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Publicado em julho-agosto de 2014

Religiosidade e homossexualidade: como conciliar?

Por Edith Modesto

A autora partilha a experiência de trabalho e pesquisa com adolescentes e jovens homossexuais e seus pais. Testemunha que os preconceitos, a autorrejeição e a rejeição religiosa podem se tornar causas de grande sofrimento para os jovens homossexuais e seus pais, assim como qualquer movimento de acolhimento e orientação equilibrada por parte das religiões pode ser muito benéfico em sua integração.

 

 

Considerando a repercussão da Jornada Mundial da Juventude 2013, nada mais oportuno do que conversarmos sobre a juventude de hoje quanto às suas identidades afetivas e sexuais relacionadas à religiosidade.

 

1. Os jovens e suas orientações sexuais

Em nossa ONG (organização não governamental), GPH – Grupo de Pais de Homossexuais –, iniciamos um projeto dedicado aos jovens homossexuais, também religiosos, muitos dos quais católicos, baseado no protagonismo juvenil monitorado. A finalidade principal do projeto é reaproximar os filhos de seus pais e ajudá-los a se tornar bons cidadãos brasileiros.

O conceito de homossexualidade que adotamos insere-se no contexto da diversidade sexual humana, realidade que temos observado durante mais de sete anos em nosso projeto para jovens. Os jovens confusos, com depressão ou autoestima muito baixa, falam em suicídio, pois neles também foi internalizada a noção de que deveriam sentir-se atraídos pelo gênero contrário ao deles, e isso não acontece.

Como exemplo, trechos de e-mails que recebo deles:

 “Eu percebi a minha homossexualidade, mas não me aceitava de jeito nenhum e procurava agir como os outros homens”(Roberto, 15 anos).

 “Eu percebi desde menina e fiquei com muito medo. Como dizer pra minha mãe que eu sou assim? Já pedi tanto a Deus pra mudar… Pedi até pra morrer”[1](Maria, 16 anos).

 

2. A homossexualidade seria uma opção?

Embora se façam, no mundo inteiro, tantas pesquisas a seu respeito, a sexualidade humana continua sendo um mistério. Até hoje, os pesquisadores não têm dados seguros que comprovem o motivo pelo qual a maioria das pessoas é heterossexual (sente-se atraída por pessoas do gênero contrário ao dela), mas há pessoas que são homossexuais (sentem-se atraídas afetiva e sexualmente por pessoas do mesmo gênero). Já foi confirmado, contudo, por instituições internacionais e nacionais, que a homossexualidade não é uma doença.

Em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria (APA) retirou a homossexualidade de seu Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais (DSM). No Brasil, em 1985, o Conselho Federal de Medicina passou a não considerar a homossexualidade uma doença mental ou física. Em 1999, foi publicada uma resolução do Conselho Federal de Psicologia que normatizou a conduta dos psicólogos quanto à questão: […] “Os psicólogos não colaborarão com eventos ou serviços que proponham tratamento e cura para as homossexualidades”.

As pessoas imaginam que a homossexualidade é uma questão de escolha. Para saber mais sobre essa questão importante para o nosso trabalho, dediquei-me à pesquisa sobre o assunto durante mais de 20 anos. Logo, concluí que seria impossível ser uma questão de opção. Quem iria querer viver como minoria em um país ainda tão preconceituoso como o nosso? E os jovens filhos de famílias religiosas, por que optariam por algo condenado por sua fé?

Essa hipótese foi confirmada enfaticamente por centenas e centenas de jovens, de todas as idades, com quem conversei durante estes anos:

“Mestra, eu passei quinze anos da minha vida ajoelhado na igreja, ouvindo os sermões, participando da programação que só me fez atingir um grau elevado de hipocrisia e tristeza. Muita depressão… Só não tive coragem de morrer… Um sentimento de fracasso e derrota me frustra diariamente, por não poder me abrir com meus colegas, meus familiares… Eu me sinto só, apesar de ter ouvido que Jesus é o melhor de todos os meus amigos e que poderia me ajudar… Não vivo, me acho diferente dos outros e sou, mas se fosse apenas isso… É que me sinto incapaz de ser feliz. Não saí da igreja, mas mesmo quando estava protegido pelas paredes do templo, sentia um vazio e uma vergonha indescritíveis, porque pensava nunca poder ser amado por Deus, apesar de ter ouvido que ele era um Deus de amor, o próprio Amor! […]” (José, 28 anos).

