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Publicado em Março-Abril de 1997 (pp. 17-22)

Iguais perante a lei? iguais perante a vida?

Por Pe. José Oscar Beozzo

1. Introdução

A Campanha da Fraternidade de 1997 (CF-97) decidiu enfrentar uma das chagas sociais de nossa sociedade: o sistema penitenciário brasileiro, caracterizado pela superlotação, promiscuidade, corrupção, violência, descaso, abandono e desumanidade a que estão condenados os presos.

O pior, porém, é que nossas cadeias e penitenciárias afastaram para longe do seu horizonte qualquer propósito de recuperação, educação e ressocialização do detento. Ao entrar num presídio, o condenado experimenta o que Dante, na Divina Comédia, viu inscrito à porta do inferno: “Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate“Abandonai qualquer esperança, ó vós que entrais”.

Essa parece ser também a sina dos que entram no inferno das nossas prisões: a perda da esperança de ali saírem regenerados para reiniciar nova vida. A sociedade como um todo continua incapaz de lidar com os egressos das prisões, que, dificilmente, encontram acolhida, encaminhamento e trabalho.

Fica, porém, uma dúvida cruel: não trilham igualmente caminhos sem esperança os que padecem desemprego prolongado, salário insuficiente, despejo, penúria, enfermidade e fome? O ser humano não sente que é coerção ter de morar numa favela, debaixo da ponte ou na rua? Ter de enfrentar, doente, as filas do INSS e a falta de vaga nos hospitais? Ter de viver sob a lei dos traficantes e sujeito ao medo dos bandidos e da polícia? Ter de padecer o receio da violência cega do trânsito e das balas perdidas; ser viciado em drogas e no álcool e ter de passar por infidelidade conjugal ou separações, ameaças e coação física ou moral?

 

2. Do abuso, violência e descaso

Podemos ilustrar algumas dessas situações, colhendo-as do noticiário cotidiano:

Na segunda-feira, dia 14 de outubro de 1996 houve atraso nos trens da CPTM (Companhia Paulista de Transportes Metropolitanos) da linha oeste de São Paulo. Era a terceira vez, em quinze dias, que havia princípio de tumulto nas estações, pelos constantes atrasos dos trens, e que, mais uma vez, os usuários ficavam ali perdidos, de madrugada, à espera, sem informações, impacientes para chegar ao trabalho. De repente, explode o quebra-quebra que se alastra por varias estações, enquanto vagões e locomotivas são depredados e incendiados. Os estragos são tão grandes nas instalações e composições que, por seis meses, a população ficará sem os trens naquela região. Um eletricista de vinte anos que ajudou a atear fogo ao trem na estação de Perus justificou-se: “Detonamos porque não aguentamos mais ser tratados como lixo” (cf. Folha de S. Paulo, 15/10/1996, C-6/3).

No dia seguinte, dia do Professor, o noticiário do Jornal Nacional, na Rede Globo, mostrou uma professora do sertão do Piauí, num aposento de sua casinha que servia de sala de aula. Havia quatro cadeiras para dez crianças. A professora exibiu o contracheque do seu pagamento naquele mês: R$ 6,00. Sim, seis reais, para dar aula, a cada dia, o mês inteiro. Exatamente o valor do que se paga por uma hora de estacionamento no centro de São Paulo! Ela ainda se justificou: “Não compensa financeiramente, mas tenho amor pelas crianças!”. De um lado a tremenda injustiça de um salário que é uma afronta, além de ilegal e, de outro, a pura gratuidade e generosidade daquela mulher, com apenas quatro anos de escolaridade, para com aquelas crianças!

Noutro noticiário, milhões de unidades de pílulas anticoncepcionais, retidas pela Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul, por estarem comprovadamente fora dos padrões de qualidade exigidos, continuam sendo distribuídas em Manaus e em outros Estados do Norte e do Nordeste, colocando em risco a saúde e a vida das mulheres que as recebem de graça do governo. De um lado, desperdício dos parcos recursos da saúde pública, de outro, criminosa irresponsabilidade e descaso pela saúde de mulheres pobres que se socorrem dos postos de saúde públicos.

