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Publicado em Julho agosto

Paróquia, rede de comunidades

Por Pe. Pedro F. Bassini

INTRODUÇÃO[1]

Até o século V aproximadamente, a sede da diocese contava apenas com a Igreja central, onde o bispo com seus presbíteros e diáconos exerciam as funções sagradas – essa era a comunidade. Com o aumento populacional dos fiéis expandindo-se para a zona rural, o bispo enviava um de seus presbíteros para a assistência espiritual àquele povo. Esse processo gerou o início da estruturação da paróquia, que também era a comunidade. No Brasil, o processo foi um pouco diferente: a paróquia se constituiu na cidade, e na zona rural criaram-se as chamadas capelas, onde os padres da paróquia davam assistência ao povo de tempo em tempo, nas desobrigas. As capelas tinham um presidente, que fazia o contato do povo com o padre. Muitos presidentes ficavam nesse posto até morrer. A capela funcionava conforme o desejo do presidente e quando o padre passava para a desobriga. O que sustentava a vida da capela eram os movimentos eclesiais com a reza do terço, ladainhas e outras devoções. Esse costume, fruto do seu tempo, segurou a fé de muitos seguidores, e o espírito da tradição garantiu a continuidade, passando os rituais de pais para filhos. A vida pastoral girava em torno da sede paroquial, que concentrava todas as atividades; as capelas praticamente viviam dos restos. Com o advento do Vaticano II, em muitas dioceses essas capelas foram transformadas em comunidades, com outra política organizacional.

 

1. O TERMO COMUNIDADE

O concílio não explorou o tema das comunidades e, quando fala de comunidade, ainda tem como referência a Igreja diocesana ou a paróquia (AG 1216).

O documento nascido da II Conferência dos Bispos Latino-Americanos, ocorrida em Medellín no ano de 1968, está todo perpassado pelo termo comunidade e há nele todo um empenho para formar comunidades, pequenas comunidades, comunidades eclesiais de base. Afirma que a renovação da paróquia se dará pela renovação das estruturas pastorais, criando comunidades cristãs na base (15,10).

Na III Conferência do Episcopado Latino-Americano, realizada em Puebla em 1979, já se percebe uma boa elaboração do termo e seu concreto significado. Há uma definição do que é a comunidade (641-643); sua origem histórica na América Latina (9); como amadureceu e se multiplicou (96); começa a dar frutos (97); o reconhecimento de sua validade (156); e já torna possível intensa vivência da Igreja como família de Deus (239).

A IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano realizou-se em Santo Domingo no ano de 1992. Em seu documento, encontramos vasta citação do termo comunidade cristã e comunidade eclesial de base. Os bispos afirmam sua necessidade e seu valor e já acenam para uma organização da paróquia em rede de comunidades: a paróquia, comunidade de comunidades e movimentos… É uma comunhão orgânica e missionária (58).

A V Conferência ocorreu em Aparecida em 2007. Embora os bispos falem de comunidade em quatro instâncias: pequenas comunidades, comunidade de vida e aliança, novas comunidades e comunidades eclesiais de base, o termo aparece 144 vezes no desenrolar do documento. Importa ressaltar que o tema foi abordado e recebeu força para um prosseguimento futuro, sendo indicado como o caminho para verdadeira evangelização. E não poupa elogios a essa forma de organizar a paróquia, falando de suas estruturas caducas e propondo sua setorização em rede de comunidades. Para Aparecida, a paróquia deve ser comunidade de comunidades (170-172).

 

2. UMA LEITURA DA ESTRUTURA PAROQUIAL

Uma estrutura que não é de hoje, mas secular, milenar. Passou por várias crises e várias investidas de renovação, alguma coisa se adaptou, mas, em sua essência, nada mudou. A sociedade progrediu, as culturas se alternaram, porém o núcleo paroquial da matriz com o pároco e sua centralidade continuam. Nas análises da realidade em várias Igrejas particulares, entre as sombras, sempre aparece a estrutura paroquial pesada; a administração paroquial ocupa o tempo da pastoral; a burocracia institucional da paróquia emperra a vida espiritual; o pároco gasta mais tempo em construções do que atendendo o povo. São algumas dessas sombras. A paróquia ainda se confunde com a matriz e ela detém toda a primazia.

