quando se está aberto ao autenticamente novo. E esta abertura é indispensável para uma caminhada histórica realmente significativa.

Em dimensão teológica, é dentro desta mesma perspectiva que surgem os questionamentos em referência à identidade da Igreja.

Enquanto comunidade de fé, ela reconhece a existência de um Deus que é Criador, isto é, autor da absoluta novidade. Assim sendo, a abertura incondicional ao novo é o espaço vital da experiência de Deus: aquele que, de acordo com o testemunho bíblico, cria novos céus e novas terras. A Igreja é guiada pelo Espírito, o absolutamente livre, aquele que sopra onde quer. Desde o seu nascimento, muitas foram as transformações pelas quais ela passou na dialética fidelidade/infidelidade. As várias formas de infidelidade sempre estão ligadas ou à cristalização de concreções históricas, ou ao frenesi de novidades: em ambos os casos ocorre um fechamento ao autenticamente novo. No fundo, trata-se de tentar domesticar o Espírito, privando-o de sua incondicional liberdade. Através de variadas formas, todas sempre parciais, relativas e provisórias, o Espírito guia a Igreja no seu compromisso irrenunciável de fidelidade à vida. É em referência a esta fidelidade que deve ser incessantemente questionada a identidade da Igreja. Qual é, efetivamente, sua missão?

 

b) Crise de identidade

Pelo que nos é dado perceber, a Igreja está vivendo hoje, particularmente em nosso atual contexto, uma profunda crise de identidade. Há sérios interrogativos quanto à especificidade de sua missão. Se disséssemos, por hipótese, que a missão da Igreja é a libertação do homem, aqui entendido não apenas em sua realidade pessoal, mas englobando seu mundo, no conjunto de suas relações (com os semelhantes, com Deus e com as coisas) provavelmente estaríamos dizendo a verdade. Tratar-se-ia, no entanto, de uma verdade extremamente genérica, que envolve realidades muito diferentes entre si como sindicatos, partidos políticos, movimentos populares, e outras congêneres. Restaria ainda por definir qual a especificidade da Igreja na libertação, isto é, em que é que ela se distingue de um sindicato, de um partido político, de movimentos populares. Há, de todo modo, um dado essencial e irrenunciável, e que é discriminante: a fé teológica. Sem ela, a Igreja não passaria de uma sociedade recreativa ou de uma entidade beneficente. O compromisso político da Igreja na América Latina, essencial para a própria significação da fé, provocou um abalo profundo de sua identidade. Constata-se que, de um lado, a grande maioria dos que se dizem cristãos pretende viver uma fé não política, isto é, sem as obras da vida. Tal fé, bem o sabemos, é morta. De outro, há grupos minoritários (geralmente de vanguarda elitista) que transformaram o Evangelho numa ideologia oferecendo sustentação à atuação política. Desta forma acaba-se por esvaziar o Evangelho, privando-o de sua dimensão teológica. As duas posturas supõem que seja possível aí identificar a autêntica realidade da Igreja.

Por refração, a crise de identidade da Igreja gera uma crise de identidade do presbítero e do agente de pastoral. São numerosos aqueles que, hoje, tantas vezes de forma angustiante, se interrogam quanto ao sentido da missão presbiteral. Os mais jovens, sobretudo os que estão a caminho, normalmente são os que mais sofrem pela ausência de perspectivas claras ou pela incapacidade de captá-las, se de fato elas existem. É inegável que, na atualidade, os modelos existentes estão em crise e deixam as pessoas insatisfeitas. De um lado há os sacerdotes que, a priori, cultuam o passado. Deles emana o ranço dos museus em abandono. Vivem de saudade e não de esperança. De outro, há os que buscam desesperadamente novidades, dando a impressão de caniços agitados pelo vento. Escasseiam, infelizmente, os que estão abertos ao autenticamente novo. E as novidades estão tão distantes do novo quanto o está a euforia da autêntica alegria. A euforia nada na superfície e se alimenta do sucesso, quase sempre efêmero. A alegria, pelo contrário, vem das profundezas do ser e não se deixa abalar nem mesmo frente à experiência do fracasso. Os que cultuam acriticamente o passado transformam a homilia numa pregação moralística, geralmente de um moralismo barato, quase sempre em matéria de sexualidade. Os sedentos de novidades não perdem a oportunidade de fazer um comício. Não é difícil de perceber que os dois grupos têm algo em comum: uma atitude básica de fechamento frente à emergência do autenticamente novo. A consequência é um afastamento do Evangelho do Novo Céu, da Nova Terra, do Homem Novo, da Nova Criatura. O Evangelho é um convite à conversão enquanto abertura incondicional ao novo trazido pelo Espírito de liberdade.

