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Publicado em Julho-Agosto de 1990 (pp. 19-25)

Pastoral da periferia

Por Pe. Fernando Altemeyer Junior

A pastoral da periferia hoje desenvolvida nas cidades pequenas, médias e grandes do Brasil, por centenas de agentes de pastoral leigos, religiosas e padres, não poderia viver ou desenvolver-se se não reconhecêssemos de onde ela nasceu e quais são suas dificuldades e pistas de solução. Pretendemos, neste, artigo, contar um pouco desta história e pensar a partir da prática hoje desenvolvida por um grupo de agentes de pastoral atuando na periferia da grande metrópole que é São Paulo, na perseguida e amada Arquidiocese de São Paulo.

 

1. Olhando o passado

Os bairros da zona leste paulistana, e especialmente São Mateus, há trinta anos eram pouco povoados e seu atendimento pastoral era realizado por alguns padres missionários ou professores do Seminário, num esquema extremamente rural, identificado à desobriga sacramental e à construção de capelas, casas da Cruzada Eucarística e movimentos religiosos devocionais. É a partir do Concílio Vaticano II que, pela presença de jovens sacerdotes diocesanos e, em seguida, missionários italianos e irlandeses, se iniciará uma pastoral de evangelização comunitária, marcada pela vivência e pelo uso da Bíblia como ferramenta de trabalho. É nesse tempo que se implanta a catequese familiar, pela qual se tinha acesso aos sacramentos via participação na vida da comunidade. A criação do setor pastoral como verdadeiro “laboratório” de descobertas e criatividade na vida da cidade, com respostas pastorais adequadas aos diferentes cantos da metrópole, foi o salto de qualidade tão esperado e necessário; graças ao novo cardeal da cidade, D. Paulo Evaristo Arns. Ele mesmo se empenhou na dinamização do setor que surgia como verdadeira Igreja local aberta à missão junto aos mais pobres. Nascia assim o Setor São Mateus e sua exigência radical de que cada agente de pastoral se submetesse às críticas e linha do Setor, participando sempre da pastoral de conjunto, assumida colegialmente com os leigos, as irmãs (sempre mais próximas do povo simples) e os padres e bispos da cidade.[1]

 

Três grandes chaves na pastoral

A primeira grande descoberta foi o estabelecimento da pastoral do mundo do trabalho e dos cursos de madureza (alfabetização) com atividades de conscientização que assumiam a questão da luta de classes existente na sociedade e ligavam a evangelização às respostas no campo da vida dos operários, especialmente sindical e político, diante da dura realidade da ditadura militar e do arrocho salarial imposto pelo plano econômico do “milagre brasileiro”. Foram anos de telefones grampeados, de medo em realizar reuniões com mais de dez pessoas, da gravação de sermões, da presença ostensiva de policiais da polícia política, das prisões de sindicalistas e membros da pastoral operária em 1972, em São Mateus; em 1974, na Vila Rica; e no Tabor, em 1977. Eram os tempos da resistência e do aprendizado da luta contra a opressão. Tempo de descobrir a classe operária e sua dura realidade cotidiana. De ver de que lado está o poder e o capital, e de outro lado, os trabalhadores e seus aliados e irmãos. Nesses anos, a Igreja em São Mateus passou pelo batismo da consciência de classe, descobrindo a pedra de toque de sua ação evangelizadora: ser evangelho no meio de bairros operários.

A segunda grande marca foi o lançamento da operação “periferia”, que buscou fazer com que as paróquias estabelecidas no centro urbano se voltassem para as comunidades e paróquias da periferia que iam sendo lentamente construídas. Ajudou aquelas a abrir os olhos para a realidade e estas a comprar terrenos pequenos para o estabelecimento das comunidades e centros comunitários e também à sustentação dos novos agentes de pastoral (especialmente religiosas: Salvatorianas, Santo Rosário, Beatíssima Virgem, Franciscanas) e leigos liberados a tempo pleno para o acompanhamento das novas comunidades nascentes. Foram anos de intercomunicação entre a periferia e a classe média, sem paternalismos e com muito conflito, mas também com variadas conversões e compromissos duradouros entre Igrejas-irmãs, além de representar o passo decisivo no deslocamento das congregações, outrora presas a obras assistenciais e educacionais, aos novos desafios e à inserção direta na pastoral. Foi o batismo da consciência da missão, em que as melhores e mais dedicadas irmãs deixavam anos de experiência acumulada em outras pastorais para abrirem-se, com audácia, ao novo que despontava na margem da sociedade.