2.1. Paróquia matriz

Toda a atividade eclesial ocorre em torno da matriz, que centraliza em si a vida espiritual, tornando-se um centro introspectivo. O povo vem à Igreja, mas a Igreja não vai ao povo, carece de uma atualização missionária, pois não irradia, mas só ilumina a si mesma. Essa forma paroquial é centralizada no pároco, e dele dependem toda a organização e as decisões, os fiéis são apenas assistentes; um modelo de cristandade que perdura em nossos tempos com tendência a se expandir, dependendo da mentalidade eclesial do pároco. A sacramentalização (o ritualismo técnico-objetivo) é amplamente praticada. Vive-se mais a religiosidade que a espiritualidade, pelas práticas devocionais. As tradições, quase intocáveis, marcam o calendário das atividades maiores, e não há interesse em fazer planejamento pastoral, pois a tradição precisa ser cumprida, basta continuar cada ano repetindo o calendário com pequenas inovações. A organização que emana dela são algumas pastorais e outros grupos para sustentar a vida litúrgica e a continuidade da doutrina. Uma vivência muito objetiva e clara, porém fechada em si mesma e excludente.

2.2. Paróquia matriz–filiais

Traz as mesmas características da paróquia matriz centralizada, só acrescentando as capelas, compreendidas mais ou menos como simples filiais da matriz. Dela tudo depende, e tudo o que fazem deve concorrer para a matriz. Basicamente, a capela funciona com a missa periódica e a festa do padroeiro; outros sacramentos e atividades convergem para a matriz. Em muitos lugares a capela só funciona conforme o calendário de visita do padre.

2.3. Paróquia santuário

Há uma população residente que sustenta a organização e vive em função do santuário. Embora exerça uma ação centralizada, há um diferencial nos fiéis que participam. Torna-se um lugar de passagem com alta rotatividade de pessoas que, com as mais variadas intenções, acorrem ao santuário: pagam promessas, participam de sacramentos, adquirem objetos religiosos, abastecem sua religiosidade e retornam ao seu mundo vivencial, aguardando uma próxima viagem. Muitos desses peregrinos, em seu lugar de vida, são membros ativos da Igreja local. A pastoral do santuário não considera muito seus moradores locais. Eles se misturam aos peregrinos visitantes, tornando-se assistentes como os que vêm de fora. Toda a pastoral, intraeclesial, está centrada na devoção que o santuário propaga e funciona com a metodologia das massas: o show, o espetáculo, a linguagem objetiva e curta, muitas vezes condicionante. O eixo-motor é a doutrina com os ritos sacramentais, que promovem uma religiosidade individualista para atender à expectativa de cada pessoa que ali chegou. As pastorais sociais têm pouca atenção e se aplicam prioritariamente ao bem-estar dos peregrinos.

2.4. Paróquia rede de comunidades

Suas características principais são:

a) descentralização;

b) empoderamento dos fiéis;

c) ministerialidade;

d) consciência de pertença;

e) poder-serviço;

f) missionariedade;

g) transformação social.

 

a) Descentralização (o conselho de Jetro a Moisés, Ex 18,13-27). A vida eclesial se desenvolve na comunidade, e a matriz, em sentido pastoral, torna-se apenas uma comunidade. Embora conserve o poder jurisdicional canônico, é apenas uma instituição jurídica e de serviço à rede de comunidades que a compõe em seu território prescrito. O poder não está centralizado na matriz e no pároco, e sim no conselho que rege a rede: o conselho pastoral paroquial, formado com representantes oficiais de cada comunidade, basicamente sua coordenação. As decisões são sempre colegiadas tanto para a rede como para cada comunidade, que conta com o seu conselho comunitário pastoral. Este é formado pelas forças vivas da comunidade: líderes nas pastorais, nos movimentos e nas associações de cunho tanto religioso quanto político-social. Essa descentralização compreende uma interdependência funcional das comunidades entre si e com o pároco, que se torna o animador da rede paroquial. Com isso, a comunidade torna-se sujeito na evangelização e não apenas objeto, em que um líder descarrega sua fala sobre o evangelho ou outro assunto qualquer de cunho religioso.