Esses três exemplos colhidos são uma amostra da realidade de como as pessoas, sem estarem numa cadeia, encontram-se prisioneiras. Prisioneiras de um transporte em que são pior do que lixo, de um sistema educacional que escarmenta professoras e crianças, de um sistema de saúde que perdeu rumo e dignidade.

Se percorrermos essas muitas prisões fora das grades das cadeias, podemos agrupá-las em torno de dois grandes blocos: o das desigualdades e injustiças e o das limitações pessoais e incertezas.

 

3. Prisioneiros das desigualdades e injustiças

Fizemos da desigualdade o elemento fundante e estruturante da sociedade brasileira, seja com o projeto colonial, seja com o sistema escravista, seja com o capitalismo desabrido que vem gerando riquezas fantásticas nas mãos de poucos e exclusão e miséria para as maiorias.

Corremos o risco, governantes e cidadãos, de acabar nos conformando com esta situação, como se ela não constituísse para milhões de pessoas uma prisão implacável com amplas portas de entrada e escassas portas de saída.

Num artigo recente, fala Frei Betto de Aristófanes, que escreveu em Atenas em 399 antes de Cristo, distinguindo a pobreza da miséria: “Pobre é aquele que ‘nunca cessa de trabalhar, nada há de supérfluo em sua casa, porém nada lhe falta’. Miserável ‘é o mendigo que nada tem de próprio, nem sequer um óbolo’”. Prossegue citando o Pe. Júlio Lancelotti, que, na cidade de São Paulo, ocupa-se das crianças aidéticas e dos sofredores da rua:

“Se acordássemos amanhã sem nenhuma criança de rua, quem sentiria falta delas? Se, na madrugada todos os que vivem nas ruas fossem exterminados, quem haveria de chorar?”

Comenta Frei Betto:

“Convém acrescentar: se todos os sem-terra e os desempregados fossem tragados pelo destino, quem se importaria? O governo respiraria aliviado, os latifundiários sentir-se-iam eleitos de Deus, o Banco Mundial passaria a borracha nas cifras brasileiras e, com uma canetada, incluiria o país entre os mais desenvolvidos.

Paul Samuelson, autor da frase ‘a guerra contra a pobreza terminou e os pobres perderam faria esta modificação em relação ao Brasil: ‘Pois os pobres morreram’.

A miséria estorva. Sobe às nossas portas como águas ameaçadoras de uma enchente, nos obriga a transformar nossas casas em presídios informatizados, faz repousar nossas joias em cofres e tinge de sangue as páginas da mídia.”

Passado o confronto com o socialismo, hoje o capitalismo perdeu todo o pudor “e escancara suas próprias contradições. Na sua versão neoliberal, a exclusão é o mais amargo fruto do sistema. Exclui do emprego, da terra, dos direitos civis, do acesso ao mercado. Muitos, condenados a morrer antes do tempo, se arrastam pela vida como os mendigos de Aristófanes. Outros recorrem à sobrevivência a qualquer custo: narcotráfico, crime, contravenção. Milhares agonizam andrajosos, pelas esquinas, fantasmas vivos de nossos pesadelos reais.

E o que faz o poder público, cuja síndrome de privatização chega ao limite de privar a maioria da população dos seus direitos sociais? Imbuído da vontade política deliberada pelo Consenso de Washington, que desconsidera investimentos em políticas sociais, respinga gotas de água no inferno: uma cesta básica do programa Comunidade Solidária, um Projeto Cingapura que não atinge as causas da favelização — esmolas que os políticos concedem à própria vaidade. No rol de reformas da União, nada que signifique um mutirão nacional contra o desemprego, pela reforma agrária, a favor da saúde pública ou em prol de escolas que absorvam as crianças de rua”.

“[…] A que pretende dar curso o atual presidente? À privatização do patrimônio público? Tivesse empreendido uma campanha nacional para eliminar o analfabetismo de 30 milhões de brasileiros ou assegurar trabalho a 7 milhões de desempregados, haveria razão justificável para lhe conceder mais um mandato. O que temos, porém, é muito pouco: a estabilidade da moeda à custa de juros extorsivos, de gritante desigualdade social e de crescente instabilidade da nação” (cf. Frei Betto, “Aristófanes e o Brasil”, in O Estado de S. Paulo, 16/10/1996, A-2).

