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Publicado em número 198 - (pp. 7-12)

Perplexidades de quem educa

Por Pe. José Comblin

A educação cristã forma para a liberdade?

1. Educação para a liberdade

A vocação cristã é para a liberdade. “Vocês são chamados para a liberdade”, diz são Paulo, sinte­tizando assim toda a prática de Jesus e dos primeiros cristãos (cf. Gl 5,13). Desde então, toda a educação cristã sempre foi orientada por esse princípio.

Claro, muitas vezes na história esse princípio foi obnubilado pela multiplicação das regras e das normas, pela organização das atividades ditas pedagógicas e pela busca da segurança antes que da liberdade por parte dos educadores. No entanto, sempre reaparecem reformas, renovações, redescobertas do princípio da liberdade, que é a base da vida e, por conseguinte, da educação cristã.

Porém, o que é a liberdade? Qual é a liberdade que se propõe como valor supremo e norma prioritária?

Sobretudo desde o século XIV apareceram sucessivamente muitos desvios do conceito de liberdade. No entanto, desde então, todas as novas aspirações sociais e culturais, as novas fases da cultura ocidental, até a modernidade e a pós-modernidade, todos propõem a liberdade como valor supremo. De certo modo, todas as concepções da vida nascidas desde a Idade Média da matriz medieval permaneceram em continuidade com as origens cristãs. Mudaram o conteúdo da liberdade, mas guardaram do cristianismo que o valor supremo do ser humano é a liberdade e que o primeiro princípio da educação é a formação para a liberdade.

Diante dos entusiasmos modernos e pós-modernos pela liberdade, intimidados educadores cristãos não se atreveram mais a propor a liberdade como meta, pondo em seu lugar a obediência à lei de Deus. Voltaram ao judaísmo por medo de cair no paganismo. Medo errado. A mensagem cristã é muito clara: somos feitos para nos tornar seres livres.

Porém, como diz ainda são Paulo, a liberdade não se alcança satisfazendo os desejos da carne, mas atuando o serviço mútuo voluntário. O ser humano torna-se livre no encontro com os irmãos e as irmãs, no dom de si que expressa o dom da vida por Deus, no serviço da vida do próximo (cf. Gl 5,14ss). A liberdade não consiste em agir de acordo com os desejos imediatos. Tal agir seria, antes, uma forma de escravidão. Ser livre é viver plenamente, sem obstáculo e sem limite.

Ora, onde é que se realiza esse viver plenamente o exercício das capacidades de agir? Na comunicação com o outro, no dom ao outro, no derramar da vida sobre os outros. Vive mais intensamente quem dá mais vida, quem transborda de vida. Assim é a liberdade de Deus.

Acontece que os desejos imediatos não levam a tal liberdade. Pelo contrário, diante dos outros tomam atitudes de defesa, rejeição, conflito, rivalidade. Esses são todos frutos da carne, na descrição de são Paulo (cf. Gl 5,19ss).

Como educar para a liberdade?

Há alguns anos esteve em voga — continuando a vigorar em alguns ambientes — a educação permissiva. Supunha-se que o obstáculo à liberdade seriam as regras, as cobranças, os castigos e as ameaças. O ser humano cresceria espontaneamente na liberdade se estivesse “livre” de qualquer estrutura imposta da parte de fora (pela família, pelo costume, pela vizinhança ou pelos sistemas educativos).

No entanto, o que se viu foi que essa educação somente leva a uma busca de satisfação dos desejos, isto é, a uma caricatura de liberdade: pessoas assim formadas não se comprometem, não fazem doação de si mesmas, não são capazes de amor ou disfarçam o egoísmo sob palavras de amor. A educação permissiva forma para o narcisismo em que tantos educadores e filósofos norte-americanos acham que o seu povo está mergulhado e que, para eles, seria uma característica muito pronunciada da nova cultura norte-americana.

A educação permissiva levava os postulados da modernidade às suas mais extremas consequências. Na modernidade o homem nasce livre e somente não consegue viver livre porque as estruturas culturais, religiosas e sociais impedem essa liberdade. Basta remover tais obstáculos e a liberdade aparecerá na sua plenitude. Durante muitas gerações, a força das tradições da família e da cristandade impediu que as teorias modernas se aplicassem na educação. Ultimamente muitas barreiras caíram, até mesmo em matéria de educação.

