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Publicado em Julho-Agosto de 2008 (pp. 12-19)

Paróquias renovadas à luz de Aparecida

Por Pe. Manoel Godoy

Há muito tempo se fala em renovação da paróquia, o que pode sugerir não ser nada fácil essa missão. Há quem rechace qualquer possibilidade de ocorrer tal renovação, alegando ser um problema estrutural. O padre Comblin, por exemplo, é enfático ao fazer coro com os que não acreditam no aproveitamento da estrutura paroquial para implementar um impulso novo na Igreja, visando à sua missionariedade, como sugere o Documento de Aparecida (DA).

 

[A] Igreja mantém nas cidades a estrutura obsoleta da paróquia. O clero está sendo preparado para atuar dentro do quadro paroquial. Os próprios religiosos estão integrados em paróquias. Ora, estruturalmente, a paróquia é feita para conservar, ajudar, promover os que participam do culto, as pessoas que pertencem à pequena minoria dos que já estão no templo. A paróquia vive em função do templo, ainda que diga o contrário. Em lugar de preparar os cristãos para evangelizar a sociedade, ela se fecha sobre a minoria fiel às instituições do passado. A paróquia não assume as fábricas nem os supermercados, nem as escolas, nem os colégios, nem as universidades, nem os hospitais, as instituições esportivas, culturais, de diversão, nem os meios de comunicação da cidade. Ela está organizada ao redor dos sacramentos e das festas litúrgicas. Nem sequer consegue organizar a catequese dos adultos, menos ainda sua formação missionária. Ela concentra as energias dos fiéis no próprio templo, em si própria. A Igreja está claramente a serviço de si própria. Não se pode negar as excelentes intenções de muitos párocos, toda a imaginação para fazer uma paróquia missionária. O problema é estrutural. Já foi denunciado por Santo Tomás de Aquino. Depois de oito séculos ainda não se deu a solução. A consequência é um povo passivo, incapaz de dar testemunho na sociedade, fechado em si mesmo, numa espiritualidade de pura interioridade[1].

 

Cientes dessas observações, parece que até remamos contra a corrente ao propor a transformação da paróquia numa perspectiva missionária. O que nos move é a certeza de que essa estrutura eclesial não se extinguirá em pouco tempo, e também não acreditamos que ela constitua o obstáculo maior para a renovação da Igreja. Por isso, passando rapidamente pelas Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano, apresentamos algumas pistas pastorais já presentes em diversas paróquias espalhadas em nosso país que muito têm contribuído para o dinamismo de nossa ação evangelizadora.

 

1. A paróquia constitui a base primeira e indispensável da ação pastoral

Em 1962, às vésperas do Concílio Vaticano II, a Igreja no Brasil lançou um plano pastoral que visava responder aos desafios da época e apontava a renovação paroquial como primeira prioridade:

 

Sentimos a responsabilidade e a premência de fazer chegar a mensagem da Redenção aos homens de nosso tempo, trabalhamos por transformações profundas e decisivas. A paróquia, ponto de inserção dos homens na vida da Igreja e no mistério da salvação, constitui a base primeira e indispensável de nossa ação pastoral. Urge, pois, vitalizar e dinamizar nossas paróquias, tornando-as instrumentos aptos a responder à premência das circunstâncias e da realidade em que nos encontramos (PE, p. 31).

 

Apostava-se na capacidade de renovação da paróquia, com base numa teologia fortemente voltada para a valorização da Igreja local.

 

2. Sete princípios básicos para a renovação paroquial

Comparado com as propostas atuais de renovação pastoral, o Plano de Emergência (PE), embora anterior à publicação dos documentos conciliares, continua sendo um ponto de referência significativo. Ele traz sete princípios básicos para a renovação paroquial que vale a pena revisitar:

1) A diocese é a unidade fundamental da ação pastoral. Explicando esse princípio, o PE afirma que a diocese não é uma reunião de paróquias e estas são as células orgânicas da diocese.

