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Publicado em Novembro-Dezembro de 2000 (pp. 7-17)

Provocações sobre o presente e o futuro das CEBs

Por Fr. Clodovis Boff

A questão das CEBs — como, de resto, de outros processos eclesiais e sociais atuais — parece-me hoje envolvida num nevoeiro mais ou menos espesso. Para jogar alguma luz sobre esta questão, pretendo defender aqui algumas posições e mesmo arriscar algumas hipóteses. O que farei neste artigo é tentar esclarecer três coisas: primeiro, identidade das CEBs (I parte); depois, sua situação atual (II parte); e, enfim, suas perspectivas no futuro próximo (III parte). Embora mais teórica, a discussão da primeira parte — a natureza das CEBs — parece-me indispensável para encaminhar corretamente as outras duas.

A tese central deste escrito é esta: a identidade fundamental das CEBs é de serem, particularmente para os pobres, comunidades de “experiência de fé”, sendo que tudo o mais decorre e se nutre disso. Deduzo daí que, se as CEBs querem se revitalizar, precisam retornar à sua experiência fundante: é a volta às fontes. Tento também confrontar as CEBs com a atual “crise de sentido”, o que faz com que a recuperação de sua radical identidade espiritual ganhe hoje particular urgência. Além disso, para esclarecer a problemática geral das CEBs, acho da maior importância distinguir entre forma-CEB e estilo-CEB. Uma outra tese diz respeito à especificidade das CEBs como comunidades, especificidade que situo em dois traços: a participação ad intra e o compromisso ad extra. Levanto também a hipótese de que, se as CEBs aparecem menos hoje, é também porque sua forma e mais ainda seu estilo foram em grande parte assimilados pela Igreja. Defendo, enfim, o caráter minoritário das CEBs, mas sempre a serviço do todo. Esses são os nós principais dessa reflexão.

 

I. IDENTIDADE DAS CEBs: TRÍPLICE ABORDAGEM

Não é fácil dizer o que são as CEBs e qual a sua natureza. E isso por vários motivos. Primeiro, por causa do caráter de cotidianidade em que as CEBs vivem a fé. Acresce que se trata do cotidiano de pobres e vencidos, cuja realidade é sempre mais escondida. Depois, porque as CEBs exprimem uma Igreja que é mais evento do que “instituição”. Elas vivem uma eclesialidade dinâmica, quase evanescente, e não uma eclesialidade fixa. Essas duas razões estão ligadas ao fato de que as CEBs são expressões de uma “Igreja doméstica”: uma Igreja que vive a “fé de cada dia” e uma Igreja que “acontece” nas e pelas reuniões.

Para circunscrever ou definir a realidade das CEBs, apresentarei três abordagens, que tentarão captar, em níveis cada vez mais profundos, o que são mesmo as CEBs.

 

1ª abordagem: mais externa

Olhando as CEBs em seu nível mais visível — o de suas práticas internas e externas — venho desde algum tempo defendendo a tese de que as CEBs são “comunidades eclesiais”, que se caracterizam — e nisso se distinguem das outras — por dois traços:

1º) ad intra, a participação: participação nos ministérios eclesiais e nas decisões pastorais. Isso corresponde à proposta mais geral de “democratizar” as relações internas na Igreja;

2ª) ad extra, o compromisso: o empenho na vida social em nome da fé e do amor evangélico. Isso se coloca dentro do horizonte maior que é “transformar” as estruturas sociais, o “sistema”[1].

 

É verdade que existe ainda um traço que parece distintivo das CEBs: a leitura bíblica, à medida que aí se confronta Bíblia e Vida. Mas essa característica me parece incluída nas indicadas. De fato, a leitura bíblica nas CEBs é uma leitura tanto participada como comprometida.

A definição das CEBs acima é meramente descritiva. Vale apenas como uma aproximação inicial, ainda bastante exterior, diria até fenomenológica. Precisamos avançar e ver as CEBs com um pouco mais de profundidade. É o ponto que segue.

 

2ª abordagem: mais interna

Por trás das práticas de participação e de compromisso das CEBs vejo valores mais profundos, forças mais radicais movendo as CEBs. Quais forças são essas?

Em primeiro lugar, diz-se que as CEBs são “focos de participação eclesial”. Mas é porque, mais na base, elas vivem a ideia de comunhão, com toda a sua carga religiosa e também humana. Elas perseguem o ideal da communitas, onde as relações são de bem-querença, de igualdade, de partilha da vida. É, no fundo, a mística da fraternidade que as move, tal como se expressa, por exemplo, em textos bíblicos como: “eles eram um só coração e uma só alma… Tudo entre eles era comum” (At 4,31); ou “onde dois ou três estão reunidos em meu nome, lá estou eu no meio deles” (Mt 18,20). Ora, vivendo os valores da “comunhão e participação” as CEBs já estão dando uma grande contribuição à Igreja: elas ajudam, de modo significativo, a “estofar” o seu tecido comunitário, especialmente entre as camadas pobres e excluídas. E Deus sabe quanto a Igreja católica, apesar de suas bem azeitadas estruturas paroquiais e outras, é carente desta substância essencial de toda verdadeira eclesialidade: a “comunitariedade”.

Diz-se também que as CEBs são “focos de mobilização social”. Mas por trás disso arde o ideal do amor cristão, um amor que se quer concreto, eficaz e que se inclina preferencialmente sobre os abandonados. Nas CEBs fala-se muito nos temas bíblicos do “amai-vos uns aos outros”, do “amor ao próximo”, dos “pobres”, temas esses que levam, posteriormente, a insistir na “justiça social”, na “mudança da sociedade”, enfim na “libertação”. E essa é outra importante contribuição histórica das CEBs: a de envolver ativamente os pobres na luta pela transformação social a partir da própria fé. Pois não se pode ignorar o quanto a fé popular foi, no curso da história, manipulada pelos poderes estabelecidos e o quanto, na vivência do próprio povo, a religião permaneceu reduzida à força de melhoria social, de assistência, quando não de mera resistência.

Mas dizendo isso, não se chegou ainda à raiz última das CEBs. Por trás dos valores de comunhão fraterna e de amor aos pobres, opera um movente ainda mais escondido e mais radical: a opção pelo Evangelho, o seguimento de Cristo, em breve, a fé cristã. Donde a perspectiva seguinte.

 

3ª abordagem: mais profunda

De fato, antes ainda de serem fontes de comunhão fraterna e de amor ao próximo, as CEBs são, em sua verdade mais profunda, células de vida cristã, por outras, espaços da experiência de fé. São, efetivamente, lugares privilegiados — não únicos onde os católicos pobres ouvem a Palavra de Deus: oram, buscam a conversão como mudança de vida; acolhem a fé em Cristo, enfim, fazem uma específica experiência religiosa: o encontro com Deus em Cristo. Ora, no meu entender, é nessa experiência teologal que se encontra a identidade radical e originária das CEBs.

Que seja assim, confirma-o a história da gênese das CEBs. De fato, quando nasceram, nos inícios dos anos 60, as CEBs buscavam justamente ser, para os pobres, o lugar de renovação de sua fé no contexto mais amplo da renovação eclesial que se vivia então. Surgiram, pois, como espaços da experiência de Cristo e de sua Palavra. Tudo o mais decorria dessa experiência fontal: em primeiro lugar, a comunhão fraterna e o amor pelos mais necessitados; depois, a participa­ção democrático-eclesial e a luta sociolibertadora. Sem dúvida, acontecia também que uma CEB nascesse a partir da luta social, mas assim mesmo acabava chegando sempre à mesma fonte: a experiência de fé — experiência que, embora dialeticamente relida, prioriza a transformação da pessoa sobre a da Igreja ou da sociedade.

Depois do “tempo de fundação” — primeira metade dos anos 60 —, o desenvolvimento ulterior das CEBs deu-se, como se sabe, sob o efeito combinado destes dois fatores: a fé e a história. E sabemos como se configuraram concretamente, no Brasil, essa dupla dinâmica nas décadas em que as CEBs cresceram, na segunda metade dos anos 60, nos anos 70 e 80: do lado da Igreja, o crescente envolvimento “profético” de pastores, religiosos e leigos na “questão social”, favorecido pelo Vaticano II; e, do lado da Sociedade, o desenvolvimentismo, o populismo, seguidos da ditadura e da redemocratização etc.[2]

Ora, é inegável que em toda essa complexa dinâmica, os agentes de pastoral de classe média, com seus méritos e seus limites, tiveram papel protagônico. É fundamentalmente a eles que se deve o perfil dominante que as CEBs hoje ostentam: a de serem simultaneamente “sujeitos eclesiais” e “atores sociais”. De fato, na concepção, implícita ou não, da maioria dos “agentes pastorais” de hoje, as CEBs se caracterizam, sobretudo por esta marca: a “luta”, dentro e fora da Igreja. Claro, a fé está lá — como não? —, mas a serviço da luta, e não o contrário.

