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Publicado em maio-junho -2014

As questões teológicas presentes na “Compadecida”, da obra de Ariano Suassuna

Por Jonas Nogueira da Costa

No Auto da Compadecida encontram-se belos elementos para a reflexão teológica, particularmente a superação da mentalidade medieval quanto ao juízo final como algo implacável e sem misericórdia. Sem ser púlpito ou aula de teologia, a peça, depois transformada em filme, encanta, emociona e nos mostra, entre outras coisas, que sobre as misérias humanas a compaixão divina tem a última palavra.

Introdução

Teologia e literatura se encontram, de forma belíssima, na obra de Ariano Suassuna Auto da Compadecida. O texto, lido na perspectiva teológica, revela-nos o triunfo da misericórdia divina, da qual Cristo é a expressão máxima.

Sobre o autor e sua obra em questão gostaríamos brevemente de destacar algumas notas. Ariano Vilar Suassuna nasceu em 16 de junho de 1927, em João Pessoa-PB. Escreveu o Auto da Compadecida em 1955, e, no ano seguinte, a peça foi encenada pela primeira vez no Recife, no Teatro Santa Isabel. Em 1957, foi publicada pela Editora Agir. Em 1999, o Auto foi exibido pela televisão em quatro capítulos, com a adaptação de Guel Arraes, convertendo-se em filme no ano seguinte.

1. A Compadecida: raízes teológicas e devocionais dessa imagem marina

Ariano Suassuna apresenta a Virgem Maria com um título desconhecido da devoção mariana, a “Compadecida”. Esse título está relacionado com a ação de Maria no momento do julgamento final dos personagens do Auto da Compadecida, mas também com seu olhar materno e feminino sobre a vida das pessoas e sua identificação com elas. Maria se compadece das pessoas porque viveu uma vida concreta, marcada por lutas, alegrias e sofrimentos.

Suassuna nos fala de Nossa Senhora, a Compadecida, como o emblema feminino no sertão, assim como o Cristo esfarrapado é o emblema masculino da luta do nosso grande povo:

Para mim, o emblema brasileiro e feminino, o núcleo fundamental de toda a minha visão de mundo, era aquela Senhora a quem eu celebrara com o nome popular de “A Compadecida” e que, sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, é a Padroeira incontestável de nosso país e do nosso povo (NOGUEIRA, 2002, p. 103).

Mesmo sendo este título algo novo para a devoção mariana, encontramos outro que muito se aproxima dele, que é “Mãe de misericórdia”. Maria, enquanto mãe de misericórdia, é aquela que se compadece dos seus irmãos assumidos como filhos. Essa misericórdia é primeiramente um atributo do próprio Deus, como vemos nas Escrituras, mas também da Filha de Sião, que é ícone e transparência da misericórdia divina (cf. DOMENICO, 2003, p. 131).

E são muitos os que rezam e contemplam essa dimensão do mistério divino na vida de Maria. Entre os mais antigos, podemos citar Tiago de Sarug (padre oriental do século VI), Romano Melode, João Kyriotis (século X), são Bernardo, santo Afonso Maria de Ligório etc. (cf. DOMENICO, 2003, p. 31-32). O registro mais antigo que temos da relação entre Maria e a misericórdia se deve a Tiago de Sarug († 521), que lhe dá o título de “Mãe de misericórdia” (cf. DOMENICO, 2003, p. 307).

Contudo o mais antigo defensor e propagador do título mariano de “Mãe de misericórdia” é santo Odo, abade de Cluny (†942) referindo-se a Maria como mãe espiritual dos fiéis, plena de graça e de misericórdia, sobretudo porque gerou Cristo, “misericórdia visível do invisível Deus misericordioso” (cf. DOMENICO, 2003, p. 33).

Também a iconografia nos apresenta a Virgem como “misericordiosa”, “compadecida”. Tomemos por exemplo o ícone da Virgem de Vladimir ou, como popularmente no Brasil é reconhecida, Virgem da Ternura ou da Compaixão. Abraçada ternamente a seu Filho, ela dirige os olhos aos que se colocam diante dela. Outra representação, agora ocidental, que retrata bem essa atitude misericordiosa de Maria é uma das imagens em que ela traz sob seu manto um grupo de pessoas.