2) A paróquia deve ser, antes de tudo, uma comunidade de Igreja. Nessa perspectiva, o PE diz que a paróquia não é simples organização administrativa ou extensão territorial, mas uma célula orgânica da Igreja, parte viva do corpo místico de Cristo. Interessante é a aplicação que o PE faz dos três múnus de Cristo à paróquia: “Como continuadora da missão de Cristo, a Igreja participa de sua tríplice missão: Profeta, Sacerdote e Rei. Como comunidade de Igreja, a paróquia participa dessa tríplice missão e constitui-se como: comunidade de fé, de culto e de caridade” (PE, pp. 33-34).

3) Como comunidade de Igreja, a paróquia é fermento da comunidade humana. Aqui o PE explicita: a paróquia tem o dever de orientar, santificar e dirigir a consciência dos leigos para que construam uma civilização que realize o bem comum e se abra ao transcendente.

4) O pároco é o líder da comunidade paroquial. É o mestre que ilumina, o sacerdote que santifica, o pastor que conduz suas ovelhas e dá a vida por elas.

5) O pároco e os sacerdotes que com ele colaboram são educadores dos militantes leigos, engajados na construção da sociedade.

6) Os leigos devem ser membros da comunidade paroquial.

7) Os leigos assumirão a iniciativa e a plena responsabilidade das tarefas da construção do mundo novo e terão no pároco o educador que os orienta, santifica e dirige suas consciências na realização dessas tarefas que lhes são próprias e peculiares.

 

3. Propostas retomadas pelas Conferências Gerais do Celam

Medellín, em 1968, acreditou na força das CEBs e pensou a paróquia na perspectiva delas. Assim, acreditou na possibilidade de fazer da paróquia “um conjunto pastoral vivificador e unificador das comunidades de base” (nn. 15,13). Para concretizar essa noção, indicava: “A paróquia tem de descentralizar sua Pastoral no tocante a lugares, funções e pessoas, justamente para ‘congregar num todo as diversas diferenças humanas que encontra e inseri-las na universalidade da Igreja’” (idem e AA 10).

Puebla, em 1979, definia a paróquia como “centro de coordenação e animação de comunidades, grupos e movimentos; o lugar de encontro, de fraterna comunicação de pessoas e de bens, superando as limitações próprias às pequenas comunidades” (n. 644). “Na paróquia”, afirma, “se assume uma série de serviços que não estão ao alcance das comunidades menores, sobretudo em nível missionário e na promoção da dignidade da pessoa humana, atingindo-se, assim, os migrantes mais ou menos estáveis, os marginalizados, os separados, os não crentes e, em geral, os mais necessitados” (n. 644).

Santo Domingo, em 1992, destacou a paróquia como comunidade de comunidades e movimentos, como comunhão orgânica e missionária, como rede de comunidades. Afirmou, porém, que seu processo de renovação é lento em seus agentes de pastoral e na participação dos fiéis leigos (SD 58). Constatava também haver uma defasagem entre o ritmo da vida moderna e os critérios que ordinariamente animam a paróquia (SD 59). Nesse prisma, propunha-se a renovação paroquial por meio de uma estruturação que favorecesse o surgimento de pequenas comunidades eclesiais, em proveito de maior responsabilização laical e maior dinamismo missionário (SD 60).

A 5ª Conferência também fez a opção de apostar na renovação paroquial como forma de agilizar a dimensão missionária da Igreja. É impressionante que, em meio a tantas críticas, o magistério eclesial continue a depositar suas esperanças nessa estrutura já milenar, definindo a paróquia como “células vivas da Igreja e lugares privilegiados em que a maioria dos fiéis tem uma experiência concreta de Cristo e de sua Igreja” (DA 304).