Contudo, deve-se reconhecer que a dupla dinâmica histórica — da Sociedade e da Igreja — encontra-se, de uns dez a quinze anos para cá, profundamente mudada. Agora, pergunto: Essa mudança não estaria obrigando as CEBs a uma “volta às fontes” para possibilitar uma nova arrancada? Parece-me que o desafio é: partindo de hoje, recuperar o modelo originário das CEBs, que é o de serem comunidades de vida cristã integral. Em breve: as CEBs precisariam redescobrir que são e permanecem, antes de tudo, “comunidades de experiência cristã”[3]. Em suma, trata-se de decidir se a identidade radical das CEBs é de caráter “espiritual”, ou se é antes de caráter sócio-histórico, o que faria delas mais “agentes de transformação social” do que “agentes de experiência de fé”.

Ora bem, para responder ao desafio lançado acima, parece-me que, nos dias que correm, é insuficiente a vivência, como que espontânea, da experiência viva da fé, tal como se deu nas CEBs até há poucos anos. Atualmente, para garantir que a experiência de vida cristã seja fonte permanente de energia e inspiração, é necessário um trabalho específico e contínuo, que chamo de mística ou, melhor, de espiritualidade, entendida como o cuidado das raízes ou das fontes da vida cristã integral. Não basta dizer que as CEBs já têm uma mística própria: a chamada “mística da libertação”. Esta é, na verdade, uma mística de segundo grau, ancorada que está numa mística primeira, que é simplesmente — se me é permitido o pleonasmo — a “mística de Deus”. Sem isso, a pretendida “mística da libertação” acaba inevitavelmente “funcionalizando” o Espírito em prol da “luta pela vida”, como temo que ocorra com frequência.

 

 

Para fechar esta parte, eis como poderia ser visualizada, sinteticamente, a identidade das CEBs:

 

1º nível: Participação eclesial + compromisso social

ß                                        ß

2º nível: Comunhão fraterna + Amor ao próximo

               ß                         ß

3º nível: Experiência de fé

 

 

II. SITUAÇÃO ATUAL DAS CEBs

 

1. As CEBs diante da retração eclesiástica e do avanço neoliberal

Como está atualmente a situação das CEBs? É certo que aparecem menos: nas falas, nas publicações — tanto em teologia como em ciências sociais — nos eventos eclesiais, na escolha das prioridades etc.

Isso se deve, globalmente, à atual conjuntura histórica, marcada justamente por dois processos, ambos adversos às duas ideias que as CEBs procuram hoje praticamente encarnar. De um lado, o espírito participativo das CEBs é contrastado pelo processo, em curso na Igreja, de retomada vigorosa da velha centralização — processo “de longa duração”, que domina na Igreja desde o século XI[4]. Do outro lado, o compromisso social, que as CEBs procuram levar adiante, se choca com a folga da hegemonia neoliberal que o Capitalismo de hoje exerce sobre movimentos que visam à transformação das bases do sistema.

Ora, os dois projetos históricos: respectivamente, a democracia “conciliar” na Igreja e a superação do Capitalismo, que, até há poucos decênios apenas, pareciam ao alcance da mão, se recolocam como questões cuja solução parece recuar indefinidamente no horizonte histórico. Quem hoje fala ainda, mesmo a médio termo, na possibilidade de “redemocratização” das grandes estruturas da Igreja, bem como de um “novo” sistema social? Talvez se pudesse dizer que, em relação a essas duas possibilidades, ora vistas como longínquas, as CEBs, entre outras instâncias sociais, tenham chegado cedo demais, mostrando-se “utópicas” no sentido marxiano: viram os fins, mas não tiveram os meios de lá chegar. Formularam questões que não conseguiram (ainda) resolver.

Todavia, parece ser, sobretudo no nível da cúpula (macro), isto é, em relação ao “sistema”, respectivamente eclesial e social, que as CEBs estão hoje na defensiva. No nível da base (micro), a situação parece menos desfavorável: aí as CEBs continuam vivas e a caminho. Por outras: na pastoral popular, o processo de eclesiogênese segue em frente, ainda que em velocidade mais reduzida, devido ao inevitável reflexo da cúpula sobre a base.

No que se refere ao vetor “participação”, a prática do envolvimento das CEBs na vida, nas tarefas e nos ministérios eclesiais prossegue e inclusive cresce. Sem dúvida, falta-lhes agora uma cobertura maior da parte de Pastores populares e proféticos. Daí sua desaceleração, não, contudo, sua parada, como muitos pensam. Numa comparação: já que o “gás de rua” do apoio institucional da Igreja baixou ou mesmo fechou, as CEBs hoje “vão de bujão”, isto é, tocam à frente com recursos mais modestos: uma assessoria, uma rede, uma paróquia ou uma diocese mais aberta.

Quanto ao vetor “compromisso”, as CEBs estão abrindo frentes alternativas de luta ou entrando nas existentes, como os “novos movimentos sociais”, que se exercem em campos, como a cultura, a etnia, o gênero, a saúde, a educação, a arte, a juventude, a solidariedade com as crianças de rua e com os aidéticos, a produção alternativa, a ecologia etc. Ademais, o povo das CEBs participa, decidido, em processos mais amplos, alguns de massa, como o “grito dos excluídos”, as “semanas sociais”, as “romarias da terra”, o apoio aos sem-terra, as campanhas eleitorais, as moções populares etc. Certamente, aqui também, o engajamento vai mais lento, pois o mar neoliberal “não está para peixe”. Mas que a “luta continua”, continua. Os que trabalham na pastoral popular sabem disso[5].

Não obstante isso, há de se reconhecer que, mesmo no nível da base, as CEBs estão menos presentes e atuantes. Isso se deve, em parte, à influência da cúpula sobre as bases, como dissemos. Mas — e aqui levanto uma hipótese otimista: se as CEBs são menos visíveis também no nível da base não seria, em parte, por causa de um fator fundamentalmente positivo: sua dupla proposta de fundo teria conseguido penetrar, em princípio e capilarmente, em vastas áreas da Comunidade eclesial? De fato, é difícil encontrar hoje paróquia, associação ou movimento que não fale em participação eclesial e em compromisso social. Quem hoje não defende, por exemplo, o papel dos leigos (participação), assim como a “opção pelos pobres” e a luta contra a exclusão social que implica (compromisso)? Ora, esses são princípios práticos que alcançaram atualmente na Igreja ampla legitimidade teológico-pastoral. E isso não é pouca coisa, pois a plausibilidade que daí decorre favorece tanto a estrutura das CEBs quanto a assimilação do espírito “cebiano” pela Igreja.

Se essa hipótese tem alguma verdade, isto é, se os ideais das CEBs, de certa forma, se “naturalizaram” na Igreja, então não se deveria dizer propriamente que as CEBs estariam “desaparecendo”, mas, sim, “se diluindo” no corpo eclesial, assim como o fermento se dilui positivamente na massa (cf. Mt 13,33). Nesse caso, as CEBs só estariam perdendo em visibilidade para ganhar em efetividade. Sua presença física seria talvez menor, mas seu espírito ou energia teria penetrado, sem retorno, na consciência e na organização da Igreja, especialmente em suas bases populares. Pois o que importa mesmo não é o fermento, mas a massa fermentada. O que conta não é tanto o “modelito-CEB”, mas sim o “estilo-CEB”, vale dizer, o espírito e a irradiação dessas Comunidades[6].

Mas, para esclarecer melhor a situação das CEBs hoje, retomo a questão da identidade das CEBs, visando agora sua aplicação à realidade concreta. É o que pretendo fazer logo em seguida.

 

2. Como identificar uma CEB?

Não é fácil definir na prática quem é CEB e quem não é, quer para objetivos de estudo, quer de representação. Para clarear esse problema fundametal, parece-me importante distinguir dois modos de entender “CEB”:

1)     Pode-se entender “CEB”, stricto sensu, como uma estrutura específica, um modo concreto de organizar uma comunidade eclesial. Numa definição descritiva, poderíamos dizer que CEB é um grupo de cristãos, integrado na maioria por pobres, que se reúne, com certa regularidade, ao redor da Palavra de Deus e do culto, numa capela ou centro comunitário, com o objetivo de crescer na fé, autogerir sua caminhada eclesial e intervir no ambiente social. Chamo isso de estrutura-CEB ou forma-CEB. Isso seria como o “corpo” das CEBs.

2)     Mas pode-se também entender “CEB”, lato sensu, como um estilo particular, um “novo jeito de ser Igreja”, justamente o jeito participativo e engajado. Chamo isso de espírito-CEB ou estilo-CEB. Seria como a “alma” das CEBs.