A doutrina cristã autêntica afirma que a liberdade não é inata, não é espontânea. É um dom de Deus e uma vocação que se busca com paciência e perseverança durante a vida toda. Desde o nascimento o ser humano — conforme o retrata são Paulo no capítulo 7 da epístola aos Romanos — é contraditório: quer o bem, mas faz o mal; quer uma coisa, mas faz a outra. Não tem força suficiente: a sua liberdade não consegue afirmar-se. Permanece escrava do “pecado”. Os modernos, porém, negam o pecado e, por isso, acham e dizem ingenuamente que fazem o bem. Não querem confessar a realidade. Permanecem na superfície de si mesmos e se enganam, assim como enganam os outros a respeito do que realmente são.

De acordo com a tradição cristã que recapitula e condensa uma longa experiência, a educação deve ser exigente. Deve propor aos educandos um programa que exige deles uma superação de si mesmos, algo além daquilo que eles mesmos fariam. Não se educa simplesmente por meio de ideias, de lições ou de reflexões intelectuais. Assim pensavam os otimistas modernos: bastava libertar a mente dos educandos das ilusões e dos erros, dos preconceitos, das tradições religiosas, culturais, sociais, dos costumes e das autoridades tradicionais. Uma vez liberta, a mente levaria a uma conduta livre. Sabemos que não basta ensinar, porque das ideias não segue automaticamente o agir. Os seres humanos sabem o que é bem, mas não o fazem, não por má vontade, mas por fraqueza, por incapacidade. Por conseguinte, a educação consiste em levar os educandos para o agir. Aprendem agindo muito mais do que pelas doutrinas. Aprende-se a agir livremente pelo agir. É justamente isso que falta nas escolas atuais, filhas da modernidade. Transmitem ideias, mas não levam a agir. Ora, o agir é muito mais importante e as ideias somente valem quando se sobrepõem a um agir anterior. As ideias iluminam, mostram o valor e a racionalidade do agir. Porém não basta saber que tal agir é bom para agir efetivamente.

Então a educação consiste em propor um programa de ações nas quais o educando vai aprendendo o valor do agir livre. No início ele cumpre porque está programado, não porque ele mesmo decidiu e escolheu. Se o programa educativo é consequente, o educando aprende a gostar do que faz e, mais tarde, anima-se a querer fazer espontaneamente o que aprendeu a fazer de modo programado.

Estranhamente, hoje em dia, as escolas católicas diferem pouco das escolas públicas inspiradas na modernidade. Ensinam ideias, mas não ensinam a fazer. Não ensinam a agir na sociedade, uns para com os outros. Não ensinam a servir, a fazer da sua vida um dom da vida. Dizem isso com palavras, mas têm poucos programas de agir efetivo para ensinar de fato, isto é, para suscitar inclinação que encaminhe a agir nesse sentido.

Antigamente as escolas cristãs transmitiam poucas ideias, mas sabiam comunicar comportamentos, modos de viver. Atualmente abdicaram diante da força do Estado e da mentalidade modernos. Porém todos se queixam da educação da modernidade e da falta de preparação para a vida real. Os jovens não são realmente iniciados para a vida comunitária e social pelo sistema escolar. Essa mentalidade moderna entrou até mesmo nos seminários e nos noviciados. Formar estaria sendo, então, ensinar ideias.

Por isso, a educação consiste em colocar os formandos numa programação de ações, sistematicamente organizadas, do modo que a experiência mostrar ser o mais eficaz. Tal programação não significaria voltar à “lei” denunciada por são Paulo pela sua ineficácia? Não seria fechar a porta à liberdade?

Aí está o grande problema. São Paulo não exclui totalmente a lei, confere-lhe papel pedagógico. A lei é boa e útil durante o período da formação até a idade adulta. No entanto, a tradição cristã foi, aos poucos, “cristianizando” essa lei cujo papel se reconhece necessário ainda que subordinado. A lei nunca é o definitivo. O ser humano não pode, indefinidamente, agir na dependência de uma lei, ou seja, de uma vontade alheia, seja ela individual ou coletiva, personificada numa “lei”.

