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Publicado em Janeiro-Fevereiro de 1994 (pp. 21-28)

Vida de família

Por Profa. Margarida Luiza Ribeiro Brandão

O tema proposto para este artigo desenvolve-se na tessitura de reflexões sobre a família, feitas a partir de algumas perspectivas do “enfoque da mulher”. Trata-se de abordagem de cunho ético-teológico, nascida de vivências pessoais, profissionais e pastorais de uma leiga de classe média, casada e mãe de família, que vive e trabalha numa grande cidade brasileira.

É um enfoque que não está alheio à crise por que passa a família nos dias de hoje, da qual as mulheres participam mais ou menos conscientemente de seu papel como protagonistas, muitas vezes misturado com o de expectadoras perplexas.

A realidade da vida familiar no Brasil é complexa e variada. Lugar, classe social, raça e idade condicionam profundamente as formas concretas da convivência de milhões de famílias que estão escrevendo a sua história. O empenho em trazer à baila esse enfoque, no momento em que as atenções da Campanha da Fraternidade se voltam para a família, demonstra a tomada de consciência de que este é um tema no qual a perspectiva do gênero não pode ser deixada de lado.

A expressão gênero, ou relações de gênero, evidencia a presença de normas e prescrições que cada cultura estabelece para o que é “feminino” e “masculino”, não como aceitação pura e simples de padrões estabelecidos, mas como possibilidade de questionamento e reconstrução do que seja um e outro. É uma denominação que não se centraliza em um dos polos, mas evidencia o caráter histórico-cultural da construção de hierarquias rígidas entre mulheres e homens.

As reflexões que se seguem giram em torno dos seguintes pontos: 1) Vida e família, para entender o título Vida de família; 2) Principais mudanças que contextualizam a crise familiar; 3) Vivências comuns das mulheres; 4) Troca de conhecimentos a partir des­sas vivências; 5) Espiritualidade viva e partilhada, que ilumina a experiência de cada dia; 6) Ética no cotidia­no, em que aparecem algumas pistas de conteúdo ético a um só tempo conclusivas e abertas e novos aprofundamentos.

 

1. Vida e família

A vida familiar é um espaço onde mulheres e homens vivem uma relação profunda, que tanto pode propiciar um entrosamento criativo e dinâmico, como pode ser o lugar onde impera um esquema de dominação entre um e outro. Dominação que fabrica uma série de nós, difíceis de desatar, gerando mal-estar, traumas, frustrações, conflitos e, até mesmo, doença mental.

Por trás da palavra vida está a realidade cotidiano de muitas mulheres que se ouvem umas às outras, partilhando sentimentos e desabafos, lutas e esperan­ças. Vida é uma palavra muito presente na fala das mulheres. Demonstra o cuidado pela criação e manu­tenção da vida, ou a luta por melhor qualidade de vida para as pessoas que lhes são caras, para suas comunidadee para si mesmas.

Por trás da palavra família está a certeza de que a experiência de vida familiar está vinculada à cultura e à sociedade, à maneira como hoje mulheres e homens se relacionam afetivamente, criam filhos e constroem juntos um futuro comum. Indica uma reali­dade múltipla e extremamente densa, que apresenta distintas situações e posicionamentos sobre a família.

Quando falamos da realidade das famílias brasileiras, falamos mais da vivência das mulheres, cuja identidade está intimamente ligada à vida de família. Uma reflexão de cunho ético-teológico sobre a família pressupõe necessariamente a articulação en­tre o conhecimento de vivências concretas e o saber teórico. Um e outro são iluminados por uma espiritualidade vivida e partilhada, que, nos encontros e reuniões entre mulheres, inspira os momentos celebrativos mais efusivos.

As mudanças socioculturais da atualidade, os valores e virtudes em mutação, repercutem profunda­mente sobre a vida de família e interpelam a ética teológica na sua dupla vertente de saber teológico e práxis cristã.

