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Publicado em Setembro-Outubro de 1997 (pp. 19-23)

O feminino como utopia na Igreja

Por Ir. Bárbara P. Bucker, mc

O presente número de Vida Pastoral dedica-se a redimensionar uma das grandes necessidades do nosso tampo: a utopia. A Igreja, como utopia da humanidade, ocupa lugar importante nisso, e, dentro dela, a compreensão do feminino.

Por isso desenvolveremos este tema partindo de uma imagem de utopia bastante acessível para nós.

A grande utopia de Jesus é o Reino. Com a oração do Pai-Nosso, Jesus coloca-nos constantemente a utopia do Reino no coração, assegurando-nos que essa vontade chega a se realizar na terra — ainda que com as limitações próprias da atividade humana tendo sua plenitude de realização no céu.

Nossa reflexão inicia com a explicação bíblica sobre o ser humano como imagem de Deus, reivindicando o humano expresso não só no masculino, mas na conjugação do masculino e do feminino. Acreditamos que essa leitura do Gênesis nos permite reinterpretar o evangelho de Jesus como o anúncio do “feminino do Pai”. Permite-nos recuperar a realidade do paradoxo entre um ministério eclesiástico masculino e uma realidade feminina da Igreja, que em seus momentos sacramentais mais importantes, quais sejam: “dar de comer” a seus filhos do pão da eucaristia, e quando os reúne no abraço da misericórdia e do perdão, o faz como mãe amorosa, que não pode perder esse horizonte.

A partir disso, passamos a considerar o contraste entre a topia masculina do mercado e da racionalidade econômica do intercâmbio, e a utopia do feminino da vida doméstica, com a lógica feminina de procriar e educar a vida desde a gratuidade. Não sentimos a humanidade como uma grande família, porque o feminino está ausente da vida pública da humanidade.

A partir daí, nascem alguns problemas e perguntas: Qual seria o papel da mulher na utopia humana? Qual seria o papel de uma Igreja entendida femininamente como esposa de Cristo? Qual seria o novo papel das mulheres na Igreja?

Essas perguntas são vitais para a “vida pastoral” — título desta revista —, se queremos que a pastoral não seja mera planificação racional abstrata, mas a animação efetiva da vida de cada pessoa e das comunidades na Igreja.

Comecemos pela parábola do caminho e da luz. Se temos muitíssimo desejo de escalar uma montanha, mas nossos dias são limitados e temos de fazê-lo também por algumas horas da noite, torna-se indispensável levar como instrumento, para a efetivação desse sonho, ao menos uma possante lanterna para poder avançar sem o perigo de cair no abismo. É importante encontrar pela frente um bom caminho, mas sobretudo é necessário dispor de luz para percorrê-lo.

Nessa parábola, o caminho representa os meios técnicos. A luz os fins éticos. A utopia se situa no nível dos fins, não no dos meios. Faz-se necessário saber aonde se quer ir e não só construir ou percorrer uma boa estrada. Nosso mundo moderno (que aqui denominamos “topia”) dispõe de muitos instrumentos, mas apresenta carência de fins (“utopia”).

 

1. O evangelho é a boa notícia de uma utopia possível

Como sabemos, “evangelho” é boa notícia.

Na passagem de Lucas 4, Jesus diz que esse anúncio de boas notícias (cegos que veem, coxos que andam, surdos que ouvem, mortos que ressuscitam) se realiza já neste mundo. Para nós, a leitura dessas boas notícias resulta quase banal. Mas transfiramo-nos por um instante ao cego que começa a ver. Toda sua vida muda, da mesma forma que muda a vida de quem perde o dom de poder enxergar. O mesmo ocorre com o surdo, incomunicado com o mundo, isolado, sem escutar bem. De repente, escuta com toda a claridade as palavras, os sons.

Estes são sinais da presença do Reino que está entre nós: vida mais plena de cada filho e filha de Deus. Mas nos adverte também que estes bens (saúde e liberdade) tangíveis, são anúncios de outros bens mais profundos. Há um alimento do corpo e outro da alma. À Samaritana que vem buscar água no poço, Jesus oferece “outra água” que brota até a vida eterna. Por isso temos de manter sempre a tensão entre os sinais visíveis e concretos e os dons de Deus invisíveis — mas não por isso menos reais.