Na educação há uma fase em que a vontade do educando se submete de fato a uma vontade diferente: cumpre uma programação que emana do educador. No entanto, o educador sabe que se pela sua vontade humilha, intimida, restringe a vontade do educando, não o prepara para a liberdade. As ações propostas pela programação não podem ser sentidas como humilhação. Naturalmente não podem ser o produto de uma vontade arbitrária do educador, menos ainda de fazer sentir o peso da sua superioridade. Além disso, a programação será sempre atenuada pela concepção cristã do perdão: qualquer sanção será atenuada pelo perdão. Todas as normas e imposições têm suas exceções. Uma regra nunca será aplicada simplesmente porque é lei, entendendo-se que a lei sempre se aplica.

O princípio “dura lex, sed lex”, não é princípio cristão. O princípio cristão é o da epiqueia. Mais forte do que qualquer lei é sempre a circunstância excepcional, o caso especial, a dificuldade particular. O cristão nunca aplica 100% a lei porque sabe que as leis foram definidas para os casos habituais, e que a lei nunca prevê tudo o que pode ocorrer.

Dessa maneira a lei educa, prepara para agir, constitui um exercício da capacidade de agir. Com o auxílio de programações adequadas, o educando vai descobrindo as suas energias e possibilidades, vai conhecendo e aprendendo a enxergar o mundo e os outros de modo pacífico. Aprende a harmonizar o seu próprio ser com o ser dos outros. Aprende a amar e a servir.

Infelizmente houve na história da cristandade, por influência de uma cultura ainda não penetrada pelo evangelho, pedagogias fundadas na obediência total, na submissão total a uma autoridade.

Hoje reaparecem, na América Latina, métodos de educação que propõem a volta à obediência cega. Trata-se da educação pela destruição da própria vontade por meio da imposição cega da vontade arbitrária de pessoas humanas (superiores ou regras). Já que os superiores e as regras atribuem a Deus as suas arbitrariedades, blasfemam e ensinam uma falsa religião. Paradoxalmente, os que praticam tais métodos conseguem reunir muitas vocações. Praticam a chantagem e/ou lavagem cerebral e, dessa maneira, podem conquistar mentes e corações. A longo prazo, tal educação prepara reações terríveis.

A dúvida dos educadores é esta: Até que ponto devemos impor, com insistência, determinado programa? Como devemos sancioná-lo?

Salvo as exceções mencionadas — não há necessidade de dar nomes, pois todos sabem de quem se trata —, a tendência dominante é de fraqueza, falta de autoridade, pouca exigência, como se os educadores tivessem medo de ser autoridade.

De fato, na pós-modernidade toda autoridade foi de tal modo criticada, desconstruída, analisada e condenada que poucas pessoas ainda se atrevem a exercê-la. O problema da educação é, agora, que pouquíssimos querem ser educadores porque não querem exercer a autoridade. Muitos educadores bajulam os seus alunos, buscam popularidade, ser bem vistos e, por isso, deixam de educar. Acontece com os educadores o que já foi dito tantas vezes dos pais. A paternidade foi de tal modo criticada que pouquíssimos pais querem ser pais. Querem ser amigos dos filhos e se tornam escravos deles. Assim, abdicam da paternidade e caem na demagogia familiar, cópia fiel da demagogia política ou da demagogia dos professores, dos educadores, e, até mesmo, dos formadores religiosos. A consequência é que os educandos não alcançam a verdadeira liberdade, mas ficam no nível do narcisismo, incapazes de amar, servir, construir relações humanas autênticas.

 

2. Educação pela autoridade

O mais necessário — e o que faz mais falta — para a educação é a autoridade. A autoridade não vem por decreto, porque alguém foi “nomeado”. Nem a nomeação nem a eleição conferem autoridade a alguém. A autoridade não é fabricada nem pode ser comprada. Ela existe ou não. À semelhança do carisma, alguém tem ou não autoridade. Esta não pode ser conquistada pelas armas nem pelo dinheiro.