 

3. A formação do agente de pastoral

Não há como negar, em nosso contexto, a existência de uma íntima relação entre os desafios da realidade latino-americana e a crise de identidade da Igreja, do presbítero, e, em geral, do agente de pastoral. Isso levanta, como não poderia deixar de ser, sérios questionamentos em referência ao processo formativo. Muito embora a formação não esteja ligada a limites temporais e nem seja exigência de faixas etárias, é evidente que ela tem momentos fortes e privilegiados. Integrar uma comunidade formativa é condição irrenunciável de uma preparação adequada para o ministério eclesial. E isso não tanto em obediência a normas canônicas, mas em obediência sobretudo à condição humana e à seriedade do compromisso à que se échamado a assumir.

Não existe crescimento cultural sem esforço. Não existe amadurecimento humano sem autodisciplina. Não existe autêntica vivência de fé sem profunda experiência de Deus. A pretensão de atingir objetivos prescindindo de mediações configura monumental ingenuidade e tem como consequência inevitável o fracasso. A tarefa do agente de pastoral é a de criar espaços e condições para que o Reino de Deus aconteça na História dos homens. E História se faz com pessoas e não com personagens. Personalidades globalmente inconsistentes só podem gerar futilidades, nunca autêntica História de Libertação. A suficiência gera agressividade e não paz. E o Reino é também testemunho da radical insuficiência do homem e da necessidade de entrar num processo crônico de aprendizagem. Antes de ser comunicador, o agente de pastoral é chamado a ser ouvinte atento da Palavra de Deus e a colocar-se na condição de discípulo do Evangelho. Levando em consideração todos esses aspectos, são necessárias algumas exigências básicas:

 

a) Uma compreensão profunda da realidade

Supõe-se hoje com muita frequência, sobretudo entre os candidatos ao ministério presbiteral, que a realidade seja transparente e se deixe captar com um simples olhar. Essa é a razão pela qual ocorre uma frequente substituição da preocupação de compreender pela de transformar a realidade. É preciso que se diga, a bem da verdade, que não estamos diante de tarefas alternativas. Pode-se até reconhecer que a tarefa de transformar é prioritária. Ocorre, no entanto, que a perspectiva e a profundidade da transformação dependem essencialmente do nível de compreensão. Em nível de realidade eclesial, a visualização da fé como práxis de vida nova, essencial em termos de fidelidade ao Evangelho, teve como efeito colateral um menosprezo pelo esforço teórico em desvendar o mistério da realidade. Não é segredo para ninguém que estamos, hoje, diante de um progressivo e vertiginoso rebaixamento do nível cultural do clero e, em geral, do agente de pastoral. Nem sempre a responsabilidade pode ser atribuída com exclusividade aos indivíduos. Há casos frequentes de irresponsabilidade de coordenadores de comunidades, de superiores provinciais e de bispos que, preocupados com o crescimento quantitativo de seus efetivos, pouco interesse manifestam pelo aproveitamento nos estudos. Frente a isso, constitui fuga de responsabilidade jogar a culpa nos Institutos de Filosofia e Teologia.

