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Publicado em Edição Especial - 1º Centenário dos Paulinos

O itinerário da pastoral nos últimos cem anos: de Alberione a Aparecida

Por Agenor Brighenti

Nos últimos cem anos, a pastoral percorreu um longo itinerário. No período pré-conciliar, plasmaram-se modelos como a pastoral de conservação e a pastoral de neocristandade, vigentes nas origens da obra de padre Alberione. Suas iniciativas, somadas a tantas outras, desembocaram na renovação do Vaticano II e da tradição libertadora latino-americana, gestaram novos modelos de pastoral, como a pastoral orgânica e de conjunto e a pastoral de comunhão e participação. Nas últimas décadas, com a crise da modernidade, voltou com força a pastoral de neocristandade e, com a irrupção de uma religiosidade eclética e difusa, uma pastoral secularista. Diante disso, Aparecida vai conclamar a Igreja a continuar a renovação do Vaticano II e da tradição latino-americana, através de uma pastoral de conversão missionária.

A obra do padre Alberione teve seu início em 1914; portanto, há exatamente 100 anos. Naquele momento, a Igreja, ainda prisioneira de uma mentalidade de cristandade, se propunha a reconquistar a sociedade moderna, emancipada de sua tutela, através de uma “pastoral de neocristandade”. O papa Pio X e a “crise modernista” são referenciais desse período. Padre Alberione, entretanto, mesmo atrelado à conjuntura de seu tempo, entendia a pastoral como resposta aos novos desafios da sociedade emergente, especialmente no mundo urbano, à luz do Evangelho de Cristo “Caminho, Verdade e Vida”. Tratava-se de uma perspectiva pioneira, que, junto de outras oriundas do catolicismo social, depois acolhidas pela Rerum Novarum, iria desembocar na renovação do Vaticano II, que superou tanto a “pastoral de conservação” do período de cristandade, como a pastoral de corte apologético, de neocristandade.

Na América Latina, a obra de padre Alberione iria encontrar solo fértil para fazer frutificar a “boa imprensa” ou o “apostolado da edição”, como serviço à causa do Evangelho, num mundo secular e pluralista. A Conferência de Medellín (1968), ao fazer uma “recepção criativa” do Concílio Vaticano II, propôs uma “nova evangelização”, a ser levada a cabo por comunidades eclesiais inseridas profeticamente no seio da sociedade, à luz da opção pelos pobres. Na sequência, Puebla ratificou essa perspectiva e Santo Domingo mostrou a exigência de uma “conversão pastoral” para levar adiante a renovação do Vaticano II. Mais recentemente, Aparecida, resgatando Medellín, ressaltou a urgência da superação da “pastoral de conservação”, de cristandade, bem como da “pastoral de neocristandade”, condição para uma Igreja missionária, samaritana e profética, promotora do Reino da Vida, sob o protagonismo dos leigos, em especial das mulheres.

1. Padre Alberione e a pastoral de seu tempo

O início do século XX, momento histórico do nascimento da obra de padre Alberione, era um tempo marcado por profundas mudanças: a passagem de uma sociedade agrária, rural e medieval à civilização industrial, moderna e urbana. No campo eclesial, dava-se a passagem da pastoral de conservação, de cristandade, para uma pastoral de neocristandade, de corte apologista e de embate com o mundo moderno.

1.1. Padre Alberione e a pastoral de conservação

O ministério presbiteral de padre Alberione começou como vigário paroquial, em sua diocese italiana de Alba. Em sua paróquia, tal como nas demais paróquias de sua diocese e da Europa naquele momento, ele encontrou uma pastoral centralizada na administração dos sacramentos e no padre, o típico modelo da “pastoral de conservação”, oriundo da cristandade medieval.

A pastoral de conservação

Assim denominada por Medellín (Med. 6,1) e lembrada por Aparecida (DAp 370), é um modelo de pastoral plasmado em dois momentos distintos: em sua configuração pré-tridentina, a prática da fé é de cunho devocional, centrada no culto aos santos e composta de procissões, romarias, novenas, milagres e promessas, práticas típicas do catolicismo popular medieval; em sua configuração tridentina, a vivência cristã gira em torno do padre, baseada na recepção dos sacramentos e na observância dos mandamentos da Igreja.