b) Empoderamento dos fiéis. Fica eliminada a clássica divisão clero-leigos: a Igreja ao clero, o mundo aos leigos. Todos os fiéis, exercendo a missão batismal, são corresponsáveis na evangelização, cada um no seu lugar e ministério, ordenado ou não ordenado, organizados para a funcionalidade do todo eclesial. Essa mentalidade gera o respeito a cada membro da comunidade, que se sente acolhido e integrado ao corpo comunitário e sabe do seu direito e do seu dever. Para isso, o plano de pastoral paroquial vai contemplar grande espaço de tempo para o estudo, favorecendo a formação em todos os níveis de organização do povo nas comunidades. Dessa forma, fica clara a visão do Vaticano II sobre a Igreja povo de Deus (LG 308). Do nível da assistência passa-se ao nível de participante, integrante, celebrante. A espiritualidade encarna na vida e será exercida em qualquer lugar e função que se desenvolva, pois o fiel é Igreja por onde ele passa, e seu testemunho torna-se visível pelo seu comportamento vivencial. Cessa a dependência e se cria a intercomunhão, que possibilita o diálogo maduro em todos os níveis. Na dependência, funciona a subserviência e a escravidão; só na autonomia a liberdade pode ser exercida. Nesse sentido, empoderamento é devolver ao outro o direito que ele tem de sustentar uma relação em nível de pessoa, com sua característica pessoal, ou seja, no seu jeito de ser.

c) Ministerialidade. Uma Igreja toda ela ministerial significa ir às fontes do cristianismo, resgatando o jeito de viver o evangelho nas primeiras comunidades e o adaptando às exigências reais deste tempo na sua culturalidade; mas o princípio é o mesmo, basta conferir as cartas apostólicas no que diz respeito à vida da comunidade. O exemplo disso é a comparação que o apóstolo Paulo faz da comunidade com o corpo (1Cor 12,12-31). Há uma variedade de membros, cada um com sua função definida, porém na unidade do corpo e todos os membros em prol do mesmo corpo. O corpo só funciona bem se seus membros estiverem funcionando bem. Cada um no seu posto e o todo vai bem. O diferente não atrapalha, mas complementa e desenvolve diferentemente uma função que completa a harmonia. Diferentes, mas todos igualmente importantes e respeitados em sua função. São ministérios de serviço e não resguardam privilégios, sentem-se realizados enquanto servem e o ganho final é sempre do corpo inteiro. O ministro não apresenta um show com base em seus talentos nem está interessado em aplausos que elevem seu orgulho pessoal. O que vale é o “com-junto” (junto com). Por ministério entendemos um serviço institucionalizado e continuado que faz existir a comunidade, pois todo ministério existe para a comunidade, ele é essencialmente comunitário, aí ele nasce e se desenvolve.

d) Consciência de pertença. O batismo insere a pessoa no seguimento de Cristo numa comunidade. Na Igreja primitiva, os convertidos passavam pelo batismo e daí em diante testemunhavam o Ressuscitado, mudavam seu comportamento vivencial e, mesmo que por causa desse modo de viver fossem levados ao martírio, dificilmente trocavam o comportamento, renegavam o nome recebido. “Vestiam a camisa”, defendiam a causa, propagavam com a própria vida e em qualquer ambiente testemunhavam. A fé modelava a vida. Essa é a MINHA comunidade; eu SOU essa comunidade. Se ela vai bem ou mal, depende também de mim, e, quando critico, é para fazê-la progredir. A consciência de pertença é o enraizamento da pessoa na comunidade; bem enraizada, ela está segura e pode circular por vários ministérios e serviços sempre com a mesma disponibilidade e alegria. Como sinais concretos de pertença, podemos definir: a presença responsável, a frequência às atividades – celebrações e eventos –, o compromisso com o dízimo, a colaboração nas necessidades extraordinárias e o estudo para alargar os conhecimentos eclesiais.