No caso específico dos candidatos ao ministério presbiteral, há algumas peculiaridades que merecem atenção especial. Com raras e gratificantes exceções, o tempo dedicado ao estudo, à pesquisa séria, ocupa um espaço mais ou menos irrelevante na programação de vida de um seminarista. Não faltam aqueles que, como nos foi dado ouvir num Instituto de Teologia, veem na Teologia um obstáculo inevitável para chegar ao sacerdócio. Há indícios, no entanto, que nos permitem concluir que não é o estudo da Teologia, mas o estudo simplesmente, que constitui esse obstáculo. Isso significa que a substituição da Teologia pela Sociologia, por exemplo, substancialmente não alteraria a situação. A problemática apresenta enorme complexidade. Qualquer tentativa de chegar ao cerne da questão corre o risco de embrenhar-se por atalhos que não levam a lugar nenhum, ou então a considerar como central uma motivação que, em verdade, é meramente periférica. Nesta abordagem limitar-nos-emos a apontar alguns elementos que, mesmo não sendo únicos e nem pretendendo ser os mais importantes, parecem exercer peso considerável em nosso atual contexto latino-americano.

A partir de Medellín e Puebla, a Igreja da América Latina fez uma clara e profética opção preferencial pelos pobres. Enfrentando a perspectiva da marginalização, em decorrência da crítica cerrada que lhe seria feita, e superando a tentação do populismo ou até mesmo da recuperação do espaço perdido através de uma nova força emergente, a Igreja procurou ser coerente com esta opção. Houve, a partir daí, todo um fervilhar de iniciativas, com o aprofundamento da solidariedade para com as vítimas de um sistema sociopolítico-econômico estruturalmente injusto. Com isso cresceu também, sobretudo através das Comunidades Eclesiais de Base, a fidelidade ao Evangelho de Jesus.

Não se pode esquecer, no entanto, que nenhuma transformação na História está isenta de ambiguidades. O pobre, com efeito, não é apenas aquele que mais necessita de ajuda. Ele é também aquele que menores exigências faz ao evangelizador. Não tendo acesso à cultura, em sua acepção erudita, e estando marcado por um respeito incondicional frente ao sagrado, o pobre acaba transformando o padre numa seriedade a priori. O simples fato de alguém ser padre, independentemente de sua efetiva competência, torna-o objeto de respeito e consideração. As pessoas normalmente são avaliadas por aquilo que fazem. O padre é avaliado, positivamente e a priori, por aquilo que ele é, isto é, por seu status clerical: alguém que mexe com o sagrado e que se supõe seja possuidor de poderes extraordinários. Em qualquer lugar que chegue, ele é imediatamente levado a sério. Por outro lado, a carência a informativa do pobre priva-o da capacidade de contestar o discurso que lhe é feito. Neste contexto, até mesmo monumentais mediocridades têm condições de fazer sucesso. A grandeza de um presbítero e a qualidade de seu serviço ministerial, no entanto, não se medem pelo êxito alcançado, mas pela fidelidade profunda à sua vocação e pela adoção de critérios evangélicos e não meramente ideológicos. O tempo se encarregará de desvelar a inconsistência ou a autenticidade dos projetos de pastoral.

 

b) A Sabedoria que vem de Deus

O “sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e dominai-a…” (Gn 1,28), em nível de antropologia teológica, configura o essencial da vocação do homem. Ele, que foi criado à imagem e semelhança de Deus, é convocado a transformar o mundo à sua imagem e semelhança. A vocação do homem, por conseguinte, é a humanização da História, fazendo com que ela seja sempre mais um espaço de liberdade. Sem a responsabilidade histórica do homem, a criação-esboço nunca desembocará na criação-plenitude. Esta caminhada histórica, sempre conflitiva e frequentemente marcada pelo retrocesso e por variadas formas de escravidão, alimenta-se de uma viva esperança de que a lei da liberdade será, finalmente, a lei da História.