A terceira grande descoberta foi a busca de um planejamento de pastoral e de um plano de ação de conjunto, com a escolha de prioridades e linhas pastorais. Os padres, as irmãs e um número significativo de leigos começaram a se considerar agentes de pastoral do Setor, composto agora de áreas e não mais tendo as paróquias como referência primeira de trabalho. A participação constante e contínua dos leigos nas deliberações e na articulação das comunidades e pastorais, levou o Setor a pensar seriamente na formação dos leigos. Assim, surgiram inúmeros grupos e “escolas da fé”, e nasceu uma grande variedade de subsídios para formação: livrinhos de canto, dinâmicas de grupo, roteiros para reuniões de grupos de rua etc. Foram anos de investimento pastoral na formação de leigos e comunidades maduras. Pois todos sabemos que a Igreja necessita de cristãos adultos e não de gente infantilizada. Cristãos leigos adultos sustentam e garantem a multiplicação das comunidades de base e estas, umbilicalmente ligadas com seus pastores e animadores, criam uma verdadeira federação de comunidades, um novo jeito de toda a Igreja ser. Uma resposta nova para São Paulo, que é cada dia nova e dinâmica. Nesses anos aprendemos que “São Paulo realmente é única como cidade e a gente gosta dela justamente por isso” (D. Paulo E. Arns).

 

2. Olhando nossa prática hoje

Queremos analisar nossa prática pastoral junto às comunidades de base da periferia da cidade, olhando a defasagem existente entre nossa atuação e linguagem e a vida real do povo. Vamos refletir sobre isso destacando quatro dimensões centrais (não exclusivas) de nossa vida e sensibilidade, que são: corpo, espaço, tempo e linguagem.[2]

 

2.1. Nós somos o nosso corpo!

O que é o corpo? Sua principal função é relacionar-se. Só seremos pessoas humanas se estabelecermos relações. Isso vale como nunca para a nossa pastoral da periferia. Para o povo pobre, principalmente, e para o povo migrante sem casa e sem terra, o corpo é um instrumento, às vezes, o único, de suas relações humanas culturais e produtivas. Deus nos criou como seres em relação. Nossa pastoral na cidade deve suscitar e valorizar as relações destruídas pelo anonimato da metrópole. Entretanto, para nós, agentes de pastoral, geralmente, o corpo é feio, é um obstáculo para o relacionamento. Preferimos nos revestir de uma série de palavras (racionalismo) do que tocar as feridas, corpos, mãos, de nossos pobres e crianças. Vemos isso na vida e no discurso que o povo faz e no nosso discurso. “O povo tem dor, nós temos doença.”

Na periferia, o povo se enfeita para ir à festa, coloca a roupa de missa para ir à igreja, toca nos santos, pede bênção e quer afago e carinho, pois seu corpo é machucado na fábrica, no ônibus e destruído no hospital. Nós, agentes de pastoral, não enfeitamos o corpo, mas enfeitamos as palavras, enfeitamos para representar. Queremos “tocar” as ideias enquanto o povo quer ser tocado no “coração”. Para o povo migrante nordestino, vale mais a sinceridade do gesto, a mão amiga na hora da precisão; do que a palavra bonita, mas não entendida. O silêncio, muitas e muitas vezes, na periferia e para o povo das periferias, comunica sempre mais do que a palavra. Para o povo o que fala primeiro é o corpo. Entre nós, costumeiramente, é o intelecto, é a razão. Necessitamos cada vez mais trabalhar com o corpo, com a saúde, com o gesto, com o toque. Como Jesus, os agentes de pastoral na periferia precisam tocar, comer peixe com pão, lavar e serem lavados, tocar e serem tocados, incluir na evangelização a dimensão do corpo e dos inúmeros corpos machucados nas cidades. Corpos pessoais e corpos sociais.