Resquício de uma sociedade teocrática e assentada sobre o denominado “substrato católico” de uma cultura rural estática, a pastoral de conservação pressupõe que os cristãos já estejam evangelizados, quando na realidade trata-se de católicos não convertidos, sem experiência pessoal da fé. Consequentemente, não há processos de iniciação cristã, catecumenato ou catequese permanente. A recepção dos sacramentos salva por si só, concebidos e acolhidos como “remédio” ou “vacina espiritual”. A paróquia é territorial e, nela, em lugar de fiéis, na prática, há clientes que acorrem esporadicamente ao templo, para receber certos benefícios espirituais fornecidos pelo clero.

Na pastoral de conservação, o administrativo predomina sobre o pastoral; a sacramentalização sobre a evangelização; a quantidade ou o número dos adeptos sobre a qualidade; o pároco sobre o bispo; o padre sobre o leigo; o rural sobre o urbano; o pré-moderno sobre o moderno; a massa sobre a comunidade. São elementos que caracterizam um modelo de pastoral circunscrito ao mundo medieval, pré-científico e teocrático.

Inquietações do padre Alberione diante da pastoral de seu tempo

Já como vigário paroquial, padre Alberione sentiu a necessidade da superação da pastoral de conservação, de algo novo, pois percebeu que aquele modelo já não respondia às novas exigências de seu tempo. Com o advento da civilização moderna, industrial e urbana, haviam emergido desafios novos, que exigiam uma pastoral inovadora. Não se justificava uma postura de oposição às novas realidades, aparentemente hostis à fé cristã.

Com grande zelo pastoral e forte sensibilidade social, entre outras iniciativas, padre Alberione começa propondo aos párocos de sua diocese um maior conhecimento da realidade, inclusive com o auxílio das ciências, especialmente da sociologia. Estava certo, pois um “ver” mais analítico e objetivo permitiu-lhe identificar elementos positivos da nova sociedade emergente que, depois, procurou incorporar na prática pastoral. Para ele, o pároco precisava ter um conhecimento concreto das misérias e das necessidades do povo, por meio de um conhecimento direto e objetivo. Ele é o pastor de todos, não apenas do pequeno grupo que acorre ao templo. Precisa chegar a todos, sair ao encontro dos mais distantes, chegar a todas as classes sociais, precisa chegar às “massas”, dizia. Parecia-lhe claro que a pastoral precisava abarcar a realidade humana em sua globalidade, todas as pessoas, de todas as condições sociais, com todos os meios que o progresso humano ia colocando à disposição. Não basta, dizia, a pregação e a catequese, pois são meios incapazes de chegar além dos ambientes estritamente eclesiais. Enfim, era preciso uma nova pastoral, tanto nos conteúdos como em seus meios.

1.2. Padre Alberione e a pastoral de neocristandade

Entretanto, não era a atitude positiva e propositiva de padre Alberione, que reinava na Igreja do início do século XX. A consciência do esgotamento da pastoral de conservação, de cristandade, não significava necessariamente a abertura da Igreja ao mundo moderno, a acolhida de seus valores e a interação com ele.

A postura desqualificadora e apologética da Igreja

A Igreja, sentindo-se destronada de seu lugar hegemônico na sociedade tradicional, vai levar a cabo um projeto de reconquista da sociedade emancipada, mais tarde, projeto este denominado por Jacques Maritain de neocristandade. Desde o século XVI, com o surgimento do humanismo, da Reforma Protestante e o nascimento das ciências metodologicamente irreligiosas, a Igreja havia entrado num processo gradativo de fechamento sobre si mesma, que estender-se-á até as vésperas do Concílio Vaticano II. A Revolução Francesa (1789) havia acirrado ainda mais essa postura desqualificadora e apologética. Como a modernidade havia nascido fora da Igreja e, em grande medida, contra ela, dado que seus centros de decisão haviam acompanhado de fora a evolução dos fatos, encontrava-se incapacitada de perceber nela valores evangélicos. Sentindo-se profanada e humilhada, passará a postular a anulação da Revolução Francesa e a restauração da antiga “civilização cristã”. Para isso, combaterá tanto os denominados “liberais”, herdeiros da revolução e adversários dos regimes monárquicos, como os socialistas, rotulados tanto quanto os liberais de “doutrinadores da irreligião” e anticlericais.

Como o clero não é mais aceito, o combate da Igreja é confiado à “milícia” dos leigos, como extensão do braço do clero. Eles recebem o mandato de “recristianizar” a sociedade emancipada, através de movimentos e associações, saindo para fora da Igreja para trazer de volta a sociedade emancipada para dentro dela. Esse modelo de pastoral foi denominado de “neocristandade”, por se propor a resgatar a cristandade, através de uma recristianização da sociedade não de cima para baixo, através da ação do clero, mas de baixo para cima, pela ação capilar dos leigos, no seio da sociedade.

