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Publicado em Janeiro-Fevereiro de 1983

Jesus perante o Deus e a sociedade dos violentos

Por João Rezende Costa

O mundo está prenhe de violência. Sempre esteve. Contudo parece que somente nestes últimos tempos é que sua dureza nos espicaça a consciência de maneira especial. Pois os métodos científicos sociológicos nos levaram às suas raízes últimas ideológicas.

A violência como que constitui uma espécie de “pecado original” das construções sociais humanas a exigir a água lustral de uma metanoia” e um batismo de graça de transformações sociais. Na velha(?) concepção, estática e individualística e espiritualizante do batismo, julgávamos como que salvos em uma esfera intemporal e acima das contingências do mundo, mas eis que nos descobrimos chafurdados no pântano e ares insalubres de uma sociedade baseada nos interesses de minorias sobre maiorias irredentas. E ficamos envergonhados de nos acharmos assim tão pouco evangelizados, tão pouco batizados e tão pouco remidos. Haverá o homem de sempre ser, abaixo todas as suas boas intenções internas, o “homo homini lupus”, o lobo do homem?

Mesmo as racionalidades, de ordem ética e jurídica, que através dos tempos se edificaram para domar os instintos brutais, provaram corresponder assim tão inocentemente às suas intenções. A moderna crítica às ideologias e à sociologia do conhecimento evidenciaram o quanto já recebemos de pensar violento do nosso meio e instituições pelo próprio fato de sermos parte deles e deles vivermos. Até o que pensamos sói ser-nos introjetado, subreptícia e violentamente, de tal forma que o mote metódico para construir uma filosofia hoje não seria do tipo cartesiano “eu penso, logo existo”, mas sim “eu penso, logo me fizeram a cabeça” (inscrição em um muro em Amparo, SP).

A teologia — enquanto fato social e pensar humano — deve sujeitar-se a essa nova forma da crítica e suspeita, e sua qualidade dependerá do gabarito do reconhecimento dela e da resposta que conseguir lhe dar. Descobriu-se que até ela constitui, em muitos aspectos, teoria fundante dos interesses dos que fruem na sociedade e na Igreja de posições de comando e gozo econômico. De tal forma que não passa, sob estes determinados aspectos, da ideologia dos violentos para despossuir os outros, sem voz e vez.

Creio estar aí a razão do novo surto de anseio de buscar em Jesus mesmo, no Jesus histórico e em sua primeira interpretação bíblica, um possível critério para deslindar os usos dos abusos da teologia enquanto ideologia social. Importantes são a palavra e o exemplo de Jesus, e o termômetro (o bafômetro!) é o concreto verificar-se da prática segundo Jesus. Tão desconfiados ficamos do pensamento ideológico e interesseiro, fundante de nossas comodidades (de poder e posse!), que urge voltar-nos para o Senhor Jesus em busca de orientações, para estarmos a salvo de toda ideologização. Terá ele falado de algo que se assemelha a ideologias da violência? Em que lugar está de sua doutrina? No centro e raiz ou na periferia dela?

A maneira tradicional de tratar o tema da violência no projeto de Jesus consistia na questão: “Foi Jesus revolucionário?”, examinando-se sua possível participação nas ideias e iniciativas zelotas do seu tempo (cf. uma síntese da pesquisa em Mauro Pesce: “Ricerche recenti sulla dimensione política della vicenda di Gesù”, in: VV. AA. Conoscenza storica di Gesù. Brescia: Paidea Editrice, 1978, pp. 33-101).

Entraria no campo do tema também uma exegese minuciosa da expulsão dos vendilhões do templo na busca de um possível(?) ato de violência praticado por Jesus. Ou então a violência verbal patente de sua denúncia profética da hipocrisia etc. Ou uma análise do dito sobre os violentos em Mt 11,12. Jesus proclama também a violência que sofrerão os discípulos por parte do mundo (cf. 2Tm 3,12: “Aliás, todos os que quiserem viver com piedade em Cristo Jesus serão perseguidos”, e o dito extrabíblico de Jesus, considerado autêntico por J. Jeremias: “Quem está perto de mim, está perto, do fogo; quem está longe de mim, está longe do reino de Deus”).

