Artigos

Publicado em Março-Abril de 2005 (pp. 8-11)

Solidariedade e paz Segunda Campanha da Fraternidade Ecumênica

Por Rev. Ervino Schmidt

Introdução

Em agosto de 2004, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) realizou um seminário nacional sob o tema “Ecumenismo hoje — desafios e perspectivas”. Num excepcional clima de fraternidade e num espaço de verdadeira confiança, desenvolveu-se proveitoso debate e enriquecedor intercâmbio de experiências. Foram também constatadas dificuldades e assinalados percalços. Mas foi consenso: “A comunhão, a solidariedade e a paz constituem uma urgência para a sustentabilidade social, num mundo marcado por fragmentação e conflitos. Abrem-se, nesse contexto, perspectivas de ações múltiplas para o ecumenismo” (cf. Documento Final). Poderíamos também dizer que, apesar de vozes que falam de “inverno” ou de “recuo” no caminho da busca da comunhão, o futuro da cristandade pertence ao ecumenismo e à progressiva concretização da unidade na diversidade. Não por nosso mérito, mas por ser da vontade de Deus. Animados, pois, pelo próprio Espírito, cujo agir consiste em unir, chamar, congregar, derrubar barreiras de separação entre Igrejas, organismos ecumênicos, grupos e pessoas de boa vontade, desenvolvemos programas de unidade.

Um dos grandes projetos será, sem dúvida, a realização da segunda Campanha da Fraternidade (CF) Ecumênica. Constituirá claro sinal de comunhão. Estarão as Igrejas, reunidas no CONIC, colocando marcas de paz e unidade. Com isso, de certo modo, estarão na contramão de todo tipo de competição e de proselitismo, tão frequentes no nosso contexto religioso. Será clara manifestação de que a paz é possível. Será, também, uma expressão de que Igrejas irmãs são capazes de partilhar dons e recursos na evangelização. É nesse sentido que a CNBB outra vez pôs o seu mais conhecido projeto de evangelização à disposição das demais Igrejas. Isso é muito mais do que simplesmente convidar para entrar em um projeto em andamento!

Mas, antes de discorrer sobre detalhes da CF-2005, queremos, com algumas pinceladas, recordar a primeira Campanha Ecumênica.

 

1. CF-2000 Ecumênica

Na virada do milênio e no contexto do Grande Jubileu, as Igrejas quiseram colocar um vigoroso sinal de unidade: realizar, em conjunto, uma Campanha ecumênica e chamar cristãos e todas as pessoas de boa vontade para dela participar.

O tema escolhido foi “dignidade humana e paz”, com o lema “novo milênio sem exclusões”. As sugestões, num longo processo, vieram das próprias comunidades. Na formulação final manifestou-se o anseio por dias em que a dignidade do ser humano seja mais respeitada e as pessoas possam viver em paz. Entendia-se a afirmação da dignidade humana como precondição para uma paz duradoura, que não fosse simplesmente a ausência de guerra por algum tempo.

Foi constituída uma Comissão Nacional, composta de delegados e delegadas das diversas Igrejas. A partir de então, todo o complicado trabalho de organizar uma campanha dessa envergadura tomou o seu rumo. Inovou-se. O velho esquema ver-julgar-agir foi, de certo modo, abandonado. Preferiu-se analisar os atentados à dignidade humana em três níveis: nos porões da vida, à luz do sol e nos bastidores.

Desde o início, insistiu-se em que dignidade é algo inerente à pessoa humana. Não se pode, num gesto de condescendência, doá-la a alguém. Fez-se referência à Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela ONU, na qual encontramos a afirmação lapidar: “O reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo”.

As Igrejas fundamentaram seu engajamento na defesa da dignidade humana, recorrendo à mensagem bíblica. Aliás, consta dos objetivos do CONIC: “Empenhar-se na promoção da dignidade, dos direitos e deveres da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, em busca e a serviço do amor, da justiça e da paz”.

Com essa alusão às primeiras narrativas bíblicas, destaca-se a dimensão universal da natureza e da dignidade do ser humano, pois todas as pessoas indistintamente foram criadas à imagem de Deus. Afirma-se também que o ser humano inteiro é imagem de Deus, e não apenas uma parte dele. E ainda: o ser humano não foi criado isolado. É um ser social, pois o Deus criador é um Deus Tri-uno. Deus em si mesmo é um ser relacional. Criadas à sua imagem, também as pessoas são relacionais, sociais. Dignidade humana, por isso, não tem que ver somente com direitos individuais, mas também, e isso muitas vezes é esquecido, com direitos sociais.