Quanto ao padre Alberione, ele era um homem de seu tempo e, ao mesmo tempo, à frente de seu tempo. Enquanto as paróquias continuavam, em grande medida, atreladas à tradicional pastoral de conservação e os segmentos eclesiais mais aguerridos adotavam uma postura apologética diante da modernidade, sem provocar divisões, padre Alberione vai saber combinar tradição e novidade. Fidelidade à tradição sendo condescendente para com os colegas párocos da paróquia tradicional e contemporizando com a “crise modernista”, acirrada pelas posturas antimodernas do papa Pio X. Novidade, pois há um claro distanciamento das práticas da pastoral de conservação, como também da pastoral de neocristandade, apesar de seus escritos assumirem uma postura apologética. Na realidade, padre Alberione avança mais com as práticas do que com a teoria.

A pastoral de neocristandade

Como estratégia de evangelização, a pastoral de neocristandade assume a defesa da instituição católica, diante de uma sociedade supostamente anticlerical, assim como a guarda das verdades da fé perante uma razão dita secularizante, que não reconhece senão o que pode ser comprovado pelas ciências. À desconstrução da cristandade, que gera vazio, incertezas e medo, contrapõe-se o “porto de certezas” da tradição católica e um elenco de verdades apoiadas numa racionalidade metafísica, nos padrões escolástica, que o Concílio Vaticano I reimpulsionará. Se a pastoral de conservação era pré-moderna, a pastoral de neocristandade é antimoderna.

Na ação evangelizadora, a pastoral de neocristandade se apoia numa “missão centrípeta”: numa atitude apologética e proselitista, sair para fora da Igreja e trazer de volta as “ovelhas desgarradas” para dentro dela. Numa atitude hostil perante o mundo moderno, cria seu próprio mundo, uma espécie de “subcultura eclesiástica”, numa típica mentalidade de seita ou gueto. A redogmatização da religião e o entrincheiramento identitário são sua marca.

Como quando se está em estado de guerra, qualquer crítica é intolerada, pois enfraquece a resistência. Diante da dúvida, a certeza da tradição e a obediência à autoridade monárquica, ícone da divindade na terra. Em lugar da Bíblia, em contraposição aos protestantes, coloca-se na mão do povo o catecismo da Igreja; em lugar de teologia para formar cristãos adultos, enquadram-se os fiéis na doutrina e nos dogmas da fé católica. Com naturalidade, fala-se em “refazer o tecido cristão da sociedade”, em manter seu “substrato católico” e em adotar o “método apologético” na evangelização, ignorando um mundo autônomo da Igreja, pluralista, tanto no campo cultural como religioso.

2. Padre Alberione, a boa imprensa e o catolicismo social

Consciente dos valores da modernidade, com olhar crítico, mas positivo, padre Alberione se insere no seio da sociedade moderna e passa a utilizar-se dos meios modernos para levar adiante os ideais evangélicos. Para isso, soube sintonizar-se com um movimento novo na Igreja – o catolicismo social –, cujas iniciativas e práticas iriam desembocar na publicação da Rerum Novarum, dar origem à Ação Católica e influenciar os demais movimentos precursores do Concílio Vaticano II. 

2.1. A reação da Igreja diante de uma sociedade nova

Um forte agravante da situação era o avanço de um sistema capitalista selvagem, que deu origem a uma classe proletária, acirrando o conflito entre patrões e operários. Os posicionamentos e respostas à grave situação são de índole diversa. Durante o século XIX, movimentos sociais tentaram neutralizar os efeitos nefastos do capitalismo ou substituí-los por outro sistema.

Fora do ambiente religioso ou católico, três respostas se destacam: o socialismo utópico, com Saint Simon, Fourier e Proudhon, que propunha os ideais socialistas, alternativos ao capitalismo; o sindicalismo, movimento de associação operária nascida na Inglaterra no início de século XIX, que com seu reconhecimento jurídico, passou a regular contratos de trabalho e o direito de greve; e o socialismo científico, movimento revolucionário na linha de Marx e Engels, que prega a união do proletariado para fazer revolução, ou seja, instaurar o fim da propriedade privada e a implantação do sistema de propriedade coletiva dos meios de produção.