 

2.2. Queremos nosso espaço!

A dimensão do espaço sempre se compõe de dentros e foras. Os nossos dentros são sempre amplos. Casas paroquiais e religiosas, conventos, igrejas… sempre amplos e espaçosos. Os nossos foras não trazem tanta atenção e normalmente estão cercados por grades para impedir os mendigos de ali dormir. O povo da periferia tem os dentros extremamente reduzidos. Por isso, as crianças de nossas favelas e cortiços se sentem tão livres, querem correr, pular e gritar em nossas comunidades. Religião para o nosso povo da periferia, que é ainda migrante de primeira geração, é sair, ir em peregrinação, fazer romaria, fazer procissão… Nós, agentes, gostamos do dentro. No dentro, o povo se sente estranho. Gente pobre sente-se, bem fora e, principalmente, se houver multidão, música e andor. No dentro, quem manda é o padre. Na procissão é o povo quem sabe, quem é sujeito da fé e agente da evangelização. Esta é a importância da peregrinação, das romarias. Nas nossas cidades, nas comunidades de base, na América Latina, a religião do povo é peregrinante. É “rueira”[3].

O povo gosta da comunidade como lugar de comunhão e de reconhecimento, mas seu potencial libertador não está no dentro, mas na rua, no fora, na missão, no movimento. Assim também foi com Jesus, e nós, agentes de pastoral na periferia, deveríamos, cada vez mais, equilibrar comunidade, como espaço fixo de atendimento e referência para acolher o povo migrante que chega, e religião popular que é nômade, que é peregrina, que precisa sair dos templos e buscar o Reino, sem ter onde “reclinar a cabeça”.

 

2.3. Fica mais um pouco, ainda é cedo!

Há uma diferença profunda entre o tempo de um agente de pastoral (especialmente se for padre) e o tempo do povo. Os agentes acumulam tempo mais que migalhas de ouro. O tempo de um agente de pastoral é supercontrolado. As agendas e calendários vivem recheados de reuniões, onde se marcam novas reuniões… Deveríamos ligar nosso voto de pobreza não só ao dinheiro, mas também ao tempo que oferecemos ao povo, com gratuidade. O povo pobre — especialmente as mulheres de nossas comunidades, catequistas e animadoras de grupos de reflexão e círculos bíblicos — tem migalhas de tempo, mas as doa com generosidade gratuita. Nós, às vezes, expulsamos quem nos procura, em nome da agenda e do tempo. O tempo só liberta se for doado gratuitamente. A eficácia da pastoral urbana, necessária e urgente, não pode matar e sufocar a graça de Deus, que vem e vai de graça. Só pode haver verdadeira revolução na periferia, se houver contemplação, ação de graças, tempo “perdido” com os outros em troca de nada, ou melhor, dado por amor aos outros. Temos que aprender do povo, da religião popular, especialmente do povo negro, que não há tempo se há festa. Já sabemos pela antropologia que o culto deveria abolir o tempo, mas, em muitas de nossas celebrações e relações pastorais, é ainda o tempo quem mata a novidade. Tempo acumulado é sinônimo de tédio. Tempo dado é sinônimo de vida. Assim também foi com Jesus, ninguém tirou seu tempo (vida), mas foi ele quem o deu gratuitamente, porque assim quis, e o deu para o povo marginalizado, com quem ninguém queria perder seu tempo. Foi, no entanto, esse tempo que Jesus “gastou” com um grupo de lavradores e pescadores da Palestina, analfabetos e pouco ligados às práticas religiosas do Templo, que frutificou pela sua prática e pela sua ressurreição, num tempo novo para toda a humanidade.

 

2.4. A fala do povo e a fala dos agentes

Todos estamos aprendendo que a comunicação é um poder e que sua utilização deve merecer destaque em toda pastoral que queira tocar nos nervos de uma cidade. A comunicação pessoal e coletiva é uma chave do mundo urbano, ou melhor, desta grande aldeia global, como afirmava McLuhan.