 

2. Principais mudanças

As principais mudanças são enfatizadas em muitos estudos sobre a família, com abordagens variadas e distintos enfoques, conforme a sensibilidade de cada momento histórico e a realidade vivida que lhes está por trás. De uma ou outra maneira, todos se referem à crise por que passa a família.

Uma crise profunda que nos convoca para um enfrentamento positivo, sem alarmismos inoperantes e sem ressentimentos, mas que muitas vezes escapa ao nosso controle. Falar de crise não significa prognosticar o fim da instituição familiar, e, em especial, da família constituída por cristãos. Ao contrário, demonstra a necessidade de fortalecer a vida de família, em função, das exigências do tempo presente.

Amar e ser amado(a), ter o seu “ninho” aco­lhedor, ser respeitado(a) na sua identidade pessoal e na sua alteridade, viver em família são aspirações pro­fundas das pessoas. Essas aspirações também estão presentes nas novas gerações, mesmo quando camufladas e aparentemente negadas[1].

O conhecimento, cada vez mais abrangente, dos fatores que desencadeiam e sustentam as crises familiares, indica alguns eixos em torno dos quais podem ser agrupados: mudanças na relação homem-mulher; transformação dos conteúdos e das formas de vida conjugal; aumento da participação das mulheres na população economicamente ativa — 20,7% (censo de 1970); 27,4% (censo de 1980); 35,18% (PNAD 1989) e superando de muito os 40% (estimativa para 1991); repercussão de conflitos, contradições e ambiguidades do tempo presente na delicada realidade das relações conjugais e familiares.

Evidentemente não é o caso aqui de detalhar cada um desses indicadores. Junto com a referência a certas “passagens” que a família vem fazendo, eles nos permitem contextualizar a perspectiva de gênero, que é nosso enfoque prioritário.

As passagens mais mencionadas nos diversos estudos são: da família extensa (pai, mãe, avós, tios, primos, sobrinhos) para a família nuclear (pai, mãe, filhos); da família fechada nela mesma à família aberta para a sociedade; da família numerosa à procriação responsável de um número menor de filhos; da esta­bilidade conjugal para o divórcio e novo casamento; de papéis predeterminados de marido e mulher para o companheirismo e reciprocidade; da família constituída por interesse à centrada na afetividade e na gratuidade[2].

Cabe destacar o aumento de famílias chefia­das por mulheres, que chegam a constituir cerca de 30% das famílias dos grandes centros urbanos. A chefia feminina está associada à condição de pobreza. Os rostos mais frequentes entre os pobres do mundo são os de mulheres sós com seus filhos menores.

Dentro desse contexto é possível captar certas vivências que aparecem nas narrativas de experiências concretas, e são indicadoras dos caminhos seguidos na articulação vida e saber, como veremos a seguir.

 

3. Vivências comuns

O que há de comum entre todas as mulheres é a sua condição de reprodutoras dentro da vida fami­liar. A “exacerbação” da maternidade significa, muitas vezes, sua exclusão das demais esferas da vida social. Essa exacerbação é fruto do tratamento ideológico dessa condição feminina para justificar a assimetria entre os sexos e a manutenção das mulheres longe do poder[3].

Por isso mesmo, nos seus grupos, comunida­des e movimentos, elas reformulam o sentido da mater­nidade, construindo um novo paradigma que nasce das vivências comuns. Nesse novo paradigma, distinguem a maternidade como experiência e a maternidade como instituição e ideologia social, cultural e religiosa[4].

As mulheres “maternam”, ou seja, não se limitam a sentir no próprio corpo as condições da existência humana, as escolhas, as alegrias e as dores que acompanham o nascimento dos filhos desde a concepção até o parto. Assumem também a responsa­bilidade inicial pelo cuidado com as crianças e continu­am presentes na vida dos filhos, de maneira contínua e duradoura.

Em nossa cultura, as mulheres sempre cuida­ram de crianças, na maioria das vezes como mães de família, mas também como profissionais de níveis distintos, em centros de assistência à infância, em creches, ou como domésticas pagas. “A maternação das mulheres é um dos poucos elementos universais e duráveis da divisão de trabalho por sexos[5].

