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Publicado em Janeiro-Fevereiro de 2013 (pp. 23-32)

Juventudes e contemporaneidade

Por Flávio Munhoz Sofiati

O artigo analisa a juventude brasileira sob o ponto de vista da organização e da participação na sociedade. Em uma realidade de desarticulação, os poucos espaços remanescentes de organização juvenil são algumas instituições religiosas, em particular expressões carismáticas e pentecostais.

INTRODUÇÃO

A proposta deste artigo é debater a questão da ação social juvenil no Brasil, considerando sua perspectiva de mobilização social, política, cultural e religiosa. Para isso, é preciso recorrer à história em vista de construir um panorama para compreender como se transformou o modo de organização das juventudes ao longo do século XX e início do século XXI. Além disso, é importante discutir alguns conceitos que ajudam a entender a temática dos jovens, principalmente os elementos que possibilitam analisar sua realidade na contemporaneidade.

O termo “juventude” é empregado no artigo em referência específica à organização dos jovens enquanto categoria social em formas de agrupamentos. É importante ressaltar de início que uma pequena minoria tem se articulado hoje em dia, visto que a imensa maioria (aproximadamente 85%) do segmento juvenil não se constitui enquanto juventude, ou seja, se encontra totalmente desorganizada, muitas vezes desorientada e quase sempre destituída de seus direitos fundamentais.

Além disso, tem-se a tese de que o jovem se configura elemento de elo e transição no interior de uma sociedade, visto que os aspectos principais e definidores do conceito estão contidos na ideia da juventude ser ao mesmo tempo “uma fase da vida, uma força social renovadora e um estilo de existência” (FORACCHI, 1965, p. 302).

Para Janice T. Sousa (2006, p. 10), “Ser jovem é viver um ‘contato original’ com a herança social e cultural, constituindo-se não apenas por uma mudança social, mas por fatores biológicos”. Esse segmento social que participa da sociedade estabelecida, todavia, produz novas interpretações e, consequentemente, gera novas formas de ação social.

Para entender esse processo, faz-se necessário inserir a abordagem apresentada nos marcos dos estudos que tratam a temática da juventude “pensando nos termos da existência de uma cultura juvenil com os paradoxos de integração e diferenciação” (Sallas, 2006, p. 49). Pois se leva em consideração a multiplicidade de formas de sociabilidade existentes na vida cotidiana dos jovens, marcadas por relações grupais – na escola, igreja e família – e nos agrupamentos especificamente juvenis – hip-hop e punks, por exemplo.

1. Identidades juvenis

Para entender as identidades dos jovens brasileiros, é importante de antemão usarmos alguns elementos conceituais significativos que são apresentados no livro Religião e Juventude: Os novos carismáticos (Sofiati, 2011).

A referência inicial para a definição do termo juventude é a obra da professora Marialice M. Foracchi, que trata da questão dos estudantes e da relação juvenil com a modernidade. Para ela, cada sociedade constitui o jovem à sua própria imagem. A autora argumenta ainda que a definição do conjunto dos jovens enquanto categoria histórico-social ocorre no momento em que este se afirma como movimento de juventude, pois a noção de juventude é uma criação da própria sociedade moderna. Por isso, é necessário entender a juventude para entender as diversas características dessa sociedade, já que ela compõe o processo histórico-social de construção da modernidade.

Como afirma Maria H. O. Augusto (2005, p. 20), “A mobilização dos recursos e das potencialidades que possui depende diretamente das alternativas abertas aos jovens por sua inserção social, pelas posições que ocupam, pelos caminhos oferecidos para sua trajetória”. Dessa maneira, a juventude corresponderia ao momento de descoberta da vida e da história. Sua participação nas esferas sociais depende da capacidade de inclusão e do modo como os adultos, os estabelecidos, reagem aos novos modos de ação apresentados pelos jovens.

A obra de Foracchi é um clássico nos estudos sobre juventude, pois se mantém central para a discussão atual do tema. “Sua reflexão permanece viva e traz contribuições para o campo de conhecimento que tratou” (Augusto, 2005, p. 12). A definição do termo juventude como categoria social é constituída no trabalho de Foracchi a partir de três aspectos: a) o desenvolvimento de relações interpessoais; b) a presença de manifestações vinculadas à situação de classe; c) e a referência aos processos de transformação da sociedade. Augusto (2005, p. 13) argumenta que a articulação desses três níveis permitiu a equação abrangente do processo de construção da categoria juventude.