e) Poder-serviço. Aqui, os membros da comunidade se embasam no testemunho de Cristo, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate” (Mt 20,28). Estamos falando da autoridade moral, que se faz respeitar pela força interna da alma e não pela ditadura da lei ou pela força das armas. O poder-serviço nunca tem medo do diálogo e aceita na mesa de conversação qualquer tipo de assunto em busca do que seja melhor para a comunidade, sem, porém, abrir mão da ética e da caridade. O poder que não é serviço exclui assuntos e, para não sair do mando, foge. Aplica a lei com parcialidade para beneficiar-se das definições. Põe-se acima do bem e do mal, é sempre um juiz definidor. Mas Deus se fez serviço (Lc 17,10). Pelo poder-serviço nunca se buscam privilégios, ganhos ou lucros – “serve enquanto serve” e continuará sempre servindo, pois descobriu que nesse sistema está a alegria e toda a realização humana. Não é um trabalho com remuneração, mas é a aplicação da gratuidade na graça. Isso enobrece a alma.

f) Missionariedade. Na comunidade, a missão não é um ministério ou um serviço temporário que uma pessoa determinada desenvolve. É a razão de ser da comunidade. A missão da Igreja é evangelizar, e isso não significa só falar do evangelho. Toda a comunidade é missionária enquanto vive o evangelho no jeito de Jesus. Se alguém é designado para uma função fora da comunidade, nunca vai para mostrar seu talento pessoal. O que faz, o faz em nome da comunidade que o enviou. Normalmente, essas funções são desenvolvidas em duplas ou equipes, justamente para salientar o aspecto comunitário. Para ser missionário, primeiro se precisa ser discípulo. No discipulado está o aprendizado. Aprender a tomar a cruz de cada dia para estar seguro do seguimento. Por isso, a teologia da cruz tem lugar de destaque na comunidade. Pois ela não se reúne para efetuar curas ou milagres nem para fazer shows. O seu marketing é a cruz da qual pendeu a salvação do mundo. A comunidade deve ser tão grande, que nela caibam todas as realidades existentes em seu território, inclusive afetivo, mas deve ser tão pequena, que todos os membros se conheçam e ninguém fique escondido ou excluído. Por isso, quando o número de fiéis aumenta muito, é hora de exercer a missão e fundar outra comunidade para não perder a irmandade. Com isso, multiplicam-se as lideranças, favorece-se a presença, expandem-se os sinais testemunhais. A comunidade é missionária em si mesma e para fora de si. Aonde quer que vá um fiel formado nessa mentalidade, seu compromisso é ser comunidade, inserindo-se em uma já existente ou formando outra.

g) Transformação social. Em uma paróquia centralizadora ou de massa, sua periferia ficará sempre abandonada, e justamente os pobres, pelos quais o Cristo fez opção preferencial, continuam desamparados. Transformação social está ligada com reino de Deus. O objetivo da vivência da fé, ou da evangelização, é fazer que a sociedade seja justa, fraterna e solidária. Implantando comunidades em todo o território social, cria-se a estrutura para a dinâmica do reinado. Muitas realidades eclesiais perderam a ligação com esse objetivo. Centram toda a pregação no reinado pós-morte e na vivência individual dos valores morais do tipo “salva a tua alma!” Quando Jesus anunciou o reino, quis garantir um lugar de vivência saudável para a humanidade. Por isso, a comunidade não está ocupada apenas com a dimensão espiritual da pessoa, mas quer cuidar também do corpo dessa pessoa e do lugar onde esse corpo, essa pessoa, habita. Trabalhar politicamente para as melhorias físicas do bairro onde reside é genuína evangelização; promover o bem comum, cuidar dos bens que pertencem a todos, é evangelização; ajudar o outro a ser mais feliz é evangelização; defender a ética na política, no comércio e nas relações interpessoais é evangelização; denunciar a corrupção e todas as falcatruas é evangelizar. Toda espiritualidade que não leva o fiel a esse comportamento não vem de Deus.

