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Publicado em Novembro-Dezembro de 1993 (pp. 2-5)

Vida e cuidado do agente de pastoral

Por Pe. José Luis Martínez

No mundo e na sociedade atuais assistimos a um contínuo processo de profundas mudanças em todos os âmbitos e em todas as dimensões. Os numerosos acontecimentos transcorrem com tanta rapidez, que não conseguimos sequer acompanhar o que ocorre em nosso próprio país. Os fatos e suas consequências nos chegam de surpresa e nos transbordam. Entretanto, os meios de comunicação propagam ideias, modas, produtos, crenças, comportamentos e valores para todos os que com eles sintonizam (a maior parte da população). Nossa sociedade não é mais um povo eminentemente rural, com tudo o que isso significa em termos de compreensão e organização da vida. Estamos num mundo onde ninguém mais pode se esconder e permanecer estranho. Queiramos ou não, somos atingidos e envolvidos na constante dança da vida.

Ao mesmo tempo nos sentimos fazendo parte de uma sociedade que marginaliza grande parte da sua população. Ela participa das suas incapacidades, falhas, abusos, desigualdades e miséria, onde a partilha dos bens, que garante condições mínimas de vida, não tem vez. Nesta sociedade, o povo é atingido de forma direta e brutal, sendo empurrado para integrar a maioria sem vez, sem oportunidades e sem opções.

Nessa dança social, em que a música é colocada para nós, somos forçados a “dançar conforme essa música”. A expectativa a nosso respeito é a da obediência, em troca de algumas concessões menores e imediatas: salários de fome, poupança com rendimento nulo, trabalho para toda a família, arroz e feijão, novela, TV, futebol e carnaval. Muitos “entram na onda” e são levados pela mentalidade narcisista em expansão em todas as camadas sociais. Poucos são os que se negam a bailar, os que, enxergando a manipulação, se revelam numa postura de inconformismo, denúncia e esforço de transformação. Estes não aceitam renunciar a sua individualidade e autonomia e lutam para construírem-se como pessoas e construírem uma sociedade mais humana.

O agente de pastoral vive imerso nesta sociedade, com todas essas forças, influências e modelos sobre ele e sobre a comunidade à qual pretende servir. Além do mais, muitos dos referenciais antigamente indiscutíveis foram implodidos e não existem mais. Eles deram lugar a uma multiplicidade de ideias e de propostas para todo o acontecer humano que fundamentam uma prática de vida pluriforme. Até o necessário ponto de partida religioso, outrora quase absolutamente católico, passa a se desmembrar no fenômeno das seitas e de variados espiritualismos. Finalmente, a orientação pastoral da Igreja deixa transparecer cada vez mais claramente uma postura de retrocesso e conservadorismo.

Nesse contexto é fácil o agente de pastoral ficar confuso, cansado, sentir-se incompreendido e desanimado. Não raramente a crise se intensifica diante da falta de maturidade do agente de pastoral ou de problemáticas pessoais intensas. Alguns bispos e superiores religiosos estão assustados e em estado de alerta com o número de seu pessoal que não consegue enfrentar as crises inevitáveis e permanecer na vivência da vocação e no desempenho da missão. Sem esquecer outros(as), que, com seu comportamento alheio e imaturo, iniciam e alimentam intensos conflitos na comunidade e no povo. É aí que chegamos a situações limites pela frustração, dor e desesperança que esses fenômenos provocam em todas as pessoas que tentam fazer uma caminhada humana e de fé.

 

1. Somos pessoas no mundo

A Igreja quer caminhar na história ao lado dos homens, sentindo suas angústias e esperanças, sendo solidária, assumindo uma atitude profética. Mas sem esquecer que é mãe que gera, alimenta, protege, guia seus filhos — pessoas concretas — na construção do Reino ao encontro definitivo com o Pai.

Aqueles que receberam os encargos ministeriais para o bem da Igreja no nosso mundo complexo, supõe-se, estão preparados, também do ponto de vista humano, para poder ajudar a comunidade a crescer. O que significa que esses agentes estão dispostos a crescer como pessoas, isto é, realizando um crescimento integral que abranja o homem todo no seu lado biológico, psicológico, social e espiritual. Sabemos como as urgências da realidade e da ação pastoral muitas vezes orientam a vida para uma atividade desenfreada, de contínua entrega, solicitação e imersão na problemática da comunidade. Desde o período da formação inicial percebe-se a tendência de responder aos desafios da realidade de maneira imediata e impulsiva, engajando-se em múltiplas atividades que solicitam atenção. Isso é particularmente verdadeiro para os agentes mais jovens quando, em função de sua idade, alcançar metas externas a si é a principal ocupação e preocupação.

É bom considerar que a formação intelectual — seja filosófica, teológica ou pastoral — não nos faz conhecer melhor o próprio eu, relacionar-nos mais abertamente, não nos prepara para lidar com os sentimentos e com a sexualidade nem nos integra como pessoas. O estudo apenas nos capacita intelectualmente ou nos dá conhecimentos, que podemos usar ou não em benefício próprio, dos outros e da missão. Também a experiência e as atividades pastorais não se mostram de muita utilidade neste particular, se estão voltadas unicamente para o externo, enquanto o si mesmo é deixado à sua própria sorte.