Quando, hoje em dia, constata-se a falência do Estado e verifica-se sua ineficiência em assegurar os assim chamados serviços públicos, propõe-se indiscriminadamente a privatização de todos esses serviços, como forma de se assegurar maior eficiência e qualidade.

A contrapartida é que esses serviços sejam explorados de forma empresarial e lucrativa. Alguns avançam a proposta de uma radical privatização do conjunto da saúde, da educação, da previdência social e até mesmo dos serviços de segurança e polícia.

A substituição da pesada e quase sempre ineficiente burocracia estatal, por modernos métodos de gestão e gerenciamento podem aumentar a eficácia dos serviços, melhorar sua qualidade e mesmo baratear seus custos.

Na prática, estamos criando duas sociedades, a que pode pagar pelos serviços e os terá com qualidade, e a outra, mais numerosa, que será impiedosamente excluída até dos serviços essenciais. Tomemos a água e o saneamento básico, como exemplos. São imprescindíveis para assegurar a saúde pública, evitar surtos de diarreia e epidemias ligadas à contaminação da água ou ao incorreto manejo das águas servidas e do esgoto. Nas cidades onde se implantou uma gestão exclusivamente “empresarial” dos serviços de água e esgoto, aumenta vertiginosamente o número de famílias com a água cortada por inadimplência no pagamento e deixam-se ao léu os bairros onde seria caro implantar o esgoto por ser pequeno o retorno imediato de uma população de baixa renda.

Definem-se como “públicos” aqueles serviços essenciais que deveriam ser assegurados a todos, como água, luz, moradia, saúde, educação, aposentadoria, bem como transportes e espaços de lazer e convivência, sobretudo nas grandes cidades.

Sob a pressão de um individualismo extremado e de propostas neoliberais para o Estado e a sociedade, vai-se perdendo a noção do que é “público” e a percepção de que uma sociedade deve assegurar a todos um mínimo de serviços essenciais, sejam eles fornecidos pelo Estado ou por empresas privadas, através de concessão. O que não se pode perder de vista é que são serviços públicos e como tal essenciais e acessíveis para todos.

O que está acontecendo é a privatização pura e simples dos serviços, abrindo-se para sua exploração comercial. Os que podem pagar pelos novos serviços entram, por exemplo, num plano de saúde privado, dos que hoje invadem as telas da TV — tipo Unimed, Amil, Blue Life, Golden Cross —, assegurando um atendimento de Primeiro Mundo. Mas essas mesmas pessoas, logo depois, começam a reclamar por pagar duas vezes: uma recolhendo sua contribuição para o Estado, no INSS, e outra, pagando as parcelas mensais do seu convênio-saúde.

Com a debandada dos mais ricos e mesmo da classe média, deixando de utilizar as prestações de saúde oferecidas pelo Estado através do SUS, abandonando a escola pública, fugindo do transporte coletivo, cessou também a pressão dessas classes sociais pela melhoria e eficiência desses serviços públicos. Os pobres assistem impotentes à sua total degradação. Isso vale para os trens de subúrbio (o dinheiro público é investido em viadutos e túneis para os usuários de automóveis), mas vale sobretudo para a saúde, a escola, o sistema previdenciário e habitacional. Como mais e mais só são destinados aos pobres, há também um abandono desses serviços pelos melhores profissionais, que passam a trabalhar para as empresas de saúde, de educação, de seguros, bem mais rentáveis e prestigiosas do que as instituições públicas.

Essa é uma prisão, em cujas teias vão sendo amarradas os trabalhadores e cidadãos empobrecidos.

Ela ameaça, porém, o setor rico da população, que vai criando um mundo à parte, com seus bairros exclusivos, seu sistema de saúde, escola e previdência, pois vai-se esgarçando a solidariedade social e os laços de convivência, substituídos por muralhas cada vez mais altas em torno das casas, por gastos crescentes com empresas de segurança privada e, finalmente, com crescente incerteza e medo de assaltos, roubos e sequestros.

A desigualdade torna-se hoje mais pungente e intolerável, pois a televisão mostra um mundo de sonhos e bem-estar inacessível à maioria, enquanto anunciantes atiçam um desejo infinito de consumo e posse de bens inalcançáveis para o parco rendimento dos que trabalham ou estão desempregados.