O aumento da participação feminina na popu­lação economicamente ativa não muda isso. Ainda cabe às mulheres a responsabilidade quase total pelo cuidado dos filhos. Se no mundo atual vêm conquistan­do direitos de cidadania e têm conseguido, embora lentamente, realizar-se como profissionais competen­tes, há ainda muito que transformar na estrutura interna da vida familiar.

Aprendem que as mudanças sonhadas, que lhes assegurem um clima de igualdade, reciprocidade e respeito às suas diferenças, nas relações cotidianas, exigem obstinação e perseverança. Nos grupos de mulheres do meio rural e da periferia urbana, é mais frequente a aceitação passiva da dupla e mesmo tripla jornada de trabalho, como “sina de mulher”.

Assim como não desejam que seu trabalho fora de casa somente seja justificado como “ajuda” nas despesas da família, consideradas de responsabilidade masculina numa mentalidade patriarcal, esperam dos maridos a partilha no cuidado com os filhos e na realização das tarefas domésticas, como atividades solidárias do casal.

A “maternação” é uma responsabilidade que, mais do que nunca, elas desejam partilhar com os homens, não só em seu próprio benefício, mas em benefício dos filhos. A psicologia tem ensinado a muitas delas que, quanto maior a ausência da figura paterna (ou ausência de homens adultos), mais graves podem ser as dificuldades por parte dos filhos homens com relação à masculinidade e o medo das mulheres. Para sua maturidade afetiva, os filhos e filhas precisam também do toque carinhoso e da presença amorosa dos pais na vida cotidiana familiar[6].

A experiência da maternidade é muito cara às mulheres brasileiras. O empenho em repensá-la não significa negá-la, mas transformá-la numa escolha pessoal e comunitária, lutando para que tenha condi­ções adequadas de realização, para que não seja usada para confinar as mulheres na esfera doméstica, ou dificultar sua vida profissional. O surgimento de novo paradigma busca o fim da divisão entre o mundo dos homens e o mundo das mulheres.

A partir da vivência da maternidade, da soli­dariedade para com os filhos, elas se unem na busca de melhores condições de vida para si mesmas, para sua família, para seus grupos e comunidades. Seu compro­misso com a geração e a manutenção da vida constrói novas “relações de parentesco”, baseadas não mais nos laços de sangue das famílias extensas, mas em laços de amizade, companheirismo e autodefesa, especialmen­te nos momentos de crise.

Essas novas famílias extensas são mais fre­quentes nos meios populares, onde a luta pela sobrevi­vência se torna menos difícil quando se tentam solu­ções coletivas. Isso não significa que tal situação não possa acontecer entre as famílias de classe média. A vivência da fé cristã, o trabalho comum em pastorais da Igreja, em associações de moradores, em movimentos de casais, vem de encontro à “nostalgia da família extensa”, descobrindo novos avós, tios e primos, ir­mãos e irmãs.

É bom relembrar aqui a luta das mães e esposas de presos políticos pela anistia, a força da reivindicação por creches, o papel paradigmático das mães da Praça de Maio, a coragem das mães de Acari, os clubes de mães e tantas outras organizações nas quais aprendem juntas a passar da condição de mães à condição de cidadãs.

Essa vivência comum, a troca de experiências que ela motiva e a quebra do silêncio sobre situações dolorosas são terrenos férteis para a troca de conheci­mentos teóricos.

 

4. Troca de conhecimentos

Para essa troca, a contribuição teórico-prática do feminismo e do movimento organizado de mulheres é importante. Trata-se de um feminismo anos 90, em diálogo com os homens, com a sociedade, com as Igrejas e com as novas gerações. Há uma tendência multidisciplinar cada vez mais acentuada, interligando distintas perspectivas (filosófica, sociológica, psico­lógica, econômica, política, cultural e teológica).