Nos meios católicos, há duas respostas principais. A primeira é o assistencialismo, tendência conservadora e acrítica, que pensa que a Igreja não deve intervir nos problemas sociais. A miséria e as desigualdades devem ser minoradas com a caridade assistencial. Atreladas a essa perspectiva, as intervenções do Magistério defendem o direito absoluto de propriedade, condenam as teses socialistas, exortam os pobres à resignação e propõem a caridade assistencial como única solução. Em outra perspectiva, está o catolicismo social, movimento pioneiro de reconciliação da Igreja com a modernidade, cujas iniciativas advogam por uma reforma social de tipo estrutural: concretamente, a organização dos trabalhadores, a intervenção do Estado na “questão social” e obras religiosas, sejam elas criadoras de consciência, sejam de fundos econômicos para socorrer os mais necessitados. Na França, destacam-se Lammenais, La Tour du Pin e Albert de Mun; na Alemanha, von Ketteler e Kolping; na Inglaterra, o cardeal Manning; na Itália, Toniolo e Taparelli.

2.2. O catolicismo social                                                 

O movimento, antes de 1848, terá como fontes especialmente o tradicionalismo e o antiliberalismo. A industrialização nascente na Inglaterra no final do século XVIII e implantada na França no início do século XIX e, logo a seguir, na Alemanha, suscitou da parte da Igreja a tomada de novas posições diante do fenômeno da pobreza crescente da nova classe operária. Na França, durante o período de restauração, com a desorganização e o confisco dos bens do clero, surge uma ação social católica que ultrapassa a caridade individual, largamente praticada até então, para constituir-se numa espécie de caridade organizada. Surge uma série de organizações leigas, tais como a Congregação Mariana, a Sociedade das Boas Obras, a Sociedade de Bons Estudos, a Sociedade São Francisco Sevis e a Sociedade São José, todas de cunho promocional e educacional. Na Alemanha, destaca-se padre Kolping, com a União dos Jovens Trabalhadores, calcada na formação religiosa e profissional.

Depois de 1848, até a Rerum Novarum (1891), o que caracteriza o catolicismo social é uma ação eclesial de grandes proporções, marcada, por um lado, pela tentativa de “restauração católica” e, por outro, de assimilação dos valores da modernidade. Após a Rerum Novarum, o movimento como um todo vai evoluir para uma postura de diálogo com o mundo moderno, assumindo o sindicalismo e a democracia, desembocando na Ação Católica e na democracia cristã, que iria provocar a “crise modernista” na Igreja.

Na Itália, o pensamento social será fortemente influenciado pela Civiltà cattolica, editada por três jesuítas:  Taparelli, Liberatore e Curci. A ação acontece em torno da Opera dei Congressi, fundada em 1875, que monopoliza toda a ação católica em vista da defesa do soberano pontífice. A partir de 1877, com o congresso de Bérgamo, os efeitos da propaganda socialista começam a se fazer sentir e ela, declarando-se preocupada com o perigo socialista, começa a desenvolver toda uma série de ações de caráter econômico e social, visando responder aos anseios das classes populares. Entre os grandes animadores da corrente reformadora, destacam-se o marquês Sassoli e Giuseppe Toniolo.

2.3. Padre Alberione e o catolicismo social

É nesse contexto que padre Alberione, associando-se às múltiplas iniciativas do catolicismo social, irá criar uma série de iniciativas em torno ao que ele chamava de “boa imprensa” ou “apostolado da edição”. Mais que defender a Igreja, o objetivo da “boa imprensa” era informar e instruir, especialmente os jovens, de modo que pudessem encontrar um lugar na sociedade urbana e industrializada. Ao seu redor estavam as obras dos Irmãos das Escolas Cristãs, dos Josefinos de Murialdo e dos Salesianos de Dom Bosco, que procuravam preparar os jovens para o emprego, sobretudo criando sólidos vínculos associativos, através de uma boa formação religiosa. Por sua parte, padre Alberione dará grande importância à contribuição da imprensa católica, particularmente aos jornais diocesanos e aos boletins paroquiais. Além da catequese e das notícias em torno à vida da comunidade católica local, recomenda a veiculação de informações a respeito das oportunidades de instrução técnica e profissional. A “boa imprensa” será uma das obras que ele irá recomendar ao clero jovem em sua obra Anotações de teologia pastoral, remetendo-se, inclusive, ao papa Pio X, que via nela uma grande necessidade na Igreja.