Na prática psicoterápica, estamos atentos a fenômenos que ultimamente vêm mostrando uma constância, principalmente em agentes jovens e de meia-idade. Seria o que eu chamo “ziguezague vital”: uma vivência conflitiva caracterizada por ativismo pastoral, descuido orgânico, compulsividade sexual, implosão emocional, frieza espiritual, questionamento vocacional e ausência de contato pessoal com Deus. O sujeito costuma viver na empolgação do trabalho recebendo um retorno agradecido das pessoas. Permanece alheio ao reclamo do cuidado de si. Vive na ambiguidade no campo afetivo-sexual. Sente a angustia crescente de um ser dividido e um fazer cada vez menos satisfatório. Dificilmente Deus lhe resulta sujeito, alguém que lhe fala e que ele pode experimentar. Nos casos mais favoráveis, depois de vários anos em conflito, o agente pede para se retirar por uns tempos do seio da comunidade para tentar se escutar, se encontrar e se integrar, voltando mais tarde com uma postura vital de coerência.

 

2. A formação humana

O cuidado de si parte dos primeiros anos de vida e de formação no seio familiar onde os modelos parentais foram positivos, o que implica pais próximos e orientação firme e abrangente. Dessa maneira impõem-se as bases da capacidade de amar e da segurança emocional, tão necessárias para o desenvolvimento harmônico da personalidade.

Apesar dos avanços na compreensão da evolução humana, com muita frequência encontramos a carência afetiva arrastada desde a infância, agravada por séria instabilidade da instituição familiar e por um ambiente de intenso hedonismo e individualismo na interação social. A permissividade sexual e a farta experiência nesse campo são comuns até nas pessoas da própria família do agente de pastoral. Resulta então difícil educar e educar-se numa afetividade-sexualidade personalizada, responsável, que obedeça aos critérios e exigências da Igreja.

A formação do agente deverá retomar o que foi construído na convivência com a própria família, principalmente nos primeiros anos, e a partir daí impulsionar o crescimento harmônico da pessoa em todas as dimensões, a começar pelo lado humano. É nesse lado que se detectam mais omissões e lacunas na formação do agente. Portanto não é de estranhar que durante muito tempo se construam esperanças que mais adiante desembocam em frustrações sérias, chega o momento que o agente sente as pressões chegando de todos os lados, sobretudo de dentro de si mesmo, e não sabe como fazer para superá-las no contexto de um processo pessoal de crescimento e integração.

A formação humana, para a qual a Igreja está cada vez mais atenta, cansada de ver muitos de seus agentes desistirem da ação ministerial por falta de preparo básico, supõe o cuidado e cultivo de si mesmo na sua integridade, o tomar conta de si, de sua corporeidade, de seus sentimentos, de sua sexualidade e de seus valores de maneira vivencial. Para isso o agente foi ensinado a prestar apenas atenção. Sendo algo muito íntimo, resultava-lhe difícil de ser trabalhado, e demorar-se em contemplar tudo isso podia significar descuido na entrega à missão ou implicar em exagerado amor a si mesmo.

O cuidado de si é abrangente, concreto e contínuo. Supõe conhecer-se e aprofundar esse autoconhecimento; relacionar-se e manter laços saudáveis e satisfatórios com os outros; aprofundar os valores que sustentam a caminhada e dão sentido à própria vida; manter contato pessoal, amoroso, diário com Deus, que possibilite a leitura da vida a partir da fé. Dessa maneira, a pessoa é responsável por tudo o que lhe diz respeito e assume em qualquer circunstância a sua existência. Sente-se bem, a partir de um ajuste emocional e espiritual, vendo um sentido para a vida e crescendo no serviço à comunidade. Portanto, não deposita nos outros, na autoridade, no povo, no governo, na Igreja, nas circunstâncias, as causas do seu eventual fracasso ou desistência vocacional ou ministerial. Sabe que, definitivamente, é ela a única responsável por sua vida e missão.

Um dos aspectos que demandam uma formação mais clara e aberta é a sexualidade. Ainda é um tema tabu em muitos ambientes da Igreja. Algo que se enfoca com muita rigidez ou se evita comentar e, me parece, vai se deixando cada vez mais aos cuidados de cada um. Se antigamente havia insistência quase doentia nos “pecados do sexo”, hoje na prática pastoral não se diz nada. Comenta-se e orienta-se o menos possível sobre esse tema que, não podemos esquecer, é uma das principais vivências de todo ser humano. Poderíamos perguntar-nos: essa atitude responde a um convencimento ou a uma desorientação? Em consequência, de que maneira o agente lida com suas pulsões e sentimentos? Como é o seu comportamento sexual?