Nós todos falamos mais nas entrelinhas do que pelas palavras. Nós sempre comunicamos nosso sentimento e carregamos as palavras de sentimento. Poder-se-ia dizer que a palavra é a máscara dos sentimentos. O povo pobre se comunica, nas periferias, gritando pelos sentimentos. E sua vida é marcada por duas situações limites sempre constantes: dor e nudez. Toda comunicação sempre está composta de dor e nudez. Isso pode, no entanto, servir para o crescimento e a descoberta dos valores mais profundos, ou levar à alienação e manipulação das pessoas pelos interesses das classes dominantes. O encontro dos agentes com o povo deve assumir a dor e a nudez dos pobres.

Até que ponto não estamos enchendo demais nossas celebrações na periferia com palavras? Os símbolos e a vida estão falando? Ou precisamos estar sempre explicando e dissecando? Na religião popular o símbolo fala por si. Declara a dor e se deixa ser penetrado, revelado. Nossos símbolos, celebrações, encontros declaram a dor, deixam-se relevar, ajudam o povo a se comunicar, ou nosso discurso é língua de “gregos”? Teologia de “gregos”? Pastoral da letra ou do Espírito Santo?

Uma das grandes chaves da comunicação popular está sendo a descoberta da Bíblia, da Palavra de Deus, como coração de nossas comunidades de base, que, unindo a Eucaristia à mesa da Palavra, percebem que as personagens da Bíblia estão andando pelas nossas ruas. Sim, Abraão, Sara, Josué, Paulo e Pedro continuam caminhando nas ruas das cidades e entregando de novo a Bíblia nas mãos do povo pobre. Muita gente quer desligar o gás (tirar a Bíblia) do fogão do povo (das comunidades), mas o matuto do sertão, que hoje vive na cidade (nossas lideranças leigas e as religiosas inseridas), sabe onde tem lenha no mato![4] Nós, agentes de pastoral, estamos descobrindo que não se pode transformar a missa numa reunião repleta de discursos. Ela é a revelação de um mistério e devemos manter o véu sagrado, respeitando o mais profundo que o povo vê ali.

 

2-5. Tirando algumas conclusões a partir da prática

Precisamos ser realistas. Já estamos, na pastoral popular no Brasil, acertando em inúmeros pontos. Devemos aprofundar algumas coisas:

a) valorizar cada vez mais as visitas gratuitas ao povo pobre, dedicando o melhor de nosso tempo para a formação de lideranças leigas;

b) assumir a solidariedade com a imensa multidão dos marginalizados, refazendo nossa visão de classe e nossa teologia a partir da ótica dos pobres e da libertação;

c) ser sempre humildes, jamais se autopromovendo por estarmos trabalhando com o povo da periferia, pois isso não é mérito, mas obrigação. Essa humildade pessoal e pastoral deve ser fecunda dia a dia num trabalho de equipe. Não há pastoral da periferia que subsista sem equipe. Devemos aprofundar uma teologia de unidade do corpo como em 1Cor 12,12-31. É preciso viver e testemunhar a comunhão. Aceitar ser criticado e ajudado pela equipe de pastoral, onde sempre devem estar presentes as forças atuantes na pastoral, padres, religiosas e leigos.

 

Olhando nossa prática pastoral hoje, poderíamos dizer que nos assemelhamos ao profeta Jonas, com nossas fraquezas, fugas, enfrentamento dos fracassos, xingatórios do povo etc. As imagens que o autor bíblico usa, no livro de Jonas, podem bem ser adequadas aos novos desafios de uma pastoral da periferia: o apelo pessoal diante do surgimento veloz das periferias das grandes cidades — somos chamados à vocação urbana; o apelo da história e do modo como se organiza a vida em nossas cidades, com seus conflitos sociais e políticos — somos chamados à vocação transformadora e evangelizadora; o apelo de Deus para que realizemos, com o povo, a conversão da cidade, de suas estruturas, de seu modo de viver, de produzir a vida e a morte — somos chamados à vocação da solidariedade no mundo do trabalho, chave essencial da cidade.

Jonas, hoje, somos muitos de nós, neste grande processo de crescimento e de engajamento nas periferias das cidades, que não são somente geográficas, mas também periferias ambientais, como as prisões, os cortiços, o povo da rua, os menores abandonados, as mulheres marginalizadas na prostituição e os locais de trabalho. Precisamos ligar nossa mística à cidade. Nossa fé à vida.