Na “boa imprensa”, padre Alberione vê um privilegiado meio de chegar a todo o povo de Deus e para além dos meios eclesiais, rompendo o gueto da paróquia tradicional, restrita a um pequeno grupo de católicos. Juntamente com o cônego Francisco Chiesa, ao difundir nas paróquias da diocese de Alba a União Popular, insta o clero ao compromisso, a romper com o “puro espiritualismo”, ir para a praça pública e para o social e, assim, contribuir para a cristificação da realidade em sua globalidade, tanto o mundo rural como o mundo urbano industrializado.

3. A pastoral na perspectiva do Vaticano II

As intuições e iniciativas de padre Alberione encontrariam solo fértil na renovação do Vaticano II (1962-1965) e nos desdobramentos de suas intuições, feitos pela tradição eclesial latino-americana, a partir da Conferência de Medellín (1968). Mas, antes, na esteira do catolicismo social, surgiram os movimentos precursores da renovação conciliar: a Ação Católica, os Padres Operários e os movimentos teológico, catequético, litúrgico, ecumênico e bíblico. Todos foram condenados pela Igreja, em 1950, mas depois reabilitados e acolhidos em suas intuições básicas pelo Concílio Vaticano II.

Com o Concílio, dar-se-á a passagem, pelo menos em tese: da cristandade à modernidade; da pastoral de conservação e de neocristandade à pastoral orgânica e de conjunto; do binômio clero-leigos ao binômio comunidade-ministérios; da Igreja-massa à Igreja-comunidade; do eclesiocentrismo ao diálogo ecumênico e inter-religioso; da sacramentalização a uma evangelização integral; da diocese parcela da Igreja universal à Igreja como Igreja de Igrejas locais; da salvação da alma à libertação integral; de uma Igreja gueto a uma Igreja missionária etc.

São mudanças de envergadura, com profundas consequências para todos os campos da vida eclesial, particularmente para a pastoral. A Igreja na América Latina iria mais longe. Através de uma “recepção criativa” do Vaticano II, aterrissou a renovação conciliar no contexto de um continente marcado pela exclusão e pela injustiça institucionalizada.

3.1. A pastoral orgânica e de conjunto

Já na primeira hora da recepção das propostas pastorais do Concílio Vaticano II, plasmou-se um modelo de pastoral, denominado “pastoral orgânica e de conjunto”.  Pastoral “orgânica”, porque cada iniciativa pastoral constitui-se num órgão, inserido num único corpo, que é a comunidade eclesial; de “conjunto”, porque as iniciativas pastorais de determinada comunidade eclesial se inserem no conjunto das iniciativas da Igreja local ou da diocese. Com isso, supera-se, por um lado, o paroquialismo e, por outro, o universalismo de movimentos sem compromisso com a Igreja local. Esse passo só foi possível graças ao resgate da Igreja local como o lugar da presença da Igreja toda, ainda que não seja toda a Igreja. A Igreja local é “porção”, e não parte da Igreja universal, dado que esta é Igreja de Igrejas locais. Por sua vez, autoconsciência da Igreja como povo de Deus faz a passagem do binômio clero-leigos para o binômio comunidade-ministérios, fazendo da comunidade eclesial como um todo o sujeito da pastoral. Consequentemente, nascem as assembleias de pastoral como organismos de planejamento e tomada de decisão e os conselhos e equipes de coordenação, como mecanismos de gestão da vida eclesial, na corresponsabilidade de todos os batizados.

No terreno das práticas propriamente ditas, há a passagem do administrativo para o pastoral, procurando responder, antes de tudo, às necessidades da comunidade eclesial, inserida no mundo. Para isso, coloca-se como ponto de partida o conhecimento da realidade das pessoas em seu contexto, condição para uma pastoral de encarnação. A ação pastoral é levada a cabo no âmbito interno da Igreja, mas, sobretudo, fora dela, pela inserção dos cristãos, no seio da sociedade, em perspectiva de diálogo e serviço. Rompendo-se com todo dualismo, desenvolve-se uma evangelização integral, que abarca todas as dimensões da pessoa e toda a humanidade.