 

4. Paróquia: estrutura rural adaptável a diversos contextos, incluindo o urbano

Ao longo desse tempo em que o Plano de Emergência e os documentos conclusivos das Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano apostavam na renovação da paróquia, cresciam, no interior da Igreja, as mais variadas críticas à estrutura paroquial. A estruturação paroquial vem resistindo, porém, a inúmeros ataques e continua sendo a organização eclesial mais recorrente no interior da Igreja católica. Costuma-se dizer que, por ter nascido para resolver um problema de atendimento da população mais afastada do centro urbano, a paróquia carrega consigo um estigma de ruralidade que a impede de ter maior eficácia na cidade. Constata-se, na verdade, uma variedade de organização paroquial tão grande, que não se pode generalizar sobre sua capacidade de responder ou não às demandas sociorreligiosas atuais. Há vários intentos de transformá-la em rede de comunidades que têm se mostrado bastante eficazes e revelam a capacidade da paróquia de se adaptar bastante bem no contexto urbano.

 

5. Não é a soma de paróquias que constituem uma diocese, mas sua organicidade

Sem desconsiderar que a unidade básica pastoral é a diocese e não a paróquia, o que se constata, de fato, é a paróquia ocupando o espaço real de concretização das iniciativas eclesiais. Nossas sugestões para a implementação das conclusões de Aparecida nas paróquias dão por suposto que elas devem trabalhar em comunhão entre si, sob a guia de um bispo, tornando presentes todos os elementos eclesiais necessários para que possam significar territorialmente verdadeira Igreja.

Esta reflexão não se detém na gênese ou na história da paróquia, pois considera isso uma tarefa já cumprida por outras reflexões, como a de Pedro Bassini no número 252 (janeiro-fevereiro de 2007) desta revista. Optamos por apresentar algumas pistas de orientação pastoral para que a paróquia possa assumir o espírito de Aparecida. Desdobramos essas pistas em práticas pastorais a ser reforçadas depois de cada indicação pastoral que o Documento de Aparecida nos apresenta.

 

6. Pistas de orientação pastoral

1ª) Insistir na prática de uma Igreja de comunhão e participação

A dimensão comunitária é intrínseca ao mistério e à realidade da Igreja que deve refletir a Santíssima Trindade. Essa dimensão especial tem sido vivida de diversas maneiras ao longo dos séculos. A Igreja é comunhão. As paróquias são células vivas da Igreja e lugares privilegiados em que a maioria dos fiéis tem uma experiência concreta de Cristo e de sua Igreja. As paróquias oferecem espaço comunitário para se formar na fé e crescer comunitariamente (DA 304).

Favorecer uma estruturação paroquial baseada em um trabalho de equipe, em perspectiva “sinodal” (syn-odos: caminhar juntos), contribui para que a paróquia passe a ser realmente célula viva da Igreja. Essa proposta, além de ter respaldo bíblico-teológico, responde melhor à exigência da modernidade, em que todo sujeito aspira poder decidir seu destino. É um ideal que tem múltipla legitimação teológica e espiritual:

a) tem base nos textos neotestamentários; segue a prática eclesial dos primeiros cristãos;

b) foi a prática normativa e normal de toda a Igreja antiga;

c) tem atrás de si o melhor do Vaticano II;

d) é também o modelo mais adequado para os tempos modernos, sensíveis aos anseios de liberdade e participação;

e) favorece a emergência e melhor aproveitamento de carismas e ministérios.

 

2ª) Favorecer o surgimento de novas comunidades

As comunidades eclesiais de base, no seguimento missionário de Jesus, têm a Palavra de Deus como fonte de sua espiritualidade e a orientação de seus pastores como guia que assegura a comunhão eclesial. Demonstram seu compromisso evangelizador e missionário entre os mais simples e afastados e são expressão visível da opção preferencial pelos pobres. São fonte e semente de vários serviços e ministérios a favor da vida na sociedade e na Igreja (DA 179).

 

A multiplicação de novas comunidades constitui uma forma concreta de viabilizar a paróquia na perspectiva de uma Igreja mais participativa.

As comunidades são pensadas em forma de rede, levando em conta que as pessoas, no mundo urbano, tecem relações, em diversos âmbitos, com uma multiplicidade de outras pessoas, lugares, funções e serviços, também na Igreja.