 

Certamente, uma coisa está ligada à outra, como o frasco ao perfume. Mas a relação entre forma-CEB e estilo-CEB não se dá de modo rígido e estreito. Pois pode haver Comunidades que se organizam na forma-CEB, mas que, quanto ao estilo-CEB, são “clericais”, destituídas do “novo jeito de ser Igreja”. E pode haver Comunidades que não têm a forma-CEB nem se chamam, e que, no entanto, por suas práticas de participação e de compromisso, vivem o espírito-CEB. Acontece que as próprias CEBs frequentemente se perguntam ou perguntam aos teólogos: Que significa “CEBs”? Que é preciso para haver uma CEB? Isso mostra que uma coisa é o processo real, vivido pelas bases, e é o que mais importa (estilo-CEB); e outra coisa é o rótulo que se lhe apõe e a elaboração de que é objeto por parte dos agentes e assessores (forma-CEB).

Ora, se CEB é mais estilo do que forma, então, poder-se-ia talvez tomar por “CEB” todo processo de Igreja que corre efetivamente sobre o duplo trilho: o da participação eclesial e o do empenho social. Portanto, se há um processo de Igreja — comunidade, certamente, mas quem sabe também grupo, pastoral ou movimento — que se identifique com esse “espírito”, que cheire esse “perfume”, então “está na caminhada” das CEBs.

Embora o espírito-CEB possua uma identidade teológico-pastoral determinada, como a que estou aqui propondo através dos dois vetores descritos, contudo, seu perfil externo (forma-CEB) se apresenta hoje menos determinado: é pluralista, poroso e cambiante. Sociologicamente, não existe um “modelito” único de CEBs, mas, sim, um sem-número de “modulações” concretas de um “modelo básico”. Seus componentes básicos são os elencados acima, mas são, na prática, organizados de modo muito livre e flexível.

 

3. As CEBs sobre o pano de fundo da “crise de sentido”

Para situar a problemática das CEBs dentro de um horizonte de mais amplo respiro e também para mostrar a necessidade de resgatar a identidade originária das CEBs, como comunidades de uma renovada experiência de fé, quero agora confrontá-las com o que pode se chamar de nossa “crise epocal”. Julgo que essa seja uma reflexão nova, que pode nos trazer alguma luz.

No meu entender, existe hoje um fenômeno que questiona mais vasta e profundamente as CEBs — e outros processos similares — do que a retração eclesiástica e o ascenso neoliberal, com a exclusão que acarreta. Trata-se de uma questão gigantesca, que parece afetar não somente as atuais estruturas religiosas e sociais, mas a chamada “civilização moderna” como um todo, incluindo aí os valores que a sustentam.

Estaríamos diante, ou melhor, no centro de uma “crise de civilização” ou, como disse João Paulo II, repetido por Santo Domingo, de uma “crise cultural de proporções inimagináveis” (230a). De fato, essa crise atinge não este ou aquele setor da vida humana, por mais importante que seja, como a economia ou a religião, mas a todos os setores. É uma crise que, por suas dimensões e complexidade, é difícil de nomear e mais ainda de formular em seus devidos termos. Fala-se em crise dos valores, crise de sentido, ou mais brevemente em niilismo, como fez um dos maiores “profetas da modernidade”, Nietzsche, seguido nisso por Heidegger e em particular por escritores franceses, como Camus, Sartre e Saint-Exupéry[7].

O sintoma ou o reflexo mais claro e imediato dessa “crise civilizacional” é a extensa e poderosa corrente de misticismo, por outro lado, a busca aguda e difusa de experiência religiosa que perpassa o mundo neste início de milênio. O que aqui está em jogo, na verdade, não é simplesmente a substituição de uma problemática por outra: da “social” pela “cultural” ou “religiosa” (impossível ignorar o drama atual da exclusão). O que está aqui em jogo é mais propriamente um deslocamento de acentos ou de sensibilidades culturais.

Falar em “crise espiritual” do mundo moderno pode parecer banal e cômodo, um lugar-comum a que fazem apelo, em geral, os “homens de religião”. Mas há também testemunhas autorizadas — e não poucas — que falam também nesse sentido. Basta citar aqui uma ou outra voz. A primeira é do douto Card. Hume, que, num de seus últimos escritos, repetiu a afirmação do historiador Chistopher Dawson: “O que falta à nossa civilização não é o poder, a riqueza ou o conhecimento, mas sim a vitalidade espiritual. Caso não seja possível garanti-la, nada poderá nos salvar do destino que coube às civilizações da antiguidade”[8]. Recentemente, o sociólogo da religião Sabino Acquaviva, perguntado sobre quais poderiam ser os temas das próximas “semanas sociais” italianas, respondeu sem pestanejar: a “experiência religiosa”. E justificou: “O grande problema social, repito social, é o da dificuldade de dar um sentido à vida, sobretudo através de uma intensa experiência religiosa”[9].

Ora, essa imensa problemática parece desafiar as CEBs de modo mais radical do que as questões da participação eclesial e da transformação social que elas privilegiam e em torno das quais firmaram posição. Diante do macrofenômeno da “crise de sentido”, que, no fundo, é uma “crise religiosa” ou “espiritual”, têm as CEBs alguma contribuição a dar?

 

4. Duas objeções de fundo

Mas antes de responder a essa pergunta, quero responder a duas objeções que as CEBs e seus agentes provavelmente levantarão diante da problemática do sentido.

A primeira é a seguinte: Até que ponto a “crise de sentido” atinge as classes populares? Não seria apenas a crise das minorias racionalistas e secularizadas? Ou seja, a crise do mundo moderno não é a crise dos “modernos”? A grande massa do povo não tem crise de sentido. Ela tem as religiões que respondem por isso. A crise dela é a “crise social”, de que sempre paga a conta. O desespero do “povo” tem outras raízes, comparativamente às classes modernas. As “seitas” populares respondem a outra problemática, comparativamente aos “grupos gnósticos” da New Age.

Respondo que isso é em parte verdade. Outra parte é que o “povo” não tem só problemas socioeconômicos: desemprego, falta de habitação, de saúde, violência etc. Tem também problemas “existenciais”, relativos ao amor, à paz interior, à segurança psicológica, à harmonia familiar, à morte etc. Embora essas duas ordens de problemas estejam entrelaçadas, uma e outra possuem sua autonomia. E se é certo que o povo tem suas fontes de sentido, não deixam por isso de respirar a atmosfera global de sentido ou falta de sentido que produz a cultura dominante. E porque a cultura moderna é, de certo modo, transversal a todas as culturas, os pobres também pagam pela “crise de sentido” a ela ligada.

A segunda objeção que se pode levantar é esta: A “grande desgraça” hoje não é o Capitalismo, que, sob a forma do neoliberalismo, exclui cada vez mais as massas dos direitos e vantagens sociais? Pode-se até acrescentar — juntando Nietzsche a Marx — que é o próprio Capitalismo que cria a “crise de sentido”. De fato, na base desse sistema latejaria um espírito, cuja essência é o niilismo. O Capitalismo seria uma “potência niilista”, à medida que não só explora, exclui e mata, mas também aliena o ser humano, banaliza a existência e aniquila a vida e os valores que lhe dão sentido, deixando subsistir um único valor, o valor de mercado, de modo que, para o capital, “nada tem valor e tudo tem preço”[10].

Tenho consciência de que se entra aqui num mare magnum, onde facilmente se perde o pé. Aventuro-me, contudo, a dar minha modesta opinião. Essa visão crítica do Capitalismo parece-me artificialmente exagerada. Esse sistema, por mais que queira, não chega a ser totalitário, mas apenas autoritário. Consegue — um pouco como o Imperialismo romano — conviver com outros sistemas de valor (morais ou religiosos), contentando-se com ter o papel de poder dominante. Daí sua enorme flexibilidade e capacidade de adaptação, e também sua força. O Capitalismo não tem valores que sejam capazes de dar um sentido consistente à vida e à morte dos indivíduos e das coletividades[11]. Para isso ele precisa explorar, em proveito próprio, outros sistemas de valor. Portanto, para responder à atual crise de civilização, não basta combater o Capitalismo. No “arco de problemas” do mundo moderno há muito mais, e talvez mais graves, “desgraças” que só o Capitalismo…

 

5. Possível papel das CEBs em face da “crise de sentido”

Diante da crise global de sentido e da busca de misticismo, que vive a sociedade hoje, o que têm as CEBs para oferecer? Conhecemos as “ofertas” reais das CEBs. Como vimos no primeiro nível de sua definição — nível externo — as CEBs oferecem certamente dois valores básicos: “um novo modo de ser Igreja” e a busca de uma “nova sociedade”.