Em minha experiência recente junto às comunidades de base, ao clero, aos movimentos, às pastorais e à formação de líderes — começando pela formação sacerdotal — deduzo uma constante: quase ninguém quer exercer a autoridade. Todos têm medo. O fenômeno é ainda mais forte no mundo popular. Os pobres têm medo de exercer a autoridade. Têm medo do julgamento dos outros. Não querem ser criticados e contestados. Cedem diante de qualquer crítica. Desesperam-se quando aparece uma oposição.

A autoridade ficou tão desacreditada! Acontece a mesma coisa com os educadores: não querem ser criticados e contestados.

A abdicação da autoridade tem como consequência a demagogia. Em vários municípios do Nordeste os prefeitos mandam expor cartazes que dizem “o prefeito faz o que o povo quer”. Como se o seu papel fosse esse. Tem ou devia ter autoridade para ver mais longe do que o povo. Ele devia prever o que o povo não prevê, preparar o futuro que o povo não prepara, como José no Egito.

Autoridade consiste em fazer com que o povo aceite o que é para o seu bem, para além do querer imediato, não se deixando enganar pelas aparências. Essa é também a função dos educadores. Por isso o educador não existe para satisfazer a vontade imediatista dos educandos, mas para mudar-lhes essa vontade.

Esse mesmo tipo de demagogia, que no fundo é covardia, encontra-se também no mundo católico. Uma vez que os leigos não querem aceitar nem ser autoridade, pedem que os sacerdotes e agentes de pastoral decidam tudo. O clericalismo não deriva sempre, nem de modo primordial, da vontade de poder dos sacerdotes, mas, muitas vezes, da covardia dos supostos líderes leigos que não querem liderar. É verdade que, nos últimos tempos, na Igreja católica não se desenvolveu o sentido da autoridade. Podemos comparar a nossa situação à dasIgrejas pentecostais. Ali os pastores estão sem complexos e exercem sem restrições a sua autoridade. Alguns a consideram abusiva. No entanto, os fiéis não se revoltam e as Igrejas prosperam, exatamente graças à autoridade dos pastores.

A autoridade é necessária porque as pessoas não se movem até não encontrar uma pessoa “inspirada”, “forte”, capaz de atrair, uma pessoa de quem emana energia, segurança, fé, tranquilidade, com quem se estabelece identidade. Sem líder dotado de autoridade, ninguém se move. Pode-se falar muito e discutir indefinidamente sobre os motivos para agir. Podem-se fazer muitas reuniões. A conclusão será sempre a mesma: precisamos agir. Se não há uma pessoa para dar o primeiro passo, para convocar, para abrir o caminho e chamar os outros, nada acontece. Toda meta, todo projeto e todo o valor precisam estar encarnados numa pessoa. As pessoas não agem porque se convenceram por razões intelectuais. Agem porque se identificam com uma pessoa que age. Entram no agir do outro.

Como lembramos antes, a autoridade é um carisma. Não pode ser fabricada. Não é muito abundante neste mundo. Quando aparecem pessoas com autoridade, é preciso tratá-las como pedras preciosas.

O essencial da educação realiza-se mediante a comunicação pessoal de alguém com autoridade para com o formando. A autoridade age muito mais pelo seu ser e pela sua presença do que pelas palavras — menos ainda pelas ordens. Quem tem autoridade sequer precisa expressar uma vontade. Os seguidores adivinham o projeto da autoridade e o realizam voluntariamente, sem nenhuma necessidade de mandar. É verdade que tais casos não são muito frequentes. No entanto, trata-se de um limite que todos devem buscar. Para o educador, ter de dar ordens explícitas soa como um fracasso.

 

3. Educação e diferença cultural

O problema próprio da Igreja católica na América Latina é a distância cultural entre muitos agentes de pastoral e o povo em geral, isto é, mais de 80% da população que não fez o 2º grau. É o problema da educação popular. As minhas experiências referem-se à formação de missionários, animadores, sacerdotes religiosos, religiosas, ou seja, pessoas de uma idade situada entre 18 e 25 anos. Pessoas de classe popular e com pouca escolaridade, com um nível de ensino (público) muito baixo.