Na mesma direção dessas autoras, Luis A. Groppo (2000, p. 18) defende que a própria “criação das juventudes é um dos fundamentos da modernidade”. Nessa afirmação, o autor também defende a ideia de que não podemos trabalhar com um único conceito de juventude, mas com o termo juventudes para compreender a multiplicidade de condições juvenis presentes na sociedade brasileira. Há uma pluralidade de juventudes definidas a partir de grupos sociais concretos que possuem um recorte sociocultural de classe social, estrato, etnia, religião, gênero, região, mundo urbano e rural, sendo que várias juventudes convivem em um mesmo tempo e espaço social, havendo também diferenças entre os jovens que vivem numa mesma sociedade.

Na perspectiva de Karl Mannheim (1967, p. 52), há um potencial de mudança inerente na juventude em consequência da originalidade apresentada por uma “geração nova”. A juventude possui essa potencialidade revitalizadora pelo fato de não estar completamente envolvida no status quo da ordem social, visto que “o fato relevante é que a juventude chega aos conflitos de nossa sociedade moderna vinda de fora. E é esse fato que faz da juventude a pioneira predestinada de qualquer mudança da sociedade”. Por esse motivo, a juventude se torna apta a simpatizar com movimentos políticos, sociais, culturais e religiosos que estão insatisfeitos ou questionam o estado de coisas existentes.

No entanto, essa força transformadora, esse elemento dinâmico, é portador de mudanças tanto progressistas como conservadoras. Como exemplo, tem-se respectivamente a juventude estudantil francesa dos anos 1960 e a juventude alemã nazista dos anos 1940. Para Mannheim (1967, p. 51), a “juventude não é progressista nem conservadora por natureza, porém, é uma potencialidade pronta para qualquer nova oportunidade”. Também nessa direção, Foracchi (1965, p. 303) aponta que “juventude e história são entidades que se confundem enquanto manifestação do novo”.

O significado da juventude na sociedade moderna muda conforme o contexto histórico, pois sua formação é definida e concretizada a partir daquilo que se espera dessa categoria social. Por isso Mannheim afirma (1967, p. 49) que “A juventude pertence aos recursos latentes de que toda sociedade dispõe e de cuja mobilização depende sua vitalidade”. Dessa forma, “as sociedades dinâmicas utilizam as potencialidades da juventude para produzir transformações”. No entanto, essa potencialidade só se transforma em função social quando há um processo de integração desses agentes revitalizadores. Para Mannheim, essa situação de agente estranho é apenas uma potencialidade que pode ser suprimida ou mobilizada conforme “influências orientadoras e diretoras vindas de fora”. Dessa forma, o contexto histórico e o processo de formação pelo qual passa a juventude são fatores decisivos na definição de sua postura diante da sociedade.

A partir dessas definições, podemos afirmar que, sociologicamente, os jovens são uma categoria que está majoritariamente à margem da sociedade em conjunto com as classes oprimidas, os intelectuais independentes etc. Paul Singer (2005, p. 27) trabalha com a ideia de juventude como “pessoas que estão numa mesma faixa etária” (entre 15 e 24 anos), vivenciando a realidade em “estágios vitais semelhantes”. Ele constata que os jovens de hoje nasceram em tempos de crise social. Também é importante ressaltar que “o jovem e seu comportamento mudam de acordo com a classe social, o grupo étnico, a nacionalidade, o gênero, o contexto histórico, nacional e regional etc.” (Groppo, 2000, p. 10).

Diante do exposto, é preciso apresentar um panorama da juventude no Brasil do século XX em suas mais variadas tendências e posturas, mostrando como, na contemporaneidade, os grupos religiosos e culturais se transformaram nos principais focos de atração desse segmento social.

2. As juventudes ao longo da história

Para pensar o tema, temos que fazer um resgate histórico da organização dos jovens no Brasil. O referencial principal para isso será o artigo intitulado “A juventude no Brasil: História e organização” (Sofiati, 2008).

As primeiras experiências de organização dos jovens no Brasil ocorreram sob a égide do movimento abolicionista no século XIX. Os jovens abolicionistas abriram as portas para a ação juvenil, tendo uma atuação radical em defesa dos escravos e organizando inclusive fugas em massa. O jovem Joaquim Nabuco foi uma das principais referências políticas desse movimento, que teve papel decisivo no processo que possibilitou a proclamação da República.