Quanto à primeira oferta, é preciso reconhecer que a demanda mais grave da realidade hoje não é certamente por eclesialidade, mas por “sentido de vida”, concretamente, por espiritualidade. A um mundo que pede por um absoluto qualquer, que lhe importa falar-lhe em Igreja? Usando a linguagem teológica: a demanda mais forte hoje não é certamente eclesiológica, mas antes cristológica e, mais precisamente, pneumatológica, pois é por aí que pode emergir uma resposta à questão do sentido. Mas, que fazem as CEBs? Em vez de entrarem em sintonia com o “espírito do tempo”, atormentado pela problemática religioso-existencial, elas não estariam lançando sua “mensagem” em outra “frequência”, a eclesial e social, dando a impressão de estarem “desantenadas” em relação à atual sensibilidade sociocultural?

Quanto à segunda oferta das CEBs — o engajamento social por uma nova sociedade —, parece dar-se com as CEBs certo descompasso. Efetivamente, a demanda de sentido é existencial e por isso não bate com o social, como propõem as CEBs com sua ideia de “libertação”. Falando em linguagem pastoral, a resposta precisa que a Comunidade eclesial, pode dar à pergunta do sentido se situa no campo da missão propriamente religiosa ou, mais especificamente ainda, evangelização. Em breve, o que o mundo moderno espera das Igrejas tem mais a ver com a pessoa de Jesus Cristo do que com o projeto do Reino de Deus. À pergunta se o compromisso social não responde e não resolve a questão do sentido, pode-se responder que o próprio compromisso requer uma palavra de sentido. Não há “luta” que se sustente sem um “porquê”. Por outras, a questão social só pode ser resolvida se virar uma “causa”.

Mas então, os desafios da “crise epocal” tirariam às CEBs o tapete debaixo dos pés? Pe. Marins e equipe lançaram a pergunta: “As CEBs já eram?”[12]. À luz da problemática do sentido que levantamos acima, poder-se-ia dizer que sim, as CEBs “já eram”; mas não exatamente porque teriam sido marginalizadas pelas forças adversas do neoconservadorismo eclesiástico e do neoliberalismo triunfante, mas simplesmente porque teriam perdido vigência histórica — o que seria extremamente grave!

Todavia, as CEBs têm potencialmente condições de dar uma resposta à atual crise de sentido. Para isso não basta que sejam agências de mudança eclesial e social, mas precisam ir mais fundo em sua identidade e missão; ou seja, precisam resgatar seu caráter de comunidades de experiência de fé. Certamente, trata-se de uma fé crítico-profética, portanto dialetizada com a realidade, mas sempre e essencialmente fé, a saber, fonte de sentido radical. Pois só “comunidades de sentido” respondem à “questão do sentido!”.

Assim — e aqui vem o “retorno dialético” da problemática — é ilusório responder à “questão do sentido” sem passar pela “questão da justiça”. Por outro lado, não é admissível — pelo menos na ótica da fé cristã — matar a “fome de Deus”, deixando persistir e se agravar a “fome de pão”. Donde a necessidade, para as CEBs, de, partindo mais uma vez e sempre, de sua experiência nasciva, manterem e reforçarem seu caráter participativo e libertador, sob pena de favorecerem a nefasta “alienação” religiosa em relação ao social. O compromisso de libertação sempre foi tido como uma função original, ainda que não originária, das CEBs. Não são muitas as expressões religiosas de hoje que, sem deixarem de ser religiosas, buscam ter um impacto real sobre as estruturas sociopolíticas sem caírem na tentação político-confessional. O compromisso libertador é uma das maiores, preciosas e irreversíveis contribuições que as CEBs deram à Igreja. Bastaria isso para garantir às CEBs um lugar na história.

 

III. PERSPECTIVAS DAS CEBs NO PRÓXIMO FUTURO

Deixando agora para trás a trabalhosa leitura dos “sinais dos tempos” e o não menos trabalhoso discernimento do lugar das CEBs nele, passo a olhar para o futuro e pergunto: Para onde vão as CEBs nos próximos anos? Esta é a parte que se quer mais concreta e mais prática das presentes considerações.

Vejo aqui quatro cenários hipotéticos ou perspectivas possíveis. Das três primeiras — digo-o de antemão — tomo minhas distâncias. Embora reconheça que tenham sua parte de verdade, não me parecem, contudo, acertadas em sua orientação de fundo. Inclino-me antes no sentido da quarta e última perspectiva.

 

1ª) A “paroquialização” das CEBs

Seria a assimilação das CEBs pela paróquia atual, no sentido de serem meramente transformadas em “sucursais” desta última. Dar-se-ia então a neutralização das CEBs em sua identidade específica, com o consequente esvaziamento de sua energia própria.

Ainda que o perigo dessa tendência seja, a meu ver, majorado polemicamente por defensores das CEBs, essa perspectiva me parece pouco provável. Em primeiro lugar, porque o modelo tridentino ou tradicional de paróquia (clerical, sacramentalista e assistencialista) se encontra, hoje, em parte já superado, pelo próprio processo de renovação conciliar, que, querendo ou não, marcou de modo decisivo toda a Igreja institucional. Pode não haver paróquia real­mente “transformada”: evangelizadora, participativa e sociolibertadora. Mas a maioria das paróquias é pelo menos “renovada”, graças, sobretudo à participação dos leigos em todos os níveis: nas estruturas de comunhão e participação, nos movimentos, nos ministérios etc. De todos os modos, a proposta de uma paróquia como “comunidade de comunidades” é hoje largamente aceita, assim que oferece o leito teológico-pastoral para a adequada inserção das CEBs em sua estrutura.

Em segundo lugar, não acho possível que a estrutura paroquial consiga enquadrar nos velhos moldes as CEBs, sobretudo — como lembraram o Pe. Marins e equipe — depois da aprovação oficial destas por dois Papas (Paulo VI e João Paulo II), por três grandes documentos pontifícios (Evangelii Nuntiandi, Redemptoris Missio e Christifideles Laici), assim como por três CELAMs (Medellín, Puebla e Santo Domingo). Além disso, as CEBs, com seus pastores, assessores e agentes em geral, têm suficiente consciência de sua identidade própria e da legitimidade evangélica e magisterial de seu modelo eclesial, para se deixarem fagocitar, assim sem mais.

Mais sutil parece-me a tendência, muito resistente ainda nas CEBs, de reproduzirem espontaneamente, quase por efeito de “naturalização”, velhas práticas “clericais” (autoritárias, ritualistas etc.) da paróquia tradicional, como observou, entre outros, J. Comblin[13]. Mas dizer que Santo Domingo, porque inseriu as CEBs na “tópica” da paróquia (nº 61-63), entendeu simplesmente “normalizá-las”, é não ver dialeticamente o outro lado da questão: a inegável influência que as CEBs exercem sobre a própria estrutura paroquial no sentido de “comunitarizá-la” e assim transformá-las, sem por isso destruí-la.

Portanto, a questão não é integrar ou não, mas como integrar, ou seja, “integrar sem entregar”. A inserção nas estruturas eclesiásticas é uma necessidade para as CEBs, seja do ponto de vista eclesiológico, seja também por questão de sobrevivência. Sem laços orgânicos com a Instituição eclesiástica, as CEBs perdem importância histórica, como mostrou o caso da chamada “Igreja Popular” de Nicarágua[14].

Pois se é certo — e essa é a parte aceitável da preocupação pela “paroquialização” — que as CEBs precisam continuar na grande Igreja, aí inseridas orgânica e institucionalmente, como um novo processo, ainda que junto e interagindo com outros, é também certo que as CEBs podem e devem continuar seu trabalho de fermentar o tecido eclesial através dos dois vetores aqui destacados — o da participação e o do compromisso — e que são como que seus “carismas” próprios.

 

2ª) A “cebização” das paróquias

Falo aqui em “paróquia” entendendo-a como estrutura representativa de outras estruturas da Igreja, como a Diocese e a Conferência dos Bispos. Parece-me que a perspectiva de “cebizar” toda a Igreja é um tanto vaga, por jogar o tempo todo com a ambiguidade: CEBs como estrutura (forma-CEB) e CEBs como espírito (estilo-CEB).

Tenho a impressão de que a ideia das CEBs como “único modo de toda a Igreja ser” goza de certa simpatia em não poucos meios “cebianos”. Parece ser esta também a proposta de quem pensa que se deva criar não apenas uma “Igreja com CEBs”, mas uma “Igreja de CEBs”. A Igreja no Brasil que, nessa linha, levou mais longe, de modo criativo e relativamente bem-sucedido, o processo de “cebização” geral foi certamente a de S. Félix do Araguaia[15].

A perspectiva de uma “Igreja-de-CEBs” opera com a ideia de fazer das CEBs o “novo eixo estrutural da Igreja”, de modo a virem a constituir, com o tempo, uma Igreja como “imensa rede de Comunidades”, envolvendo tendencialmente toda a massa católica. Nesse sentido, as CEBs teriam certo caráter de massa: seriam a “Igreja toda em movimento”. Seriam, dessa maneira, a “unidade estruturante de Igreja”[16].