3.2. A pastoral de comunhão e participação

A Igreja na América Latina irá além de uma pastoral orgânica e de conjunto. Com Medellín, a Igreja na América Latina passa a ter uma palavra e um rosto próprio. A palavra é fruto da leitura da mensagem evangélica, à luz da opção preferencial pelos pobres, que se traduziu na teologia da libertação, instância retroalimentadora das práticas das comunidades eclesiais, inseridas no mundo, em perspectiva profética. Seu rosto próprio lhe é dado pelas comunidades eclesiais de base, alicerçadas na leitura popular da Bíblia, na celebração vivenciada dos mistérios da fé e nas práticas libertadoras, em defesa e promoção da vida.

Com relação às práticas propriamente ditas, a pastoral de conjunto se abre a parcerias com outras Igrejas, religiões e instituições, comprometidas com uma sociedade inclusiva de todos, símbolo da realização do Reino de Deus desde a imanência da história. O compromisso e a ação em concerto com a Igreja local abrem-se à definição de diretrizes comuns, em âmbito nacional e continental. A Igreja, povo de Deus, é visibilizada em comunidades de tamanho humano, nas denominadas comunidades eclesiais de base, presentes especialmente no meio popular. Uma Igreja toda ela ministerial é concretizada na multiplicação de ministérios para os leigos, incluídas as mulheres, tanto para dentro como para fora da Igreja. A tomada de consciência da situação de injustiça institucionalizada reinante no continente leva à multiplicação de serviços de pastoral social, com o intuito de fazer dos pobres sujeitos de uma sociedade justa e solidária.

4. Aparecida e a pastoral de conversão missionária

Nas últimas décadas, a modernidade entrou em crise, com a irrupção de novos valores e desconcertantes desafios como o pluralismo cultural e religioso, a emergência de uma nova racionalidade, a irrupção de novos rostos da pobreza e da exclusão, a alteridade como gratuidade, a subjetividade e a autonomia dos sujeitos etc. As mudanças geram medo em muitos segmentos da Igreja, particularmente na Cúria Romana. E não só houve estancamento no processo de renovação do Vaticano II, como também retrocesso em muitos campos. O longo inverno eclesial se estendeu até a renúncia do papa Bento XVI. A Conferência de Aparecida já havia constatado que “está faltando coragem, persistência e docilidade à graça para levar adiante a renovação do Vaticano II” (DAp 100h).

4.1. O desafio atual de uma pastoral secularista

Neste novo contexto de crise da modernidade, um primeiro desafio para a Igreja na atualidade é a volta da mentalidade de neocristandade e o ressurgimento de novos fundamentalismos e tradicionalismos. A pastoral de neocristandade voltou com força, com ares de “revanche de Deus”, com muito dinheiro e poder, triunfalismo e visibilidade, guardiã da ortodoxia, da moral católica, da sagrada tradição. Constitui-se, hoje, na mais acabada expressão de um modelo de evangelização ultrapassado, mas que se apresenta como “nova evangelização”, a única capaz de manter vivos os ideais evangélicos em um mundo secularizado.

Um segundo desafio, não menos complexo, é a emergência de uma religiosidade eclética e difusa, providencialista e milagreira, uma mescla das práticas devocionais pré-tridentinas, com uma espiritualidade emocionalista, mercadológica e mediática. Em tempos pós-modernos, também a religião passa a ser consumista, centrada no indivíduo e na degustação do sagrado, entre a magia e o esoterismo.

Essa prática religiosa, que poderíamos chamar de pastoral secularista, muito presente também no catolicismo, propõe-se responder às necessidades imediatas dos indivíduos, em sua grande maioria órfãos de sociedade e de Igreja. Trata-se de pessoas desencantadas com as promessas da modernidade, em crise de identidade, pessoas machucadas, desesperançadas, frustradas, depressivas, sofredoras, em busca de autoajuda e habitadas por um sentimento de impotência diante dos inúmeros obstáculos a vencer, tanto no campo material como no plano físico e afetivo. Busca-se a felicidade hoje, aqui e agora, através da solução imediata dos problemas concretos. Há um encolhimento da utopia no momentâneo, pondo em destaque o valor e a urgência do presente, do momentâneo, do agora, urgindo um encolhimento da utopia no hoje da história. É outra noção de tempo, não como chronos, mas como kairós, no qual os fins que se perseguem, se são verdadeiros, precisam ir sendo experimentados no caminho, em experiências de plenitude em meio à precariedade do presente, em momentos de eternidade no tempo. Dado que o passado perdeu relevância e o futuro é incerto, o corpo é a referência da realidade presente, deixando-se levar pelas sensações e professando uma espécie de “religião do corpo”. Entretanto, na medida em que Deus quer a salvação a partir do corpo, essa religiosidade colada à materialidade da vida pode ser porta de saída para a religião, mas pode significar também uma porta de entrada.

