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Publicado em Novembro-Dezembro de 1996 (pp. 9-13)

O feminino da Igreja

Por Ir. Bárbara P. Bucker, mc

1. Introdução

Pensar o feminino da Igreja pode ter mais de um horizonte de percepção. Enquanto alguns poderiam estar buscando ver o papel do ser humano mulher na engrenagem constitutiva da organização eclesial, outros poderiam estar buscando perceber o feminino como característica de toda a Igreja se autocompreender, tentando repensar em que o símbolo feminino poderia contribuir para que a Igreja, como esposa de Jesus, se estabeleça no diálogo com o mundo de hoje em alteridade de relação amorosa.

Ante a perspectiva de considerar a mulher como sujeito — tanto do ato de teologizar, como de outros atos da vida eclesial —, existe também a perspectiva de considerar a mulher como indicação objetiva, para, assim, considerar o mesmo ser da Igreja. Neste artigo buscaremos seguir esta segunda alternativa. O feminino da Igreja não se esgota naquilo que realizam as mulheres dentro da Igreja, mas consiste, sobretudo, em compreender o ser mesmo da Igreja desde a ideia do feminino. Para entender essa perspectiva, começamos considerando uma questão fundamental: Qual é o papel do feminino na História da Salvação?

 

2. O feminino na História da Salvação

É importante afirmar que a História da Salvação é a história dos atos salvíficos que Deus realiza na história. O autor principal desta História é, portanto, Deus o que tem a iniciativa de toda ação salvífica. É por isso que tudo é Graça! A Salvação se realiza à medida que as relações entre Deus e a humanidade se restauram e renovam. Por conseguinte, é a História das relações de Deus com a humanidade, relações de “salvação” porque Deus age salvando a todos, de todos os usos indevidos da própria liberdade.

A humanidade é salva e redimida não diante de catástrofes naturais ou outros tipos, de desgraças, mas daquela única desgraça que é a negação da Graça ou do Amor de Deus: o pecado.

A liberdade é um dom concedido por Deus, mas, se mal usada, pode ser também um risco. Aliás, amor, liberdade e risco estão sempre juntos. O pecado transforma a liberdade humana esvaziando-lhe o sentido. Deus, porém, pela sua grande misericórdia, retoma a liberdade e a endereça ao fim original, à intimidade de relações que, desde a origem, quis estabelecer com a humanidade.

Essa intimidade é possível porque entre Deus e os seres humanos existe semelhança. A relação interpessoal do Pai com o Filho no Espírito se reflete nas relações interpessoais dos homens e das mulheres entre si; relação fecunda e criadora, que o vínculo humano de benquerença, sempre em processo de aprendizado, mais e melhor busca amar, tendo como referência o mesmo amor que tem Deus ao nos amar, restaurando e chamando sempre a uma vida de mais sentido.

O livro do Gênesis nos descreve de forma maravilhosa essa semelhança de relações. Mulher e homem são semelhança de Deus; não só por uma natureza racional e livre à qual pode ser confiada a tarefa de dominar as coisas criadas, mas sobretudo pela mútua relação no amor, que é fonte criadora de novas vidas. Na expressão de um exegeta: Deus não criou os corpos de milhões de pessoas, mas criou apenas dois, confiando-lhes o resto, colaborando com eles em dar a todos o Espírito. O sentido profundo das relações no amor — não só no ser humano, mas, também no ser divino — se nos faz mais claro com o Novo Testamento e a revelação do mistério trinitário.

Aqui podemos perguntar-nos pelo sentido do feminino para a Igreja — e, inicialmente — para toda a História da Salvação.

O feminino na História da Salvação apresenta na figura de Eva a fragilidade de toda a humanidade — homens e mulheres —, e na figura de Maria, a capacidade de toda a humanidade — homens e mulheres — de colaborar na História da Salvação. A figura de Eva e de Maria, como “mães” de toda a descendência que vem depois, são figuras arquetípicas, que contêm em si, toda a humanidade no seu conjunto.