Lembramos ainda a oração da salve-rainha. Sua composição é atribuída a Hermano Contracto (†1054), mas há outros possíveis autores, como Pedro de Mezonzo (†1000), bispo de Compostela, e Ademaro de Monteil (†1098), bispo de Le Puy-en-Velay. A piedade medieval acrescentou o termo “Mater” no primeiro verso da oração, assim como “Virgo” no último (cf. MAGGIONI, 2000, p. 134). Em 1135, já encontramos estabelecido o costume de cantar a Salve Regina como hino processional em Cluny (cf. AMATO, 2011, p. 17). Essa oração é expressão de confiança filial na “Mãe de misericórdia”, que é também nossa advogada.

Desse modo, podemos dizer que o título de “Mãe de misericórdia”, o qual apresentamos como aquele que mais se aproxima teologicamente ao de “Compadecida”, se dá pelo fato de ser Maria fiel reflexo da misericórdia do Pai (cf. DOMENICO, 2003, p. 238) e que, na tradição católica, se conservou e celebrou de diferentes maneiras esse traço de Maria, sendo atualizado por Ariano Suassuna.

  1. 2.      A Compadecida como advogada

“Não confia mais na sua advogada?” (SUASSUNA, 2005, p. 157). Com essa pergunta que a Compadecida faz a João Grilo, a Virgem nos mostra um traço de seu compadecimento da humanidade que é assumir sua defesa contra todos os perigos e males, como nossa advogada.

Para compreendermos esse serviço de Maria ao povo de Deus, devemos partir de sua vida, desde a anunciação do Senhor até sua assunção, em que encontramos a peregrinação de uma mulher na fé, que viveu alegrias e sofrimentos. Agora, glorificada no céu, o povo de Deus se volta a Maria como mãe e “companheira de viagem nas estradas da vida”, em busca de esperança e de alívio nos sofrimentos, invocando-a em suas preces, reconhecendo-a como “advogada”.

É comum o povo, em suas expressões cotidianas de medo, susto, consternação, clamarem por Maria, usando breves invocações marianas. O Auto da Compadecida está inserido nessa tradição popular. Encontramos um exemplo dessa invocação quando o cangaceiro Severino de Aracaju e seus bandoleiros invadem a cidade de Taperoá e entram na igreja para saqueá-la e tanto o padre quanto o bispo exclamam: “Ave, Maria! Valha-me, Nossa Senhora!” (SUASSUNA, 2005, p. 88).

Também quando tudo parecia perdido, no momento do julgamento dos personagens do Auto, João Grilo tem uma ideia ou, como ele diz, “um trunfo” (cf. SUASSUNA, 2005, p. 143). O próprio Cristo questiona se ele vai “se pegar” a algum santo, mas nosso “amarelo” invoca, com um poema divertido de Canário Pardo (SUASSUNA, 2005, p. 144), a Compadecida, mãe da justiça. E o julgamento toma outro rumo.

A intervenção da Compadecida parece mudar o destino final dos personagens, livrando-os da condenação, contudo, em momento algum, antes da intervenção da Virgem Maria, Manuel tinha decretado a condenação deles. A contribuição da Virgem é elucidar os fatos, utilizando o mais profundo dos sentimentos de cada pessoa julgada e a história de cada um. Maria não altera o lugar de Cristo com sua intercessão, apenas faz o papel de advogada, mesmo que não despreze os laços de sangue que a unem a Manuel. Uma frase expressa bem essa atitude da Virgem na obra: “Intercedo por esses pobres que não têm ninguém por eles, meu filho. Não os condene” (SUASSUNA, 2005, p. 148). Dizer que aquelas pessoas não têm ninguém pode ser teologicamente incorreto se pensarmos que o mesmo Cristo que julga é o que ama e que não abandona os que redimiu com seu sangue, mas devemos compreender a plasticidade da obra voltada para o teatro, sem fins teológicos, que quer ressaltar, nesse ponto, a intercessão de Maria.

Por ser Compadecida, Mãe de misericórdia, Maria volta seu olhar amoroso a todos os seus irmãos, assumidos como filhos. E constantemente a piedade mariana pede que ela não deixe de interceder por estes, sobretudo nos momentos de dificuldades e na hora da morte.