O critério geográfico na organização dessas comunidades é flexibilizado, pois elas já não se apoiam somente na vizinhança ou na tradição, mas na escolha pessoal, nos interesses afetivos e de ordem subjetiva.

As comunidades eclesiais de base têm maior oportunidade de manter vivas a amizade e a comunicação entre as pessoas, o sentimento de ser bem acolhido e o gosto de participar.

Elas favorecem a valorização dos carismas e das aptidões de cada um.

 

3ª) Atender às demandas que emergem da subjetividade

A cultura atual apresenta muitas e sucessivas mudanças, provocadas por novos conhecimentos e descobrimentos da ciência e da tecnologia. Assim se desvanece uma única imagem do mundo que oferecia orientação para a vida cristã. Recai, portanto, sobre o indivíduo toda a responsabilidade de construir sua personalidade e plasmar sua identidade social. Assim temos, por um lado, a emergência da subjetividade, do respeito à dignidade e à liberdade de cada um, sem dúvida uma importante conquista da humanidade (DA 479).

 

Faz-se urgente uma atenção muito grande às pessoas: um atendimento personalizado, que procure ajudar a pessoa a discernir sua vocação, seus carismas, suas responsabilidades no momento e lugar em que vive; que procure orientar os cuidados pastorais para as exigências específicas de cada um (poder-se-ia até falar de “pastoral-centrada-na-pessoa” em lugar da pastoral “centrada-na-instituição”).

Nessa perspectiva, abrir-se-ão espaços aos novos sujeitos eclesiais, sobretudo aos pobres e às organizações e movimentos de seu interesse; também se levarão em conta outros sujeitos que se sentem à margem da instituição, tais como casais em situações especiais, padres casados, homossexuais e outros, promovendo verdadeira pastoral de inclusão e diluindo o clericalismo que insiste em se manter vivo na estrutura eclesial.

Por outro lado, é preciso cuidar do aspecto coletivo: a pastoral não pode reduzir-se a serviços individuais e espontâneos, e os cristãos têm a missão de despertar nos homens e nas mulheres o gosto pela partilha de vida e de destino. Um cuidado eficaz das questões subjetivas das pessoas deve levá-las a descobrir os valores da vida em comum.

 

4ª) Avançar na construção de uma Igreja inculturada

Com a inculturação da fé, a Igreja se enriquece com novas expressões e valores, manifestando e celebrando cada vez melhor o mistério de Cristo, conseguindo unir mais a fé à vida e contribuindo, assim, para uma catolicidade mais plena, não só geográfica, mas também cultural (DA 479).

 

a) Valorizar os grupos específicos, segundo a etnia, a classe social, a procedência etc., respeitando as diversas faces da multiforme cultura latino-americana (indígenas, afro-brasileiras e populares);

b) tornar a Igreja mais leve e mais aberta à dimensão missionária, não só à missão estruturada, mas também àquelas ações que fazem os cristãos ir ao encontro das pessoas onde elas estão, nos bairros, ambientes sociais, lugares de trabalho, de estudo e de lazer;

c) incentivo especial às santas missões populares (SMP), que propiciam ampla participação popular e levam em conta a realidade do povo, tratado como verdadeiro sujeito da ação evangelizadora.

 

5ª) Prosseguir na missão de profetismo social da Igreja

Dentro da ampla preocupação pela dignidade humana, situa-se nossa angústia pelos milhões de latino-americanos e latino-americanas que não podem levar uma vida que responda a essa dignidade. A opção preferencial pelos pobres é uma das peculiaridades que marcam a fisionomia da Igreja latino-americana e caribenha (DA 391).

 

Num mundo globalizado, que exclui uma massa significativa de nossos irmãos e irmãs, não podemos senão expressar nossa fidelidade ao evangelho por meio de uma opção clara e transparente pelos pobres e excluídos. Essa opção, porém, para ser libertadora, supõe que se tome o pobre como sujeito, e não como objeto da ação evangelizadora.