Eva é símbolo da fragilidade humana que rompe a Aliança. Maria representa a humanidade fiel que se renova na Aliança. Nessas duas representatividades cada ser humano vai conhecendo, na realidade de sua existência pessoal, o mistério mesmo de toda a humanidade. O importante é se saber em processo e em colaboração solidária de fazer existir o outro para a experiência da salvação através do tipo de relação que se quer estabelecer.

 

3. A mulher na Protologia

No relato da criação (Gênesis 1 e 2), a mulher precisa ser percebida como companheira, como aquela que permite ao homem ter consciência de ser um “eu masculino” diante do “tu feminino” por meio do respeito mútuo da alteridade de cada um. O relato do Gênesis sobre o pecado original parece induzir uma acusação à mulher de ter incitado o varão a pecar, o que levou este a se justificar, se desculpar, ante a responsabilidade de seus próprios atos. Temos, no entanto, que buscar no texto o profundo significado do relato como experiência de carência de amor na relação.

Eva, considerada como mãe da humanidade, é deficientemente interpretada: como mulher tentadora, aquela que induz e seduz para o mal, a culpada etc. Paul Beauchamp — em seu trabalho: L’un et l’autre testament — nos sugere uma compreensão bastante significativa de todo o relato. A lei, palavra imperativa de um mandato, ficando depois sem a “presença” daquele que a formulou, pode ser manipulada por outro, distinto do legislador, sendo interpretada perversamente. É isso o que faz a serpente: oculta o fato de que antes da lei existe o dom do amor, articulando a tentação como egoísmo de Deus, que não quer partilhar o dom da ciência e da vida. A personagem mítica da serpente sugere que Deus não quer que o homem seja como ele, sem morte, porque perderia seu privilégio e deixaria de ser Deus. Desperta então a desconfiança na relação de amor. E, com isso, a impossibilidade de crer. Quem suspeita não acredita. O pai da mentira promete um saber daquilo que, pela sua natureza, nunca poderá ser sabido: que se é amado. Buscando evidências do amor, o ciumento destrói o mais belo do amor, que é a confiança, a certeza de ser amado sem precisar de provas, numa fé antropologal.

A importância de Eva como mãe, da qual a humanidade descende, é a da possibilidade de fazer acontecer o diálogo, esclarecer por meio da palavra o significado do outro na consciência de si. O primeiro ato do criador é modelar o homem com o pó da terra, que encerra a simbologia do feminino, da mulher, como “matéria-prima” para que o homem se faça, se constitua verdadeiramente homem, saindo de sua própria solidão. Assim como, diante dos animais, reconhecendo-os e separando-os segundo a sua própria espécie, o homem prepara-se para nascer, o que acontece quando já não está mais sozinho. O homem, misturado com os animais, se faz diferente deles para acolher o outro. Processo permanente: Encontrar o outro no “face to face”; ou seja, estar diante do outro, rosto a rosto, é encontrar uma relação que implica discernimento de cada um diante de si mesmo.

A compreensão de Maria como descendência que é fiel à vontade de Deus desde o antítipo coincide com a vocação para o amor. O pecado não é primariamente a desobediência, mas muito mais radicalmente o desamor que a desobediência encerra. Maria é, em primeiro lugar, a filha amada do Pai, em relação de confiança filial, e por isso mesmo obediente. Nela, por viver desde o seu ser o sonho de amor do Pai, há uma total identificação do sonho de Deus com a sua própria realidade.

Por isso, no Gênesis, a figura da mulher que esmaga a serpente é considerada como figura de Maria e da Igreja.

 

4. A mulher na Escatologia

Em toda história os momentos originais e finais têm um sentido recapitulador. Daí a importância que em toda história tem o mito dos inícios e das utopias. Se a mulher no início da história aparece como companheira do caminho da vida e simboliza a fragilidade de toda a humanidade (homens e mulheres), aparece também no fim da história como símbolo da perfeita utopia, que é a comunhão da humanidade histórica, conduzida pelo Espírito com o esposo. O grito do Apocalipse é o grito da humanidade de todos os tempos: o encontro da felicidade total que dá sentido a todas as dores do passado; o momento pascal que permite dizer “valeu a pena” diante de todos os preços que foram pagos.