Quando esses jovens chegam ao instituto de formação, são pessoas apagadas. Não expressam pensamentos, reflexões, sentimentos, desejos ou apreciações. Deixam-se conduzir quase sem reagir. Muitas vezes é difícil dar-se conta se estão entendendo ou não. A sua experiência humana e o seu vocabulário são muito limitados. Diante de pessoas mais cultas, ficam encabulados, perdem o controle das palavras ou ficam paralisados. Isso ainda existe no interior, sobretudo no campo.

Com isso, no início da formação, tudo é novidade, tudo é surpresa. Por um lado ficam desconcertados. Porém, cheios de boa vontade, aceitam, concordam e ficam felizes com tudo. Como poderiam criticar e discutir? Não dispõem de referências para comparar. Então tudo é e se impõe “assim como é”. Não há o que discutir. Aprovam tudo o que é dito a eles. Mas será que entenderam? Como saber? Perguntar seria perturbar, obrigá-los a descobrir que não entenderam, sem estar sabendo que não entenderam. Se se dão conta, ficam tão envergonhados pela sua ignorância, que são capazes de passar a noite sem dormir. Na realidade, durante semanas ou meses não entendem nada porque não detêm a chave do sistema. Não dispõem de referência a partir da qual pode ser entendido o que se explica. Quem não entende o conjunto do sistema educativo não entende as partes, nem os fragmentos de discurso. Assim mesmo, concordam com tudo. Não sabem que os discursos são feitos para orientar a ação. Acham que os discursos são exercícios que é preciso aguentar com paciência assim como as aulas ou os sermões. São exercícios ascéticos. Assistir com calma, e sem mostrar que se está cochilando, é parte da formação.

Acontece que, pouco a pouco, o novato vai descobrindo as coisas e desperta. Nasce um novo homem, uma nova mulher. Começa a observar as coisas e as pessoas, a descobrir a diferença entre o seu mundo de origem e o novo mundo em que está. Começa a entender o sistema, a coesão entre as palavras e a atribuir sentido aos discursos.

Depois de 2, 4 ou 6 anos essas pessoas tornam-se irreconhecíveis. Primeiro os formandos descobrem a sua personalidade. Antes não sabiam o que eram, que podiam pensar, sentir, reagir. Agora reagem, sentem, externam desejos e aspirações. Passam a descobrir o mundo e suas possibilidades. Para o povo do interior há pouca diversidade. O contato com o mundo mostra perspectivas cada vez mais amplas. Descobrem que certas coisas suscitam interesse. Começam a perguntar-se sobre a sua vida e o seu futuro. Aprendem que há várias opções de vida possíveis. Aprendem também a expressar-se. Diante dos educadores ainda permanecem fechados por timidez ou vergonha, mas entre eles tornam-se mais ousados.

Agora intervém a distância cultural. Primeiramente os agentes de pastoral de cultura burguesa (sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos simili-sacerdotes ou religiosas) culpam-se pela sua cultura de maior prestígio. Dado o sentimento de culpa, tendem a exagerar as virtudes e as capacidades do “povo”. Ficam maravilhados pela simplicidade e pela boa vontade dos alunos. Interpretam a disponibilidade, a aceitação sem reserva dos alunos como sinais de sabedoria popular. Interpretam a timidez e a falta de expressividade como virtude de discrição e humildade. Por isso depositam nos alunos as melhores esperanças. Logo alimentam expectativas irreais. Projetam sobre os alunos todas as suas aspirações. Acham que esses alunos farão um dia tudo aquilo que eles próprios não conseguiram fazer por causa da distância cultural. Anunciam a aurora de uma verdadeira Igreja do povo.

Não percebem que projetam sobre os alunos sonhos que ultrapassam de longe as capacidades e as aspirações desses alunos. Ao mesmo tempo não percebem que os alunos não os acompanham, não entendem nem aprovariam se entendessem. Nasce um primeiro mal-entendido, base de todos os seguintes.

Quando os educadores começam a perceber que os formandos vão-se afastando do ideal que lhes foi proposto, passam a insistir no aumento da dose de “conscientização”. Explicam mais e mais a ideologia que preside a formação. Acham que os alunos estão passando por uma crise e que é preciso ajudá-los a superar essa crise. Não percebem que não há crise alguma, mas que, simplesmente, o formando está descobrindo o que é e o que quer. Isso, porém, não corresponde às expectativas dos educadores.