É necessário pensar na pastoral do futuro, que deverá cuidar com verdadeiro empenho dos excluídos, dos marginalizados, dos “feridos” da nossa sociedade, procurando descobrir o caminho para aproximar o homem da civilização tecnológica da redescoberta de si mesmo, de sua dignidade, de sua filiação divina, dos grandes valores humanos.

Na perspectiva da Carta da Terra, a missão profética da Igreja ganha um sentido muito real e urgente na defesa do ecossistema, gritando contra tudo o que debilita a sustentabilidade da biodiversidade planetária (cf. DA 474).

Deve-se dar apoio efetivo às pastorais sociais, que: são entendidas como “presença solidária da Igreja junto às pessoas e situações onde a dignidade e a vida são negadas ou ameaçadas; promovem abertura e diálogo com a sociedade, considerando-se uma atitude essencial para o trabalho missionário e pastoral de toda a Igreja; são vozes proféticas do reino de Deus” (CNBB).

 

6ª) Recuperar as raízes espirituais e místicas do cristianismo

Manifesta-se, como reação ao materialismo, uma busca de espiritualidade, de oração e de mística que expressa fome e sede de Deus (DA 99g).

 

Faz-se urgente desencadear ações concretas a fim de repor a reserva de sentido para a vida e para a prática dos cristãos no mundo, livrando-os das tendências fundamentalistas.

a) Ajudar o povo cristão a encontrar as referências autênticas de sua experiência religiosa, guiada pela graça de Deus: na palavra da Sagrada Escritura, especialmente no evangelho de Jesus; na celebração da liturgia eucarística e dos outros sacramentos; na relação de comunhão com a Igreja e de solidariedade com os pobres (Ecclesia in America, 12);

b) reativar a experiência cristã originária, por meio do cultivo de novas formas de espiritualidade: mais cotidiana, mais acessível, mais personalizada, mais dialogal. Em suma, uma espiritualidade mais holística (psíquica, somática, ecológica etc.);

c) ressituar o compromisso social na perspectiva da mística e da espiritualidade cristãs;

d) rever a eclesiologia em função da mística e da espiritualidade;

e) redescobrir a dimensão mistérica da Igreja;

f)  aprofundar a dimensão comunial na perspectiva da comunhão trinitária;

g) flexibilizar e “aliviar” as estruturas eclesiais (cf. DA 365-372).

 

7ª) Investir na formação sistemática e de qualidade do laicato

Para cumprir sua missão com responsabilidade pessoal, os leigos necessitam de uma sólida formação doutrinal, pastoral, espiritual e um adequado acompanhamento para darem testemunho de Cristo e dos valores do reino no âmbito da vida social, econômica, política e cultural (DA 212).

a) No mundo pluralista e difuso da religiosidade atual, urge traduzir a devida atenção às pessoas em programas permanentes e amplos de formação que habilitem leigos e leigas católicos a ser evangelizadores, apóstolos;

b) atenção especial à questão de gênero: considerando a teologia do batismo que supera as discriminações de raça, de gênero e social (Gl 3,27-28), favorecer às mulheres o estudo sistemático da teologia e da pastoral;

c) estimular a organização da pastoral, de maneira que ajude a descobrir e desenvolver, em cada mulher e nos âmbitos eclesiais e sociais, o gênio feminino e promova o mais amplo protagonismo das mulheres;

d) garantir a efetiva presença da mulher nos ministérios que na Igreja são confiados aos leigos, assim como nas instâncias de planejamento e decisão pastorais, valorizando sua contribuição;

e) acompanhar as associações femininas que lutam para superar situações difíceis, de vulnerabilidade ou de exclusão (cf. DA 458);

f)  incentivar a pastoral da juventude nos seus processos de educação e amadurecimento na fé, como resposta de sentido e orientação da vida e garantia de compromisso missionário (cf. DA 446, d);

g) favorecer a ampla participação dos homens e pais de família na Igreja por meio de atividades pastorais específicas (cf. DA 463).