Quão verdadeira é a afirmação de que Deus não disse a primeira palavra na criação sem pensar a última! A primeira criou o ser humano para Deus, a última confirma o ser humano em Deus.

No Apocalipse, a mulher é a Igreja que ilumina o caminho de todas as nações para o encontro definitivo com Cristo, Senhor do universo. A eclesiologia da esposa oferece esta “ponte simbólica” entre essas duas figuras femininas: da protologia e da escatologia. Não ignoramos, contudo, que a mulher do Apocalipse é interpretada também como Maria, como realização da profecia da vitória sobre toda desconfiança que distancia na relação do ser humano com Deus o verdadeiro sentido do amor. Maria, protótipo da Igreja, anuncia e aponta a vocação que esta deve realizar na história para que expresse sua sacramentalidade histórica.

 

5. O “espaço” entre a primeira e a segunda vinda de Cristo: Mariologia e Igreja

Os dois momentos, o inicial e o final, são como os pontos que limitam uma linha, que ditam o roteiro da reta que os une. Para nós, o início e o fim, marcados pela presença do feminino, anunciam a presença do feminino também em toda a reta. Essa reta tem seu momento original, para a constituição da Igreja, na primeira vinda de Cristo, onde uma mulher tem o papel protagônico, como Mãe. E tem o seu final no momento da segunda vinda de Cristo. O tempo da Igreja na história é coextensivo com as duas vindas de Cristo, tempo de celebração do mistério pascal na Eucaristia até que ele venha

 

5.1. Mariologia: virgindade e maternidade, Maria modelo da Igreja

Falamos dos tipos opostos Eva-Maria, que ilustram como o desamor conduz à desobediência, enquanto o amor conduz à obediência. Essas realidades se encontram unidas no correto sentido paulino da palavra “submissão” como atitude da pessoa que reconhece a gratuidade do dom que recebe e a gratidão de seu próprio ser, feito doação para a pessoa amada.

Os dogmas marianos da virgindade e maternidade são luzes indicadoras do caminhar de toda a Igreja. Maria, com a luz de seu próprio ser, ilumina o caminho peregrinante de todos os cristãos. Por isso podemos dizer que a virgindade e a maternidade, além de serem dons de Deus para Maria, são luzes para iluminar o ser da Igreja mesma. Por isso é também importante compreender o feminino da Igreja porque assim compreendemos Maria e também nossa própria vida cristã.

A virgindade é, antes de tudo, uma profunda atitude de disponibilidade de Maria diante de Deus; está muito além de um fato biológico, para expressar um fato espiritual. Maria é virgem porque seu coração está inteiramente dedicado a Deus, para fazer o que Deus quer por amor. A virgindade em Maria nos recorda que o que podemos fazer na história da salvação é sempre uma obra humana na qual Deus está presente por seu Espírito.

Por isso, a maternidade deve ser entendida no sentido da cooperação ativa de Maria como mulher. (Quando essa cooperação se realiza perante a outra atividade humana do varão, o fruto próprio da mulher é o dar à luz uma nova vida como mãe.) Quando a cooperação de Maria se dá perante a atividade divina do Espírito Santo, o fruto próprio da mulher, Maria, é dar à luz uma nova vida, onde a virgindade não significa só a maravilha de uma virgem mãe, mas, sobretudo, o de uma virgem-mãe-de-Deus.

 

5.2. Virgindade e maternidade da Igreja

Maria como mulher é o perfeito tipo da Igreja entendida desde o feminino. A Igreja como esposa de Cristo deve ser percebida numa relação amorosa e disponível, numa obediência apaixonada por seu esposo. Obediência que não justifica a desigualdade social e cultural entre homem e mulher da nossa sociedade, mas identificação na comum obediência que a Igreja e Cristo vivem diante da vontade do Pai: a construção de seu Reino!