Quando falamos em feminismo, não pensamos apenas em textos produzidos por feministas. Estamos nos referindo a mulheres concretas, situadas num contexto histórico determinado, que descobrem o significado de partilhar conhecimentos e vivências, exercendo um “poder trançado” pelo trabalho comum.

São mulheres de diversos lugares, classes sociais e raças, que, nas suas atividades profissionais e pastorais, transitam da esfera local-regional à interna­cional, participando na urdidura de uma rede viva de militância e reflexão. Essas atividades pressupõem necessariamente a vivência cotidiana da condição fe­minina e o compromisso histórico de construção do futuro.

Nos últimos anos, as pesquisas feitas (publicadas ou de circulação restrita em encontros, seminários, reuniões de diversos propósitos) têm de­monstrado um cuidado em adequar questões surgidas na prática e conteúdos teóricos, construindo, passo a passo, um conhecimento explicativo-compreensivo-transformador que articula vida e saber.

É sabido que as mulheres dos movimentos populares solicitam informações sobre o corpo femi­nino aos grupos feministas, organizados em torno da sexualidade e da saúde. A troca de conhecimentos e informações entre elas demonstra que também as mu­lheres de classe média, com acesso a recursos sociais, culturais e econômicos, buscam conhecimento mais acurado sobre as mesmas questões, o que pareceu surpreendente para as especialistas. A diferença apa­rece na especificidade do conflito entre trabalho e maternidade, por exemplo, mas há ainda muito que conhecer sobre o corpo, histórias, desejos e necessidades femininas.

A descoberta da identidade feminina inde­pendente da identidade do outro (pai, marido, irmão, chefe, líder, filho etc.) é um processo individual, relacional e cotidiano. A construção da identidade como sujeito que decide sobre a própria vida é coletiva. Nesse processo, as mulheres conquistam a subjetividade e dão lugar à emoção, ao afeto, à solidariedade, como categorias indispensáveis na política do cotidia­no.

Isso leva a uma redefinição que inclui tarefas que fazem parte da vida cotidiana das mulheres e de outros membros da sociedade, assegurando visibilida­de e legitimidade conceitual ao trabalho da “dona de casa”. Trabalho doméstico, alijado durante muito tem­po das teorias econômicas, essencialmente preocupa­das com formas monetarizadas de produção.

O trabalho realizado pelas mães não cabe nesse conceito dominante. As máquinas não conseguem reduzir significativamente seu trabalho, porque as crianças não se submetem ao ritmo delas. Além do mais, há uma relação intrínseca entre alegria, prazer e esforço, no trabalho de uma mãe.

Na narrativa das mulheres aparece muitas vezes a violência doméstica contra a mulher, contra a criança, contra o idoso… A violência sexual contra as mulheres acontece mais no espaço da casa. Para mui­tas, vindas de parentes próximos, até mesmo dos pais, ainda na infância. Esse tipo de violência acontece em todas as partes do mundo e em todas as camadas sociais, e as mulheres se unem para denunciá-la e lutar contra essa violência[7].

Todas essas reflexões que partem de situa­ções concretas, muitas vezes escondidas, camufladas, não ditas por que são muito dolorosas, são colocadas em comum para serem exorcizadas, de maneira que se torne cada vez mais firme a convicção de que não devem mais acontecer. São experiências penosas, que marcam profundamente a vida, os sentimentos das pessoas envolvidas. Falar delas nos grupos faz eclodir, nas que narram e nas que escutam, sentimentos fortes que, nos momentos deliturgia, são colocados comunitariamente na presença de Deus.

Nessas celebrações, as mulheres se colocam por inteiro no seu corpo e no seu espírito. Corpo que descobrem como “sede do seu eu”, no qual acolhem o mistério da vida e expressam a sua identidade mais profunda. Nos momentos altos de uma espiritualidade viva e partilhada, a leitura comunitária da Bíblia ocupa lugar de destaque.