É uma exasperação que leva a desatinos. A publicidade, ao ligar a posse de determinados bens a promessas de felicidade e valor, tem levado crianças e adolescentes a roubar e a matar por um par de tênis importado, a tiranizar os pais para obter uma boneca ou brinquedos caros, para comprar uma roupa da moda ou de uma griffe famosa.

As desigualdades antigas, herdadas de um regime escravista que negou liberdade, retribuição por serviços prestados e os mais elementares direitos da pessoa, vieram somar-se outras forjadas pelo sistema neoliberal que vai se implantando.

A mais grave de todas é o desemprego crônico e estrutural que desespera pais e mães de família, fecha as portas aos jovens em busca do primeiro emprego e vai criando uma economia informal baseada na precariedade e na incerteza.

O desemprego vem agravando outras chagas sociais: o alcoolismo, a desagregação familiar, o abandono de crianças e jovens, a violência, o suicídio. Diante de tudo isso, muitos se perguntam o que fazer para escapar a uma certa impotência e fatalismo.

 

4. Por uma sociedade onde caibam todos

Não está na hora de mudarmos radicalmente nosso modo de viver e pensar, começando a construir uma sociedade onde caibam todos e onde a todos sejam asseguradas aquelas condições mínimas de vida humanamente digna?

Por isso, neste momento, não basta mais inventariar as causas das mazelas nem protestar, mesmo que essas sejam atitudes saudáveis e necessárias. O clamor hoje é por saídas e soluções.

O que fazer?

Um primeiro caminho é o da redução das gritantes desigualdades sociais. Não se pode negar que o plano real, reduzindo a inflação, eliminou para a grande massa de assalariados que recebia uma moeda com desvalorizações diárias, o cruel imposto inflacionário, permitindo um ganho no seu parco poder de compra. Por outro lado, o desemprego gerado pelo mesmo plano de estabilização alijou do mercado de trabalho e de consumo milhões de brasileiros. Não há saída para a exclusão, sem uma imediata reforma agrária e agrícola que permita o assentamento dos mais de 7,5 milhões de famílias de trabalhadores rurais sem-terra e sem um consistente plano de geração de emprego para as cidades, através da multiplicação e consolidação de micro e médias empresas.

Enquanto não se resolvem problemas estruturais, cuja solução exige o investimento persistente da sociedade e do Estado, por várias gerações, pode-se atacar imediatamente a miséria, através de programas de renda mínima, já implantados com sucesso por prefeituras como a de Salvador, Ribeirão Preto e Campinas. Outras prefeituras, como a de Brasília, em vez de destinar fortunas apenas para a segurança ou para instituições dispendiosas e que dificilmente conseguem recuperar e educar menores infratores e carentes, estão dando meio salário mínimo a famílias pobres, cujas crianças frequentam regularmente a escola. É o meio de evitar o trabalho precoce dessas crianças pressionadas pelas carências da família ou de tirá-las da rua, onde, pedindo esmola, prestando pequenos serviços ou roubando, tentam completar a renda doméstica.

Um segundo caminho é o da melhoria dos serviços públicos. Os pobres estão condenados a valer-se dos serviços públicos: creches, escolas, postos de saúde, hospitais, previdência, transporte coletivo. O jeito é fiscalizá-los, exigindo investimentos e melhoria de qualidade. A Constituição colocou nas mãos dos cidadãos instrumentos de controle. Nas cidades onde os conselhos de saúde funcionam, os conselhos da criança e do adolescente são tomados a sério, em que os pais acompanham a escola, tem havido, por vezes, sensível melhora da qualidade, pontualidade e seriedade do serviço público. Onde um conselho de usuários, junto com empresários e poder público, examina planilhas de custo, planos de investimento, as tarifas de ônibus urbanos não têm subido tanto e a qualidade do serviço tem sido implementada.

Um terceiro caminho é o que exercitamos nas últimas eleições: o caminho político de escolher administrações municipais voltadas para os interesses das maiorias. Municípios pobres e pequenos, mas bem administrados foram capazes de verdadeiros milagres: drástica redução da mortalidade infantil e da desnutrição das crianças, eliminação do grande contingente de crianças e adolescentes fora das escolas, incentivo aos pequenos e médios produtores rurais, às microempresas e ao artesanato.