 

3. PARA RENOVAR A ESTRUTURA PAROQUIAL

Parece-me que o grande obstáculo para concretizar o sistema paroquial em rede de comunidades é a falta de vontade política aliada à macromentalidade eclesial do momento. É preciso vontade política do clero e de todas as lideranças eclesiais na Igreja particular para iniciar e continuar o sistema, observando e contemplando as características próprias que ele requer. A Igreja particular é autônoma e completa em sua constituição. O povo católico que aí habita é supervisionado por um sucessor dos apóstolos que, auxiliado por todos os ministérios e serviços necessários ao existir concreto desse mesmo povo, atua na evangelização com todas as suas exigências. Tomada a decisão, o próprio jeito de caminhar, considerando as realidades locais, vai aperfeiçoando os instrumentos que favorecem a vida espiritual desse mesmo povo e o faz progredir na consciência de ser Igreja, povo de Deus. A reflexão acerca de alguns temas e o seu aprofundamento ajudarão na compreensão e assimilação desse jeito de ser Igreja.

  • Compreender a teologia da Igreja particular. Qual o rosto dessa Igreja? Como ela encarna o evangelho na cultura e no jeito de viver desse povo? O anúncio do evangelho ilumina e traz esperança, promove os valores dessa cultura?
  • Passar do poder eclesiástico para o poder eclesial que favorece o empoderamento dos fiéis. Viver o poder-serviço que respeita a pessoa em seu lugar e com os seus valores, acolhendo-a do jeito que ela é e está, para que, a partir desse encontro, ela se encontre, encontre a Cristo e faça a opção pela comunidade.
  • Promover a pessoa em sua individualidade, ressaltar sua dignidade, respeitar suas particularidades para que não seja apenas um número na massa, mas tenha consciência de seu lugar eclesial e o exerça com liberdade e gratuidade. A massa quer emoção, porém elas são passageiras e não se sustentam nos momentos de crise ou qualquer outra dificuldade.
  • Superar o individualismo espiritual que infantiliza a relação com o transcendente. Respeitar Deus em seu lugar de Deus e aceitar o lugar de criatura feita à imagem de Deus, mas não é Deus ou mais que Deus. Uma espiritualidade adulta sabe em quem confia e por que confia, tem certeza do objetivo final da vida que é Deus mesmo. Não se desespera diante dos infortúnios, pois sabe da companhia que tem, e nada lhe amedronta (Sl 22).
  • Formar os fiéis para sua ministerialidade, que não existe por faltar ministros ordenados, mas por ser decorrência do batismo e, portanto, direito da fé recebida e expressa na comunidade.

Em algumas dioceses que já atuam nesse sistema, ainda se observa que a matriz ocupa lugar privilegiado. Lá se reúnem as pessoas com maior destaque social e em maior número. Parece que isso enaltece o ego presbiteral, que dedica mais tempo, e tempo nobre, a esse grupo de fiéis. Eles são mais santos por terem maior presença do padre? Não seriam os mais distantes, mais pobres, com maiores dificuldades e socialmente menos expressivos a precisar de maior presença pastoral? Ou será que o dízimo maior atrai a atenção do padre?! A consciência do sistema de comunidade em rede deve gerar também a solidariedade entre elas, e a partilha não pode ser obstáculo, mas exercício da caridade fraterna. Partilha dos bens, dos dons, dos carismas e talentos. Partilha da vida, em que cada comunidade entra com o que é e tem, para que não haja necessidade em nenhuma comunidade nem seus membros passem necessidade. O exercício pastoral em uma rede de comunidades não obedece ao sistema de castas ou status. Centra sua atenção na pessoa, imagem de Deus, onde quer que ela esteja e qualquer que seja sua condição humana; por isso o evangelho se faz serviço para, na humildade, chegar a todos.