 

8ª) Promover nova pastoral urbana

A 5ª Conferência propõe e recomenda uma nova pastoral urbana que promova a presença da Igreja, por meio de novas paróquias e capelas, comunidades cristãs e centros de pastoral, nas novas concentrações humanas que crescem aceleradamente nas periferias urbanas das grandes cidades devido às migrações internas e situações de exclusão (DA 517k).

 

A cidade é um todo complexo e fragmentado em que qualquer tentativa de controle muito rígido está fadado ao fracasso. O que se pode fazer é procurar integrar as iniciativas que surgem anarquicamente num conjunto pluralista harmonizado.

Na cidade, a Igreja deve procurar compatibilizar a autonomia necessária de cada grupo com a conciliação dos programas deles, evitando o centralismo.

É necessário favorecer uma organização mais articulada, envolvendo a cooperação de maior número de pessoas especializadas nas tarefas exigidas pela presença pública da Igreja, que precisa de:

•   comunicadores para comunicar sua mensagem pela mídia;

•   economistas para discutir as políticas econômicas de interesse do povo;

•   políticos cristãos para traduzir em ato as políticas que visem ao bem-estar de todos;

•   teólogos que saibam dialogar com os intelectuais, cientistas e promotores da opinião pública;

•   um corpo presbiteral que, unido e em diálogo com o laicato, formule as diretrizes da presença da Igreja na cidade, nos grandes problemas humanos, até nos problemas internacionais que a globalização traz até nós (por exemplo, a dívida externa dos países pobres, problemas ecológicos, migração etc.).

 

9ª) Atenção especial à dimensão ecumênica e ao diálogo inter-religioso

A compreensão e a prática da eclesiologia de comunhão nos conduz ao diálogo ecumênico. A relação com os irmãos e irmãs batizados de outras Igrejas e comunidades eclesiais é um caminho irrenunciável para o discípulo e missionário, pois a falta de unidade representa um escândalo, um pecado e um atraso do cumprimento do desejo de Cristo: “para que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti. E para que também eles estejam em nós, a fim de que o mundo acredite que tu me enviaste” (Jo 17,21) (DA 227).

 

Cresce, cada vez mais, a consciência de que a Igreja dividida não corresponde ao projeto de Jesus Cristo. Por isso mesmo, o ecumenismo não é apenas uma atividade da Igreja, mas pertence ao seu próprio ser.

a) O ecumenismo não se reduz ao diálogo. É mais do que diálogo. Trata-se de um movimento de busca de unidade perdida. Diálogos, comissões ecumênicas de teologia, celebrações ecumênicas e outras atividades são meios. O ecumenismo supõe, porém, a conversão pela ação do Espírito, pois não existe verdadeiro ecumenismo sem conversão interior. E, quanto mais fiel ao evangelho é uma comunidade cristã, mais ela alimenta o anseio pela unidade.

b) O verdadeiro diálogo e cooperação entre as Igrejas cristãs e estas com outras não cristãs tornam-se sempre mais urgentes para a construção de um mundo de solidariedade e de paz.

 

10ª) Conversão pastoral e renovação missionária das comunidades

Esta firme decisão missionária deve impregnar todas as estruturas eclesiais e todos os planos pastorais de dioceses, paróquias, comunidades religiosas, movimentos e de qualquer instituição da Igreja. Nenhuma comunidade deve se isentar de entrar decididamente, com todas as suas forças, nos processos constantes de renovação missionária e de abandonar as ultrapassadas estruturas que já não favoreçam a transmissão da fé. A conversão pessoal desperta a capacidade de submeter tudo a serviço da instauração do reino da vida. Os bispos, presbíteros, diáconos permanentes, consagrados e consagradas, leigos e leigas, são chamados a assumir uma atitude de permanente conversão pastoral, que envolve escutar com atenção e discernir “o que o Espírito está dizendo às Igrejas” (Ap 2,29) por meio dos sinais dos tempos nos quais Deus se manifesta (DA 365-366).

