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Publicado em Julho-Agosto de 1984

A força histórica dos pobres: profecia ou demagogia?

Por Pe. Hermilo E. Pretto

Quem pretende, em dimensão teológica, transformar a realidade histórica, deve operar a passagem da ordem fatual para a ordem significativa. A força histórica dos pobres, teologicamente, só poderá ser compreendida como um testemunho da presença salvadora de Deus nas lutas libertadoras do homem.

1. A força dos fracos: perspectiva de uma dinâmica de transformação

a) A dinâmica normal da sociedade

Parece natural a consciência de que um autêntico processo de transformação seja viável somente dentro de uma certa ordem: um equilíbrio entre o objetivo desejado e as forças históricas disponíveis. Os efeitos sempre deveriam ser proporcionais às causas. Nenhum agente poderia ultrapassar o limite de suas possibilidades. O não respeito a este princípio elementar leva fatalmente à insensatez. Estaria dando provas de falta de bom-senso quem, dispondo de um exército de dez mil homens, pretendesse, sem cálculos de possibilidade, enfrentar um exército de vinte mil (cf. Lc 14,31-32). Trata-se de uma sabedoria de sobrevivência.

Em muitos casos, nossa força depende da fraqueza do adversário. É em razão disso que há, nas relações pessoais e no entrechoque das forças sociais, uma alternância entre covardia e vigor. Não se fala aqui da coragem, pois essa não depende do equilíbrio de forças. É, antes, uma atitude que imuniza as pessoas frente às oscilações das forças em jogo. O homem de coragem é aquele que descobriu o sentido da história, ou o tesouro no campo (cf. Mt 13,44) e leva esta descoberta até as últimas consequências. De qualquer forma, nem mesmo a coragem pode dispensar a sabedoria, sem a qual ela acaba desembocando na insensatez. Mas a dissuasão pela força nunca poderá ser a marca da verdadeira coragem. É próprio do espírito de adolescência adotar esta dinâmica. Trágica é a constatação de que as relações internacionais estejam marcadas por este espírito, ficando a humanidade exposta aos caprichos da imaturidade.

Quem deseja assumir a história com todos os seus desafios e interpelações, assegurando-lhe fidelidade incondicional, não tem como fugir ao compromisso transformador. Há uma dimensão de interesse que é irrenunciável: é o desejo de que as iniciativas empreendidas cheguem a bom termo. Para tanto será preciso somar forças, elaborar estratégias, estabelecer alianças táticas, pois o máximo desejável só pode ser o historicamente possível. O fracasso e o desespero são a consequência inevitável quando se prefixa um objetivo inatingível. É aqui justamente que se coloca o problema do equilíbrio entre os efeitos desejados e as forças a serem desencadeadas.

Ocorre, de certa forma, um processo de seleção. Na realização dos objetivos, algumas pessoas serão consideradas importantes (o mesmo ocorrendo com grupos constituídos), ao passo que outras serão colocadas à margem porque julgadas insignificantes. Poder-se-ia dizer que o funcionamento da sociedade está marcado essencialmente por esta dinâmica. As sociedades organizadas constituem sempre formas de aristocracia: os melhores (isto é, os mais fortes) acabam sempre prevalecendo. A criação de centros de poder tem como consequência o surgimento de áreas periféricas (isto é, marginalizadas).

b) A dinâmica do evangelho

Embora não constitua um caminho paralelo, à margem da história, mas um ápice de significação, o evangelho se faz anúncio de uma outra dinâmica, que chega mesmo a constituir-se em instância crítica frente aquilo que habitualmente consideramos como normal e inelutável. Além de atribuir à cruz (o reverso da positividade) uma força de redenção, ele anuncia a bem-aventurança dos pobres, dos mansos, dos aflitos, dos que são perseguidos por causa da justiça (cf. Mt 5,3-10). Fiel a esta perspectiva, Paulo não hesita em anunciar Cristo crucificado, loucura para os pagãos e escândalo para os judeus (1Cor 1,23s), como presença pessoal e salvadora de Deus na história dos homens.