Qual é o melhor caminho para entender a utopia que Deus Pai-Mãe nos propõe? O evangelho nos narra muitas palavras e ações de Jesus, mas há sobretudo uma que abarca a todas: é sua oração. A oração é a ação suprema da vida de uma pessoa diante de Deus. Por meio da oração são ditas as palavras mais íntimas a Deus. Jesus revelou com suas palavras e obras que é o Filho de Deus, mas em sua oração fala como Filho a Deus seu Pai. Na oração está descrita a utopia que o Pai de Jesus lhe deu como missão para esta vida: o Reino. Por isso recordar as palavras do Pai-Nosso é entrar no sonho utópico do Pai, que, para Jesus, foi o programa da utopia de sua própria vida.

Na oração de Jesus há uma maravilhosa pedagogia: cada petição pede uma explicação que vem na petição seguinte, e cada petição supõe as anteriores, cobrando delas o sentido total. Antes de tudo a glória do Pai, o cântico de seus louvores pelo dom da vida, o dom da natureza, da amizade, do mundo. E, em seguida, a dedicação total à utopia: venha teu Reino, que é dom, mas que é também tarefa humana de acolhê-lo com amor. Por isso, neste tema da utopia, temos de partir do Reino para poder entender a utopia cristã que é um convite real de Deus a algo possível de se realizar se nossos corações se abrirem à Graça. A vida dos santos nos oferece em abundância utopias realizadas, cuja força principal foi a confiança na providência divina. Como podemos recordar o sonho utópico das escolas de Dom Bosco e Maria Mazzarelo, a atenção aos pobres de Madre Teresa de Calcutá e de Irmã Dulce — guardadas na memória do povo —, assim como na origem de várias Famílias religiosas. Permito-me fazer aqui memória do sonho de libertação de Pe. Negri (nosso Fundador), que propôs a utopia da libertação onde houvesse um ser humano abandonado, aflito e desamparado, sem educação religiosa e sem recursos.

Três petições que descrevem o que é o Reino: a vontade do Pai feita com o amor de filhos, o partilhar do pão e a reconciliação. Aqui está a mais bonita descrição da utopia cristã: usar os bens criados para a vida de todos os filhos, e restaurar nossas feridas produzidas quando o mal entrou em nossos corações distanciando-nos dos irmãos. Essa utopia descreve de forma profunda precisamente o feminino de Deus e da Igreja.

Mas não estará essa utopia totalmente fora do alcance humano? Nosso ser não está marcado pelo egoísmo que levanta barreiras à partilha? O que vigora não é o ódio que mantém a lembrança das ofensas recebidas e que quer mostrar-se como vingança?

É verdade que o realismo necessita que sejam consideradas as possibilidades existentes, mas quando existe fé, o Reino de Deus é possível: Realizamo-lo de verdade já neste mundo, ainda que a realização mais plena, de caráter escatológico, ocorra no final dos tempos de nossa vida e história coletiva. O sonho que Deus nos faz sonhar não é veleidade nem engano, é anúncio de uma realidade que virá, que alimenta nossas esperanças e esforços.

 

2. A utopia do Reino já está no mundo, mas sua plenitude se dá além da história

A tarefa que Jesus recebeu do Pai, de construir um mundo de irmãos, parece ter sido um fracasso, pois morreu sem ter visto os resultados dessa utopia. Para melhor compreender o sentido dessa utopia, é importante refletir sobre o mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

Trata-se de utopia por não estar ainda completamente realizada. Todavia, isso não significa impossibilidade de ser alcançada. Assim como a filiação é vivida plenamente em Jesus Cristo, a realidade de ser filhos de Deus é vivida em distintos níveis e graus de santidade pelas pessoas. Há vidas santas, totalmente tocadas pela graça de Deus. Essas vidas são terra boa e generosa, que frutificaram cem por um. Mas há também vidas que se deixaram tomar por pedras e rochas, com escassos frutos. A história é feita desse modo. Os corações se dividem diante do bem e do mal, diante do egoísmo e da generosidade.

A utopia evangélica apresenta esta dupla face: já realizada e ainda por se realizar. Mostra-se com lacunas na história, mas, ao mesmo tempo, não deixa as pessoas se instalar fazendo com que elas continuem caminhando. Nossa tarefa aqui é desentranhar os aspectos femininos dessa utopia em sua concretização histórica por meio da Igreja. O Deus que é Pai e Mãe nos acolherá definitivamente ao final da história, mas vai regando o nosso caminho com essa acolhida maternal na Igreja.