Nos anos 1920, três grandes movimentos de expressão da consciência política dos jovens foram inaugurados: o Movimento da Semana de Arte Moderna (1922), o Movimento Tenentista (1922) e o movimento político-partidário que deu origem ao PCB (1922). No livro de Augusto Caccia-Bava (2004, p. 64), há a afirmação de que “Os grupos de jovens se formaram em torno desses movimentos e foram protagonistas de novas ideias, novas concepções de nação e de Estado”.

Entre os anos 1930 e 1950, os jovens organizados possuíam como principal característica a solidariedade às classes menos favorecidas e tinham uma atuação política com um recorte de classe social, ou seja, uma atuação ligada ao movimento sindical. Havia também um protagonismo nos projetos unificadores da nacionalidade que tinha como principais movimentos a juventude integralista (1932), o início do movimento estudantil com a fundação da UNE (1937) e o movimento religioso em torno da Ação Católica (1935).

Nos anos 1960, a juventude passou a se apresentar para a sociedade com maior ênfase por intermédio do movimento estudantil, com suas variadas tendências político-ideológicas, e da juventude católica, organizada na ACE. A Ação Católica Especializada era formada pelas juventudes da JAC (agrária), JEC (estudantil), JIC (independente – mulheres de classe média), JOC (operária) e JUC (universitária).

A professora Regina Novaes (2000) afirma que esses jovens, principalmente aqueles organizados em entidades partidárias e sindicais, na tentativa de uma aproximação com setores trabalhistas, apresentavam-se como iguais na relação com a classe trabalhadora, apesar da grande heterogeneidade dos agrupamentos juvenis. Os jovens do movimento estudantil eram provenientes majoritariamente da classe média urbana e questionavam os valores da cultura e da política. Nesse contexto, a influência estudantil era hegemônica e levava para o seu interior grande parte dos agrupamentos juvenis existentes, como, por exemplo, os jovens católicos da JUC (Juventude Universitária Católica).

Na década de 1970, em virtude da repressão da Ditadura Militar, há em seu início pouca movimentação da juventude. Prevalecia maior articulação no interior da Igreja Católica a partir dos “Movimentos de Encontro”, que possuíam cunho espiritualista e eram comprometidos com a resolução dos problemas psicoafetivos dos jovens. As outras juventudes que resistiram a esse processo, em sua maioria, atuavam nos movimentos clandestinos de luta armada e guerrilha.

Nos anos 1980, há o surgimento das tribos urbanas, que são retratadas por Abramo em seu livro Cenas Juvenis. A autora destaca o surgimento de agrupamentos de jovens presentes, principalmente, nas grandes cidades brasileiras, como, por exemplo, os punks e os darks. Nos anos 1980, houve o enfraquecimento do movimento estudantil, pois a “identidade estudantil não passava mais pela política, como ocorreu nos anos 60 e 70”, acarretando a despolitização desse movimento a partir dessa década (Cardoso, 1995, p. 26).

Portanto, a partir dos anos 1980 há o distanciamento da militância tradicional: a referência não era mais o partido e o sindicato, mas o movimento social específico. Nesse processo, os jovens passam a assumir novas formas e perspectivas de participação social e política. Os dois principais exemplos desse processo são o nascimento do Movimento Cultural Hip-Hop e a militância das Pastorais da Juventude do Brasil.

A conjuntura dos anos 1990 traz o perfil de uma “juventude que vive um tempo distante das grandes utopias transformadoras” (Sousa, 1999, p. 13). Os anos 1990 vêm comprovar a tese de que a juventude não é necessariamente portadora de utopias e projetos de transformação. “Intenções, utopias, projetos, rebeldias, transgressões são elementos concretos nas relações vividas por essa faixa etária, mas, isolados como comportamentos próprios dos jovens, não são explicativos das relações que envolvem a juventude” (Sousa, 1999, p.25).

As subjetividades e as condições sociais dos jovens dos anos 1990 estão marcadas por condições diversas e distanciadas dos métodos de realização das utopias revolucionárias. A preservação da individualidade em detrimento de um controle social por parte do grupo é vista como legítima. “Fazer política, para esses jovens, não pode ser um ato que abafe a individualidade, pelo contrário, o coletivo deve incorporar a forma de ser de cada um” (Sousa, 1999, p. 194).