Possivelmente essa atitude manifesta fusão do agente, que não sabe ao certo o que dizer. Não é objetivo deste artigo enfocar a polêmica em torno do celibato e da moral da sexualidade, mas, sem duvida ela influência o agente de pastoral, seja sacerdote, religioso(a) ou leigo(a). A partir dessa influência gera preocupação, creio que existem mais condições para refletir e trabalhar a realidade profunda afetividade-sexualidade e também mais oportunidade e justificativas fáceis para a desorientação e incoerência. Se o agente sofre desorientação interna e nela permanece, terá dificuldade para lidar com sua própria sexualidade e se ajustar afetiva e espiritualmente. Isso pode indicar sua posição num dos dois extremos: ou atitudes permissivas, ou repressivas com relação à ­impulsividade sexual. Tal desajuste, por sua vez ocasionará problemas na prática pastoral e agravará o próprio funcionamento pessoal interno e externo. Um círculo vicioso difícil de romper quando falta abertura ou incentivo para se confrontar.

Numa dinâmica de ajustamento afetivo-sexual quando o agente de pastoral assume o compromisso matrimonial, a relação com o cônjuge e a prática sexual tornam-se a manifestação concreta do amor. Quando o que se assume é a consagração religiosa ou o sacerdócio, a relação pessoal com Deus e o serviço aos outros são manifestações da orientação do afeto e da energia sexual. O processo sadio, em um ou outro estado, implica a atualização do potencial afetivo-sexual em benefício do outro ou dos outros com quem se comprometeu a própria vida.

 

3. O necessário cuidado de si

Nunca será demais a insistência no cultivo de si mesmo, tão esquecido nos últimos tempos. Envolvemo-nos tanto com os assuntos pastorais e do povo pela urgência dos seus reclamos e necessidades, que esquecemos as urgências com relação a nós mes­mos, o cultivo do especificamente humano, aberto ao corpo e à transcendência, aos impulsos e às necessi­dades, aos sentimentos e à amizade, ao outro e a Deus. O cuidado de si é condição para poder cuidar melhor dos outros. O respeitar-se é o começo de um desenvolvimento integrado como pessoa, necessário para poder orientar e auxiliar as pessoas da comunidade. Dessa maneira o agente não vive em função de si, mas dos outros a quem ajuda, a partir do exemplo de como devem se amar e respeitar a si mesmos.

Em muitos lugares se está passando da retóri­ca e boas intenções para medidas concretas de oportunidades para o cultivo do agente de pastoral. E, ultimamente, com mais insistência no lado humano, substrato sobre o qual se ergue toda a sua vida e missão. E que falta faz! Trabalhando esse lado na psicoterapia e em cursos de formação permanente, tenho percebido como os agentes costumam se aprofundar na compreensão de si mesmos e do sentido da sua missão. Podem sentir em si, com mais facilidade, o que muitas vezes lhes é consultado e questionado, deixando-os perplexos. Conseguem enxergar e integrar elementos da experi­ência ignorados ou rejeitados. Passam a não ter medo ou receio de abordar seus conflitos e questões complexas, mas profundamente humanas, como a sexualidade, porque sua análise agora parte da experiência, e suas conclusões estão sendo vivenciadas de maneira coerente e adulta.

Neste momento torna-se necessário, como requisito de escolha e envio do agente de pastoral, uma consciência e decisão pessoal de tomar conta de si e responsabilizar-se, em primeiro lugar, por si mesmo. Se o agente de pastoral não foi formado ou não cresceu nesse particular, podemos deparar-nos com ótimos trabalhadores e incansáveis “fazedores de coisas”, mas não com pessoas que vivem e atualizam de maneira consciente, criativa e adulta a sua vocação.

O agente de pastoral, para poder realizar sua missão, deve se cultivar em todas as dimensões: cuidar de seu corpo, alimentar relacionamentos interpessoais fecundos, orientar sadiamente (coerentemente) a sua afetividade, cultivar o estudo, manter o contato pessoal com Deus. Quem não toma conta de si, como poderá tomar conta dos outros?

Capacitando seus agentes, a Igreja cuida de seus membros de vanguarda, estimula seu crescimento e satisfação e possibilita uma ação pastoral mais rica. Os numerosos cursos de formação permanente, organizados em níveis nacional e regional, ao lado de encontros e associações ou fraternidades sacerdotais e leigas, são exemplo de graduais mudanças que estão acontecendo. Também são avanços concretos a inscrição num plano de saúde, acudir-se do psicoterapeuta e solicitar orientação espiritual com maior tranquilidade. Mas ainda é preciso insistir, investir e apostar mais na formação e acompanhamento do homem e da mulher que estão na linha de frente da Igreja. É possível que em algum momento seja necessário optar por diminuir o campo de trabalho para propiciar ao agente de pastoral maior cuidado de si mesmo. A partir de cada realidade local, no entanto, se saberá valorizar suas necessidades humanas e pastorais e dar melhor resposta a cada caso.

Pe. José Luis Martínez