Anunciar que a força está justamente onde menor é seu espaço de expressão (o mundo de pobreza e marginalização) implica uma ruptura na ordem normal do processo de transformação, pois tem seu embasamento no desequilíbrio entre o objetivo desejado e as forças históricas disponíveis. Aqui não constitui solução a insistência de que a força dos fracos é o resultado da soma das fraquezas individuais. Eles seriam fracos quando tomados individualmente, mas fortes quando agrupados. Tal solução careceria de sentido, pois equivaleria a dizer que um grupo de pessoas doentes possa constituir uma comunidade sadia. Para que seja sensato, na perspectiva do evangelho, anunciar a força histórica dos pobres, será preciso que se modifique substancialmente a perspectiva da dinâmica de transformação.

Permanecendo na lógica dos fatos, não temos como fugir ao princípio de que os efeitos conseguidos serão sempre proporcionais às causas que os produziram. Aqui a soma de forças ganha toda a sua significação. O próprio evangelho, como temos visto mais acima, nos apresenta esta sabedoria de sobrevivência. A arregimentação popular e até mesmo o proselitismo são essenciais para quem se prefixa alterar uma situação de fato. Os partidos políticos, as organizações sindicais, da mesma forma como todos os movimentos populares, preocupados em atuar sobre os fatos no sentido de transformá-los, desembocarão numa atitude suicida, caso pretendam prescindir da rigorosa proporção entre causas e efeitos. Impedir-lhes o proselitismo em nome da liberdade equivaleria a condená-los à inanição. As grandes mobilizações populares têm a força de alterar os rumos da história. A alteração dos fatos somente será viável através de um desencadeamento de forças onde o impulso para a mudança seja mais forte que a resistência com vistas à manutenção da situação.

A bem-aventurança dos pobres, entretanto, só é compreensível quando se opera um passo qualitativo, não no abandono dos fatos, mas na transcendência por relação aos fatos, descortinando o universo das significações. Estas nunca gozam de autonomia e nem podem reivindicar existência própria. Afinal, nem os fatos estão destituídos de significação, nem as significações podem subsistir desligadas dos fatos. As significações, quando desligadas dos fatos, transformam-se fatalmente em superestruturas ideológicas que apresentam como de direito aquilo que é simplesmente de fato. O que ocorre é que existe uma desproporção entre a ordem fatual e a ordem significativa. Isso equivale a dizer que o homem, em suas experiências mais profundas, vive mais daquilo que ele produz. Temos aí o espaço essencial da gratuidade que é o algo mais significativo além das forças históricas que o homem desencadeia. Trata-se de uma transcendência significativa por referência aos fatos.

Um exemplo nos poderá ajudar na compreensão daquilo que estamos pretendendo mostrar: o presente que damos a uma pessoa amiga. Na ordem dos fatos, o presente tem um valor determinado, de acordo com a economia de mercado. Na ordem das significações, ele representa bem mais que o valor econômico que lhe é atribuído. Em outras palavras, o valor significativo não é proporcional ao valor econômico, mas à intensidade da amizade que ele exprime. É em razão disso que uma insignificância fatual pode ser capaz de veicular uma extraordinária densidade significativa. Éo gesto da pequena oferta da viúva que permite a Jesus afirmar: “De fato, eu vos digo que esta pobre viúva lançou mais do que todos…” (Lc 21,3).

No fundo, o que pretendemos dizer é que, teologicamente, a força histórica dos pobres só é compreensível na transcendência significativa por relação aos fatos. Dentro desta perspectiva, os fracos só poderão ser considerados uma verdadeira força na medida em que forem capazes de testemunhar uma significação que vai além dos fatos. Ora, se este é o espaço da gratuidade libertadora do homem, ele é, por isso mesmo, o espaço essencial da graça salvadora de Deus. Em razão disso nós podemos dizer que a densidade objetiva (fatual) da ação de Deus é o compromisso histórico do homem e o conjunto das forças históricas disponíveis, e daí concluir que Deus está realmente presente na história (ordem dos fatos), mas exclusivamente através da própria história: o homem e seu mundo. A densidade significativa da ação de Deus, porém, transcende a história. Se em termos fatuais existe uma coincidência entre libertação e salvação, em termos significativos a desproporção é enorme. Éaí que se faz presente a Graça de Deus como o algo mais significativo além das forças históricas que o homem desencadeia.