Para a compreensão disso, é necessário redescobrir os aspectos femininos presentes no mistério de Deus, e depois redescobri-los no mistério da Igreja.

 

3. O homem e a mulher como imagem de Deus

O livro do Gênesis nos apresenta a visão dos começos da criação. Cada etapa, talvez de milhões de anos, está simbolicamente representada por um “dia da criação” que vai mostrando como a “utopia” do sonho amoroso de Deus vai se tornando “topia” da realidade. Deus também teve utopias. Elas foram se realizando aos poucos, fazendo com que Deus ficasse satisfeito com sua obra. Do “bom” passa ao “muito bom”, ao contemplar sua última obra: o ser humano, criando-o como homem e mulher.

Em Deus há plena unidade naquilo que na humanidade está separado. A separação é convite ao encontro. Se os filhos se separam dos pais para formar novo lar, não deixam de sentir o convite de se unir de vez em quando à família de origem para celebrar os grandes acontecimentos: Natal, aniversário dos pais etc. No ser humano está inscrita a insuficiência do singular para a emergência da vida, e requer a comunhão: do homem e da mulher para serem fecundos, de muitas pessoas para que a vida humana possa prolongar-se e crescer. Em Deus não há carência, não necessitando de outro para completar-se e realizar-se. O outro aparece como fruto da riqueza do Ser. O Pai gera o Filho por superabundância, e não por carência: é um amor de doação, e não de interesse. “O Verbo é gerado do útero do Pai” (cf. Concílio de Toledo — 675 d.C.).

Infelizmente, a bela intuição inicial do Gênesis de que o divino refletido no humano só o viveremos no encontro do masculino e do feminino, foi degradada por uma sociedade machista que considera a mulher como ser de segunda categoria. Os elementos culturais — o modo como um povo recebe a Palavra de Deus — marca com seus limites as fronteiras da mensagem, esperando que as intuições profundas possam fazer emergir o sentido originário do revelado.

Ao machismo da sociedade corresponde também a imagem de um Deus guerreiro, aliado ao seu povo para vencer outros povos e conquistá-los. Mesmo que no Antigo Testamento haja momentos de sublime afeto e de ternura de Deus para com seu povo, talvez prevaleçam os momentos “masculinos” de grandeza, poder e domínio. A revelação de Deus não estava completa no Antigo Testamento, necessitando de nova revelação.

 

4. Jesus revela que o Pai é também Mãe

Jesus vem completar a revelação do rosto de Deus. Ele surpreende e até escandaliza seu povo afirmando ser “Filho de Deus” — título nunca atribuído a um ser humano, exceto para o rei ou para todo o povo. Jesus confirma isso por suas obras, milagres e doutrina.

Todavia, o que marca muito na revelação de Jesus é que os traços do Pai são de caráter maternal. São traços de misericórdia, bondade e ternura. A parábola do filho pródigo é, em realidade, a do Pai-Mãe ternura e acolhida. No sermão da montanha (Mt 5-7), que é talvez o melhor comentário do Pai-Nosso, Jesus explica as duas petições da utopia cristã: o partilhar e o perdoar (quer dizer, os dois traços mais femininos da pessoa humana que alimenta a vida e a restaura das feridas das ofensas), com a contemplação do Pai (Mt 5,43-48; 6,25-34), nos situa diante da grandeza desta vocação de ser expressão de vida e cuidado pela vida criada.

A utopia do Reino não é, pois, a de um povo dominador que triunfa dominando, escravizando e submetendo os outros, mas de um povo que vive do próprio trabalho, onde todos têm iguais direitos, acolhendo os mais pequeninos e perdoando os pecadores.

 

5. Ministério eclesiástico masculino, realidade feminina da Igreja em seus sacramentos

Tropeçamos agora com o paradoxo de que a Igreja, pensada nos primeiros séculos à imagem de Maria como virgem e mãe — e, portanto, desde o feminino —, reservou o ministério sacerdotal exclusivamente ao homem (sexo masculino). Isso encontra explicação no mundo judeu, em que a Igreja nasce onde os ministérios religiosos estão limitados exclusivamente aos homens. Por isso resultam impactantes certas passagens do evangelho, como a que traz a conversa de Jesus com a Samaritana. Os discípulos ficam duplamente chocados, pois Jesus está conversando com uma mulher e essa mulher é estrangeira. As passagens dedicadas às diaconisas — ministérios frequentes no Novo Testamento —, foram marginalizadas, e a Igreja cresceu e se desenvolveu a partir de ministérios masculinos.