 

5. Espiritualidade viva e partilhada

É uma espiritualidade em plena vida, situada num contexto histórico preciso, consciente tanto do desejo de não perpetuar modelos estereotipados de identidade feminina e masculina, quanto do sonho de concretizar novas maneiras de se relacionar, à luz da fé cristã. A contribuição teórico-prática das biblistas ajuda a encontrar o verdadeiro sentido dos textos, resgatando o recurso à Bíblia, como fonte de vida e liberta­ção.

Essa tarefa não é fácil, quando são relidos textos da Sagrada Escritura que foram interpretados, através dos tempos, de maneira a perpetuar a submissão das mulheres. Muitas vezes, elas têm de se contra­por à interpretação que sempre foi feita e que, em alguns casos, consegue ser mais patriarcal do que os próprios textos que interpreta.

“Além disso, essa luta hermenêutica de releitura de textos em favor da mulher, e contra leitura de textos que a marginalizam, desemboca na necessidade de um redelineamento do princípio de autoridade bíblica e de uma reformulação do que significa a palavra de Deus revelada nas Sagradas Escrituras”[8].

São inúmeros os textos que poderiam ser lembrados aqui. Em se tratando de vida de família, no entanto, não podemos deixar de mencionar, ainda que de relance, alguns textos paulinos, relidos e interpretados a partir da realidade atual.

Para tal, é preciso levar em conta que a atitude paulina em face do matrimônio e da família é complexa, em virtude do pluralismo de visões de sua época, da compreensão da sexualidade, do celibato etc. Daí a dificuldade em traçar as fronteiras que demarcam a influência do contexto sociocultural de seu tempo e assim compreender melhor o seu ensinamento[9].

É importante lembrar, no entanto, que, mesmo naqueles textos mais controvertidos (e que ainda continuam sendo lidos fora do contexto nas cerimônias de casamento), o importante não é tentar harmonizá-los, mas compreender a diferença entre o que é normativo e o que é circunstancial em cada um deles.

Isso implica descobrir os que são normativos, porque fundamentam o sentido profundo da nova cri­ação em Cristo, que confere dignidade a todos os seres humanos, sem excluir ninguém. Textos reveladores de um Deus cheio de misericórdia, um Deus Trindade, de profunda comunhão e relação, que sempre se solidarizou com os fracos, os oprimidos, os marginalizados e os que sofrem.

Implica também descobrir o que há de ensinamento nessas circunstâncias, sem transformá-las em regras de comportamento para serem cegamente obedecidas em todos os tempos, o que mutila o seu sentido para a realidade em que vive a família no mundo de hoje.

Por que privilegiar os “escritos de circunstância”, quando há outros cujo conteúdo normativo é extremamente importante para fundamentar novas relações de gênero, questionadoras da existência de dominação e/ou subordinação entre os sexos? Por que mencionar mais frequentemente textos, onde o que é circunstancial é mais gritante, nos quais as mulheres casadas são mantidas em silêncio nas assembleias, devem cobrir a cabeça, considerar o homem como “cabeça” ou chefe e são proibidas de ensinar (cf. 1Cor 14,34-35; 11,2-16; 1Tm 2,11-15)?

Por que não salientar o caráter normativo de passagens em que Paulo abre brechas na cultura de seu tempo para abolir as discriminações entre judeus e gregos, escravos e livres, homens e mulheres (Gl 3,28)? Por que deixar de evidenciar a referência à comunhão corporal partilhada e recíproca, que aponta para a igualdade, reciprocidade e diferença entre mulher e homem na vida conjugal e familiar (1Cor 7,3-5)?

Evidentemente, a exegese tem papel importante no estudo desses textos e ela aparece bastante desenvolvida nos escritos das biblistas. No entanto, para que as descobertas feitas iluminem a espiritualidade e a ética no cotidiano, inspirando as transições sociais necessárias, devem dar lugar a um novo passo, a uma “maturidade hermenêutica”, que vai além da letra do texto. Maturidade hermenêutica que privilegia a escuta do Espírito de Deus, na vivência cotidiana. Escuta atenta, que motiva a práxis da justiça, da vida solidária, da conquista da liberdade, respeitando a dignidade de cada pessoa[10].