A maternidade eclesial tem a mesma fonte geradora de vida que a maternidade de Maria, ou seja, a paternidade de Deus, fonte da Vida.

Os Padres da Igreja fizeram profundos paralelos entre maternidade mariana e eclesial. Consideravam as duas como dons do Espírito em Pentecostes (São Leão Magno e Beda) concebendo pelo Espírito Santo. No pensamento de Santo Agostinho, São Paulino de Nola e Santo Ambrósio, a Igreja gera os membros de Cristo assim como Maria gera Cristo. Agostinho, Ambrósio, Hipólito e Metódio chegam a dizer que a Igreja gera o Cristo Místico, nutrindo-o. Santo Ambrósio afirma que Maria, ao pé da Cruz, representa a Igreja que recebe a todos os seres humanos.

Se citamos essas fontes Patrísticas é para mostrar que houve tempos na história da Igreja onde o feminino foi tomado muito mais em consideração que nos tempos modernos.

A Igreja é virgem, porque suas atividades humanas estão “grávidas” do divino. Isso acontece especialmente no âmbito dos sacramentos: são portadores de vida espiritual, do perdão dos pecados, da comunhão com o corpo e o sangue de Cristo, da constituição do homem e da mulher como sacramento do amor Igreja-Cristo etc.

O Espírito Santo, que se encontra em cada sacramento e que dá vida divina aos gestos humanos, é o mesmo que se encontra no ministério pastoral e docente. A presença do Espírito se garante quando a Igreja é “virgem”, isto é, se deixa conduzir pelo Espírito em suas ações eclesiais.

Mas a Igreja não só é santa, é também pecadora, isto é, perde a virgindade. No campo sacramental a presença da Graça está sempre prometida “pela obra mesma realizada” em cada gesto sacramental, independentemente da “santidade dos que a realizam”, ou seja, dos ministros; a Igreja é muito cautelosa em afirmar o mesmo do magistério ou da ação pastoral.

Nos atos da Igreja se dá a “maternidade” divina, que consiste em gerar para a vida dos filhos de Deus, aos filhos de homens e mulheres que aceitam a fé do mistério de Jesus. Essa maternidade é origem de filiação divina quando o Espírito de Deus está presente; pela água e pelo Espírito se dá essa filiação, quer dizer, os sacramentos e o Espírito.

Portanto a Igreja pode realizar muitos atos históricos como comunidade humana, convivendo com os outros povos; nem em todos os seus atos está presente Deus. A humildade de reconhecer os pecados da Igreja torna mais clara a presença do Espírito nela — e também nos casos em que a Igreja pode gestar vida divina na humanidade.

Há atos históricos da Igreja onde o Espírito não podia estar presente, porque a Igreja é não só santa (com o Espírito), mas também pecadora (sem o Espírito).

Se a virgindade e a maternidade são realidades em Maria que iluminam o caminho da Igreja, são também referenciais para cada cristão que deve viver uma vocação mariana nestas duas dimensões: abertura do coração a Deus para que o Espírito esteja conosco e cooperação humana ativa com essa graça de Deus.

 

6. Características específicas do feminino que a Igreja realiza em si

Depois de mostrar como o feminino se dá no tempo da história, de um modo “quantitativo”, temos de refletir o que o feminino significa dentro da história como modo “qualitativo”. Ou seja, como definir o feminino.

Por quantitativo nos referimos, portanto, ao fato de que na protologia e na escatologia (como pontos extremos de uma reta), e em toda a história, como a reta mesma, está presente a mulher. Por qualitativo queremos dizer que, dentro da reta, nela, desde dentro, o feminino é constitutivo de sua realidade.