Em síntese, poderíamos dizer que é somente na perspectiva da Graça que faz sentido, teologicamente, falar na força histórica dos pobres. Isso exige que se visualize a realidade numa perspectiva de fé teológica. Aqui justamente encontra seu encaixe a missão da Igreja: testemunhar profeticamente esta significação de Graça. A opressão, enquanto sufocamento da vida, impedida de chegar a um pleno desabrochar, pode ser configurada como uma profunda deformação das relações, em nível pessoal e estrutural, fazendo com que o interesse prevaleça sobre a gratuidade. E são justamente as vítimas destas relações interesseiras as que mais têm condições de revelar o seu reverso. É neste pano de fundo antropológico que podemos compreender como o Pai possa esconder os segredos do Reino aos sábios e entendidos, para revelá-los aos pobres, aos pequeninos, aos simples (cf. Mt 11,25). Os excluídos e marginalizados tornam-se os protagonistas.

A força histórica dos pobres reside nesta capacidade, que somente as vítimas são capazes de ter, de clamar, da profundidade da própria situação, pela necessidade de recriar as relações históricas numa perspectiva de gratuidade. De certa forma, poderíamos dizer que o próprio Pecado (em sentido objetivo) faz-se clamor de Graça. Mas para que não se perca a perspectiva da gratuidade, nunca é demais enfatizar que, teologicamente, a força não pode ser compreendida em termos de eficiência, mas de clamor, de testemunho, de anúncio. Afinal, a Graça é aquilo que se vivencia mas não se produz. Temos aí a experiência do dom, que é gratificante: por ele ninguém pode reivindicar qualquer tipo de mérito.

2. Opção pelos pobres: momento de conversão ao evangelho

Torna-se problemático, sobretudo no atual momento eclesial vivido pela Igreja da América Latina, onde tão premente se faz sentir a necessidade de transformar a realidade no emaranhado global de suas relações, situar a missão da Igreja no universo significativo. Pode-se, com razão, objetar que são os fatos que corporificam as significações, assegurando-lhes densidade histórica. A ênfase na transformação das estruturas da sociedade, que tem caracterizado os pronunciamentos e a ação da Igreja da América Latina nos últimos anos, assumindo a causa do oprimido, representa, sem dúvida, um momento decisivo de conversão. Excetuando casos isolados, a acusação global de que estaríamos diante de um oportunismo tático configuraria uma enorme injustiça. Numerosos foram aqueles que deram a vida ou pagaram um preço bem alto por esta opção. O martírio é um dos testemunhos mais autênticos da seriedade de uma opção. O oportunismo é sempre uma tática de sobrevivência e não um compromisso de transformação.

Frente a isso, como ousaríamos ainda afirmar que a missão da Igreja reside no testemunho significativo? Dizíamos mais acima que, teologicamente, a força dos pobres deve ser compreendida em termos de clamor, de testemunho, de anúncio, e não de eficiência. Alguém seria capaz de visualizar aí a surrada definição de que a missão da Igreja é essencial­mente espiritual, definição essa que teve como consequência um espiritualismo desencarnado ou a pretensão de viver a fé sem as obras. A suspeita tem sua razão de ser principalmente porque a história da Igreja apresenta um prolongado divórcio entre a ordem dos fatos e a ordem das significações.

O ativismo transformador dos fatos e o espiritualismo desencarnado configuram dois males de uma mesma raiz: a suposição de que os fatos e as significações gozem de autonomia, configurando caminhos paralelos. Se assim fosse, cada um deles poderia ser trilhado separadamente, sem interferências. A consequência, que é realidade histórica e não mera possibilidade, é a existência de dois tipos de cristão, filhos ambos do mesmo divórcio: o cristão sagrado e o profano. O primeiro supõe que a oração e a prática sacramental sejam suficientes para resolver os graves problemas que afligem o homem. Se houvesse mais fé… o mundo seria um paraíso! O segundo imagina que a solução dos problemas em nível socioeconômico traga libertação integral, felicidade e (por que não?) até mesmo salvação. Se houvesse mais compromisso transformador… teríamos a sociedade perfeita, a plenitude do Reino!

Quando se afirma que a missão da Igreja é de ordem significativa, pressupõe-se a união indissociável entre fato e significado. Não podemos ter significações novas se não formos capazes de criar fatos novos. Situando a libertação na ordem fatual e a salvação na ordem significativa, poderíamos dizer que sem libertação não há salvação. Não haverá Graça sem relações históricas de gratuidade. Ocorre, no entanto, como tivemos a oportunidade de assinalar mais acima, que a salvação representa o algo mais significativo além da libertação. É aí que se faz presente a Graça, espaço vital para uma autêntica experiência de Deus e para uma vida em plenitude.