Confunde-se salvação com prosperidade material, saúde física e realização afetiva. É a religião à la carte: Deus como objeto de desejos pessoais, solo fértil para os mercadores da boa-fé, no seio do atual próspero e rentável mercado do religioso. Há um deslocamento da militância para a mística na esfera da subjetividade individual, do profético para o terapêutico e do ético para o estético. Isso contribui para o surgimento de “comunidades invisíveis”, compostas por “cristãos sem Igreja”, sem vínculos institucionais, que se constituem em portadores de uma vigorosa crítica ao controle do sagrado por parte da instituição religiosa. Nesse contexto, a mídia em geral contribui para a banalização da religião, reduzindo a religião não só à esfera privada, como também a um espetáculo para entreter o público. Trata-se de uma “estetização presentista”, propiciadora de sensações “intranscendentes”, espelho das imagens da imanência. Uma mescla de profissão de fé a afirmação narcisista, típicas de um sujeito ameaçado.

4.2. A pastoral de conversão missionária

Consciente destes desafios, a Conferência de Aparecida fez um forte apelo à Igreja na América Latina a retomar a renovação do Vaticano II e a não perder de vista a tradição libertadora latino-americana, tecida em torno a Medellín. Para isso, resgata a exigência de uma “conversão pastoral”, proposta pela Conferência de Santo Domingo, que leve a mudanças, na perspectiva da renovação conciliar, em quatro âmbitos: na consciência da comunidade eclesial, na práxis ou nas ações pastorais, nas relações de igualdade e autoridade e nas estruturas da Igreja.

Para uma conversão na consciência da comunidade eclesial, Aparecida afirma que ela necessita “desinstalar-se de seu comodismo, estancamento e tibieza, à margem do sofrimento dos pobres do continente”. Por isso, “esperamos um novo Pentecostes que nos liberte do cansaço, da desilusão e da acomodação em que nos encontramos” (DAp 362). A firme decisão missionária de promoção da cultura da vida “deve impregnar todas as estruturas eclesiais e a todos os planos de pastoral, em todos os níveis eclesiais, assim como toda a instituição eclesial, abandonando as estruturas ultrapassadas” (DAp 365). A Igreja está no mundo e existe para a salvação do mundo, por isso, precisa testemunhar “os valores do Reino no âmbito da vida social, econômica, política e cultural” (DAp 212), para transformar a “cidade atual” na “Cidade Santa” (DAp 516). Num mundo pluralista, é preciso saber acolher e colaborar com a obra que o Espírito realiza, também fora da Igreja e, portanto, “necessidades urgentes nos levam a colaborar com outros organismos ou instituições” (DAp 384). Para trabalhar com os diferentes, é preciso “descolonizar as mentes”, fazer cessar a lógica colonialista de rechaço e de assimilação do outro, uma lógica que não vem de fora, mas que está dentro de nós (cf. DAp 96). Por isso, “anúncio e diálogo são elementos constitutivos da evangelização” (DAp 237).

Em segundo lugar, conversão pastoral é essencialmente mudança no âmbito das práticas, da ação eclesial. Para Aparecida, esta começa pelo testemunho, fruto de uma experiência pessoal com Jesus Cristo (DAp 243). Daí a necessidade de uma ação evangelizadora que chegue às pessoas, para além de comunidades massivas, constituídas de cristãos não evangelizados, de débil identidade cristã e pouca pertença eclesial (DAp 226a). Evangelizar não consiste simplesmente em incorporar pessoas a uma instituição, mas, antes de tudo, encarnar o Evangelho na vida de pessoas contextualizadas. Para Aparecida, “Deus, em Cristo, não redime só a pessoa individual”, mas em suas “relações sociais” (DAp 359), por isso, evangelizar é também “engendrar padrões culturais alternativos para a sociedade atual” (DAp 480). Consequentemente, a Igreja está “convocada a ser advogada da justiça e defensora dos pobres”, diante das intoleráveis desigualdades sociais e econômicas, que clamam ao céu (DAp 395). A opção pelos pobres, “para que seja preferencial, precisa transpassar todas as nossas estruturas e prioridades pastorais” (DAp 396). Assim, cabe “promover renovados esforços para fortalecer uma pastoral social estruturada, orgânica e integral, que, com a assistência e a promoção humana, se faça presente nas novas realidades de exclusão e marginalização, lá onde a vida está mais ameaçada” (DAp 401). Para isso, é preciso “favorecer a formação de um laicato capaz de atuar como verdadeiro sujeito eclesial e competente interlocutor entre a Igreja e a sociedade” (DAp 497).