É nessa perspectiva que ganha sentido a missão essencial do agente de pastoral. Ele é testemunha viva e atuante de uma esperança que não se engana porque expressão de uma sabedoria que capta a transparência da realidade e lhe aponta o caminho a seguir. A sabedoria dos homens alimenta-se com frequência em critérios de conveniência e interesse. Com isso, a ação que se lhe segue permanece na superfície e se revela incapaz de ir à raiz mais profunda. Não é possível uma autêntica humanização da História sem um mergulho contemplativo em sua profundidade. A práxis essencial vive de uma mística que é um olhar a partir de dentro e que se alimenta na fé. A inoperância histórica ou a inconsistência do compromisso político dos cristãos, enquanto expressão objetiva de sua fé, decorrem também de que eles se deixem normalmente guiar mais pela insensatez do mundo do que pela sabedoria de Deus. Sua preocupação é muito mais a de resolver problemas do que a de semear esperança num mundo profundamente marcado pelo desespero.

A atitude contemplativa e a vivência profunda e autêntica da espiritualidade constituem exigências irrenunciáveis para quem se sente vocacionado a viabilizar historicamente o Reino de Deus. A maior tentação que sofre o agente de pastoral é a de se transformar em funcionário público do Reino de Deus, através de suas múltiplas mediações. Adota-se com frequência o critério da eficiência produtiva, e a experiência pessoal de Deus torna-se um luxo perfeitamente dispensável. É aqui que se faz sentir a exigência de uma sabedoria que vem de Deus, que é dom e não fruto do esforço do homem. É desta sabedoria que nos fala Paulo em 1Cor 2,7-8: “Ensinamos a sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que Deus, antes dos séculos, de antemão destinou para a nossa glória. Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu, pois, se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da Glória”.

Nem sempre essa sabedoria está ligada à erudição. São os simples, os pobres, as crianças, os pequenos do Reino que a vivenciam em maior profundidade. “Quando os sábios esgotaram a própria sabedoria, convém ouvir as crianças” diz a Priora na obra de Bernanos “Diálogo das Carmelitas”[1].É esta constatação que permite a Jesus exultar de alegria sob a ação do Espírito Santo e dizer: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, as revelaste aos pequeninos” (Lc 10,21). O agente de pastoral que não capta esta sabedoria e se revela incapaz de aprender com os pequenos perde sua qualificação essencial.

 

c) Agentes de pastor ou ativistas sociais?

A preocupação pela busca de identidade do presbítero e, em geral, do agente de pastoral, ligada à dinâmica e ao conteúdo de sua formação, levanta a questão dos critérios que permitiriam estabelecer as linhas de demarcação entre o simples ativista social, preocupado em desencadear forças históricas, e o agente de pastoral, movido por uma fé teológica. Convém esclarecer que nossa abordagem não se orienta por uma postura alternativa entre ação social e vivência da fé. Conforme foi assinalado mais acima, uma fé não comprometida com a transformação da realidade é uma fé morta. A fé apresenta o Reino como projeto. A política configura o conjunto das mediações que permitem sua viabilização histórica.

No fundo, trata-se de discernir em que consiste a contribuição específica do cristão no compromisso com a vida em plenitude, que é de todos e não apenas dos cristãos. Um compromisso efetivo com a libertação não passa necessariamente pela mediação de uma fé teológica, enquanto reconhecimento de um Pai que é criador e fonte de toda vida; de um Filho que redime a História assumindo a condição humana; de um Espírito Santo que santifica, ilumina e fortalece na fidelidade ao Reino. Mas a vivência da fé não é indiferente ou insignificante. Enquanto dom de Deus e não fruto do esforço do homem, a fé deve provocar um gesto de ação de graças e um aprofundamento do compromisso com a vida. Ela é, acima de tudo, um mergulho contemplativo na realidade, captando-lhe a transparência, e uma práxis de vida nova. É a partir daí que é possível perceber que a História, entendida em sua acepção mais plena como sucessão de acontecimentos marcados pelo autenticamente novo, é a epifania de Deus. A História não é Deus. Mas ela é sua presença fatual.