Ao mesmo tempo, os pais ficam surpresos e desolados quando descobrem que têm uma filha ou um filho homossexual. E forma-se um infeliz paradoxo: nossos filhos têm o direito e necessitam muito do nosso amor, do nosso apoio, principalmente quando são diferentes da maioria, para enfrentar tão dura prova; por outro lado, os pais cresceram e foram educados para ter filhos heterossexuais, veem seus sonhos desmoronar, sentem-se culpados, envergonhados, ficam tristes, desesperados.

Os jovens passam por dificuldades de autoaceitação, sentem-se rejeitados pelos pais, o que lhes traz problemas psicoemocionais muito sérios:

“Edith, como minha mãe, a pessoa que eu mais amo no mundo, me abandonou, logo agora que eu precisava tanto dela? Eu estou sofrendo muito… Tenho medo de tudo, até de sair de casa… Não consigo estudar… Durmo o dia todo… (Mário, 14 anos).

“Eu quase perdi meu filho. Fiquei afastada dele por mais de nove anos, até que a Edith me disse que conversasse diretamente com Deus, que ele gosta muito das mães. E também me disse que nunca abandonasse minha fé. Hoje, meu filho e eu somos os melhores amigos…” (mãe participante do GPH).

3. A homossexualidade e a religião

A nossa ONG é ecumênica; aceitamos pessoas de todas as religiões e temos por conduta aconselhar que nunca abandonem sua fé, apesar das dificuldades. Temos no grupo pais católicos praticantes, até mesmo fundamentalistas.

Para a moral católica e para as demais religiões, a homossexualidade é um tema muito difícil. Mas entendemos que o mais importante ensinamento de Jesus Cristo é amar o próximo. Ele nunca nos disse que, para ser amado, o próximo tinha de ser perfeito. Ao contrário, ele dedicou muita atenção também a prostitutas e lhes perdoou seus pecados. Jesus não escolheu para amar somente aqueles que estavam de acordo com as normas da sociedade daquele tempo, aqueles que estavam vivendo de acordo com as leis consideradas divinas.

Tendo em conta a grande dificuldade de pais e filhos católicos, o GPH promoveu o encontro do padre José Antonio Trasferetti (professor de Teologia Moral na Pontifícia Universidade Católica de Campinas) com os pais do nosso grupo. Ele nos explicou que a Igreja Católica é muito compreensiva para com os homossexuais. Os documentos, como o Catecismo da Igreja Católica, em seu artigo 2.358, por exemplo, pede “respeito, compaixão e delicadeza” para com os homossexuais, portanto, combate o preconceito e a violência contra eles, como não poderia deixar de ser. A Igreja diz que o jovem homossexual pode e deve ser aceito e acolhido em casa, ser aceito e acolhido na Igreja. Mas padre Trasferetti nos alertou para o fato de que, se o jovem homossexual quiser permanecer na Igreja, tem de abdicar do ato sexual. É a prática da homossexualidade que é condenada pela Igreja, não o homossexual. Mas nos perguntamos: um jovem conseguirá abdicar de sua sexualidade? E se fosse somente sexualidade… Um jovem pode abdicar de sentir afeto?

Somos testemunhas de que a religião pode se tornar causa de grande sofrimento para os jovens homossexuais, do ponto de vista do desenvolvimento de sua personalidade e caráter e do ponto de vista de seu equilíbrio psicoemocional. Assim, vemos com alegria qualquer movimento de acolhimento, ajuda e integração dos jovens homossexuais e de seus familiares nas comunidades religiosas.

Fazemos também um trabalho de capacitação de professores nas escolas para lidarem com jovens que sentem a sexualidade como um problema. O objetivo desse trabalho é ajudar o educador a lidar com o preconceito e a exclusão que se dão nas escolas (bullying), motivo de grande sofrimento para os jovens e para o aumento da evasão escolar. Foi grande emoção para nós observar que os primeiros colégios particulares a se candidatar eram instituições católicas (Irmãs Calvarianas). Como sempre, as pessoas religiosas saem na frente, dando o exemplo de fraternidade e solidariedade cristã.

[1] MODESTO, Edith. Mãe sempre sabe? Mitos e verdades sobre pais e seus filhos homossexuais. Rio de Janeiro: Record, 2008.

Edith Modesto

Mestra e doutora em Semiótica francesa pela USP, terapeuta, especialista em diversidade sexual e questões de gênero; é escritora, professora universitária e pesquisadora. Fundou e coordena a ONG GPH (Grupo de Pais Homossexuais). Sua tese de doutorado, Homossexualidade: preconceito e intolerância, recebeu o prêmio Tese Destaque USP em 2011. Publicou, entre outros, o livro Mãe sempre sabe? Mitos e verdades sobre pais e seus filhos homossexuais (Record). Site: ; e-mail: edithmodesto@uol.com.br.