Em terceiro lugar, conversão pastoral implica mudanças nas relações de igualdade e autoridade. Nesse particular, para Aparecida, o clericalismo, o autoritarismo, a minoridade do laicato, a discriminação das mulheres e a falta de corresponsabilidade entre todos os batizados na Igreja são os grandes obstáculos para levar adiante a renovação proposta pelo Vaticano II. Daí a necessidade, na obra da evangelização, da participação “dos leigos no discernimento, tomada de decisões, do planejamento e da execução” (DAp 371). Urgem processos de tomada de decisões relativas à pastoral, que contemplem a participação de todos, na corresponsabilidade de todos os batizados na obra da evangelização. Nesse sentido, destaca Aparecida a necessidade de promover “o protagonismo dos leigos, em especial das mulheres”, estas com ministérios e “efetiva presença nas esferas de planejamento e nos processos de tomada de decisão” (DAp 458).

Em quarto lugar, a conversão pastoral precisa descer ao nível das estruturas. Estas são um elemento fundamental da visibilidade da Igreja, pois afetam seu caráter de sacramento. As estruturas são também mensagem. Para Aparecida, as estruturas sociais injustas da sociedade desafiam as estruturas pastorais, pois elas não conseguem responder às necessidades dos necessitados. Por isso, se a opção pelos pobres é preferencial, ela precisa “atravessar todas as nossas estruturas e prioridades pastorais” (DAp 396). A Igreja, como “casa dos pobres” (DAp 8), “Igreja samaritana” (DAp 26), deve criar estruturas abertas para acolher a todos (DAp 412), em perspectiva da vida em abundância (DAp 121). Expressão de uma Igreja, que quer assumir com mais força a opção pelos pobres, são as pequenas comunidades eclesiais ou de base; para Medellín, “célula inicial de estruturação eclesial e foco de evangelização” (DAp 178). Por isso, para Aparecida, levando em consideração suas dimensões, é aconselhável sua “setorização em unidades territoriais menores, com equipes de animação e coordenação que permitam uma maior proximidade às pessoas e grupos que vivem na região”; e, dentro destes setores, criar “grupos de famílias, que ponham em comum sua fé e as respostas a seus próprios problemas” (DAp 372).

Considerações finais

Padre Alberione foi um homem de seu tempo e, ao mesmo tempo, à frente de seu tempo. São essas “minorias abraâmicas”, no dizer de Dom Hélder Câmara, que vão abrindo novos caminhos, na tessitura do risco, a única garantia de futuro. O Vaticano II foi um “advento” para o terceiro milênio e a tradição recente da Igreja na América Latina aponta para uma Igreja samaritana e profética, o perfil das comunidades eclesiais, que assumem a missão de ir antecipando o Reino da vida, que não conhece ocaso, na precariedade da história.

Referências

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________. O apostolado da edição. São Paulo: Paulus, 2012.

________. A mulher associada ao zelo sacerdotal. São Paulo: Paulus, 2011.

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BRIGHENTI, A. “Énfasis pastorales de la Iglesia en América Latina y El Caribe en los últimos 50 años”. Medellín 123 (2005) 375-398.

________. “A pastoral na vida da Igreja. Repensando a missão evangelizadora em tempos de mudança”. In: CNBB. Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-catequética. Brasília: Ed. CNBB, 2012, p. 117-138.

FOLLIET, J. “Catholicisme Social”. Catholicisme, t. III, 1949, col. 703-722.

REMY, Jean. “Le défi de la modernité: la stratégie de la hiérarchie catholique aux XIXe et XXe siècles et l’idée de chrétienté”. Social Compas, XXXIV/2-3, 1987, p. 151-173.

ROLFO, Luís. Padre Alberione. São Paulo: Paulus, 1975.

Agenor Brighenti

Presbítero da diocese de Tubarão-SC, professor e coordenador do mestrado e doutorado em Teologia na PUC de Curitiba, professor visitante na Universidade Pontifícia do México e no Instituto Teológico-Pastoral do CELAM. Membro da Equipe de Reflexão Teológica do CELAM. E-mail: agenor.brighenti@pucpr.br.