De fato, depois de elevada aos Céus, não abandonou esta missão salutar; ao invés, pela sua múltipla intercessão, continua a obter-nos os dons da salvação eterna. Com o seu amor de Mãe, cuida dos irmãos de seu Filho, que ainda peregrinam e se debatem entre perigos e angústias, até que sejam conduzidos à Pátria feliz. Por isso, a santíssima Virgem é invocada, na Igreja, com os títulos de advogada, auxiliadora, amparo e medianeira (LG 62).

Desse modo, a Compadecida é advogada por ser solidária à humanidade, da qual participa. E assunta ao céu, em sua humanidade, em seu corpo de mulher glorificado, é sinal de nossa realidade última, constituindo nossa defesa ante tudo o que nos desumaniza e, consequentemente, nos afasta da salvação.

Contudo, gostaríamos de deixar claro que este título mariano de “advogada” é de ordem pneumatológica (Jo 16,5-14) e que nosso defensor junto a Deus, por causa dos nossos pecados, é Jesus Cristo, o Justo (1Jo 2,1). Maria só pode ser invocada como “advogada” dando-se a devida primazia ao Espírito Santo e enquanto mulher solidária aos sofrimentos humanos.

 3.      A Compadecida e a escatologia

Como sabemos, no Auto da Compadecida o “lugar” onde a Compadecida se destaca como advogada é no julgamento dos personagens que acontece “na morte”. Acentuamos o termo “na morte” porque, enquanto realidade escatológica, não falamos de lugar, mas de situação em que a pessoa se encontra ao término da vida biológica. E é nesse momento da morte que nossos personagens e todas as pessoas se encontram pela primeira vez com Deus (cf. BLANK, 2009, p. 73).

Esse encontro com Deus na pessoa do Filho, juiz da humanidade na obra de Suassuna em questão, traz elementos tradicionais e rupturas, sendo estas últimas o que gostaríamos de ressaltar.

Uma novidade marcante é Cristo se mostrar como um homem negro, “um preto retinto, com uma bondade simples e digna nos gestos e nos modos” (SUASSUNA, 2005, p. 124). Essa aparição é uma crítica ao preconceito não apenas em relação à cor de pele, mas étnico, pois Manuel diz a João Grilo: “Você pensa que eu sou americano para ter preconceito de raça?” (SUASSUNA, 2005, p. 127).

Sentado no trono, Manuel diz: “Levantem-se todos, pois vão ser julgados” (SUASSUNA, 2005, p. 125). Assim começa o julgamento de nossos personagens, quando, na morte, se encontram com Jesus. A cena nos lembra o Evangelho de Mateus (25,31-32), pois

Quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os seus anjos, ele se assentará em seu trono glorioso. Todas as nações da terra serão reunidas diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos.

 A imagem de Cristo como um severo juiz, sentado em seu trono, implacável em seu julgamento e, não raramente, com traços tirânicos, dominou o imaginário religioso e teológico na Idade Média, e ainda encontramos alguns resquícios dessa ideia em nossos dias. Em contraposição ao Filho irado estava a Mãe bondosa, símbolo de misericórdia e refúgio dos pecadores, que intercedia em favor da humanidade (cf. DOMENICO, 2003, p. 16; MIEGGE, 2008, p. 12).

O Auto da Compadecida marca uma ruptura com essa mentalidade. Manuel se apresenta como justo juiz, sem nenhum traço tirânico, cheio de bondade e dignidade e que se permite, inclusive, ser bem-humorado, fazendo brincadeiras, pois o inferno, “lá, sim, é um lugar sério. Aqui pode-se brincar” (SUASSUNA, 2005, p. 132).

Também o papel da Virgem é outro. Mantém sua função de intercessora na “hora da morte”, mas não como aquela que é bondosa em contraste com seu Filho, e sim como alguém que ajuda a compreender a história concreta de cada personagem. Ela, diferentemente do Demônio/Encourado, não se preocupa com a lista de pecados, mas com o contexto vital de cada personagem. Sua intervenção não é salvífica na obra, mas é ação que tem origem em sua compaixão pelas pessoas, uma vez que ela mesma, como mulher pobre e mãe, conhece a realidade em que toda a humanidade vive. Não que Cristo ignore a vida das pessoas e seus desafios – na obra essa ideia nunca aparece –, mas junto a ele e nele a história de cada pessoa alcança uma forma elevada de compreensão.

Se na concepção medieval Maria era a misericordiosa no juízo final, diante da severidade de Jesus, no Auto da Compadecida ambos são misericordiosos e, por isso, concordes em tudo.