O tema “dignidade humana e paz” foi especialmente apropriado para unir as Igrejas em ações comuns. Foi gratificante ver como, em todos os lugares, surgiram grupos ecumênicos para discutir o tema e planejar mobilizações. Encontramos muita gente disposta a iniciar o novo milênio mais unida e mais solidária com os que sofrem.

Foi uma iniciativa ousada: sonhar com uma sociedade sem exclusões e construir parceria ecumênica. No Caderno de capacitação para a CF-2000 Ecumênica lemos: “Queremos mundo novo e relações novas entre as nossas Igrejas. Nenhuma Igreja pode garantir que todos os seus membros estejam à altura dessa proposta. Não será de espantar se houver percalços, mal-entendidos, no desenrolar dessa aventura fraterna e ecumênica. Não se faz respeito à dignidade humana, paz e diálogo ecumênico por decreto com dia marcado. É processo que exige determinação, entusiasmo, persistente paciência e compassivo perdão mútuo para os eventuais escorregões que certamente acontecerão num terreno tão ferido por pecados históricos. É o preço da emocionante honra de sermos construtores da história. Estamos no mundo para fazer alguma diferença com a nossa vida. E vamos fazer, com a graça do Cristo ressuscitado que derrubou todos os impossíveis!”

De fato houve alguns percalços e mal-entendidos na caminhada. Às vezes não se percebeu o real alcance do que estava acontecendo. Era necessário dar-se conta de que se tratava de um projeto de profunda espiritual idade cristã, em que a dimensão da conversão e do perdão teria seu lugar. Algumas pessoas esperavam uma campanha sobre ecumenismo. Sua expectativa não era tanto tratar ecumenicamente um tema social. Houve grupos que tiveram alguma dificuldade com o aspecto da evangelização conjunta. Deixaram de perceber a novidade do empreendimento e o fato de que a evangelização no mundo contemporâneo terá maior força e vigor se for caracterizada pelo testemunho comum. Por vezes se manifestava certo medo de perder a própria identidade. As Igrejas nem sempre priorizam o compromisso ecumênico. Ele ainda é visto, em alguns círculos, como um apêndice ao trabalho regular desenvolvido nas comunidades. Na verdade, deveria permear toda a vida e a ação da Igreja. Aqui e acolá se manifestou desconfiança quanto à marca católica que as Campanhas da Fraternidade carregam. Até para a imprensa foi difícil perceber o novo, ou seja, o fato de que a CF-2000 não era uma promoção da CNBB, mas, sim, das Igrejas em conjunto. Em alguns lugares se noticiava: “Neste ano temos uma novidade extraordinária na Campanha da Fraternidade! A CNBB convidou mais seis Igrejas a dela fazer parte”. Ou: “CNBB e CONIC promovem, pela primeira vez, uma Campanha da Fraternidade Ecumênica”.

Tivemos mal-entendidos, sim. Mas isso era de se esperar. Esses pequenos percalços, porém, não prejudicaram em nada a proposta original. A CF-2000 Ecumênica foi cuidadosamente avaliada em todas as instâncias das Igrejas envolvidas. Também no CONIC houve criteriosa avaliação. O balanço final foi amplamente positivo. Recebemos manifestações de entusiasmo de muitos lugares — até do exterior.

O CONIC alcançou enorme visibilidade, evidenciando o sinal da unidade das Igrejas. A CF reforçou também a atuação e trouxe o reconhecimento de outros grupos ecumênicos, provocou debates internos em todas as Igrejas e nas comunidades. A maioria das avaliações revelou o desejo pela continuidade da Campanha Ecumênica. Deve ser mencionado que a comissão organizadora apontou também como frutos as ações concretas das comunidades em favor da dignidade e da paz, o montante significativo da coleta para o fundo ecumênico, a participação de outras Igrejas e a experiência prática local e nacional do ecumenismo na solidariedade.

 

2. A perspectiva ecumênica das Campanhas da Fraternidade vem de longe!

A CF vem sendo realizada desde 1964. Se não a maior, trata-se de uma das maiores iniciativas de evangelização da CNBB, da Igreja católica apostólica romana.