Ao mesmo tempo em que oferece o melhor de suas forças para uma autêntica e profunda transformação dos fatos, a Igreja testemunha na fé e na esperança uma significação de salvação que transcende a lógica dos fatos. O abandono desta perspectiva priva a Igreja de sua originalidade, tornando-a uma força histórica repetitiva e que desemboca fatalmente no clericalismo. Se é verdade que se faz necessária a eficácia histórica para que tenhamos um mundo melhor, mais justo e fraterno, cabe à Igreja testemunhar o extraordinário valor da gratuidade através de gestos não produtivos ou lucrativos. Em outras palavras, é missão da Igreja anunciar ao mundo o evangelho da Graça. Só assim teríamos condições de sustentar que a opção pelos pobres configura um momento crucial de conversão.

3. Opção hermenêutica pelos pobres: o problema da exclusividade do anúncio

A partir de Medellín, e continuando em Puebla, a Igreja da América Latina fez uma opção preferencial pelos pobres. Em seguida a esta tomada de posição, foram e continuam sendo intermináveis as discussões, tantas vezes estéreis e sectárias, em referência à universalidade da boa-nova da salvação. Citando Isaías, Jesus inaugura sua missão dizendo que o Espírito do Senhor o ungiu para evangelizar os pobres, para proclamar a remissão aos presos, a recuperação da vista aos cegos, para restituir a liberdade aos oprimidos (cf. Lc 4,18).

Como conciliar esta opção com a universalidade da salvação? Estariam os ricos excluídos justamente por serem ricos? Semelhante interpretação entraria em conflito com a incondicionalidade da Graça que, justamente por ser dom e não mérito, não depende de condições prévias. Teríamos então, dois evangelhos paralelos, respondendo a duas situações diferentes? A estreita dependência entre o mundo da riqueza e o mundo da pobreza exclui por princípio semelhante solução. Há um dado irrenunciável: o evangelho é um só e deve ser anunciado a todos. Por outro lado, o evangelho nunca é uma boa-nova para todos. A bem-aventurança dos pobres não é uma boa-notícia para aqueles que transformaram o direito à propriedade (universal e inalienável) num privilégio. A bem-aventurança dos mansos não é uma boa-notícia para aqueles que à cordialidade preferem a agressividade e a violência. A bem-aventurança dos perseguidos por causa da justiça não é uma boa-notícia para aqueles que criam e sustentam sistemas injustos, ao mesmo tempo em que perseguem aqueles que lutam visando a criação de uma sociedade justa e fraterna.

Embora não possa haver um propósito deliberado de excluir pessoas, é a própria essência do evangelho que se revela naturalmente um divisor de águas. O evangelho é claramente um sinal de contradição. A Igreja primitiva parece ter compreendido esta realidade. Significativa é a menção de Lucas às palavras do velho Simeão dirigidas a Maria: “Eis que este menino foi colocado para a queda e para o soerguimento de muitos em Israel, e como um sinal de contradição” (Lc 2,34).

Sendo um anúncio de vida para todos, perder-se-ão pelo caminho aqueles que se comprometem com projetos que destroem a vida ou a transformam num privilégio para um grupo restrito de pessoas. Quem pretendesse, em nome de uma comunhão universal, impedir que o evangelho seja um sinal de contradição, estaria por isso mesmo traindo sua originalidade mais profunda. Isso porque ele não propõe uma fraternidade acima ou fora das relações históricas, mas nas relações históricas. E a história é o único espaço onde a fé e a esperança podem ser vividas. Aí está a razão de elas serem portadoras de uma dimensão essencialmente política.

Para que a opção preferencial de Jesus possa ter algum sentido sem que fique afetada a universalidade do anúncio, será preciso compreendê-la como uma opção hermenêutica. O mundo de pobreza e marginalização, enquanto sub-produto de um sistema injusto, torna-se o critério interpretativo que permite discernir a originalidade do evangelho. Sendo um anúncio de que Deus ama o homem, especialmente o pobre, e uma proposta de compromisso em favor da vida, ele tem seu encaixe justamente onde a vida é sufocada e se faz ouvir num desesperado clamor. Num mundo marcado pelo desespero, o evangelho se faz portador de um anúncio de esperança, convocando os homens de boa vontade para um compromisso em favor da vida. É sintomático que Jesus, sintetizando a globalidade de sua missão, possa dizer: “Eu vim para que tenham a vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Há, por conseguinte, uma evidente e inevitável exclusividade. Sua eliminação só é possível no trágico divórcio entre os fatos e as significações. Desligadas dos fatos, as significações não são mais a Palavra da Vida. Esta poderá ser utilizada também por aqueles que estão comprometidos com o sufocamento e a eliminação da vida. Desligada da Vida, a Palavra torna-se seu algoz.