 

6. Ética do cotidiano

Dissemos, no início, que estamos falando da vida de família, na ótica das relações de gênero. O que se procura, dentro dessa ótica, é a construção de um novo relacionamento entre mulheres e homens, fundado no amor mútuo e no companheirismo. Essa construção, ou melhor, reconstrução, ultrapassa a dimensão intersubjetiva.

Se, nas décadas passadas, nos meios católicos, a religião era fator decisivo na escolha dos cônjuges, hoje surge uma perspectiva de diálogo inter-religioso na formação das novas unidades familiares. As famílias com membros de religiões diferentes aumentam principalmente nos grandes centros urbanos, para onde tem convergido, nos últimos tempos, a grande maioria da população brasileira.

O ponto de encontro dessas duas perspectivas, gênero e diálogo inter-religioso, é de conteúdo ético. Essa realidade de nosso tempo torna mais visível a necessidade de abertura para o outro, feita com firmeza e muito amor entre as pessoas. O conhecimento de si mesmo, na vivência da identidade de um em face da alteridade do outro, acontece na relação, no rosto a rosto cotidiano.

O feixe de relações existente entre os membros de uma família não está circunscrito às paredes da casa e se abre para o mundo da rua. E são justamente essas relações abertas para uma realidade maior do que a da intimidade familiar, que dinamizam e sustentam essa mesma intimidade. Uma família fechada nela mesma é uma casa construída sobre areia movediça. Não se sustenta por muito tempo.

As atividades profissionais e pastorais, a participação política e a educação dos filhos alargam o compromisso com a práxis da justiça, com a solidariedade, com a vida partilhada. Situam a família como um todo e cada um de seus membros no mundo pluralista em que vivemos, onde estão presentes desigualdades, injustiças, discriminações, fome, indiferença religiosa e, ao mesmo tempo, luta pela justiça, solidariedade, esperança, diálogo inter-religioso e uma nova busca de espiritualidade.

As relações estabelecidas pelas mulheres fora do espaço da casa têm um papel importante nesse dinamismo. A descoberta conjunta de seu papel como protagonistas é um passo importante da elaboração de uma ética que consiga sair da enumeração de princípios, para se tornar realidade na existência cotidiana.

Essa ética tem uma “regra de ouro”, pela qual as pessoas devem tratar umas às outras da mesma maneira como desejam ser tratadas (cf. Mt 7,12; Rm 13,8-10). Esse tratamento igualitário e recíproco, fundado no amor mútuo, repudia todo procedimento que possa servir de “estorvo” para os outros. Motiva e anima as atitudes de “apoio” para viver no dia a dia um processo de superação de toda forma de egocentrismo.

Os preceitos sobre as relações familiares contidos na Epístola aos Colossenses (3,18-21) são precedidos pelo convite à prática da caridade, entendida como “vínculo da perfeição” (3,14). Convite esclarecido pela apresentação de uma lista de virtudes que caracterizam a caridade em “palavra e ação”: a compaixão, a bondade, a humildade, a mansidão, a firmeza de ânimo e, sobretudo, o mútuo perdão (cf. Cl 3,12-13).

O desenvolvimento da capacidade do perdão mútuo é um exercício cotidiano no amor familiar. Contém uma dimensão memorial que é o mecanismo que faz dele um componente primordial do amor: “Quem ama, perdoa”, diz a sabedoria popular. O per­dão é um amor incomensurável, porque se realiza na mais profunda gratuidade. Perdoar não significa esquecer, não dar valor ao que aconteceu, muito menos anular-se diante dos outros. Ao contrário, é lembrar para compreender e superar, e, muitas vezes, guardar os acontecimentos e as palavras dentro do coração, como fez Maria com seu filho Jesus (cf. Lc 2,51). É saber esperar o momento de romper o silêncio.