É evidente que a vivência da fé, na exata medida em que é uma experiência original, não redutível a nenhuma outra, deve informar e qualificar toda a vida das pessoas que a ela têm uma ligação essencial. Daí exatamente brotam os critérios segundo os quais se devem pautar o presbítero e o agente de pastoral. Sem reivindicar nenhum privilégio e sem imaginar que a fé, enquanto dom, lhes confere qualquer status, o presbítero e o agente de pastoral devem encontrar uma maneira própria de percorrer o caminho que é comum a todos. Sem esta incidência original na praxis, a fé torna-se um luxo perfeitamente dispensável.

É aqui justamente que ocorrem as maiores confusões. O caminhar juntos de pessoas que não compartilham a mesma fé teológica costuma ferir a identidade das pessoas que se alimentam nesta fé. A título de exemplo, poderíamos nos perguntar: segundo quais critérios é possível estabelecer o que é inútil e o que é perda de tempo? Há um conjunto de critérios que vêm da eficiência produtiva. A Igreja é aqui imaginada como uma monumental empresa de produzir libertação. Nesta perspectiva, como não poderia deixar de ser, ganham destaque as opções pelas forças efetivas e pelas categorias sociais efetivamente capazes de uma ação eficaz. Os momentos celebrativos e contemplativos, o cultivo da espiritualidade e a profissão explícita da fé passam a ser considerados como insignificantes até mesmo como pura e simples perda de tempo. Estamos em cheio na dinâmica do capital. A excelência de muitos resultados obtidos através desta ansiedade produtiva exerce enorme poder de sedução sobre os agentes de pastoral. Com frequência eles sofrem até de um complexo de inferioridade, pois têm a impressão de que a fé, mais do que oferecer um impulso maior para o compromisso na transformação da realidade, exerce uma função de entrave ou de bloqueio. Daí a tentação de seguir outros caminhos. E quando isso acontece, isto é, quando o agente de pastoral sucumbe à dinâmica da produção, ele acaba por esquecer os critérios da gratuidade, desta sabedoria que vem de Deus.

O Evangelho de Jesus é essencialmente o Evangelho da Graça. O fracasso produtivo não leva à frustração e ao desespero aqueles que neste Evangelho encontram os critérios que orientam sua vida e sua ação. Quem se envolve numa rede produtiva não tem como fugir de um intrincado jogo conflitivo de interesses. A consequência é a de que os pequenos do Reino, aqueles que testemunham a sabedoria que vem de Deus, acabam sendo relegados à margem da História. A prática de Jesus, pelo contrário, considera esses pequenos como os protagonistas da História. Parece-nos que não se prestou suficiente atenção para a tensão entre a dinâmica do Reino, explicitada no Evangelho da Graça, e a dinâmica produtiva do capital. A crítica ao capitalismo torna-se uma vã retórica se não for acompanhada pela vivência profunda do Evangelho da Graça. Substituir o capitalismo econômico pelo capitalismo pastoral não representa ganho para ninguém.

O atual momento eclesial, com a tentativa, inclusive, de bloquear a caminhada mais significativa, está marcada por tanta confusão que não causaria estranheza o fato de alguém, ao mesmo tempo, adotar os critérios da eficiência produtiva e até mesmo não ter fé teológica, e desejar ardentemente ser presbítero. Isso talvez se explique pela dificuldade de ser levado a sério sem o status clerical. É a partir da adoção dos critérios fundamentais que é possível distinguir um ativista social de um agente de pastoral. Se a Igreja não é uma empresa produtiva, mas uma comunidade-testemuho, não temos como fugir da conclusão de que a vivência da fé teológica e a adoção de relações de gratuidade, e não de interesse, tornam-se essenciais na formação de um agente de pastoral e de um presbítero.



[1] G. Bernanos. Les dialogues des carmelites. Paris: Ed. du Seuil, 1984, p. 107.

Pe. Hermilo E. Pretto