Não é minha tarefa traçar um exaustivo histórico neste espaço. Muito se escreveu sobre as Campanhas da Fraternidade. Existe literatura em profusão a esse respeito. Apenas chamo a atenção para o fato de que a longa trajetória de diálogo que antecedeu à constituição do CONIC (em 1982) teve reflexos também na discussão sobre um eventual caráter ecumênico das Campanhas da Fraternidade. Já em 1979, a CNBB, em comentários gerais, introduziu as seguintes reflexões quanto à Campanha: “Tratando-se de uma atividade da Igreja e propondo-se construir a fraternidade, não pode a CF prescindir de uma clara e sincera dimensão ecumênica. Embora sendo uma iniciativa da Igreja católica e subordinada à CNBB, a CF deve levar em conta a existência de outras Igrejas cristãs e buscar a sempre maior unidade em Cristo. Desde agora haverá diversas possibilidades de impregnar de espírito ecumênico a CF: (…) desenvolvimento do tema com abertura e respeito às outras Igrejas; alguma atividade comum na abertura ou realização da Campanha; reflexão comum para a escolha dos objetivos concretos”. E o trecho conclui: “O futuro dirá se é ou não conveniente e viável fazer da CF uma ação conjunta das várias Igrejas” (CNBB, Preserve o que é de todos — Campanha da Fraternidade de 1979, p. 4).

Chama a atenção o fato de que se argumenta como conceito de fraternidade. Percebe-se o peso dado ao sentido de comunhão e à necessidade de sempre maior unidade em Cristo.

A dimensão ecumênica das Campanhas da Fraternidade voltou a ser mencionada em várias outras oportunidades. Também em reuniões do CONIC, vez por outra, falava-se da possibilidade e da conveniência da realização de uma Campanha em conjunto.

 

3. Confessionalidade e CF

Com certa frequência ainda se pode encontrar o receio de que, ao entrar em um projeto de evangelização como a CF, se poria em risco algo da própria confessionalidade. Esse receio não é novo. Mesmo no âmbito do Conselho Mundial de Igrejas esteve presente. Muitos tinham a convicção da existência de uma contradição entre confessionalidade e ecumenismo. É evidente que as Igrejas confessionais são distintas umas das outras. Até aqui pode-se estar de acordo. Mas, muitas vezes, vai junto com essa constatação a ideia de que cada uma deveria ficar distanciada das outras. Esse é o problema! Confissão e ecumenismo parecem opor-se. E quem, por sua vez, vislumbrava uma relação mais positiva tinha medo de que, participando de um projeto ecumênico, sua confessionalidade seria diluída. Essas dificuldades podemos encontrar ainda hoje. E certamente aparecerão quando nos lançamos na grande aventura de uma CF Ecumênica.

O que, na verdade, acontece é que se tem uma concepção muito estreita de confissão e de confessionalidade. É importante aprofundar um pouco os conceitos para apreender a essência de confissão. Ela não é voltada para si, nem necessita ser particularista e buscar o distanciamento. Basicamente são dois os argumentos que eliminam a oposição entre confessionalidade e ecumenismo. Em primeiro lugar, deve-se perceber que todas as confissões compartilham as convicções fundamentais de fé que são próprias a toda a cristandade. Exemplo claro é o próprio credo cristão comum. Todas se apegam a ele. Isso significa que as várias confissões se inserem no amplo horizonte eclesiástico e ecumênico.

Em segundo lugar, é mister destacar que toda confessionalidade tem no seu centro uma convicção bem específica, uma afirmação confessional particular. Mas essa convicção particular pede, por assim dizer, para ser comunicada. Ela precisa ser levada a toda a cristandade. Está, portanto, embutido nela o desejo de ser ouvida amplamente, ou seja, ecumenicamente, pois se considera necessária para a vida de toda a Igreja de Cristo.

Assim, não há o que temer! Muito antes, há que perceber a situação concreta da CF Ecumênica como uma possibilidade de enriquecimento mútuo no emocionante caminho da unidade!