O jovem quer ser autônomo dentro do grupo e, ao mesmo tempo, vê o grupo como referência para o reconhecimento das ideias compartilhadas. A juventude dos anos 1990 é uma geração individualista: não “abre mão” dos seus desejos. Sendo assim, não “há causa coletiva que o arrebate para uma condição que tenha como limite rever sua autonomia individual” (Sousa, 1999, p. 200).

Entretanto, há de se destacar a presença dos Carapintadas, protagonistas do movimento de impedimento do exercício da presidência de Fernando Collor de Mello, e a juventude do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), considerado como um dos únicos movimentos sociais que resistiram ao estabelecimento do neoliberalismo no Brasil. Mas o que passa a predominar nesse período em termos de organização juvenil são os movimentos culturais articulados em torno da música, do teatro e da dança.

Na opinião de Ruth Cardoso (1995, p. 27-28), não devemos comparar os jovens dos anos 1960 e 1970 com os jovens dos anos 1980 e 1990. Isso porque ambas as juventudes possuem modos diferentes de participação nos espaços de sociabilidade. Por exemplo, na opinião de Novaes (2000, p. 54), “Os jovens, através de atividades culturais e experimentos sociais, podem trazer para a agenda pública a questão dos sentimentos e contribuir para a mudança de mentalidade”. A autora vê como positiva a participação da juventude dos anos 1990 nos movimentos culturais e lúdicos. Por isso, “os conteúdos das ações coletivas dos jovens de hoje não significam nem retrocesso nem avanço, mas o que é possível historicamente sua geração ser portadora” (Sousa, 1999, p. 14).

Para entender as mudanças ocorridas no perfil da juventude nos últimos anos, é necessário observar as mudanças da própria sociedade brasileira, principalmente no que tange à questão educacional, trabalhista e política. Por isso, procura-se analisar esses diferentes temas na perspectiva juvenil. Assume-se o pressuposto de que os espaços privilegiados pela juventude para participação na sociedade se transformaram conforme o desenvolvimento histórico, sendo que nos anos 1960 e 1970 havia o predomínio do sindicato e movimento estudantil, nos anos 1980 dos movimentos sociais e nos anos 1990 os jovens atuam de forma diluída e fragmentada nos movimentos culturais e lúdicos.

Os jovens dos anos 2000 são socializados predominantemente nos movimentos religiosos, principalmente os carismáticos e pentecostais, em sua manifestação mais recente chamada de “terceira onda”. Porém, não se pode deixar de considerar que uma das resistências a essa tendência se consolidou em torno da juventude do Fórum Social Mundial, realizado no Brasil nos anos 2001, 2002, 2003 e 2005. A principal atividade desses jovens foi a organização de acampamentos para debates, eventos e encontros com o objetivo de reconstruir o movimento de juventude de cunho político e social.

No entanto, a juventude do FSM é uma exceção à regra, visto que os jovens de hoje se articulam prioritariamente no ambiente religioso. Os motivos dessa condição atual são explicados a seguir.

3. O novo modo de atuar dos jovens

Os jovens da atualidade mantêm as principais características dos jovens dos anos 1990. A novidade está na crescente adesão aos movimentos religiosos, principalmente às igrejas e correntes do pentecostalismo católico e evangélico. A religião se consolidou como uma das principais formas de organização grupal da juventude. Pesquisas apontam que em média 20% dos participantes dos grupos de oração da RCC e dos cultos das igrejas pentecostais são jovens (Prandi, 1998, p. 164). Além disso, diversas pesquisas, entre elas a Pesquisa Perfil da Juventude Brasileira (Abramo, 2005), evidenciam que os jovens são organizados principalmente pelas instituições religiosas.

Assim, é possível compreender a relação de causalidade que há entre a realidade social da juventude brasileira e sua adesão às igrejas e correntes do pentecostalismo. O panorama histórico apresentado, apesar de breve, mostra as afinidades de organização presentes nas diversas juventudes nos diferentes momentos históricos. A questão da religião é abordada aqui para descrever as afinidades eletivas existentes entre as características da juventude contemporânea e as igrejas de conteúdos predominantemente magicizados. A atual situação da educação e do trabalho aponta para um panorama de dificuldades sociais enfrentadas pelos jovens no país e desemboca na questão do distanciamento da ação política tradicional.