Um quarto caminho é a pressão organizada e constante para se obter determinadas reformas e investimentos, como vem fazendo o Movimento dos Sem-Terra, em favor da reforma agrária e de uma política de valorização do produtor rural.

 

5. A prisão das incertezas e limitações pessoais

Já passei, como amigo e padre, pela dolorosa experiência de precisar comunicar a um pai o diagnóstico médico acerca do filhinho que nascera com a síndrome de Down e de ver desabar, de repente, sonhos e esperanças e desenhar-se no seu rosto profunda e desolada interrogação, sem poder aportar nada, além de uma solidariedade muda e sofrida.

A deficiência mental e física por nascimento, doença ou acidente constitui um capítulo imenso desta prisão que envolve milhões de seres humanos e cuja extensão e profundidade as pessoas que podem ver, falar, ouvir, andar, pensar, escrever, cantar, jogar, mal podem imaginar.

No Brasil, há milhões de crianças e adultos atingidos por graus mais ou menos graves de deficiência mental ou de deficiência física: cegueira, surdez, mudez, paralisia de um ou mais membros do corpo. Outros são atingidos por doenças graves e crônicas que limitam sensivelmente a capacidade de trabalho, locomoção, autocuidado ou comunicação. Há ainda famílias que escondem um filho ou filha excepcional, enquanto outras se desestruturam incapazes de lidar com a deficiência, de superar o cansaço e a dor, de responder às necessidades ou de arcar com os gastos com médicos, remédios e atendimento dessas pessoas. No círculo da limitação de um ou mais membros de uma família acabam se aprisionando muitas das outras pessoas da casa, especialmente a mãe.

Muitos pais carregam além do cansaço e do sofrimento, sentimentos de culpa que são, por sua vez, nova prisão em que ficam encerrados e por vezes debatendo-se.

Há ainda prisões inesperadas como a de jovens casais que não conseguem um filho, por inesperada esterilidade dele ou dela. Por vezes, quantos anos se passam na busca e na incerteza, até que um tratamento feliz reabra uma porta de esperança ou um desabrochar de generosidade e amadurecimento os conduza a uma adoção. Quantos, entretanto, não conseguem escapar dessa decepção, permanecendo infelizes e prisioneiros de sua frustração.

Não é necessário estender-me sobre essas situações, pois muitos dos leitores as conhecem por experiência própria ou estão empenhados em revertê-las.

De novo, estamos diante de prisões que prendem, às vezes através de fios invisíveis, mas nem por isso menos reais e diante de esforços e lutas para que passe um raio de luz ou se acenda uma esperança na vida das pessoas.

Se entramos numa APAE (Associação de Pais e Amigos do Excepcional), abre-se diante de nossos olhos o quadro humano deste novo tipo de prisão: a prisão das limitações do próprio corpo, na sua motricidade e coordenação ou no alcance da sua inteligência.

Se passamos a uma Instituição para Cegos, testemunhamos o esforço inaudito para compensar as limitações visuais, desenvolvendo o tato, o sentido de orientação, de superação do medo, para poder caminhar, realizar tarefas simples e por vezes complexas, estudar, deslocar-se dentro da cidade, participar. Somos devedores dos que, por compaixão e férrea vontade, criaram sistemas alternativos para os cegos, como o alfabeto Braille ou modernos computadores, com teclado e telas em relevo que se lhes abre um mundo insuspeito de aprendizado e comunicação.

Se nos encontramos com deficientes auditivos, presenciamos esta que é talvez a pior das prisões e uma das mais dolorosas deficiências físicas, por cortar a pessoa do convívio humano e da comunicação da linguagem. Surdos de nascença, eram praticamente condenados à surdez e à mudez por toda a vida. Mas somos também hoje testemunhas dessa luta titânica de muitos desses deficientes por aceder ao mundo dos sons, da voz humana e da comunicação; testemunhas do esforço de médicos, engenheiros e técnicos em eletrônica, para criar aparelhos capazes de transmitir à caixa craniana as vibrações que possam ser captadas e interpretadas auditivamente; de pedagogos empenhados a ensinar a leitura labial ou a linguagem dos gestos.