 

Todo esse processo de renovação das paróquias à luz do Documento de Aparecida deve ser implementado levando em conta que a 5ª Conferência, com seu forte acento no discipulado e na missionariedade, ousou afirmar ser preciso abandonar as ultrapassadas estruturas que já não favorecem a transmissão da fé e assumir decisivamente a renovação missionária de toda a Igreja.

Deixando de lado as controvérsias que envolvem o tema da renovação paroquial, o Documento de Aparecida acredita na capacidade de recuperação dessas organizações eclesiais em novos moldes, de modo que sejam mais abertas, mais dinâmicas e mais missionárias (cf. DA 171-173).

 

7. A paróquia como espaço de realização do itinerário formativo de discípulos-missionários

O Documento de Aparecida apresenta uma espécie de itinerário de formação dos discípulos-missionários e aponta as paróquias como seu centro vital: “são células vivas da Igreja e o lugar privilegiado no qual a maioria dos fiéis tem uma experiência concreta de Cristo e a comunhão eclesial” (DA 170). Esse itinerário se compõe de quatro eixos fundamentais para a renovação das paróquias, que devem ser:

a) espaço de encontro com Jesus Cristo — favorecendo realmente o encontro pessoal dos homens e das mulheres com Jesus Cristo;

b) espaço de comunhão — tornando-se comunidades de comunidades, onde a comunhão eclesial se efetive e constitua espaço de verificação da autenticidade da experiência do encontro pessoal com Jesus Cristo;

c) espaço de formação — oferecendo condições de aprofundamento da fé por meio de sólido conhecimento da Palavra de Deus e dos conteúdos da fé;

d) espaço de desenvolvimento da missão — tendo a coragem de sair ao encontro dos afastados e evangelizando todos os ambientes que se tornaram indiferentes à mensagem evangélica (cf. DA 226).

 

8. Sem passos concretos não há renovação paroquial

O missiólogo Paulo Suess, no seu livro Dicionário de Aparecida, publicado pela Paulus, chega a afirmar que “a proposta de renovar as estruturas paroquiais sem encaminhar mudanças concretas condena muitas propostas de Aparecida ao fracasso” (São Paulo, 2007, p. 100). E destaca algumas das mudanças preconizadas no Documento de Aparecida que são fundamentais para que a renovação paroquial se concretize:

a) que se leve em conta, nesse processo, a extensão territorial, a pobreza, a violência, a distribuição desigual dos presbíteros na Igreja deste continente (DA 197);

b) que se agilize sua descentralização, criando setores (DA 372; 517k; 518);

c) a desburocratização das paróquias (DA 203);

d) que se promova a multiplicação de ministros qualificados (DA 513; 517; 518);

e) que as paróquias superem a pastoral da manutenção e se tornem centros de irradiação missionária (DA 306).

 

 

9. Apostar uma vez mais nas paróquias?

Em 1962, por meio do Plano de Emergência, apostamos na renovação paroquial e, em todas as Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano, renovamos nossas esperanças no surgimento de paróquias novas. Em 2007, com o Documento de Aparecida, voltamos a acreditar na capacidade das paróquias de se adaptar às exigências conjunturais, transformando-se em verdadeiros centros de irradiação missionária. O texto que está servindo para a reflexão sobre as futuras Diretrizes Gerais da Ação da Igreja no Brasil também assume o mesmo tom profético de Aparecida e conclama a todos para a renovação paroquial. Há quem diga que as paróquias não nasceram para ser missionárias, e aí se encontra o grande obstáculo para sua renovação. Como já se demonstraram capazes de tantas transformações e aptas para assumir os dez pontos iluminadores supracitados, por que não apostarmos uma vez mais nelas?



[1] José Comblin. “As grandes incertezas na Igreja atual”. REB, Petrópolis, v. 67, nº 265, jan., 2007, pp. 36-58.

Pe. Manoel Godoy