Também a parábola do bom samaritano refere-se à violência sob duplo aspecto: o homem que cai vítima da violência física dos ladrões e depois nas malhas sutis (e cheias de consequências!) da violência ideológica do sacerdote e levita, impedidos, por sua ideia do culto a Deus, de socorrer o necessitado. Registre-se isso apenas para se ver a multiplicidade de aspectos do tema em Jesus mesmo e para frisar o aspecto preciso que abordo, de caráter geral e de princípio, capaz contudo de encaminhar e emoldurar uma resposta para vários dos aspectos acima.

Jesus debateu-se, sim, com ideias fundantes de fatos em desacordo com o reinado de Deus no mundo, em um processo que até poderíamos chamar de desideologização. Para evidenciá-lo, sigo o seguinte esquema:

1. A inclinação característica do Deus, de quem Jesus proclama que vem reinar;

2. A exigência de “metanoia” feita por Jesus;

3. Jesus denuncia o deus dos violentos;

4. Jesus denuncia a sociedade dos violentos:

a) Jesus denuncia a lei dos violentos;

b) Jesus denuncia o poder dos violentos;

c) Jesus e a utopia da sociedade fraterna no uso das riquezas.

1. O Deus que vem reinar suscita socorro aos empobrecidos

O reinar de Deus sobre os homens e sobre o mundo — eis o tema central da prédica e prática de Jesus. Prefiro dizer “reinar” em vez de “reino”. Apreende-se assim o matiz ativo e atual contido no original grego “basileia toû Theoû”. “Basileia” é a realeza e a atividade régia de Deus mesmo em exercício, é Deus mesmo agindo como rei e operando o que ele quer para os homens e para o mundo. Reinando Deus ou exercendo seu comando régio, acontece a busca do bem integral do homem, pois que a soberania de Deus difere essencialmente da dominação abusada dos homens. Só pode ser benévola e benéfica (cf. Is 52,7). Aos homens cabe colocar-se a si mesmos e o mundo que constroem sob o comando régio deste Deus Pai (Abbá!) de bondade, junto dele aprendendo e por ele sendo embalados a fazerem acontecer o bem integral dos homens e do mundo para os homens (cf. Mt 5,45-48). Existe, pois, uma experiência “jesuana” original de Deus para o modo “cristão” de construir o mundo.

“Bem-aventurados vós, os pobres, porque em vosso favor é o reinar de Deus” (Lc 6,20), que Jesus proclama estar perto e prestes a acontecer em nível de consumação escatológica (cf. Mc 1,15). O dito lucânico da bem-aventurança dos pobres acusa o caráter de uma fala direta (“vós”) dirigida ao seu primeiro auditório, constituído de violentamente despossuídos, empobrecidos e marginalizados de toda sorte (social, econômica, política e religiosamente), pobres diabos sem voz nem vez, restos da sociedade de que ninguém cuidava.

E eis a ousadia de Jesus e do seu Deus: “bem-aventurados” eles são porque agora — quando desponta a era messiânica, a hora do Messias de Deus — vem reinar Deus para cuidar deles e suscitar cuidados por eles, e é precisamente este o sinal de que chega a hora de Deus reinar, porque eles são “evangelizados” com atos em seu favor (cf. Lc 7,22) e se suscitam cuidados por eles:

a) Na pessoa de Jesus, que é o protótipo do homem religioso e deixa Deus reinar sobre si, que fez a experiência original de Deus como o Abbá (cf. Mt 11,25-27) e jubilosamente lhe permite guiar a sua vida e vergá-la no sentido de fazer o que ele quer fazer no mundo. Porque Jesus permite ao seu Deus-Abbá ditar-lhe os rumos de sua vida, vai ocorrendo o bem que felicita os empobrecidos: Jesus os acolhe sem preconceitos e exigências prévias e lhes facilita o acesso a si e a Deus, proclama que o interesse de Deus está voltado em primeiro lugar para eles, e os cura (“Se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, então o reinar de Deus já chegou a vós!”, Lc 11,20). De tal sorte essa é a marca registrada de Jesus e do seu agir que ficou sua memória em At 10,37: “… passou fazendo o bem e curando a todos”, ou seja, representou bem o seu Pai que ama eficazmente os homens, o qual por isso “o ungiu com o Espírito e com poder” e “estava com ele”.