Uma antropologia filosófica e sobretudo teológica nos orientam para compreender o ser humano como ser relacional. O específico da relação homem-mulher vai além da sexualidade, confundida às vezes com o genital, para todo um modo de ser psicológico e mesmo espiritual. Nessas últimas dimensões é onde deve colocar-se o valor do feminino para toda a existência humana. Um exemplo que podemos retomar de Santo Inácio é o conselho de lembrar o modo de ser do feminino diante da tentação do inimigo, pela confiança e pelo recurso à pessoa do outro, sem fiar-se de uma autossuficiência enganosa (cf. Exercícios Espirituais: regras da primeira semana — 13ª regra). O que constitui o ser feminino é o ser de companheira, de esposa e de mãe; três etapas da vida que marcam outros tantos modos de relação interpessoal.

A mulher, como todo ser humano, se realiza pela autopossessão, bem como na relação, pela interioridade de se experimentar como diferente e pela exterioridade de ser chamada à comunhão.

A alteridade da mulher quer indicar aquilo que a identifica como ser diferente do varão, e portanto companheira que não reproduz o masculino em si mesma, mas oferece o alternativo, o distinto.

Para o futuro, se esboça a emergência de um novo tipo de manifestação do feminino e do masculino no qual varão e mulher se compreenderão no horizonte de uma profunda igualdade pessoal, de origem e de destino, de tarefa e compromisso na construção de uma sociedade mais fraterna e menos dominadora, mais democrática e menos discriminadora. O conhecimento do humano, na sua plenitude, só pode dar-se na perspectiva do masculino-feminino. Cada qual expressando valores e abrindo horizontes que de outra maneira não seriam descobertos nem abertos.

A mulher não se realiza na pura consciência de sua alteridade; como todo ser humano — e também o varão — ela está chamada a viver na comunhão, a ser esposa. Essa vocação não se realiza de maneira instantânea; a mulher passa de companheira a esposa por uma etapa intermediária, o “noivado”, cujo sentido antropológico é muito rico: é um “noviciado” do amor conjugal, onde os noivos aprendem a passagem do “eu” individual para o “nós” coletivo. O noivado é tempo de comunhão de ideais, de critérios, de experiências humanas, numa palavra, das vidas passadas que vão ser uma só vida futura.

Poderíamos dizer que o noivado é o tempo da “conversão” mútua, onde se aprende a “ser para o outro”; onde a alteridade teoricamente conhecida se torna alteridade experimentada e respeitada.

A realidade esponsal faz do varão e da mulher COLABORADORES, isto é, pessoas que laboram conjuntamente. O amor esponsal incorpora numa única realidade os amores que chegavam de fontes diferentes.

A alteridade não é suficiente para a História da Salvação; é preciso a comunhão mesma, daí o caráter esponsal; enquanto a alteridade distingue, a comunhão une. O ser humano tem, pois, os dois aspectos: afirmação da própria identidade pela alteridade e afirmação da unidade em comunhão.

A unidade é comunhão de distintos e não simplesmente soma de iguais.

A Salvação da história, como comunhão de amor entre Deus e o ser humano, supõe, portanto, a alteridade (Deus-humanidade), mas, também, a comunhão, que não destrói a alteridade, mas a plenifica — como com o casal que expressa a plenificação dos distintos pelo amor.

Mas o simples amor mútuo entre dois seres pode fechar-se. Só se enriquece quando, desde esse amor, houver saída para o terceiro, o “condilectus”. Quando uma “terceira” pessoa parece ameaçar pelo ciúme o amor entro dois, este amor é desconfiado e egoisticamente possessivo. O “condilectus prova o amor confiante de dois que não se sentem ameaçados pela partilha do amor mútuo com um outro diferente dos dois.

A fecundidade, no caso da mulher, expressa-se pela maternidade. Mas essa maternidade tampouco é um evento imediato; assim como o “noivado” é o “noviciado” do amor conjugal, a “gestação” é o “noviciado” da maternidade, ou um “noivado” amoroso da mãe com o filho por nascer. A mulher gestante é mãe e ainda não é mãe; a vida de suas entranhas não é mais a “sua vida”, mas está tão unida à vida materna que, se esta morresse, a nova vida poderia também morrer.