Já pude acompanhar, também, como professor no curso de especialização de pedagogia para excepcionais, o esforço cotidiano, pertinaz, inteligente e devotado de jovens professoras e atendentes, para ajudar crianças excepcionais a superar limitações físicas e mentais. Pessoas que dentro de uma estreita margem de possibilidades, continuavam acreditando que o patamar alcançado hoje podia ser de novo ultrapassado amanhã, gerando uma qualidade de vida melhor, lá onde todos os prognósticos eram sombrios ou desesperadores. Dentro desse quadro, pude ver crianças que emitiam apenas sons desconexos começar a falar, auxiliadas por fonoaudiólogas, crianças sem coordenação motora começar a andar, a vestir-se e a alimentar-se e, mais tarde, a jogar e a brincar. Pequenos e obscuros milagres, alcançados pela inteligência e solidariedade humanas, pela perseverança de mães, capazes de repetir a cada dia os exercícios necessários ou de profissionais animados a continuar suas pesquisas, a partilhar suas descobertas, a inventar novos instrumentos, para o aprendizado e desenvolvimento dos menos dotados ou atingidos por deficiências visuais, auditivas, motoras e mentais.

 

6. Eu também posso fazer algo

Aqui valem igualmente os esforços coletivos por acordar a sociedade, o Estado, as Igrejas e outras instituições para suas responsabilidades. Aqui, porém, mais do que em outros campos, conta a iniciativa pessoal, a responsabilidade por fazer recuar, no mundo, o mal e o sofrimento. Muitas das iniciativas nesta área estão ao alcance das pessoas, mesmo das que não podem dispor de nenhum recurso financeiro.

Basta, às vezes, muito pouco: a iniciativa de uma criança que reserva umas horas, na sua semana, para ler um jornal ou um livro para uma pessoa cega; a do jovem que vai buscar a pessoa presa a uma cadeira de rodas, para um passeio até a praça; a do grupo de jovens que organiza uma visita a um asilo de pessoas idosas, para levar uma tarde de música e divertimento; a da pessoa que vai varrer e limpar a casa de uma pessoa só e entrevada; a da comunidade que se mobiliza para organizar uma missa dos enfermos, indo buscar de condução os que não podem locomover-se, oferecendo-lhes assim a possibilidade de sair da cama ou das quatro paredes onde estão encerrados, tomar um outro ar, encontrar outras pessoas, sentir-se membro da comunidade, cantar e rezar junto com outras pessoas.

 

7. A prisão mais difícil de suportar é a da solidão e do isolamento

Por isso a pastoral da visita que chega até essas pessoas que não têm mais com quem conversar ou se abrir — e por isso se tornam prisioneiras dos próprios medos e demônios —, é tão necessária e urgente, traz tanto alívio e produz verdadeiros milagres.

Nesse sentido, cabe redescobrir todo o evangelho da compaixão e da misericórdia, como uma forma de profunda libertação para os que estão prisioneiros de si mesmos, de suas limitações, dores e angústias.

No coração da prática de Jesus, estava esta atenção ao ser humano em suas necessidades e limitações.

Ao paralítico, em sua enxerga, Jesus acode: “Filho, os seus pecados estão perdoados”, acrescentando, para os que o acusavam de blasfemar: “Pois bem, para que vocês saibam que o Filho do Homem tem poder na terra para perdoar pecados — disse Jesus ao paralítico —, eu ordeno a você: ‘Levante-se, pegue a sua cama e ande’” (Mc 2,3-11).

Aqui Jesus oferece ao paralítico uma libertação da prisão interior dos próprios pecados e certamente da própria amargura com seu destino e sorte, junto com a libertação daquela limitação do ir e vir e da dependência de outros para o menor deslocamento.

No episódio do leproso que lhe pedia de joelhos: “Se queres, tu tens o poder de me purificar”, Jesus o toca dizendo: “Eu quero, fique purificado”, mandando-o em seguida ao sacerdote para examiná-lo (cf. Mc 1,40-44).

Jesus, antes de curar o leproso de sua doença, cura-o da exclusão, que fazia dele um intocável. Jesus começa por tocá-lo, por restabelecer um laço humano de aproximação, tirando-o da maldição que o obrigava a fugir de qualquer contato com outra pessoa. Ao enviá-lo ao sacerdote, quer ainda libertá-lo da exclusão social e religiosa a que estava condenado o leproso, segregado da família, do convívio dos amigos, vagando fora das cidades, maldito e proibido de participar de qualquer ato religioso por ser pessoa considerada impura e, portanto, em pecado. Não bastava curar da lepra da carne. Jesus queria curá-lo todo inteiro e sobretudo da lepra da exclusão social e religiosa.