Diante da insistência angustiada dos educadores, os formandos, que não querem ser desagradáveis nem desiludir os seus formadores, vão escondendo todos os seus processos de transformação interna. Quando abrem o seu coração, dizem somente o que, no seu modo de pensar, vai agradar ao educador e escondem ou simplesmente se esquecem de dizer o que desagrada. A distância aumenta justamente porque se quer evitar que haja distância.

No final da formação, o formado começa a existir por si mesmo e passa a se definir. Conserva a mesma ideologia porque é a sua maneira de se expressar. Porém o agir já está totalmente separado da ideologia. Os educadores têm de constatar que o resultado da educação é totalmente imprevisto. Preparam para uma coisa e pode resultar noutra. Inculcam um ideal, mas a realidade é bem diferente. Pode, então, ocorrer que o educador expresse com amargura sua desilusão. Pode conformar-se ou não aceitar a desilusão e, neste caso, procurar mudar o comportamento dos ex-alunos. Claro que isso não irá adiantar.

Desse modo, a educação tinha uma meta, mas o que se alcançou foi outra coisa. Aí está a distância cultural. O educador não pode ter a pretensão de transformar os seus alunos à sua imagem e semelhança, a fazer deles a encarnação do modelo ideal que tem na mente. Não pode sequer querer que os seus alunos sejam semelhantes ao que ele mesmo é, já que a distância cultural torna isso impossível.

O que ocorre, na verdade, é que os alunos se “inculturam”. Adaptam o que lhes é comunicado à sua cultura. Assimilam o que lhes convém e não tomam conhecimento daquilo que não cabe na sua cultura.

É assim, por exemplo, que hoje muitos agentes de pastoral se queixam de que os padres e os religiosos jovens são diferentes e não reproduzem o modelo da geração anterior. Acontece que eles procedem de outra cultura e “inculturam”. Por isso pouco importa que os professores sejam de direita ou de esquerda, progressistas ou conservadores, espiritualistas ou sociais. Os alunos tomam o que lhes interessa e pouco lhes importa o que pensam os professores. Trata-se de “inculturação”.

O que acontece nos seminários e casas de formação religiosa encontra-se também na formação de agentes leigos ou de animadores de comunidades. A mesma coisa acontece nas faculdades ou nos colégios.

Hoje, fala-se muito de inculturação. Celebra-se a inculturação com muito fervor. No entanto, quando se produz um fenômeno de inculturação, vem a desilusão: “Não era isso o que a gente esperava!”. Claro que uma cultura diferente deve produzir resultados imprevistos e que não correspondem integralmente às expectativas. Os educadores pensam as suas expectativas dentro da sua própria cultura. O resultado vem numa cultura diferente, sendo geralmente inferior ao que se esperava.

Esse paradoxo da educação é inevitável na América Latina, e continuará sendo inevitável até que se produza uma homogeneização interna. Ainda estamos longe disso porque todos os critérios de organização da Igreja foram elaborados em Roma, a partir de uma cultura ocidental burguesa do século XX.

 

4. As aporias dos colégios

Nos Estados modernos todo o sistema de ensino deve integrar-se num único modelo. Esse está inspirado na modernidade e, cada vez mais, restringindo essa modernidade às normas do capitalismo avançado de hoje. Daí a prioridade dada ao ensino teórico e abstrato. Cada vez é dado mais peso ao ensino da matemática e das ciências positivas. Trata-se de preparar pessoas técnicas aptas para assumir tarefas no sistema econômico novo.

Religião e filosofia são desacreditadas. Estima-se que isso pertence à vida privada e nada tem a ver com o ensino que prepara para a vida na sociedade. Ao invés de religião e filosofia é preciso estudar ciências humanas. Essas são supostamente “científicas” e dão a conhecer a “realidade humana”. Na realidade elas são ideologias: inculcam a ideia de sociedade “secular”, “autônoma”, “leiga”, que é a única sociedade autêntica. Essa sociedade autônoma e secular, fechada em si mesma, constitui o novo absoluto. Ela é o valor definitivo, a norma do agir. Pelas ciências sociais supõe-se que os alunos estão sendo preparados para a vida das relações humanas, para alcançarem o pleno desenvolvimento da sua humanidade. Elas ensinam cientificamente a maneira correta de ser homem e mulher na sociedade secular.