Assim como o “noivado” e a “gestação” são etapas transitórias da realidade, feminina desde a alteridade de companheira até o ser esponsal, e desde este ser esponsal até o ser mãe, assim se dá também desde a maternidade, um novo estilo de ser mulher que prolonga, desde a maternidade inicial, a proteção da vida nascida até seu desenvolvimento. Poderíamos chamar essa etapa do feminino de a etapa “pedagógica”, que marca o feminino em comunhão com o masculino do pai — a nova vida — abrindo-a para novos processos de alteridade, unidade e serviço. O processo pedagógico, quando vivido na harmonia do paterno-materno, permite o desenvolvimento de uma psicologia sadia na pessoa. O pai marca a nova vida na sua abertura para o mundo, para a ação; a mãe a marca no aspecto da interioridade, do pessoal, do humano.

Ao amor pertence a fecundidade; o amor é a festa da vida, não somente da vida que já existe no presente dos seres que se amam, mas a vida que vai nascer no futuro dos que se amam, seja modificando plenamente esses mesmos seres, seja — o que é mais rico ainda — gerando nova vida.

É aqui onde o feminino encontra sua mais própria expressão para manifestar o papel da humanidade na História da Salvação: prolongar na história a obra que foi feita no início.

O ser humano que gera é exclusivamente a mulher, até o ponto de Paulo ter de identificar-se com uma mão gestante para indicar seu papel pastoral diante da comunidade (1Cor 4,15). Certamente, a nova vida é impensável sem a contribuição paternal, mas é a mãe quem oferece a culminação do processo.

A maternidade é, portanto, o símbolo perfeito da cooperação humana com a Graça. A obra do Espírito, insubstituível, não é completada senão pela cooperação da liberdade do ser humano.

 

7. Uma espiritualidade eclesial desde o feminino

Compreender a Igreja desde o feminino nos permite perceber uma rica espiritualidade “eclesial”, que tem como ponto de partida a experiência do perdão que cada cristão experimenta no sacramento da reconciliação, para compreender e amar a Igreja perdoada. A mesma ternura experimentada por cada indivíduo acontece com a Igreja na sua totalidade por parte de Cristo, seu esposo. Para entender essa espiritualidade, faz-se necessário o duplo processo de “eclesializar” a pessoa e “personalizar” a Igreja como conceito integrador de experiência sacramental.

A Igreja aparece como santa e pecadora, porque a reconciliação acontece no gesto de duas pessoas, uma das quais absolvendo pelo poder concedido por Deus, e a outra mostrando a fragilidade do pecado; sem eximir quem absolve de buscar, por sua vez, viver essa realidade pessoal de também necessitar de reconciliação.

A “espiritualidade da compaixão eclesial” consiste na aplicação analógica da experiência do perdão do pecado pessoal, que cada cristão vive no momento do sacramento da reconciliação, com a certeza de que do mesmo modo a Igreja — mesmo pecadora — é amada incondicionalmente pelo mesmo Cristo, que ama a cada pessoa. O pecado da “mãe” Igreja não tira nem pode diminuir o verdadeiro amor dos filhos.

O amor à Igreja “descentra” e faz sair cada cristão de seu próprio egoísmo. Cada cristão vive no mundo a dor do nascimento eclesial, consolidando assim, desde o seu ser, a dimensão feminina, na realidade da existência do homem ou mulher batizados.

 

8. Conclusão

O pensar a Igreja desde o feminino nos permite compreender a continuidade do feminino desde a protologia até a escatologia. Ou seja, a importância da vocação da mulher na história da humanidade como História da Salvação, onde se faz a experiência de se ser amada em relação de alteridade.

A descoberta das dimensões femininas de companheira, esposa e mãe permite valorizar a contribuição da mulher também na Igreja. A partir daí cada ser humano buscará se experimentar como sujeito na relação com Jesus esposo e com os outros na criação de fraternidade, vivendo uma unidade de comunhão amorosa para uma vida de fecundidade, gerando filhos de Deus.

Ir. Bárbara P. Bucker, mc