Algo assim parecem pressupor também os que pretendem colocar sobre os ombros das CEBs todos os desafios que a Igreja tem de enfrentar: a inculturação, o ecumenismo, a questão da mulher, a pastoral de massa, o diálogo inter-religioso etc. Como se, para as CEBs, não fossem suficientes os dois graves desafios aqui sublinhados e nos quais são “especializadas”. Sem dúvida, as CEBs, como, de resto, toda a comunidade cristã, precisam abrir-se a esses temas, mas não me parece que esteja lá o seu “forte”. Há outras instâncias eclesiais que entendem melhor que as CEBs dessas coisas. Por exemplo, de “mídia”, entendem mais os novos Movimentos; de “experiência pneumático-espiritual”, os Carismáticos; de “inculturação”, a pastoral afro-brasileira; de “compromisso político-partidário”, os militantes cristãos, e assim por diante.

É verdade que as CEBs não são na Igreja “órgãos especializados” num serviço concreto determinado, mas “células eclesiais” genéricas, onde qualquer um pode viver a “vida cristã integral”, “permanecendo por isso mesmo abertas a todas as tarefas que se põem a qualquer Comunidade eclesial. Mas nada impede que uma Comunidade, como tal, tenha seu perfil específico e escolha suas prioridades. Se o estatuto eclesiológico das CEBs não é, a rigor, o de serem “pastorais”, nem “movimentos”, mas o de serem justamente “comunidades”, elas não deixam, contudo, de ser “comunidades especiais”.

Ademais, é preciso considerar que as CEBs não estão sozinhas na Igreja na tarefa de tecer os fios da eclesialidade elementar ou básica. O Cristianismo popular continua a gerar e a manter suas comunidades. Também os novos Movimentos criam suas comunidades de fé e vida. Daí porque as CEBs, embora possam dizer-se pars pro toto, não o são no sentido de “parte pelo todo” (pro = em lugar de), mas justamente no de “parte para o todo” (pro = em favor de). A primeira posição configura a perigosa tendência à “seita” e a segunda, a legítima tendência à “minoria profética”, como direi na última perspectiva.

Em breve, a ideia de “cebizar” a Igreja por inteiro, pelo menos em termos da forma-CEBs (não digo do estilo-CEBs), tem toda aparência de ser uma perspectiva sociologicamente inviável (estatísticas mostram que, com 20% da população católica de uma Diocese, as CEBs chegam praticamente a seu teto), eclesiologicamente equivocada (a Igreja é uma realidade por demais complexa para se reduzir à forma-CEBs) e pastoralmente utópica (é ilusório pretender universalizar o modelo monolítico de uma Igreja-só-de-CEBs).

 

3ª) Autonomização das CEBs

Alguns teólogos e pastoralistas propuseram, sobretudo recentemente, dar às CEBs uma “organização” mais definida[17]. Mais concretamente, pensa-se em criar um serviço de coordenação das CEBs, em nível nacional, que tenha uma estrutura mais consistente e de alcance mais vasto do que a atual “Comissão Ampliada Nacional”, que existe apenas em função dos Encontros intereclesiais.

Mas, qual é a eclesiologia de CEBs que está por trás dessas propostas? Pois, ao enveredar por esse caminho, as CEBs correm o risco de se transformarem num “movimento à parte”, desenvolvendo-se ao lado de outros, ou, na pior das hipóteses, numa “rede de comunidades”, paralela ao organismo maior da Igreja. A essa altura assoma o fantasma da “Igreja paralela”, com seu “magistério paralelo”. Uma “rede independente de CEBs” é, a meu ver, tão impensável, na Igreja católica, como uma “rede independente de Paróquias”.

Ora, uma proposta como essa contradiria, no meu entendimento, o estatuto eclesiológico das CEBs, que é justamente o de serem “células eclesiais” renovadoras e mesmo recriadoras do tecido comunitário e libertador da Igreja como um todo. De resto, a tendência objetiva das próprias CEBs, pelo menos entre nós, no Brasil, sempre foi de permanecerem firmemente ancoradas à Igreja institucional, esperando dela o apoio necessário e oferecendo, em contrapartida, o significativo serviço de seus “carismas”.

É possível levar as CEBs pelo caminho da “autonomização institucional”, de que gozam, por exemplo, os Movimentos. Mas me parece estrategicamente perigoso. Institucionalmente “autonomizadas” em relação à grande Instituição, as CEBs se transformariam naturalmente num “movimento a mais” dentro da Igreja, perdendo praticamente relevância histórica. Além disso, essa proposta privaria a Instituição eclesiástica da importante influência que as CEBs exercem sobre ela e de que tem imensa precisão. Corresponderia, pois, a um processo de imunização das estruturas da Igreja ao “benéfico vírus” das CEBs.

Agora, o que acho admissível é uma autonomização limitada das CEBs, a saber, uma autonomização de tipo funcional, no sentido de poderem se beneficiar, em nível nacional, de alguns serviços necessários para sua animação geral, como, aliás, já está se dando, em nível diocesano, por meio de “setor” específico, chamado às vezes de “pastoral das CEBs”. Tratar-se-ia de montar um órgão específico, uma sorte de “articulação” ou “secretaria” nacional das CEBs, ligada naturalmente à CNBB — um pouco ao modo do Conselho Nacional do Clero. Esse órgão teria funções apenas de serviço e assessoria, não de direção e coordenação, pois, pelo fato de as CEBs serem “células eclesiais” e não meramente “grupos da Igreja”, os órgãos “naturais” dessas duas últimas funções só podem ser os da própria Igreja hierárquica. Outra é a questão da oportunidade de se criar tal órgão, o que exige levar em conta a conjuntura da Igreja.

Portanto, se a intenção básica das propostas de autonomização que estão emergindo tiverem um caráter apenas operativo no sentido de reforçarem as CEBs como comunidades assumidamente minoritárias e proféticas (como direi logo abaixo) e, além disso, enxertadas no tecido da Igreja existente, então, sim, poderia valer a sugestão de, em nível supradiocesano, “organizar” melhor as CEBs, sistematizar a formação de seus agentes e mesmo reivindicar para elas um estatuto canônico, tudo para que possam ser o que devem ser, enquanto comunidades eclesiais caracterizadas, a saber: comunidades geradoras, na Igreja e para a Igreja, de participação (“democrática”) e de compromisso (libertador). Mas aqui já entramos na quarta e última proposta, que a seguir vou descrever e defender, e que incorpora elementos considerados positivos das perspectivas ou propostas anteriores.

 

4ª) CEBs: “comunidades proféticas”: minoritárias e a serviço do todo

Esta representa uma posição intermediária entre as duas primeiras: nem as atuais estruturas da Igreja (especialmente a paróquia) absorvendo as CEBs, nem as CEBs absorvendo as estruturas da Igreja. Acho que o futuro vai no sentido de manter as CEBs como prioridade, mas a título de comunidades assumidamente especiais, a saber: “comunidades proféticas”. Esclareço que tomo aqui “proféticas” não no sentido de “comunidades denunciantes e anunciantes”, ainda que esse sentido não seja de modo nenhum excluído, mas no sentido específico de “comunidades minoritárias” com uma “missão especial em favor da totalidade”.

As CEBs seriam, de fato, comunidades “abraâmicas”, grupos “liminais” (V. Turner), que teriam um pé na institucionalidade eclesial e outro à frente, no seu futuro, no mundo do ideal e da utopia. Seriam comunidades de fronteira, necessariamente excepcionais. Tal me parece ser o estatuto eclesiológico apropriado das CEBs, a partir do qual é possível definir corretamente suas tarefas e prever seu futuro. Portanto, como “comunidades proféticas”, as CEBs aparecerão cada vez mais como “pequenas Igrejas” dentro e a serviço da “grande Igreja” (eccIesiolae in Ecclesia)— um pouco como são ou devem ser as Ordens e Congregações religiosas no seio da Igreja[18]. Em termos da forma-CEB, seriam como “órgãos” específicos, dentro do “organismo” maior da Igreja, com a função de produzir aquelas duas proteínas fundamentais aqui sempre referidas: a participação, inspirada na comunhão fraterna; e o compromisso, informado pelo amor; e ambos, animados por uma profunda experiência de fé.

Nessa perspectiva as CEBs emergirão com uma imagem mais reduzida (externa e quantitativamente), mas, ao mesmo tempo, dotadas de maior qualidade e força de irradiação. Como se vê, elas aparecem aqui com um “perfil baixo”, longe da “pletora do discurso” teológico-pastoral em que haviam caído, até no passado recente, assessores e agentes das CEBs. Trata-se de um papel mais humilde, como convém a todos os verdadeiros processos segundo o Evangelho, o qual, como se sabe, exalta a virtude das coisas “pequenas” (a semente, o grão de mostarda, o fermento) e prefere os caminhos quenóticos.