Enfim, ao analisar a perspectiva juvenil, é fundamental inserir a questão da necessidade de uma compreensão mais aprofundada dessa realidade no Brasil, mostrando como as instituições religiosas se tornaram importantes espaços de organização dos jovens.

Além disso, o processo histórico apresentado traz à tona a questão dos motivos que levaram os jovens a mudar seu perfil de organização. Em relação à Igreja Católica, por exemplo, é preciso entender os motivos que levaram os jovens católicos, que nos anos 1980 participavam ativamente das pastorais sociais e da juventude ligados à Teologia da Libertação, na atualidade a aderir em massa aos grupos de oração, comunidades de vida e aliança do movimento carismático católico.

Uma das respostas seria afirmar que nos anos 1970 e 1980 predominavam no país os movimentos sociais como referência para grande parte da juventude organizada. Nesse período, as pastorais da juventude tinham identificação e organização muito vinculada aos principais setores sociais da esquerda brasileira. Nos anos 1990 e 2000, há o predomínio dos movimentos comunitários, cuja característica principal é “a afirmação pública de um conjunto de valores referentes a uma identidade particular e não mais a cidadania enquanto afirmação de direitos civis para todos”, predominante dos movimentos sociais (Aubrée, 1996, p. 77).

Nesse sentido, é “sobretudo no campo religioso que se deu a maior expressão desses ‘movimentos comunitários’ que em muito diferem dos ‘movimentos sociais’” (Aubrée, 1996, p. 78). Essa mudança de contexto influenciou no método e nas opções de organização dos jovens católicos, que passaram de uma organização predominantemente política, preocupada com a questão da cidadania (CEB’s e pastorais, por exemplo), para uma organização comunitária voltada para a identidade e vida pessoal, presentes nas comunidades de vida e aliança e grupos de oração do movimento carismático católico.

Por fim, faz-se necessário afirmar que a procura do religioso na vida juvenil está diretamente relacionada com a busca da autonomia, com a construção da identidade parental (conflito familiar) e social (conflito com o mundo), além do desejo de experimentação de novas sensações e de novas experiências. Esse contexto cria uma religiosidade juvenil diferenciada que pode ser retratada, por exemplo, no crescimento do movimento PHN (Por Hoje Não vou mais pecar), setor juvenil da comunidade carismática Canção Nova, como tendência predominante dessa realidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O texto procura mostrar que a juventude brasileira teve diversas maneiras de se organizar ao longo do século XX e entrou no século XXI predominantemente articulada em torno das igrejas, principalmente evangélica e católica. Também fica evidente que o movimento cultural tem atraído uma parte significativa da juventude. No entanto, a realidade geral é de que há a desarticulação da grande maioria de jovens no país. Por isso, vislumbra-se uma cultura de não participação da juventude no contexto social brasileiro.

A não participação é fruto menos de desinteresse da juventude e mais da sua condição de exclusão. A maioria dos jovens no país é de família de baixa renda, que vive em condições precárias e destituída de condições mínimas para patrocinar a educação dos filhos. Portanto, a baixa participação política, da população em geral e dos jovens em particular, passa pelas precárias condições de vida existentes no Brasil.

A dívida social do Estado com a juventude é gigantesca. A educação pública não tem qualidade e é desinteressante, o mercado de trabalho não cresce o suficiente para gerar novos postos de trabalho e os bairros da periferia não possuem estrutura que garanta cultura e lazer para seus moradores.

Das poucas opções existentes para o segmento juvenil, as igrejas cristãs passam a ocupar um espaço significativo. E esse segmento social se aventura nas religiões em busca da reconstrução da identidade e do projeto de vida. Entretanto, a resposta dada pelas instituições cristãs tem sido insuficiente para resolver os principais desafios dos jovens.

Dessa forma, finaliza-se com a constatação de que a situação da juventude brasileira apenas mudará com a ação articulada da sociedade civil e do Estado no sentido de integrar os jovens, aproveitando suas potencialidades e possibilitando que o novo surja a partir da ação social juvenil.

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Flávio Munhoz Sofiati

* Professor adjunto de Sociologia da Universidade Federal de Goiás, Faculdade de Ciências Sociais. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo e autor dos livros Religião e juventude: Os novos carismáticos (Idéias & Letras/FAPESP) e Juventude Católica: o novo discurso da Teologia da Libertação (EDUFSCar / CAJU). E-mail: sofiati@gmail.com.