Ao cego de nascença, sobre quem os discípulos perguntavam se havia pecado ele ou seus pais, Jesus não oferece apenas a luz dos olhos, mandando-o lavar-se na piscina de Siloé, depois de cuspir no chão, fazer barro e com a saliva e o barro ungir seus olhos. Jesus está empenhado em destruir o preconceito religioso dos discípulos que sobre a deficiência física construíam outra, de caráter moral: se era cego, era porque havia pecado; e se não ele, pelo menos seus pais. Era como se o cego carregasse, além da cegueira, as prisões de um pecado oculto ou hereditário, sendo os discípulos também prisioneiros deste preconceito religioso e cultural. Curado o cego e libertados os discípulos de uma religião que oprimia, Jesus reencontra o cego, já então perseguido expulso da sinagoga. Vai propiciar-lhe a graça maior de outra descoberta. À pergunta de Jesus sobre se ele acreditava no Filho do Homem, o cego respondeu: “‘Quem é ele, Senhor, para que eu acredite nele?’. Jesus disse: ‘Você o está vendo; é aquele que está falando com você’. O cego que tinha sido curado, disse: ‘Eu acredito, Senhor’. E se ajoelhou diante de Jesus” (Jo 9,1-41).

Jesus surpreende a mulher samaritana, por dirigir a palavra em público a uma mulher, e mais ainda, uma mulher samaritana. Homem e mulher, mais ainda sendo de um lado, judeu e de outro, samaritano, não conversavam entre si. Jesus supera a exclusão de gênero e a discriminação de raça, cultura e religião (cf. Jo 4,1-30).

Esses quatro exemplos de Jesus mostram-nos um caminho que ultrapassa o imediato da compaixão, que presta socorro a um cego, a um paralítico, a um doente de AIDS, a nova lepra do nosso tempo, e rompe as barreiras da discriminação contra a mulher, a samaritana, de cultura e religião diferentes. É um caminho atento aos sofrimentos e prisões invisíveis e à possibilidade deste inesperado momento de graça que dá novo sentido à vida. O paralítico volta andando e perdoado nos seus pecados; o leproso sai curado e em busca da verificação do sacerdote que o livre da exclusão social e religiosa; o cego parte para lavar-se, com a esperança de recuperar a vista e alcança ainda a graça do encontro com Jesus e da fé no Messias; a samaritana corre à cidade para anunciar Jesus: “Não seria ele o Messias, o salvador?”.

Podemos, em nossas comunidades, tecer, de modo eficaz, uma rede de serviços e de pequenos gestos que libertem a muitos e muitas dessas prisões do cotidiano, tanto físicas quanto morais, que aliviem sofrimentos e despertem esperanças. Pode ser um fruto duradouro desta Campanha da Fraternidade, preocupada com os encarcerados que se encontram dentro e fora das prisões.

Paulo, que fez inúmeras vezes a experiência da prisão, sabia o que elas podiam trazer de isolamento, esquecimento e abandono por parte dos demais, como nesta sua queixa na carta a Timóteo, a quem escreve da cadeia em Roma, pouco antes de sua morte:

“Na minha primeira defesa no tribunal, ninguém ficou ao meu lado, todos me abandonaram” (2Tm 4,16).

Mas ele logo se arrepende da queixa dizendo: “Que Deus não ponha isso na conta deles!”, e dá testemunho desta presença que não abandona nem a ele, nem a nós: “Mas o Senhor ficou comigo e me encheu de força, a fim de que eu pudesse anunciar toda a mensagem, e ela chegasse aos ouvidos de todas as nações. E assim eu fui liberto da boca do leão. O Senhor me libertará de todo mal e me levará para o seu Reino eterno. Ao Senhor, glória para sempre. Amém!” (2Tm 4,16b-18).

Mas Paulo estava igualmente consciente das amarras e prisões a que estavam presas as pessoas no seu cotidiano e para as quais uma palavra, o conforto da oração e da solidariedade podiam trazer remédio, consolo e libertação.

Pe. José Oscar Beozzo