A perspectiva das CEBs como “comunidades proféticas” ou “abraâmicas” permite também fazer justiça ao que julgo positivo nas propostas anteriores:

  • quanto à proposta da “paroquialização”, as CEBs poderão reivindicar o direito que lhes assiste — no sentido específico da “forma-CEB” — de encontrarem um lugar reconhecido, até juridicamente, no interior das estruturas da Igreja, também da paróquia;
  • quanto à de “cebização”, as CEBs deverão continuar valorizando a tarefa de levedarem — agora no sentido do “estilo-CEB” — o tecido eclesial em termos de comunitariedade e de abertura ao social;
  • enfim, quanto à proposta de “autonomização”, as CEBs poderão postular o direito de disporem de uma organização operativa própria, pelo fato de constituírem efetivamente um processo específico na Igreja, embora de significação mais geral.

Contudo, se as CEBs querem estar à altura da demanda mais radical da atual situação histórica, que é a demanda por experiência religiosa, elas precisam reativar sua radical dimensão teologal, de onde, aliás, provém sua seiva secreta e que constituem seu “princípio” tanto histórico como estrutural. Mas para isso, elas precisam estar embreadas organicamente, não só na “questão social”, mas também no atual processo da busca de sentido e de espiritualidade.

Nessa linha, convém pensar na convivência pacífica e mesmo no encontro das CEBs com o Pentecostalismo em geral e mais proximamente com a Renovação Carismática Católica (RCC). Tal encontro, aliás, está se dando em nível da base popular, e também numa medida talvez maior que os agentes gostariam de admitir. Em vez de ser deixado ao sabor de certa dinâmica espontaneísta, que só produz conflitos e desgastes, esse encontro precisaria ser pastoralmente e competentemente acompanhado.

Nessas condições, o diálogo entre esses dois poderosos processos do cristianismo moderno poderá ser de enriquecimento para ambos. As CEBs tirarão dele não pequeno proveito, especialmente no sentido de recuperar a dimensão emocional da experiência cristã e sua conexa expressão simbólica, com a pneumatologia que lhe é subjacente. E não se pode dizer que não haja certo déficit da constitutiva “experiência do Espírito” nas CEBs, como, de resto, em toda a Igreja ocidental, mesmo se nem toda experiência cristã for necessariamente uma experiência “efervescente”, como ocorre nos movimentos de “entusiasmo” de tipo carismático-pentecostal. Em contrapartida, as CEBs podem ajudar o movimento carismático-pentecostal a desdobrar corretamente sua experiência espiritual na dupla linha em que são especializadas: a participação consciente e ativa nas decisões eclesiais e eclesiásticas e o compromisso social em vista da criação de uma “nova sociedade”. E não se pode dizer que os atuais “entusiastas” não careçam de uma e de outra coisa.

Agora, contrapor CEB e RCC como processos antagônicos, parece-me algo de forçado. Pois o que é decisivo, do ponto de vista teológico, é o fato de que CEBs e RCC comungam fundamentalmente na unidade da e na comunhão eclesial. As respectivas divergências na frente sociopolítica e eclesiopastoral pertencem ao campo do legítimo pluralismo respectivamente político e pastoral, como ocorre, de resto, com as diferentes paróquias e dioceses. Além disso, sustentar a incompatibilidade entre Comunidades e Movimentos é não entender a “lógica católica”, que prefere o inclusivo “e… e…” ao excludente “ou… ou… Portanto, entre o messianismo das CEBs e a mística da RCC não há oposição de princípio, do ponto de vista teológico. Ambas podem conviver pacificamente e se complementar dinamicamente, sem por isso perder suas especificidades e seus carismas[19].

Pelo caminho andado, as CEBs não precisam ter medo de ser “atropeladas” pela RCC. Mas esta também não pode ignorar que não há movimento de Igreja consistente, por mais mídia e massa que mobilize, se não contar com uma boa rede de comunidades com a qual possa dialeticamente interagir — sob pena de não passar de mais um produtor de “bolhas de sabão” emocionais e midiáticas.

Sem dúvida, a raiz de tudo é a experiência de fé, e nisso a RCC — deve-se reconhecê-lo — se situa no plano do que é originário e do que tem a primazia. Mas o fruto de toda a vida de fé é o compromisso, também social — e este é sabidamente o ponto de honra das CEBs.

 

CARTA FINAL DO X ENCONTRO INTERECLESIAL DE CEBS

 

CARTA AS COMUNIDADES Julho de 2000 — Ano Jubilar

Queridas irmãs e irmãos das CEBs,

  1. Em nome da Trindade, a melhor comunidade, saudamos vocês com muito carinho. Aqui, na orla marítima da bonita cidade de São Jorge dos Ilhéus da Bahia, de 11 a 15 de julho, ao som dos tambores, atabaques, berimbaus, pandeiros e maracás, aconteceu o X Encontro Intereclesial de CEBs. As intensas chuvas de julho deixaram Ilhéus encharcada e úmida. Mesmo assim, o sol nos visitou, gerando calor e aconchego e possibilitando a realização das atividades previstas.
  2. Sentimos a força do axé em tantas demonstrações de carinho das famílias, das comunidades, da equipe de coordenação, de D. Mauro Montagnoli, que tão bem nos acolheram. A preparação do encontro foi um grande mutirão de partilha das comunidades de todo o Estado. 1128 pessoas asseguraram o funcionamento dos mais diversos serviços, sem contar milhares de mãos de todo o Brasil que ofereceram o material necessário, lembranças artesanais, alimentos e frutas. Dos 309 bispos da Igreja Católica, 63 estiveram conosco. Das 267 dioceses brasileiras, 231 estiveram representadas. Também contamos com representantes de mais 8 Igrejas cristãs e irmãos e irmãs de outras religiões, sobretudo dos povos indígenas e negros. Somos 1.268 mulheres e 1.128 homens, delegados enviados pelas comunidades; 73 evangélicos e 58 indígenas de 27 povos; convidados, representantes de comunidades de 15 países da América Latina e do Caribe, de outros países da Europa e da África, comunicadores, jornalistas, artistas e assessores, totalizando 3.036 participantes.
  3. Espaços comunitários importantes muito ajudaram a partilha de experiências e a convivência entre nós: a praça de alimentação Mãe Menininha do Gantois; a feira nacional de artesanato Heitor Frisotti; a sala de imprensa Antônio Carlos Moura, as tendas de oração para as diferentes expressões religiosas.
  4. Organizamos nossos trabalhos em seis plenários que batizamos de arraiais e aos quais demos nomes muito significativos para a resistência das comunidades do Brasil: Dorcelina, Dandara, Reverendo James Wright, Índio Chicão Xucuru, Eldorado dos Carajás e D. Helder Câmara, profeta pioneiro da Igreja dos pobres, que também foi o patrono do grande arraial. Aí fizemos a memória de nossa caminhada, partilhamos sonhos, desafios e compromissos.

 