 

3. Usando novas ferramentas

Nos anos 1940 havia somente duas cidades com mais de 1 milhão de habitantes no Brasil: São Paulo e Rio de Janeiro. Em 1988, já eram quinze as grandes metrópoles em nosso país. Tudo isso começa a assustar cada vez mais leigos, religiosas e pastores preocupados em oferecer alternativas novas que toquem os nervos das cidades e representem um avanço na evangelização das novas culturas urbanas na modernidade latino-americana.[5]

Hoje, imensos municípios são bairros-dormitórios de outros municípios, alterando a antiga visão de cidade, onde se pensava o município como uma área urbana cercada pela área rural. Município, nas grandes metrópoles, é uma cidade cercada de cidades, onde seus habitantes não têm noção de limites, mas que mantêm determinada identidade social e unidade econômica, e culturalmente vivem inúmeros conflitos. A relação hoje predominante nas grandes cidades brasileiras é a relação da dominação capitalista, que subordina, domina e explora determinados grupos e classes sociais, concentrando riqueza e poder nas mãos de pequenas minorias sempre mais poderosas.

As grandes cidades estão cada vez mais se configurando, portanto, como seres articulados política e economicamente em favor de determinados interesses econômicos. Esses interesses se organizam em lugares, espaços e grupos determinados. A Igreja que pretende fazer pastoral a partir de uma evangélica opção preferencial pelos pobres, deve tomar isso a sério e verificar se suas ferramentas de ação pastoral atingem os pontos nevrálgicos da vida dos pobres.

Nossa experiência pastoral tem nos demonstrado alguns destes pontos: o movimento popular autônomo (especialmente na Zona Leste, o movimento de Saúde); o movimento dos sem-terra e sem-casa; o movimento popular de transporte coletivo; a organização e participação ativa no movimento sindical; a presença nos meios de comunicação de massa; a organização e acompanhamento de grupos de jovens trabalhadores; a luta dos favelados no Movimento de Defesa dos Favelados; centros de defesa dos direitos humanos e de defesa do menor e do adolescente. Essas são as ferramentas necessárias para a transformação da cidade e precisamos, cada vez mais, manuseá-las e treinar seu uso.

Na vida das CEBs, também fomos descobrindo ferramentas novas para agir nas cidades: grupos de rua, grupos de fé e política, grupos de pastorais (moradia, mundo do trabalho, menor etc.), encontros de formação e celebração, a Bíblia e os boletins alternativos.

Notamos que nossas comunidades e suas lideranças já não são mais apenas uma experiência (ensaio)! Já têm uma história de anos de luta e caminhada. Cresceram e amadureceram, especialmente no uso dessas novas ferramentas que foram criadas por elas mesmas. Elas agora não se contentam com “qualquer coisa”. Querem consolidar sua ação na cidade, valorizando a experiência acumulada e sintonizando sua compreensão do econômico e do político com sua visão de Igreja e de fé cristã.[6] Nisso estamos retomando a força original do cristianismo como resposta à cidade. E descobrindo também, neste pluralismo que é a urbe de nossos dias, que temos uma contribuição a dar e não a única proposta hegemônica a impor.

Nossas comunidades e nossa pastoral passam a ser mais serviço subterrâneo, com recursos pequenos e força que vem debaixo, do que os antigos modelos da cristandade que pintavam de verniz uma falsa e ideológica evangelização das elites. Falta-nos penetrar, no entanto, em alguns campos importantes na vida da cidade: o campo artístico; o campo da produção do saber, popular e universitário; o campo da pesquisa científica; o campo da luta ecológica dentro da cidade; e, de modo especial, o chamado centro da cidade, por onde passam diariamente milhões de pessoas que nele vivem, trabalham e por este centro urbano são reeducados, para deixar de serem rurais e se tornarem cidadãos da metrópole. A antiga “picada” da roça se torna rua, a rua vira avenida e esta pista expressa. O que no interior servia para unir, como o riacho, na cidade divide, o que ali dividia, aqui pode até ser ponto de união. O que na cidade nem aparece, como o metrô (subterrâneo), é, na verdade, o transporte mais eficiente e rápido. Tudo isso vai, aos poucos, moldando um novo ser e a Igreja neste contexto não permanece imune. Ao contrário, ou temos uma nova Igreja para uma nova organização da vida humana que é a cidade metropolizada, ou nossa palavra não repercutirá na mulher e homem urbanos.[7]