4. A profecia dos oprimidos

Na história de Israel, a profecia representou uma instância crítica frente ao poder constituído principalmente quando, no abandono das tradições vitais (Iahweh comprometido com a vida do povo), ele se deformou até o ponto de comprometer-se com as forças geradoras de morte. Com o passar do tempo, perdeu-se essa dimensão política da profecia. Em sentido mais vulgar, ela degradou-se até o ponto de transformar-se em previsão de acontecimentos futuros. Na verdade, a profecia é uma profunda intuição do presente, captando-lhe a transcendência significativa. O profeta é sempre alguém mergulhado nas relações históricas descortinando, apesar de sua inevitável ambiguidade, seu momento de graça. Ele é alguém que clama, questiona, repreende. É em razão disso que ele dificilmente é compreendido, sofrendo perseguições e morte.

Na história dos povos oprimidos, que integram o Terceiro Mundo, a profecia, sem deixar de suscitar expressões individuais, assumiu uma dimensão mais ampla. É o próprio povo, mergulhado na profundidade de sua história, que se torna profético. A instância crítica surge das bases. Este parece ser o sentido da afirmação de Puebla: “Do coração dos vários países que formam a América Latina está subindo ao céu um clamor cada vez mais impressionante. É um grito de um povo que sofre e que reclama justiça, liberdade e respeito aos direitos fundamentais dos homens e dos povos” (n. 87).

A Igreja assume este clamor profético e o faz seu, tornando-se ela mesma profética. E isso ela o faz, não para manipulá-lo ou então esvaziá-lo de sua força, mas justamente para viabilizá-lo historicamente. Afinal, o que aí está em jogo é a vida, razão de sua existência e de sua missão. Ela pode, então, dizer que “as profundas diferenças sociais, a extrema pobreza e a violação dos direitos humanos — que ocorrem em muitas regiões — são reptos lançados à evangelização” (n. 90).

Dizíamos mais acima que seria injusto ver nisso uma postura tática, própria de quem, colocando-se numa atitude de expectador, opta pelo lado da balança onde maior é o peso e melhores as condições de sucesso e glória. Assim mesmo, forçoso é reconhecer que a Igreja nem sempre assume a profecia do povo oprimido com a seriedade de quem, numa dimensão de serviço evangélico, sabe levá-la até as últimas consequências. Com frequência, a afirmação da força histórica dos pobres passa pelo crivo da ideologia clerical. A tão propalada sabedoria popular só é levada a sério quando as decisões do povo coincidem com as opções do clero e dos agentes de pastoral de vanguarda. Em alguns casos, não falta sequer o despudor de afirmar que o povo não amadureceu suficientemente quando a escolha de prioridades pastorais conflita com as prioridades previa­mente estipuladas pelo clero. Aqui a profecia cede seu lugar à demagogia.

Talvez esse seja o preço a ser pago pela formação abstrata do clero. O pobre abstrato é sempre interessante, inteligente, conscientizado, libertador. É sobre ele que se baseia, em grande parte, o discurso eclesiástico, numa linha de libertação. O bloqueio acontece frente ao pobre real que fica muito aquém deste modelo: ele está alienado, é conformista e se revela incapaz de captar a dimensão essencialmente política da fé. É em razão disso que, tantas vezes, ao se proclamar a força histórica dos pobres, é dos pobres inexistentes que se está falando.

É urgente que a Igreja, numa atitude de profunda conversão, recupere o universo significativo enquanto presença salvadora de Deus nas lutas libertadoras do homem. Ela será profética, e não demagógica, se for capaz de superar as relações de poder, posicionando-se numa linha de serviço ao pobre real e não ao pobre abstrato. Cabe-lhe ser luz, caminho. Ela é quem deve caminhar com o povo, e não o povo com ela. Sua qualificação depende essencialmente da capacidade de servir à vida em plenitude.

Pe. Hermilo E. Pretto