 4.      O feminino

A concordância de Cristo e Maria torna-se excelente metáfora que nos ajuda a compreender que o ser humano integrado deve ser buscado sob os olhos do masculino e do feminino harmonizados. A obra nos chama a atenção para essa dimensão humana no julgamento, em que Cristo e Maria interpretam a vida numa perspectiva mais profunda.

Duas outras personagens que se destacam no texto suassuniano nos ajudam a refletir sobre a questão do feminino: a mulher do padeiro e a do Encourado.

A mulher do padeiro, acusada de adultério na hora do julgamento, toma a palavra em defesa própria, alegando sua condição de moça pobre, casada com homem rico que, além de maltratá-la, era adúltero (SUASSUNA, 2005, p. 151). A Compadecida mostra sua solidariedade com a mulher nessa personagem feminina, cujo sofrimento é a realidade de muitas mulheres em nossos dias.

Quanto ao Encourado, poderíamos chamá-lo de machista? O machismo não é característica marcante nesse personagem, contudo ele demonstra alguns traços misóginos, como considerar, negativamente, a mulher como aquela que se mete em tudo (cf. SUASSUNA, 2005, p. 145) ou não conhecer a grandeza da maternidade como filho, uma vez que desdenha do afeto entre Jesus e Maria, logo sendo reprimido pelo cangaceiro Severino, que lhe diz: “Você só fala assim porque nunca teve mãe”, e por João Grilo, que o chama de “filho de chocadeira” (SUASSUNA, 2005, p. 146). De fato, todo machismo pode ser classificado como algo demoníaco em nossa sociedade, pois ele sempre é materializado em diferentes formas de violência. A postura de Jesus Cristo é totalmente oposta em seu carinho e cuidado para com as mulheres, como podemos ver, por exemplo, em Mt 9,18-26.

Conclusão

Gostaríamos de encerrar esta breve reflexão destacando duas contribuições à teologia fornecidas pelo Auto da Compadecida.

A primeira delas é o humor. Podemos falar de Deus de maneira alegre, sem perder a reverência pelo mistério divino. Também pensar a figura de Cristo bem-humorada é pensar Cristo em sua face amorosa para a humanidade.

Outra contribuição é constatar um sinal de superação da mentalidade medieval que entendia o julgamento como uma prestação de contas, distante da bondade e da misericórdia de Jesus. Na obra em questão, Jesus não é permissivo ou superficial diante das misérias humanas ou pecados, mas é aquele que compreende o ser humano no nível mais profundo e busca nele, com sua morte, uma resposta de amor.

O Auto da Compadecida é um texto que não quer fazer do palco um púlpito, mas encanta, emociona e nos aproxima de Deus, pois encontramos um pouco (ou muito) de nossas histórias pessoais nos personagens envolvidos no julgamento, o que faz dessa peça de teatro uma analogia do desejo de todos os corações: que, sobre as misérias humanas, a compaixão seja a última palavra.

 

Bibliografia

AMATO, A. Maria la Theotokos: conoscenza ed esperienza. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2011.

BÍBLIA Sagrada. Tradução da CNBB. 9. ed. Brasília: CNBB; São Paulo: Canção Nova, 2009.

BLANK, R. J. Escatologia da pessoa: vida, morte e ressurreição (escatologia I). 7. ed. São Paulo: Paulus, 2009.

CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium.

DOMENICO, P. Di (Org.). Maria Madre di Misericordia: monstra te esse matrem. Padova: Edizioni Messaggero Padova, 2003.

MAGGIONI, C. Benedetto il frutto del tuo grembo: due millenni di pietà mariana. Casale Monferrato: Portalupi, 2000.

MIEGGE, G. La Vergine Maria: saggio di storia del dogma. Torino: Claudiana, 2008.

NOGUEIRA, M. A. L. O cabreiro tresmalhado: Ariano Suassuna e a universalidade da cultura. São Paulo: Palas Athena, 2002.

ODO, Santo. Prolegomena. In: MIGNE, J-P. (Org.). Opera omnia. Paris: Migne, 1881, col. 61-76 (Patrologia Latina, 133).

SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Agir, 2005.

Jonas Nogueira da Costa

Padre da Ordem dos Frades Menores; mestre em Teologia Sistemática pela Faje (BH). Atualmente reside em Belo Horizonte - MG. E-mail: nogueira905@gmail.com