 

4. Olhando para o futuro

Na grande escola de formação que é a periferia, vamos descobrindo os desafios para o futuro. Vamos resumir em sete pontos nossas esperanças de uma evangelização nova das cidades, a partir dos pobres que são os sábios da vontade divina.[8]

1º)O grande desafio da cidade é o da comunicação. Precisamos crescer, manter e trabalhar mais e mais nossas mensagens, nossos meios e nossa linguagem, de maneira a atingir profundamente a cidade e os cidadãos.

2º)Defender a vida das crianças e dos jovens fuzilados pela polícia e pelos grupos de extermínio, proclamando em alto e bom som o valor e a dignidade da pessoa humana, é o tom profético de nossa pastoral.

3º)  Favorecer ao laicato, especialmente às mulheres, a participação nas instâncias de decisão assumindo e coordenando os conselhos de pastoral de maneira colegiada, sem impedir seu crescimento na fé e sua corresponsabilidade na condução do povo de Deus, com a animação e apoio dos pastores.

4º) Reconhecer o trabalho abnegado e eficiente dos militantes e das religiosas que atuam nas periferias, garantindo-lhes sustento adequado e formação teológica acompanhada e especializada.

5º) Apoiar o surgimento de novas comunidades de base, de novos grupos ambientais, liberando agentes para seu acompanhamento e favorecendo sua articulação e unidade com a pastoral da Igreja local, seu plano de ação e suas prioridades evangelizadoras.

6º) Superar toda visão intransigente e fechada, abrindo-se ao incerto, com lucidez e inteligência pastoral, garantindo uma formação ao povo de maneira pluralista, e articulada, a partir dos pobres, nas áreas bíblica e política.

7º) Garantir, na cidade, espaços de atendimento pessoal e de acompanhamento espiritual de maneira a assegurar às pessoas unidade entre oração, afetividade e projetos de futuro. Exemplo disso seria uma presença visível nas rodoviárias, estações de trem, comunidades debaixo dos viadutos (como a Comunidade São Maninho, no bairro do Belém, em São Paulo).

 

Nossa prática, sofrimentos e alegrias em treze anos de trabalho na periferia de São Paulo fazem-nos concluir com São Pedro, nos Atos dos Apóstolos, capítulo 3, versículo 6: “Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, isto te dou: em nome de Jesus Cristo Nazareno, anda!”

“Ó gente das cidades, povo simples, povo irmão, gente da roça, do sertão, operário de hoje, sofredor amanhã, comunidade sempre. Em nome de Jesus Cristo Nazareno, isto te damos: anda, corre, vive, alegra-te!”



[1] Histórico elaborado com a colaboração inestimável do Pe. Hugo de Blacam, da congregação espiritana, atuando em Juazeiro, BA.

[2] Reflexão partilhada com Pe. Alfredo Gonçalves, poeta e coordenador do Centro de Estudos Migratórios, em São Paulo, SP.

[3] “Igreja-rueira”: expressão popular e profética de D. Angélico Sândalo Bernardino, bispo auxiliar de São Paulo, Região Episcopal Brasilândia.

[4] Parábola de Frei Carlos Mesters, contada no 7º Encontro Intereclesial de CEBs, em Duque de Caxias, Bai­xada Fluminense, RJ, em julho de 1989.

[5] Dados e reflexão retirados de um debate no Setor, com Dr. Fermino Fechio, secretário da Administração do Município de São Paulo, na gestão de Luíza Erundina.

[6] Reflexão provinda de debate com Pe. José Gatelier, assistente nacional da Ação Católica Operária.

[7] Reflexão provinda de debate com Pe. Paulo Tonucci, vigário em Camaçari, Salvador, BA, membro da CEHILA-popular.

[8] Reflexão feita a partir do exemplo de D. Luciano Mendes de Almeida, arcebispo de Mariana, MG, e bispo auxiliar em São Paulo por doze anos. Atualmente presidente da CNBB.

Pe. Fernando Altemeyer Junior