[1] É sintomático o interesse demonstrado por rapazes e moças da PUC-Rio para debater e refletir em conjunto, do ponto de vista ético, o tema “O amor nos dias de hoje”. Através dele falam de sua própria família e da família que desejam construir. A tese de mestrado da psicóloga Jacqueline Cavalcanti Chaves — Ficar com: a trajetória da afetividade disponível, PUC-RJ, 1993 — apresenta uma pesquisa entre jovens de classe média. Vale a pena conferir.

[2] Ver Leers, Frei Bernardino, “Filosofia, moral, ética, família e sociedade no Brasil (1964-1984)”, em Ribeiro, Ivete (org. e introd.), Família e valores, Seminários especiais, Centro João XXIII de Investigações e Ação Social, S. Paulo, Loyola, 1987, pp. 135ss.

[3] Cf. Linhares Barsted, Leila e Moreira Alves, Branca, “Novos padrões e velhas instituições: feminismo e família no Brasil”, ibid., pp. 212ss.

[4] Schüssler Fiorenza, Elisabeth e Carr, Anne. “Introdução editorial”, em Revista Concilium/226 (1989), 6. O número 7 dessa Revista, daquele mesmo ano, é todo dedicado a reflexões teológicas sobre a maternidade, sob o título Maternidade, experiência, instituição, teologia.

[5] Chodorow, Nancy, Psicanálise da maternidade. Uma crítica a Freud a partir da mulher, Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos, 1990, p. 17. Ver também pp. 238ss.

[6] Ultimamente vêm aumentando os estudos com reflexões teórico-práticas sobre a nova identidade masculina. Os novos títulos têm aparecido frequentemente em resenhas e entrevistas com os autores nos meios de comunicação (cf., entre outros, “Caderno Ideias”, Jornal do Brasil, 30/10/93, pp. 3-4). Ver Corneau, Guy, Pai ausente, filho carente. O que acontece com os homens?, S. Paulo, Brasiliense, 1991. Segundo Corneau, psicólogo canadense junguiano, os filhos que não receberam uma “paternidade” adequada enfrentam, com frequência, os seguintes problemas: dificuldades de aprendizagem, bloqueios relativos à sexualidade, ausência de amor próprio, dificuldades em assumir valores morais e responsabilidades, em desenvolver o senso de dever e de obrigação em relação ao outro etc. (cf. Ibidem, pp. 30ss). Também é interessante o livro de Nolasco, Sócrates, O mito da masculinidade, Rocco, 1993.

[7] Cf. Langdon, E. Jean, “O dito e o não dito: reflexões sobre narrativas que famílias de classe média não contam”, em Revista Estudos Feministas (1993) 1, pp. 155-­158. No mesmo número da Revista, uma publicação semestral da Escola de Comunicação da UFRJ, há um Dossiê “Mulher e violência”, que mostra a realidade da violência e a luta conjunta que o movimento organizado de mulheres trava contra ela.

[8] Tamez, Elza, “Roteiro hermenêutico para compreender Gl 3,28 e 1Cor 14,34”, em Revista RIBLA/15 (1993) 2, pp. 8-9. Este número da Revista de interpretação bíblica latino-americana foi organizado por Tereza Cavalcanti, sob o título: “Por mãos de mulher”.

[9] Ver Gomez Rios, Manuel, “La família” em Vidal, Marciano (org.), Conceptos fundamentales de ética teológica, Madrid, Trotta, 1992, pp. 591-593; Ellul, D., “Sois belle et tais-toi! Est-ce vraiment ce que Paul a dit? lCorinthiens 11,2-16”, Foi & Vie, Cahier biblique (1989) 5, pp. 49-58; Grope Orsay, “Lecture féministe des codes domestiques”, ibid., pp. 59-69.

[10] Cf. Tamez, Elsa, ibid., pp. 13-15.

Profa. Margarida Luiza Ribeiro Brandão