Sabemos que nos últimos anos a discussão sobre a ordenação de mulheres é tema candente, causando tensão nas relações ecumênicas entre católicos e anglicanos, por exemplo. Não é nosso intuito entrar aqui nessa questão, sobretudo depois dos explícitos pronunciamentos do papa. Queremos, no entanto, sublinhar que o ministério eclesiástico, em sua dimensão sacramental, tem como ponto mais alto de todos os sacramentos, o da reconciliação — entendendo ali também a primeira reconciliação do batismo — e o da eucaristia. Quer dizer, dois sacramentos que são como que a encarnação da utopia do Pai-Nosso, o pão cotidiano de todos os irmãos e irmãs partilhado na fraternidade e na reconciliação mútua, à semelhança do perdão que Deus nos dá.

É possível, portanto, afirmar que os dois sacramentos da Igreja que mais a representam como Mãe são a eucaristia e a reconciliação. O que buscamos sublinhar é que Jesus, como varão, apresentou de forma admirável os traços femininos de Deus como Pai; e que, mesmo quando o ministério seja exercitado por varões, o que é representado é, essencialmente, um elemento feminino do poder da Igreja, devendo ser administrado de forma coerente com a natureza do sacramento dado como sinal da salvação. Isso deve ser considerado pelos ministros, porque a eucaristia — o dar o corpo de Cristo — pode converter-se em gesto rotineiro, sobretudo em comunhões massivas. Sair da rotina é obrigação fundamental, porque a eucaristia deveria ser sempre o sinal do amor maternal da Igreja que alimenta a fé, a esperança e o amor de seus filhos e filhas, seja quem for o ministro que administra o sacramento.

O mesmo deve ser dito do sacramento da reconciliação. Quantas coisas têm de ser renovadas para que a reconciliação seja expressão primária da misericórdia, e não de um juízo severo que acentua a gravidade dos pecados! Às vezes os critérios da boa ou má confissão se medem pela exatidão e precisão das contas do pecado cometido, e não pela profunda e sincera dor-compulsão do coração — que é o que o Pai está buscando de seus filhos e filhas. Quantas vezes as severas repreensões apagam a imagem da alegria de um Pai que se alegra pelo retorno de seus filhos e filhas — que Jesus expressa com as metáforas do banquete da festa.

 

6. A topia masculina da lógica do mercado e a utopia feminina da lógica da gratuidade do dom da vida

Vivemos em uma sociedade industrializada, fruto do progresso tecnológico e comercial dos séculos XVII e XVIII. A produção artesanal da época feudal se fazia na própria casa, envolvendo com frequência o trabalho dos filhos e da mulher. A produção industrial separou o marido da mulher e dos filhos, nos grandes edifícios de produção ou fábricas.

O mundo do econômico, ao tecnificar-se dividiu o público (do mercado) do privado (do lar). Dividiu o público das relações políticas, baseadas na distribuição de poder, e o privado das relações de gratuidade.

Por isso a ordem pública gerada na economia e na política foi configurando uma maneira de pensar, de argumentar, de exigir mais identificada com a lógica masculina da eficiência. A compaixão e a ternura não têm lugar, pois arriscariam a eficiência dos processos estritamente racionais.

Pelo contrário, a lógica feminina ficou reduzida ao lar; à lógica de reproduzir a vida, de cuidá-la, e de ajudá-la a crescer — não mais partindo do intercâmbio recíproco de produtos, mas da gratuidade total de quem reproduz a vida e a alimenta, sem exigir nada em troca. A própria sociedade compreende que, sem a lógica da gratuidade, não pode reproduzir-se nem subsistir, mas não é coerente em aplicar o feminino da lógica do dom da vida à vida pública, econômica e política.

A sociedade se tomou masculina em sua “topia”, e a “utopia” da ternura feminina se tornou algo marginal, privado, doméstico, sem influência na vida social. Aqui se encontra um dos problemas fundamentais de nossa sociedade atual. O movimento feminista tem como fundamento reclamar o legítimo lugar que tem a mulher na sociedade.