 

4. A segunda CF Ecumênica (2005)

Pela segunda vez as Igrejas, reunidas no CONIC, se sentem chamadas para uma tarefa maior: desenvolver em conjunto um grande projeto de evangelização no País. Outra vez se trata de um processo contextualizado. Estamos envolvidos na Década para Superar a Violência (2001-2010). Trata-se de uma campanha lançada, em nível internacional, pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI). No Brasil, o CONIC, juntamente com organizações parceiras, assumiu essa campanha. Várias atividades e iniciativas se ligam a ela; por exemplo, o estudo dos sinais e das causas da violência que nos cerca. Encontramo-nos cronologicamente na metade dessa Década. Seu tema, época e atualidade foram, de algum modo, entendidos como clima propício para dar novos passos no caminho da unidade. Também o próprio fato do forte desejo, expresso na avaliação da CF-2000, de realizar uma segunda CF contribuiu para a decisão de encaminhá-la. Aliás, a preocupação de dar continuidade às conquistas da primeira Campanha esteve sempre presente. Um exemplo bem concreto disso é a edição anual do Relatório sobre dignidade humana no Brasil. Esse relatório resgata o esforço ecumênico da CF-2000 e, ao mesmo tempo, insere-se na Década para Superar a Violência. Pretende ser um instrumento a serviço da reflexão, formação e mobilização das comunidades cristãs. Pela primeira vez se apresenta no País um índice de Indignação da População diante dos atentados à dignidade humana e também um Indicador da Percepção do desrespeito a essa dignidade. Enfim, dar continuidade, marcar metade de uma década, preparar o povo cristão para a IX Assembleia Geral do CMI, em 2006, pareceu a todos razões apropriadas para lançar a segunda CF Ecumênica.

Tomando em consideração todos esses dados, as Igrejas escolheram como tema, para a Campanha, “solidariedade e paz” e como lema “felizes os que promovem a paz”. Como objetivo geral da CF-2005 Ecumênica estabeleceram: “Unir Igrejas cristãs e pes­soas de boa vontade na superação da violência, promovendo a solidariedade e a construção de uma cultura de paz” (Texto-Base CF-2005, nº 14).

 

5. Objetivos específicos

Os objetivos específicos foram assim definidos:

•   Colocar no centro da vida e do testemunho das Igrejas a preocupação e o esforço de superar a violência e de promover a solidariedade e a paz;

•   Alertar sobre o mau uso da identidade religiosa e étnica e lembrar o compromisso das religiões para com a paz;

•   Desafiar as Igrejas a superar o espírito, a lógica e a prática da violência, tanto direta quanto estrutural, e a se opor a qualquer forma de violência, exclusão e intolerância;

•   Promover uma espiritualidade alicerçada na reconciliação e na solidariedade;

•   Promover ações públicas para reformar e aperfeiçoar a legislação e as instituições responsáveis pela segurança pública, tendo em vista o respeito aos direitos humanos e a sua inviolabilidade;

•   Denunciar as injustiças e apoiar as iniciativas de reformas estruturais que visem à transformação das condições econômicas, sociais e culturais que causam violência;

•   Colocar-se ao lado dos desfavorecidos e contribuir para soluções não violentas dos conflitos sociais (Cf. Texto-Base CF-2005, nº 14).

 

Esses assuntos são desenvolvidos ao longo do texto-base. Mas, sobretudo, destaca-se a própria Boa Nova da Paz que se encontra na Bíblia. Estão aí as mensagens dos profetas, trazendo suas visões de paz, como Isaías, Miqueias e Jeremias, a nos encorajar para o compromisso. Do Novo Testamento foi destacada a narrativa de Mc 2,1-12. Um dos acentos da interpretação é justamente o aspecto de que o paralítico dependia dos cuidados que outros tivessem com ele. Companheiros, em solidariedade, foram em busca de solução, impulsionados pela fé. Outro texto selecionado foi a conhecida parábola do samaritano, Lc 10,30-37. O amor é uma ação concreta e não se restringe a um ato de socorro imediato. Amor e solidariedade geram uma responsabilidade continuada. E, por fim, naturalmente se faz referência às bem-aventuranças!

O conceito de paz, como está sendo proposto pela CF Ecumênica (2005), não tem nada de romântico ou sentimental. Estamos cientes disso. Ele será colocado no mundo das relações, tanto entre pessoas quanto entre grupos e sociedades. Importa imprimir à convivência um novo rumo.

Para alcançar seus objetivos, a Campanha propõe, como ação concreta, antes de mais nada, apoiar uma cultura de paz, sabendo que esta é um amplo movimento já em curso.

Nessa linha se coloca o convite para formar e disseminar “grupos ecumênicos de vivência cristã” e “fóruns pela paz”. Além disso, a Campanha propõe a participação em “conselhos para a defesa de direitos e controle social das políticas públicas”. O que constitui uma contribuição para a construção de uma democracia participativa e solidária.

Mãos à obra! Sinais de paz e de solidariedade que pudermos colocar, certamente tornam mais seguro o mundo em que vivemos.

Rev. Ervino Schmidt