Essa é a ficção que se mantém até hoje, apesar dos resultados nulos de tal tipo de formação. Os fragmentos de sociologia, psicologia ou antropologia que os alunos aprendem nos colégios, ou mesmo nas faculdades, ficam bem longe das necessidades de uma verdadeira formação “humana” e, longe também, de construir a base de uma convivência humana harmoniosa. Apesar disso os programas continuam iguais. Por sinal os ministérios da educação não dispõem de nenhuma alternativa. A alternativa seria não dar educação alguma. Na prática, em muitos lugares, já está sendo esta a realidade.

Por outro lado, os colégios “católicos” querem dar uma educação “cristã”. Mas de que jeito? Como conciliar uma educação cristã com o programa que transmite quase o contrário do cristianismo? De que forma o colégio poderá ensinar a superioridade do ser humano sobre a economia? A hipocrisia social que afeta toda propriedade, a superioridade do trabalhador sobre o produto do trabalho, o serviço ao próximo acima de qualquer competição, a distribuição equitativa dos bens produzidos, a opção pelos pobres, a prioridade dos bens necessários a todos acima dos bens supérfluos, do luxo, que os economistas consideram como o motor da expansão econômica? Como ensinar tudo aquilo que contradiz o programa imposto pelo ministério da educação?

Não sei como fazem e não saberia como fazer. Deus me protegeu desse fardo e sempre lhe fui grato. Se ali estivesse, estaria em permanente conflito com o programa oficial. Quem está aí precisa de uma força especial do Espírito.

O pior de tudo é o conflito com os pais que não querem uma educação cristã e sequer imaginam o que seja o cristianismo, querendo firmemente essa educação que prepara para viver bem dentro da sociedade do capitalismo financeiro globalizado de hoje.

Imagino que a solução provisória consistiria em ter colégios muito pequenos para aquelas poucas famílias que querem realmente uma educação cristã, e buscariam, ao lado do mínimo de cultura secular capitalista exigido pela lei, uma maior extensão do tempo dedicado a atividades educativas inspiradas no cristianismo. Bem sabemos que essas famílias constituem minoria.

Nesse caso, a maior parte do tempo não seria dedicado a atividades puramente intelectuais, mas ao agir, isto é, à aprendizagem do agir. Na ideologia moderna, republicana, o serviço militar era o modo principal de formação “cívica”. O serviço militar devia inculcar o sentido da nação, o serviço à comunidade, o sacrifício de si para o bem da nação. Hoje sabemos que esse estilo de serviço militar esgotou-se. Muitas nações já o abandonaram por motivos técnicos. Militarmente, hoje, somente contam os soldados que dominam a alta tecnologia. Os recrutas sem essas informações não têm valor militar algum.

O abandono do serviço militar poderia gerar novidades. Por que os jovens não passam um ou dois anos praticando serviços cívicos e sociais? Ao menos os cristãos poderiam dedicar-se a isso. Seria o tempo mais importante da educação humana. Isso não exclui, pelo contrário, reforça uma prévia preparação durante a adolescência. Se os mórmons conseguem realizar essa meta, os católicos seriam inferiores, tendo menos generosidade e sensibilidade social e humana do que eles? A Igreja católica não se atreveria a pedir isso para seus membros? É verdade que, para iniciar o movimento, seria oportuno começar pelos futuros religiosos ou sacerdotes. Por que não dedicam um ano ou mais a um serviço social efetivo, em tempo completo como parte da educação? Aprenderiam mais sobre o evangelho durante esse tempo do que durante todas as aulas de teologia. Numa etapa ulterior, os leigos poderiam sentir-se animados a seguir o exemplo.

Neste final de século e de milênio, o problema da educação cristã não se resolverá com pequenas adaptações ou com alguns novos cursos de religião com pedagogia renovada, menos ainda pela internet ou pelos vídeos. A questão é muito mais séria. A educação moderna e pós-moderna abafou e quase extinguiu a antiga educação cristã e substituiu-a por uma educação secular puramente orientada para a vida econômica, isto é, sem nada de cristianismo. Qual será a nossa reação?

Pe. José Comblin