MEMÓRIA E CAMINHADA

  1. Na grande tradição bíblica do “… nossos pais nos contaram”, as comunidades sempre valorizaram muito a memória, pois sabem que Deus fala na história concreta do povo. Sabem também que um povo que tem consciência de sua história, é capaz de evitar as falhas do passado, de reforçar os acertos e de dar passos firmes rumo ao futuro. Por isso nos debruçamos sobre os 2.000 anos de nossa caminhada. Começamos com Jesus e seus primeiros seguidores e seguidoras, que foram perseverantes no ensinamento dos apóstolos e das apóstolas, na missão, na fração do pão, na oração e na partilha fraterna dos bens.
  2. Olhando o passado mais próximo, vimos que as atuais comunidades eclesiais de base brotaram de duas vertentes que foram se entrelaçando e se completando: uma mais religiosa, por meio da reza do terço, dos grupos de reflexão, dos círculos bíblicos, das romarias; outra mais social, do engajamento nas lutas populares, no campo e na cidade.
  3. Vimos que nas últimas décadas, sobretudo a partir, dos Encontros Intereclesiais, fizemos uma caminhada, marcada por avanços e dificuldades, vitórias e tropeços. Por causa de nossa atuação profética, fizemos muitas vezes a sociedade mudar sua agenda, assumindo os temas de interesse dos pobres. Foi assim que crescemos na defesa dos direitos humanos, na construção da cidadania, na luta pela reforma agrária, na valorização dos povos indígenas, do povo negro, das mulheres, das crianças, dos jovens, dos portadores de deficiências e das pessoas da terceira idade.
  4. Nossas Igrejas se sentiram muitas vezes interpeladas para abrir suas portas, a fim de acolher os sonhos e propostas dos excluídos. Ajudamos nossas Igrejas a serem mais de comunhão e de participação, mais atentas aos direitos dos pobres e das mulheres, mais sensíveis aos diversos ministérios.
  5. Também fizemos memória da importância de organizações que facilitam nossa articulação. Destacamos os Encontros Intereclesiais. São 25 anos de caminhada! O nosso famoso “trem das CEBs” vai ficando cada vez mais comprido. Já são dez vagões. Cada um deles carrega um montão de história da caminhada.
  6. 10.  Ao redor da mesa da Palavra e da Eucaristia, nossas celebrações são sempre muito criativas, articuladas com a realidade do povo sofrido, facilitadoras da ligação entre fé e vida. Para nós, as celebrações são momentos fundamentais para reforçar nossa fé no Deus da vida; para somar forças na caminhada, aumentando nossa convicção no seguimento de Jesus. A Bíblia contada, cantada, encenada e celebrada, tantas vezes ecumenicamente, é ferramenta importante de nosso trabalho e fonte de inspiração para nossa mística na militância.
  7. 11.  Nesse mutirão da memória, o que encheu nossos olhos e nosso coração de alegria foi perceber que há, da parte das comunidades, um engajamento muito sério em inúmeras lutas sociais e políticas. Aprendemos a ligar nossa fé com a transformação da sociedade, participando nas associações comunitárias, nos grupos de mulheres, nos sindicatos e nos partidos comprometidos com o projeto político popular. Conseguimos eleger vários companheiros e companheiras para responsabilidades políticas, sustentando-os e acompanhando-os na atuação parlamentar e administrativa, de forma comunitária.
  8. 12.  Vimos, também, com muita esperança, todo o esforço que vem sendo feito para defender e resgatar as culturas oprimidas, nas várias regiões do país.
  9. 13.  Alegria para nós tem sido a constante presença e parceria ecumênica com inúmeros irmãos e irmãs de Igrejas cristãs e de outras religiões. Reafirmamos nossa aliança com os povos indígenas e com os negros, no seu jeito de ser, de se expressar e de se relacionar com Deus.
  10. 14.  Nesse mutirão da memória foram relembrados vários desafios. Queremos partilhar com vocês nossas dúvidas e questionamentos na intenção de enfrentar juntos os obstáculos que surgiram.
  11. 15.  Percebemos que, muitas vezes, falta clareza sobre nossa identidade. Há algumas comunidades fechadas e preocupadas exclusivamente com assuntos internos. Persiste a prática do autoritarismo tanto da parte do clero quanto da parte de leigos e leigas. E, em algumas comunidades, a Bíblia tem sido lida de maneira fundamentalista.
  12. 16.  Essas e outras dificuldades não nos desanimam nem impedem nossa capacidade de sonhar com um novo mundo e uma nova Igreja. Os frutos colhidos nesses 2.000 anos de caminhada nos dão a certeza de que nenhuma estiagem tirará a força das sementes regadas com o sangue de mártires.

 

SONHOS E DESAFIOS

  1. No terceiro dia do encontro, todos os arraiais refletiram sobre a importância dos sonhos na vida pessoal, na da Igreja e da sociedade. Ante a sociedade neoliberal, que tira dos pobres e excluídos o direito de sonhar, foi colocada como uma das grandes missões das CEBs o resgate do sonho.
  2. A igualdade em todas as suas dimensões, com vida abundante, com justiça e paz, sem discriminação de classe, de gênero ou de etnia e com a plena valorização da pessoa foi apresentada como o grande sonho a ser realizado.
  3. Sonhamos com uma Igreja participativa, toda ministerial, unida no respeito à diversidade, missionária. Uma Igreja mãe, acolhedora, pobre, comprometida com a causa dos excluídos e aberta aos novos desafios. As CEBs sentem profundamente estarem quase sempre privadas da mesa eucarística em suas celebrações dominicais e pedem que a Igreja repense urgentemente a questão ministerial. Sonham ainda com uma Igreja onde o poder seja partilhado, com espaço para a participação da mulher nas várias instâncias de serviços e de decisões.
  4. Na contramão de uma sociedade onde a riqueza é acumulada nas mãos de poucos, o poder é centralizado, o saber privatizado, sonhamos com uma Igreja onde todas as suas lideranças testemunhem, pela sua prática, uma nova convivência eclesial baseada na partilha, na participação e na comunhão.
  5. Sonhamos com uma sociedade justa, igualitária, solidária, respeitadora da cidadania, das etnias, assumindo as diferenças como fator de crescimento e de enriquecimento mútuo. Visando à construção de um projeto alternativo de sociedade, manifestamos nosso anseio por eleger políticos comprometidos em administrações populares, com orçamento participativo, engajados numa política de melhor distribuição da renda e da terra, que promovam a demarcação e garantia das terras dos povos indígenas e dos remanescentes dos Quilombos. Sonhamos com a presença cada vez maior de cristãos e Cristãs nas diferentes instâncias de participação e de serviço dentro da sociedade, como: Conselhos de Direitos, Associações de Moradores, Sindicatos, Partidos Políticos e outras organizações e movimentos populares.
  6. Diante do atual modelo de desenvolvimento econômico, destruidor do meio ambiente e de mentalidade consumista, pleiteamos uma sociedade respeitadora das águas e da terra mãe como o lugar da nossa convivência solidária.
  7. Há muitos desafios e obstáculos que dificultam a realização destes sonhos. Do ponto de vista pessoal, percebemos que o egoísmo, o individualismo, o desânimo, o cansaço, o desencanto e a acomodação limitam ou impedem o assumir das lutas de libertação em todos os níveis da vida. Na Igreja, muitas vezes, o sonho de uma nova comunhão eclesial é dificultado pelo clericalismo, pelo machismo, pela centralização do poder, pela não aceitação da dimensão política da fé.
  8. Na sociedade, nossos sonhos são inviabilizados pelo sistema neoliberal excludente, que mantém a dependência política e econômica do país impedindo a soberania nacional. O desemprego, o trabalho escravo e infantil, o monopólio dos Meios de Comunicação Social, a ambição do poder, a concentração da renda e da terra, o processo de endividamento gerado pelas dívidas externa e interna, sem investimento no social e, no setor produtivo, fazem com que nosso povo se torne cada vez mais dependente e pobre.
  9. Enfrentamos esses obstáculos e desafios. Já estamos tornando realidade alguns dos nossos sonhos em relação à Igreja, por meio do estudo e da celebração da Palavra de Deus, dos cursos de teologia para leigos e leigas, das missões populares, do envolvimento com o povo nas diversas pastorais e serviços, da participação das mulheres nos diferentes ministérios, das liturgias inculturadas. Na sociedade, o sonho vai se concretizando pela participação nas lutas sociais e populares, na luta pela reforma agrária com a garra de movimentos como o dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), nas lutas pelo respeito à dignidade dos negros(as), das mulheres, dos povos indígenas, na defesa dos direitos da criança, do adolescente, da juventude e da terceira idade, nas lutas sindicais, nas lutas político-partidárias, na busca de um processo de educação popular, na luta dos povos indígenas pela terra e por sua autonomia.

 

COMPROMISSOS

  1. Destacamos os compromissos comuns assumidos pelos regionais, indígenas, negros e evangélicos:
  2. Resgate da identidade das CEBs;
  3. Fortalecimento da mística, da organização e da articulação das Comunidades;
  4. Formação bíblico-teológica e acompanhamento de lideranças, de forma sistemática;
  5. Construção de relações igualitárias entre mulheres e homens, na Igreja e na sociedade;
  6. Participação efetiva no plebiscito da dívida externa e no Grito dos Excluídos;
  7. Envolvimento no processo das eleições e fiscalização do cumprimento da lei 9.840, contra a corrupção eleitoral;
  8. Participação nos Conselhos de Direitos;
  9. Apoio à luta dos povos indígenas pela demarcação e regularização de suas terras;
  10. Luta contra o desemprego;
  11. Defesa do meio ambiente;
  12. Combate à discriminação racial e apoio às lutas do povo negro;
  13. Apoio à marcha mundial das mulheres contra a violência e a pobreza;
  14. Empenho em favor do abaixo-assinado: “Repartir a terra para multiplicar o pão”, emenda constitucional que limita o tamanho da propriedade rural no país na luta pela reforma agrária;
  15. Estar em Ilhéus nestes dias significou para nós sentir o peso dos 500 anos de Brasil e a certeza de que são outros os 500 anos que desejamos. A celebração de abertura, da Terra Sem Males, a Tarde Orante diante do mar, as celebrações nos arraiais, nas comunidades, a celebração final com a grande romaria das comunidades nos fizeram viver momentos de intensa emoção, de purificação da memória histórica, de fortalecimento de nossa esperança, de compromisso na opção pelos pobres, na luta pela justiça, na construção da cidadania, na causa do Evangelho.
  16. Voltamos às nossas comunidades acompanhados pela benção do Deus da vida de muitos nomes e rostos, que libertou o povo do Egito. Com a força do Cristo ressuscitado. Com a certeza da presença do Espírito de amor nas nossas lutas do dia a dia. Confortados pelo testemunho dos mártires da caminhada e dos que confessam a fé com destemor. Com Maria, mãe de Jesus e companheira de nossa caminhada, em busca da Terra Sem Males.

 

Amém! Axé! Auêre! Aleluia!



[1] Cf. “Estatuto eclesiológico das CEBs”, in ISER/Assessoria, As comunidades de base em questão, Paulinas, São Paulo, 1997, pp. 177-205 (espec. pp. 188-190). Várias posições aqui defendidas supõem os estudos dessa obra coletiva, que, em nossa opinião, não foi ainda suficientemente assimilado pela consciência teológica e pastoral no que diz respeito à problemática atual das CEBs.

[2] Cf. Faustino L. Couto TEIXEIRA, A gênese das CEBs no Brasil. Elementos explicativos, Paulinas, São Paulo, 1988.

[3] Algo disso já postulava, numa entrevista penetrante, o Pe. Henrique de Lima VAZ, in 30 dias, outubro de 1989.

[4] Uma boa ilustração relativa às CEBs: Ecclesia in America, exortação pós-sinodal do sínodo extraordinário de todas as Américas (22 jan. 1999), não fala mais em “CEBs”, só alude a elas num passo (nº 70). Falando aí da “paróquia como comunidade de comunidades e de movimentos”, diz que “é oportuno a formação de comunidades e de grupos eclesiais de tal dimensão, que permitam estabelecer verdadeiras relações humanas etc.” e remete à RMi nº 51 onde, aí sim, se fala explicitamente das CEBs. E, contudo, havia nas proposições do Sínodo uma, a do nº 47, que recebeu 195 votos favoráveis e apenas 16 desfavoráveis, com 5 brancos, onde se afirmava claramente: 1º) que as CEBs eram muito importantes no continente americano; 2º) que eram um meio especial para a “nova evangelização”, particularmente em relação aos “afastados” material ou espiritualmente da Igreja; 3º) que constituíam um espaço privilegiado de participação dos leigos e de todos eles. Ora, de tudo isso nada ficou no documento final do Papa (leia-se: da Cúria Romana).

[5] Cf. o belo artigo de Luiz Alberto GÓMEZ DE SOUZA, “As CEBs vão bem, obrigado”, in REB, fasc. 237, vol. 60 (2000), pp. 93-110.

[6] Cf., p. ex., Antônio MOSER, “Comunidades de fé: reflexões a partir de um prática”, in REB, v. 57 (1997), pp. 893-923: relato vivo de experiências no “estilo CEBs”, em fascículo monográfico, dedicado ao IX Intereclesial.

[7] Ver somente a instrutiva obra do conhecido estudioso da filosofia clássica, o italiano Giovanni REALE, O saber dos antigos: terapia para os tempos atuais, Col. Leituras filosóficas, Loyola, São Paulo, 1999, (espec. o prólogo “O niilismo, raiz dos males do homem de hoje”, pp. 17-34).

[8] Cf. Il Regno-attualità, nº 16 (1999), p. 575. A afirmação é de 1933!

[9] Para esse sociólogo italiano, é precisamente isso que “demonstram as pesquisas”. E continua: “Talvez tenha chegado o tempo de compreender que — não pareça um paradoxo — o maior problema social é o problema individual”: entrevista a ADISTA (Roma), nº 89, 11/12/99. É evidente que essa problemática é mais aguda no Norte que no Sul do mundo. Ver também a teoria macrointerpretativa da sociedade atual em termos de Erlebnisgesellschaft, ou “sociedade da gratificação imediata”, do sociólogo alemão G. Schultz, que sinaliza, por via do sintoma, a mesma problemática do fundo. A revista Concilium nº 282 (1999/4) foi toda dedicada ao debate e à releitura teológica dessa teoria.

[10] Tomo aqui uma sugestão do Card. Joseph RATZINGER sobre a essência finalmente niilista do Capitalismo, “Svolta per I’Europa”, in ADISTA (Roma), 29 de fev. de 1993, p. 9.

[11] Inspiro-me aqui em Francesco ALBERONI, Genesi, Garzanti, Milão, 1989, e em seu conceito de “civilização cultural”, que ele nega ao Capitalismo (pp. 463-7). Apesar do “espírito” do Capitalismo ter-se originado de uma experiência religiosa, a calvinista (M. Weber), a natureza, a estrutura e a dinâmica atuais desse sistema são fundamentalmente autônomas. Ele não tem como oferecer, ao modo de toda “civilização cultural”, “uma mensagem e uma esperança profunda com as quais dar um sentido à vida aos indivíduos e estabelecer alguma relação com o absoluto” (p. 465). Existe, contudo, hoje, uma linha teológica que sustenta o caráter “religioso”, na verdade, “idolátrico” do Capitalismo, e o caráter “teológico” do neoliberalismo, representada, sobretudo pelo DEI de Costa Rica (H. Assmann, F. Hinkelammert, E. Dussel, J. Pixley, P. Richard etc.) e que tem seguidores também entre nós (Jung Mo Sung). Tal concepção apanha certamente um aspecto do Capitalismo, mas seria realmente central e essencial? Para uma síntese dessa problemática, cf. Michael LOEWY, “La idolatría del mercado. La crítica del fetichismo capitalista, de Marx a Ia Teología de Ia Liberación”, in Pasos (revista do DEI), nº 86 (1999), pp. 1-6.

[12] “Carta-desabafo” de 16 de set. de 1999: Traduzida para o italiano in ADISTA (Roma), nº 88, 6/12/99.

[13] J. COMBLIN, “Algumas questões a partir da prática das CEBs no Nordeste”, in REB, v. 50 (1990), pp. 335-381 (espec. “A associação dos animadores”: pp. 367-8).

[14] Cf. Maria López VIGIL, “Los cristianos y Ias iglesias ante el colapso del comunismo y Ia derrota del Sandinismo: perspectiva católica”, in Amanecer (Manágua), nº 69 (1990), pp. 32-35 (espec. p. 33): “AI interior de nuestra Iglesia y durante estos mios, el no tener un obispo, el no tener una cabeza orgánica, contribuyó a debilitar el proyecto de este modelo de Iglesia. Vivimos una dispersión y nos desunimos. Fue también una estrategia de Ia jerarquia el quitarle a Ia Iglesia de Ios pobres estructuras orgánicas como son Ias parroquias. Todo eso también nos debilitó. Y donde Ia revolución nacional y Ia gran expectativa internacional sobre esta revolución nos reforzaban, nos debilitó Ia falta de todo lo que es tradición de organicidad y jerarquía dentro de Ia fe católica”.

[15] Cf. o trabalho de Pedro A. Ribeiro de OLIVEIRA, Reforçando a rede de uma Igreja missionária: uma avaliação pastoral da Prelazia de São Félix do Araguaia, Paulinas, São Paulo, 1997.

[16] É a posição ousada, mas, a meu ver, pouco convincente, de Pedro Ribeiro de OLIVEIRA, in ISER/ Assessoria, “As Comunidades de Base em questão”, op. cit., pp. 105-120.

[17] J. Comblin já havia, poucos anos atrás, sugerido a criação de uma espécie de “associação” autônoma dos animadores de CEBs. Em “carta desabafo” de 16/9/99, levando o título “As CEBs já eram”, o grupo Marins-Teolide-Philippe reivindica para elas, como garantia de sua caminhada futura, um estatuto jurídico definido. Em reação à problemática levantada na carta acima, Fr. Betto propõe que se crie uma espécie de “Escola de Pastoral das CEBs” para formar lideranças e agentes, de modo a transformar as CEBs em “escolas de militância”, “escolas de oração”, de evangelização etc. Numa linha parecida, Ivo Lesbaupin defende, há anos, a ideia de as CEBs serem espaço onde se forme e cresça uma nova liderança cristã, como, por exemplo, se deu no passado com a JEC e a JUC.

[18] Nessa linha se poderia até pensar nisto: à medida que a Igreja toda se “democratizar” (opus saeculare!) e se tornar “libertária”, as CEBs irão se tornando cada vez menos necessárias na Igreja, permanecendo aí apenas com uma presença “residual”, à semelhança da “Teologia da Libertação”, que continua legitimamente a existir até que toda a teologia se tornar realmente “libertadora”. Mas essa tendência é, na realidade, assintótica, como se vê pela experiência histórica das Ordens religiosas.

[19] Tenho insistido outras vezes nesse encontro, como in ISER/Assessoria, “As comunidades de base em questão”, op. cit., pp. 298-299; em particular num texto recente: “Carismáticos e Libertadores na Igreja”, in REB, fasc. 237, vol. 60 (2000), pp. 36-53.

Fr. Clodovis Boff