 

4. O LUGAR DO MINISTÉRIO ORDENADO

Integrado no povo de Deus, contando com os diversos conselhos em seus níveis organizacionais e com a variedade ministerial, o ministro ordenado sente-se mais confortável espiritualmente em sua função de pastorear e administrar a paróquia. Perde poder e ganha autoridade; perde status e ganha humildade. Diminui a responsabilidade e aumenta a solidariedade, o comprometimento. Ocupando somente o seu lugar, ganha segurança e leveza para as decisões que lhe competem. Torna-se então animador, estimulador, provocador, para fazer avançar a evangelização e despertar cada vez mais a consciência da missão, que é de todos. Sua função principal não é sacramentalizar, mas formar o povo de Deus para a vivência dos sacramentos em todas as dimensões da vida. Tendo clareza de seu lugar de fiel no discipulado, fica mais fácil exercer o ministério ordenado a serviço do povo.

 

CONCLUSÃO

Na Igreja no Brasil, onde mais de 70 mil comunidades celebram o domingo sem a presença do ministro ordenado, essa forma de organizar a paróquia favorece aos fiéis a corresponsabilidade na evangelização e os amadurece na missão. Não está em jogo o valor da celebração eucarística ou o valor da celebração em torno da palavra de Deus, dirigida por um ministro não ordenado. Importa aqui ressaltar o valor da comunidade que se reúne para celebrar. Ninguém põe em dúvida que deveria sempre ser celebração eucarística. Porém, pelas circunstâncias históricas, nossa Igreja carece de ministros ordenados neste modelo atual. Certamente, ao ser atingida essa realidade, sempre haverá lugar para a diversidade de ministérios não ordenados, desde que se compreenda a Igreja como um corpo orgânico que vive em conjunto. Isso, sim, seria a “leveza” completa da estrutura paroquial, em que cada comunidade teria o seu corpo ministerial completo. Evidentemente, o pároco teria outras ocupações, e a forma de atuação do bispo não seria a de hoje. Haveria tempo mais que suficiente para a meditação, a contemplação, o acolhimento, a orientação espiritual, a visitação, o estudo e o aprofundamento nas ciências eclesiásticas para melhor formar o povo nas comunidades com seu corpo ministerial. Quando será? O sonho não pode ser perdido e, quanto mais alimentado for, mais próximo se realizará. Enquanto isso, é preciso continuar investindo e acreditando nesse jeito novo de ser Igreja para, conscientemente, estabelecer o diálogo com os valores sociais em constante transformação, manifestando publicamente os sinais da esperança que nunca decepciona, razão da fé cristã.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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______. III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano: a evangelização no presente e no futuro da América Latina. Puebla: conclusões. Petrópolis: Vozes, 1979.

______. IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (Santo Domingo): nova evangelização, promoção humana, cultura cristã: documento de trabalho. Edição didática elaborada por João B. Libanio, sj. São Paulo: Loyola, 1993.

______. Documento de Aparecida: texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano. São Paulo: Paulus: Paulinas; Brasília: CNBB, 2007.

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RUBIO, Alfonso Garcia. Nova evangelização e maturidade afetiva. São Paulo: Paulinas, 1993.

VATICANO II. Documentos do Concílio Vaticano II. São Paulo: Paulus, 1997.

 

* Pároco da Paróquia do Santíssimo Sacramento da Eucaristia em Cachoeiro do Itapemirim-ES. Foi presidente da Conferência Nacional de Presbíteros e subsecretário-adjunto para a pastoral (CNBB).

 



[1] Não se trata de um texto acabado, mas provocativo, com a intenção de suscitar a reflexão e abrir espaços de questionamentos sobre o assunto. A base em que me apoio, além da literatura e de documentos a respeito, é a vivência pastoral na Paróquia Santíssimo Sacramento da Eucaristia, onde sou pároco, na Diocese de Cachoeiro de Itapemirim-ES.

 

Pe. Pedro F. Bassini