b) Nas pessoas dos discípulos de Jesus, que puseram sua vida e mundo sob o comando régio de Deus. “Bem-aventurados então os empobrecidos”, quando se encontram com os discípulos de Jesus (Maximiliano Kolbe, Vicente de Paula etc.), pois eles ganham a vida, porque eles saram o mundo para os outros. Neles, os pobres e necessitados acham, como em Jesus, o cuidado de Deus por eles, servidores para felicitá-los e “evangelizá-los” (com atos efetivos fazendo o bem para eles, o seu bem integral — é esse o conteúdo real de “Evangelho” ou “Boa-Notícia”!). Por eles, como por Jesus, o reinar de Deus torna-se evento e acontecer do bem para os homens e o mundo. O Deus messiânico e verdadeiro manifesta-se no gesto concreto e eficaz do acontecer do bem para os necessitados (cf. Lc 4,18-19; 7,18-22). Sem esse gesto concreto e eficaz, não se encontra com este Deus e ele não se faz presente (nem sequer nas instituições e pessoas que explicitamente apelam para ele!).

Deus reina, porém, se os homens lhe permitirem, ele não força a barra nem robotiza. Chega o momento em que Jesus começa a explicitar as resistências do homem. E é o ponto em que procederá a verdadeiras críticas de ideologias religiosas violentas que impedem ao homem ser fraterno.

2. A “metanoia” que Jesus prega

“Fazei metanoia!” (metanoeîte) — é o estado de mente que Jesus exige para que a vida possa se pôr sob o comando régio de Deus. Na passagem clássica (Mc 1,15), costuma-se traduzir por “convertei-vos!” (BJ) ou “fazei penitência!”. São termos fracos para traduzir o original, além de criarem a impressão de que já se sabe o que venha a ser isso, independentemente da pregação de Jesus mesmo, introjetando-se na leitura ideias que estão longe de serem de Jesus.

“Metanoia” talvez se possa esclarecer pela etimologia de nossa conhecida palavra “metamorfose”, que significa uma ação (ose) sobre a forma (morfé), no sentido de transmudá-la (metá): transformação, portanto, aplicada na morfé/forma. “Metanoia” seria, de modo semelhante, transformação aplicada sobre a “noia”: é este o elemento que deve passar por mudança, e importa ver o que significa. “Noia” é a raiz mais profunda das decisões do homem, de onde nascem o seu pensar, o seu sentir, os quais, por sua vez, determinam e marcam o seu agir. São conteúdos dinâmicos de pensar e agir, que levam o homem a maneiras determinadas de mexer no mundo e com os outros homens. Jesus pede bombardeio neste nível profundo do homem, quando diz: “Fazei metanoia!” (Mc 1,15). Pretende mudança de conteúdos de pensar e sentir, para que a vida e prática dos homens possam se pôr sob o comando régio ou “basileia” de Deus. É aí que se anunciam as resistências, mas precisamente enquanto elas significam defesas de interesses concretos dos homens.

Jesus começa a falar destes conteúdos de “noia” em sua pregação só quando percebe resistências de fato à sua prédica e prática da “basileia” de Deus. As resistências estão ancoradas nos abismos daquela “noia”, e ele percebe os conteúdos dela que oferecem resistência a que os homens permitam “ficar perto e acessível o reinar de Deus” (Mc 1,15) em favor dos outros. Explicita vários desses conteúdos, como, por exemplo, a riqueza que exclui os outros de participar ou determinados conceitos de Deus, Lei e poder, passando a bombardeá-los com vigor e rigor. E é onde desmascara — diríamos que em verdadeira crítica ideológica de fatos sociais — as grandes e sagradas justificativas de cunho religioso para a violência da marginalização, exclusão e empobrecimento dos outros; justificativas essas para defender interesses e posições sociais de força muito concretas e verificáveis na época.

Ideologias avassaladoras que corrompiam precisamente o que se julgava mais eminente: o conceito de Deus e do que ele promove no mundo, a Lei e o poder. Jesus denuncia as realidades mais sagradas do seu povo, as estruturas religiosas e montagens teológicas do seu tempo enquanto impediam a vinda do reinar de Deus em favor dos pobres. Elas, precisamente elas, por incrível que pareça, são violentas e produzem a sociedade violenta. O combate de vida e morte que Jesus travou inseriu-se aí, onde os interesses humanos se defendem em nome da divindade. No final das contas vingam as estruturas de violência e descontam em Jesus mesmo: matam o profeta que realiza a “basileia” de Deus!

3. Jesus denuncia o deus dos violentos

Jesus chega a ponto de dizer: Para que o Deus vivo e verdadeiro possa reinar em sua vida, mude a ideia do Deus que você tem (cf. