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Publicado em Janeiro-Fevereiro de 1986 (pp. 27-33)

Reino de Deus: Reino de partilha

Por Pe. Hermilo E. Pretto

O Reino de Deus é o centro de convergência de toda a pessoa e de toda a pratica de Jesus. Trata-se de um projeto que interpela o homem a uma radicalidade de vida e que o leva também a vivenciar uma atitude de partilha sem privilégios e sem preconceitos. A partilha dos bens econômicos é o termômetro de todas as outras formas de partilha.

 

1. Duas tendências agitam o homem: a acumulação e a partilha

a) O homem e seu mundo

Entre o homem e os bens de criação existe uma relação essencial. Não se trata de mera instrumentalidade em vista da realização de algum objetivo. É bem verdade que, no anseio profundo por desvendar o mistério da realidade, a preocupação maior do homem é o desvelamento de seu próprio mistério. De certa forma, pode-se dizer que o conhecimento da realidade constitui uma mediação em vista do autoconhecimento. Não é sem importância que os sábios da Antiga Grécia estabelecessem como prioridade para o homem o conhecimento de si mesmo. Este, efetiva­mente, é o maior de todos os desafios, aquele que, por mais bem sucedidas que sejam as tentativas, permanece sempre algo insolúvel. O homem, com efeito, é para si mesmo o maior dos mistérios.

Se através de suas investidas o homem conseguisse desvelar seu próprio mistério, estaria destruída sua condição pessoal. A consequência inevitável seria uma despersonalização que o reduziria à condição de objeto disponível. O mesmo pode-se dizer do conhecimento que todo homem tem a respeito dos outros homens. É por isso que a manutenção do mistério torna-se essencial para a própria sobrevivência da liberdade. A convivência humana, evidentemente, pressupõe não apenas que a pessoa tenha de si um profundo conhecimento, mas ainda que tenha condições de operar um mergulho na alteridade pessoal. Sem isso, seria impossível o estabelecimento de relações construtivas. Mas é preciso observar que as relações humanas são sempre ambíguas justamente porque nem o autoconhecimento nem o conhecimento interpessoal têm condições de chegar às últimas consequências. Há um momento em que o homem para nos umbrais do mistério da pessoa humana.

De todo modo, mesmo constituindo-se em mediação para o autoconhecimento, a relação do homem com as coisas forçosamente ultrapassa os limites da funcionalidade. E isso por um dado elementar de antropologia: os bens da criação integram a realidade do homem. Eles são parte importante de seu mundo. Em termos de antropologia teológica, reveste particular importância, nos relatos do Gênesis, a harmonia existente no conjunto da criação, através de um relacionamento cordial do homem com o mundo todo que o cerca. Por outro lado, e dentro da mesma perspectiva, é interessante observar como a experiência do pecado opera uma desordem generalizada. A terra torna-se hostil e o homem precisará ganhar o pão com o suor de seu rosto. Pode-se notar como a antropologia bíblica seja muito rica e abrangente. Seguindo essa mesma linha de pensamento, Paulo poderá dizer mais tarde, escrevendo aos romanos, que “a criação em expectativa anseia pela revelação dos filhos de Deus” (Rm 8,19). Toda agressão ecológica, à medida que destrói o mundo do homem, é um atentado à dignidade humana.

 

b) A dinâmica da acumulação e da partilha

O “dominai a terra” do livro do Gênesis não é um convite à agressividade. Explicita-se aí, fundamentalmente, uma hierarquia de valores. A realidade criada não humana, mesmo integrando o mundo do homem, não se lhe pode equiparar. Como não seja imaginável uma existência humana na História sem um estar situado, essa realidade integra seu mundo, pois é através dela que o homem estabelece laços de comunhão com seus semelhantes, lançando pontes entre as margens do rio. Uma relação cordial com as coisas é uma expressão da existência de laços de comunhão entre os homens. A agressividade ecológica, por conseguinte, é sempre um indício da ausência de comunhão nas relações pessoais. Se o homem destrói as coisas é porque a relação essencial com os irmãos está rompida. Em nível de antropologia, esta é a razão pela qual o rico se revela inca­paz de construir pontes de fraternidade. Exata­mente por isso, Jesus julga que seja muito difícil a um rico entrar no Reino dos Céus (cf. Lc 18,24-27). Não temos aqui uma ingênua retórica contra a riqueza. Só os sectários seriam capazes de semelhante postura. A percepção de Jesus é muito mais profunda. O rico, à medida que explicita agressividade em relação aos bens, revela-se bloqueado na construção da fraternidade. Seu relacionamento com os bens está viciado na raiz porque exprime uma ruptura na hierarquia dos valores.

Uma reflexão mais atenta sobre a realidade humana nos revela que no homem coexistem duas tendências opostas, em permanente conflito. Dessa tensão dialética depende a conflitividade essencial da História. De um lado, emerge uma tendência que desemboca na acumulação de bens, começando pela terra com tudo o que ela produz. Passa-se progressivamente para a posse de bens mais sofisticados até atingir a apropriação dos meios de produção de bens. Este representa o último passo na tendência acumulativa, uma vez que não resta às demais pessoas outra alternativa senão a venda de sua força de trabalho. A esse respeito, João Paulo II, em sua encíclica Laborem Exerceras, enfatiza o princípio da prioridade do trabalho em confronto com o capital. O trabalho, diz o Papa, é sempre uma causa eficiente primária, enquanto o capital, sendo o conjunto dos meios de produção, permanece um instrumento, ou uma causa instrumental (n. 12). Em conclusão, o Papa faz uma afirmação surpreendente: tal conjunto de meios é o fruto do patrimônio histórico do trabalho humano. Todos os meios de produção, por conseguinte, desde os mais primitivos até os mais modernos, foi o homem quem os elaborou (n. 12).

A experiência do cotidiano atesta que a tendência à acumulação representa o caminho da facilidade e se revela mais espontânea. Aí está uma das indicações mais interessantes daquilo que se convencionou chamar de pecado original: uma desordem estrutural que torna o pecado extraordinariamente saboroso e que faz da Graça, apesar de seus atributos de plenitude e beleza, algo difícil e pouco gratificante. De outro lado, em oposição à tendência acumulativa, há uma tendência que também se enraíza na profundidade do homem e que se exprime na partilha dos bens. Aqui igualmente, como no caso da tendência à acumulação, há um compromisso prévio com a tarefa de fazer comunhão. Quem faz da fraternidade e da comunhão a grande paixão de sua vida, aquela que dá razão a todo o seu existir, vivencia, em referência às coisas, uma relação de cordialidade e de partilha. A antropologia nos mostra hoje como seja profunda a percepção de Jesus quando define o caminho do reino como uma porta estreita (Lc 13,24). Daí porque sejam poucos os que se sintam impulsionados a nela entrar. Pôr em comum, numa generosidade sem preconceitos e sem interesses, aquilo que é fruto de nosso trabalho: eis aí o grande desafio que é lançado ao homem. Mas é justamente por se tratar de um valor difícil e que, excetuando grupos restritos, não é assumido pela maioria dos homens, que ele se apresenta um pouco como um nadar contra a corrente.

O ideal seria que todos os homens chegassem à partilha a partir de uma profunda conversão. Mas, se quisermos ser realistas, teremos que chegar à conclusão de que é impossível isso em termos de macrossociedade. O homem que efetiva­mente partilha sempre será minoritário. Em razão disso, uma conclusão se impõe: em referência à massa humana, que envolve todas as estratificações sociais, a partilha não é pensável sem que se acione um conjunto de medidas coercitivas. Em outras palavras, faz-se necessária uma legislação que imponha limites à acumulação e crie condições históricas para uma efetiva parti­lha de bens. O convite à partilha é dirigido a todos, mas nem a todos é concedido compreendê-lo e vivenciá-lo em sua radicalidade. Os grupos minoritários que, por graça de Deus e numa dimensão de serviço, levam o Reino até as últimas consequências, não se podem valer dessa experiência de profundidade para criar privilégios. Sua função é a de ser testemunhas vivas que atuam como fermento na massa: algo que leveda, mas que nem sequer se vê. Cabe aqui uma observa­ção marginal seria ainda cristã uma comunidade eclesial que ocupasse manchetes, estivesse na crista da onda e alardeasse aos quatro ventos o bem que faz? “Por isso, quando deres uma esmola, não te ponhas a trombetear em público, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, com o propósito de serem elogiados pelos homens” (Mt 6,2a).

 

2. Reino de Deus: a plenitude do humano

Nossa abordagem sobre a dinâmica do Reino se insere no pano de fundo da antropologia. Temos aí um aspecto que a Teologia, com muita frequência, tem esquecido. Dizer que a experiência da Graça diviniza o homem não passa de retórica teológica. A plenitude do humano é o dom maior que Deus nos possa fazer. O Reino de Deus é um projeto que é oferecido ao homem justa­mente para que ele possa atingir a plenitude da vida. O homem encontra Deus quando ele faz suas experiências humanas mais profundas e significativas. É a partir dessa profundidade original que ocorre a revelação de Deus como uma de suas significações. Para o homem que crê, ela é, de todas, a mais importante. Em síntese, poderíamos dizer que o anúncio do Reino de Deus é o anúncio de uma possibilidade que é gratuita­mente oferecida ao homem para que ele realize, em si mesmo e na globalidade da História, a plenitude da vida.

O Reino de Deus, por conseguinte, é um projeto global que envolve tudo o que no homem é profundo e significativo. Mas exatamente por isso ele se traduz em explicitações e exigências particulares. Cada uma delas só ganha sentido na globalidade do projeto. O que segue configura uma tentativa de visualizar algumas dessas exigências.

 

a) Os valores

Não constitui exagero (assim pelo menos nos parece) afirmar que o anúncio de Jesus tematiza os valores mais importantes que se enraízam na profundidade do humano. Nem sempre tais valores são cômodos. Poucos homens os consideram autenticamente como valores. Talvez seja essa a razão pela qual a pregação de Jesus tenha encontrado tão pouca ressonância entre os homens de seu tempo. Alguém poderia objetar que Jesus sensibilizou e arrastou multidões. É um dado que os Evangelhos atestam com muita ênfase. Mas não se pode esquecer que os Evangelhos foram escritos a partir da experiência pascal. Por outro lado, restaria por explicar o quase total silêncio da literatura judaica e romana a respeito de Jesus e do processo que ele desencadeou. Se compreendermos, porém, que Jesus atuou no universo dos valores humanos mais autênticos, poucas vezes reconhecidos como tais, poderemos concluir que sua proposta só encontrou ressonância entre os homens que já se situavam no horizonte daquele universo valorativo. Esses foram os pequenos, os pobres, os marginalizados: todos quantos a literatura oficial considera por demais insignificantes para serem considerados protagonistas da História.

Conversão, fraternidade, justiça, partilha, comunhão, simplicidade, gratuidade, doação: são valores fundamentais, mas de escasso valor comercial. Ao propô-los como exigências irrenunciáveis para quem quisesse encontrar o Deus da vida, Jesus provocou uma profunda crise nas instituições de Israel. A acusação que lhe foi feita de estar subvertendo a ordem corresponde inteiramente à verdade. As piedosas considerações que pretendem inocentá-lo, dizendo que ele foi acusado injustamente, carecem de realismo histórico. Jesus atingiu o âmago do universo valorativo dos homens de seu tempo. Ele é inocente para a Justiça de Deus, na medida em que foi fiel àquilo que há de mais autenticamente humano, não, porém, para a justiça dos escribas e fariseus. Aqui sua condenação obedece a uma estrita legalidade. As verdadeiras revoluções são sempre aquelas que se operam a partir de dentro, na profundidade, atingindo os valores mais significativos da vida. As mudanças fatuais permanecem inócuas se não as acompanham revoluções significativas. O verdadeiro culto a Deus só é possível quando se elimina a idolatria, e não quando, se substituem os ídolos.

 

b) O valor da partilha

Não temos condições, no espaço que nos é reservado, de abordar de forma detalhada os valores fundamentais do Reino que foram elencados mais acima. Estaríamos, inclusive, fugindo aos propósitos que orientam estas reflexões. Poderíamos, inicialmente, nos perguntar qual a posição que ocupa o valor da partilha no projeto do Reino de Deus. Confiamos em não estarmos pecando por exagero ao afirmar que a partilha dos bens ocupa uma posição de primeiro plano no anúncio de Jesus. Há em seu ministério um clima geral de fraternidade e comunhão que faz de sua vida um serviço até o sacrifício da própria vida. Há, ainda, a revelação da face do Pai que a todos ama de forma incondicional, sem acepção de pessoas. É ele que faz nascer o sol sobre os bons e sobre os maus e faz chover sobre os justos e os injustos (cf. Mt 5,45). Emerge aí uma das características mais originais e fascinantes do Evangelho: o testemunho da Graça enquanto ausência de preconceito. O episódio de Zaqueu, nessa perspectiva, assume uma significação especial. A Graça incondicional, que não põe condições prévias, nem mesmo em termos de restituição dos bens roubados (acumulação fraudulenta), tem, como desfecho, um gesto de partilha superior à expectativa. Zaqueu vivencia a dialética acumulação-partilha teologicamente, em termos de pecado-graça. Mas o dado primeiro não é seu compromisso de partilha, e sim a visita descompromissada e gratuita de Jesus. Teologicamente, a Graça sempre precede a responsabilidade do homem.

Poderíamos ainda citar a atitude geral de Jesus em relação à riqueza enquanto fator de bloqueio para se assumir as exigências do Reino em sua radicalidade. Ao proclamar na sinagoga de Nazaré que sua missão era de evangelizar os pobres e restituir a liberdade aos oprimidos, e ao declarar os pobres bem-aventurados porque deles é o Reino de Deus, Jesus explicita igualmente sua atitude em relação à riqueza: “Ai de vós, ricos, porque já tendes a vossa consolação” (Lc 6,24). Em termos de clima geral merece destaque o relato das tentações no deserto. Embora se trate, ao que parece, de um episódio teológico, elaborado com a preocupação de testemunhar que ao longo de seu ministério, e principalmente no Mistério Pascal, Jesus venceu também a tentação do poder e da riqueza, ele, de todo modo, atesta a compreensão que a Igreja primitiva teve a respeito da tensão entre a acumulação da riqueza e os valores do Reino na atuação de Jesus.

Particularizando um pouco mais a postura de Jesus frente à acumulação e à partilha, duas referências nos parecem suficientemente eloquentes: o episódio do homem rico (Mc 10,17-22; Mt 19,16-22) e a parábola do rico insensato (Lc 12,16-21). O homem rico, frente ao anúncio de Jesus, sente-se interpelado a uma radicalidade de vida. Nem mesmo a observância dos mandamentos lhe parecia suficiente para satisfazer sua sede de mais vida. A esse respeito, Marcos acrescenta um pequeno detalhe, ausente no relato de Mateus, e que revela a autenticidade da inquietação e da busca desse homem: “Fitando-o, Jesus o amou..” (v. 21). A reação de tristeza e a saída pesarosa re­velam um dado fundamental de antropologia: na organização da vida humana, a partilha dos bens econômicos é a medida de todas as outras formas de partilha. Em outras palavras, na raiz da deformação das relações sociais há sempre uma deformação das relações econômicas. Compreende-se, dentro dessa perspectiva, a reação desolada de Jesus: “Como é difícil a quem tem riquezas entrar no Reino de Deus” (v. 23).

A parábola do rico insensato traz igualmente indicações preciosas. Interpelado a resolver uma questão de partilha de herança (Lc 12,13-15) Jesus aponta para o sentido da vida: “Precavei-vos cuidadosamente de qualquer cupidez, pois, mesmo na abundância, a vida do homem não é assegurada por seus bens” (v. 15). A parábola vem a seguir e se constitui em resposta à interpelação quanto às consequências para quem faz da acumulação a preocupação fundamental da vida: “Mas Deus lhe diz: insensato, nessa mesma noite ser-te-á reclamada a alma. E as coisas que acumulaste, de quem serão?” (v. 20). O homem perde o essencial da vida justamente porque cede à tentação do caminho mais fácil, acumulando bens ao invés de reparti-los. Na sequência do capítulo, Lucas mostra Jesus, fiel à radicalidade do Reino, apontando para a busca fundamental: “Depois disse a seus discípulos: Por isso vos digo: não vos preocupeis com a vida, quanto ao que haveis de comer, nem com o corpo, quanto ao que haveis de vestir. Pois a vida é mais do que o alimento e o corpo mais do que a roupa” (Lc 12,22-23). Aqui, ainda uma vez, patenteia-se a preocupação de Jesus, que configura o essencial de sua missão, de levar o homem à plenitude do humano. Em oposição ao pecado das origens, a meta para a qual deve caminhar o homem não é a identidade com Deus, mas a explicitação das potencialidades humanas. Uma de suas expressões é justamente a partilha dos bens em vista da fraternidade.

 

c) O seguimento

Jesus não é um semeador de ideias e nem o criador de uma filosofia de vida. Na base de toda a sua ação há uma proposta de seguimento em vista de um serviço. No episódio da escolha dos primeiros discípulos, tal como nos é relatada no Evangelho de Marcos (1,16-20), é interessante observar que o convite a segui-lo precede a explicitação de seu programa. Isso mostra que o Evangelho não é uma ideologia e que os discípulos não integram um grupo que adere às ideias de Jesus. Na base de tudo há uma atitude de confiança e uma adesão incondicional à pessoa de Jesus. Embora possa parecer irrelevante, este dado reveste uma importância decisiva. A comunhão de vida, no relacionamento interpessoal, cria um espaço significativo que possibilita uma visualização da realidade a partir de dentro. À medida que essa relação pessoal se aprofunda, a pessoa de Jesus e seu projeto ganham nova luz. As pessoas que amamos são sempre importantes. Somente a experiência do amor possibilita a emergência de determinados valores.

Quem lê hoje os Evangelhos em atitude ingênua fica maravilhado com a espetacularidade da pessoa e da atuação de Jesus: o próprio Filho de Deus andando pelas cidades, campos e aldeias, operando prodígios sem conta. Bons tempos aqueles em que Deus podia ser encontrado de re­pente numa esquina de Jerusalém ou nas estradas poeirentas da Palestina! Mas como explicar a indiferença dos romanos e a hostilidade de escribas e fariseus? Parece-nos que somente o seguimento tem condições de nos fornecer a chave de leitura. Para saber quem é Jesus e captar a originalidade de sua mensagem, é preciso segui-lo. Os relatos dos episódios miraculosos sempre estão associados a uma experiência de fé. Invertendo a sentença tradicional, poderíamos dizer: é preciso crer para ver. A espetacularidade de que nos dão testemunho os Evangelhos é a explicitação de uma luz que somente um olhar a partir de dentro é capaz de captar. Expectadores indiferentes, como foi o caso dos romanos, veriam nele um homem mais ou menos comum, quem sabe com algum destaque em termos de liderança e personalidade. A incredulidade de escribas e fariseus está ligada a uma atitude de fechamento própria de quem se recusa a uma proposta de seguimento.

O Reino de Deus está presente, mas os fariseus não conseguem vê-lo porque não seguem a Jesus: “Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, respondeu-lhes: A vinda do Reino de Deus não é observável. Não se poderá dizer: Ei-lo aqui! Ei-lo ali! pois eis que o Reino de Deus está no meio de vós” (Lc 17,20-21). É importante o comentário da TOB sobre este texto: “Para Jesus, os sinais da vinda do Reino de Deus não resultam da observação sensível, mas da fé. É suficiente acolher sua pessoa para encontrar esse Reino”. A capacidade de encontrar Deus nos acontecimentos da História está ligada essencialmente a uma experiência de fé. A História de Jesus está grávida de Deus. A fé é a parteira que faz esse Deus nascer.

O convite ao seguimento é um projeto exigente. Antes de mais nada, há uma necessidade imperiosa de substituir as relações de poder por relações de serviço: “Os reis das nações as dominam, e os que as tiranizam são, chamados Benfeitores. Quanto a vós, não deverá ser assim; pelo contrário, o maior dentre vós torne-se como o mais jovem, e o que governa como aquele que serve” (Lc 22,25-26). Há também uma necessidade de pobreza e despojamento: “Recomendou-lhes que nada levassem pelo caminho, a não ser um cajado apenas; nem pão, nem alforje, nem dinheiro no cinto. Mas que andassem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas” (Mc 6,8-9). Jesus aponta um caminho cuja lei é a cruz e pode exigir até o sacrifício da própria vida: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois, aquele que quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, o que perder a sua vida por causa de mim e do Evagelho, vai salvá-la” (Mc 8,34-35).

 

3. Partilha histórica e comunhão escatológica

O projeto do Reino de Deus tem uma abrangência que envolve a totalidade da existência humana. Para compreender seu alcance, é preciso levar em consideração a concepção bíblica da História: um processo aberto, irreversível e orientado para uma consumação final. Aqui há duas dimensões a serem levadas em consideração: a antropologia e a teologia. Elas não são alternativas e nem complementares: são as duas faces da mesma moeda. Em nível de antropologia, a História está marcada pela continuidade e seu autor é o homem. Em nível de teologia, a História está marcada pela novidade e seu autor é Deus. Na bipolaridade antropoIogia/teologia, é possível dizer, ao mesmo tempo e com autenticidade, que o homem é o autor da História e que Deus é o autor da História. No universo dos fatos históricos, o homem é realmente o protagonista. Cabe a ele a responsabilidade de desencadear forças sociais no sentido de viabilizar historicamente o Reino de Deus. A História, por conseguinte, se faz com compromisso, participação e responsabilidade. No universo das significações Deus é o verdadeiro protagonista. No próprio coração dos fatos históricos enraíza-se uma transcendência significativa: por ela o homem é levado a viver uma plenitude de vida que em muito supera seu nível de produção.

Compreendendo de forma unitária essas duas dimensões, chegaremos à seguinte conclusão: no compromisso libertador do homem se faz presente a Graça salvadora de Deus. Mas se nem os fatos estão destituídos de significação, e se nem as significações têm existência própria separadamente dos fatos, a conclusão é a de que a experiência da salvação está ligada ao compromisso com a libertação. Aplicando estas conclusões ao tema que nos ocupa nesta reflexão, poderíamos dizer que o projeto do Reino de Deus convida o homem a um compromisso de partilha nas relações históricas. Nesta partilha realiza-se a Graça da Comunhão.

A experiência do compromisso histórico, no entanto, situa o homem de forma realista frente à ambiguidade de todas as concreções doprojeto do Reino de Deus. A cada experiência gratificante segue-se uma insatisfação que brota de um desejo de mais vida. É a transcendência significativa de que falávamos mais acima. É a Graça de Deus interpelando o homem a caminhar numa atitude de abertura incondicional ao novo da História. As várias formas de partilha, por mais gratificantes que possam ser, permanecem defasadas por referência à utopia. Continuará esse processo indefinidamente? Estará o homem condenado a ser incessantemente traído em sua aspiração de uma partilha plena?

Uma resposta a esta questão não poderá ser deduzida da própria História. Aqui entra em ação um dado de fé como a priori não demonstrável. Há os que, numa perspectiva de fé antropológica, acreditam que a responsabilidade histórica do homem levará um dia ao surgimento, na História, de uma sociedade sem classes que assegure uma efetiva partilha. É o caso dos marxistas. Mas há também os que, numa perspectiva de fé teológica, acreditam que, a partir da responsabilidade histórica do homem, Deus gratuitamente assegure uma plenitude de comunhão para além da História. É o caso dos cristãos. É nesta última perspectiva que se insere o projeto do Reino anunciado por Jesus. Nele a responsabilidade da partilha e a Graça da Comunhão são as duas margens de um mesmo rio.

Pe. Hermilo E. Pretto