A utopia do mundo futuro exige mais presença da mulher no público, mas como portadora dos valores da gratuidade e do respeito pela vida, cuidando-a e defendendo-a. De nada vale ter mulheres em cargos públicos se sua conduta não é senão um remendo à conduta masculina.

A utopia do feminino significa oferecer à sociedade atual algo novo, que não está na topia; algo que as mulheres têm como qualidade latente não admitida na sociedade. Essa utopia da mulher se encontra como em forma conatural na concepção da Igreja-esposa de Cristo. Quer dizer, uma maneira de entender a Igreja não precisamente como Instituição de poder (para entrar no jogo dos poderes “masculinos”), mas como comunidade alimentada pelo amor à pessoa de Jesus Cristo, vivendo de sua vida e gerando na humanidade aos filhos de Deus que pela assimilação da vida do Filho se tornem filhos do Pai.

A Igreja vista como mãe, que gera pela força do Espírito, tem grande semelhança com Maria virgem e mãe. Os Padres da Igreja descobriram essa verdade e a desenvolveram em muitos de seus escritos. Essa tradição foi esquecida nos tempos posteriores, concentrando o feminino da Igreja na pessoa de Maria, mas não na Igreja mesma, à medida que se desenvolveram mais as ideias da sociedade perfeita, dos poderes temporal e espiritual, das relações da Igreja com os Estados modernos, e dos aspectos institucionais da própria Igreja.

Falar, pois, da utopia feminina na Igreja e voltar os olhos a Maria e aprender que o mistério de toda a vida cristã, individual e coletivamente, pode ser representado como uma vida na qual confluem os esforços humanos e a Graça divina recebida virginalmente — quer dizer, depositando em Deus a confiança total, e não nos meios humanos. A atividade humana dos membros da Igreja é totalmente desproporcional ao dom divino que nos faz filhos e filhas de Deus.

Essa utopia deve ver, pois, no feminino da Igreja os elementos de que necessita para transformar sua topia. É tarefa sobretudo das mulheres dentro da Igreja serem forças ativas de encarnação dessa utopia do Reino de Deus.

 

7. Amarrando conclusivamente e a modo de perguntas

Qual seria o papel da mulher na utopia humana?

A mulher é companheira no caminho e nos esforços do varão. É o tu que interpela, dá outros horizontes não óbvios para a mentalidade masculina. É a esposa que toma fecunda a iniciativa do esposo, que ampara amorosamente seus esforços. É, sobretudo, mãe. A utopia do Pai no mundo é que, por meio de Jesus (varão) e por meio da Igreja (mulher), nasçam todos os filhos e filhas de Deus que participam do dom do Espírito.

Qual seria o papel de uma Igreja entendida femininamente como esposa de Cristo?

Quer nos parecer que esse papel é o de sintetizar modelos eclesiológicos, do corpo de Cristo e do povo de Deus. O primeiro ressalta de modo maravilhoso a unidade de vida que o Espírito presenteia tanto na cabeça como nos membros. O segundo desenvolve, de modo muito claro, o papel e a responsabilidade histórica do povo de Deus entre os povos deste mundo, partilhando sua sorte, mas, ao mesmo tempo, oferecendo sua utopia como luz no caminho da montanha. Esses dois modelos eclesiológicos, tão ricos e sugestivos, podem ser polarizados quando se ressalta só a unidade ou só a missão — de forma unilateral e excludente.

Qual seria o papel das mulheres na Igreja?

Entender que o supremo papel feminino é o da maternidade, contribuindo para que mulheres e homens, juntos, estejam a serviço da vida e de seu cuidado. A Igreja é nossa mãe porque a comunidade de fé que encontramos ao nascer alimenta nossa fé, esperança e caridade; move-nos a crer, dando-nos o testemunho de vida cristã que nos fez seguir o caminho do evangelho. Mas a comunidade atual, na qual vivemos, é a mãe proveniente de outras gerações. É preciso considerar a Igreja não apenas como mãe na qual fomos gerados, mas também como “filha” onde estão sendo gerados futuros cristãos. O futuro da Igreja não pode ser desenhado por técnicos em pastoral, mas é formado pela vida cotidiana dos fiéis — entre os quais nos encontramos.

Essas questões são fundamentais para uma “vida pastoral”, se queremos que a pastoral não seja mera planificação racional abstrata, mas a animação da vida de cada pessoa e das comunidades da Igreja.

Ir. Bárbara P. Bucker, mc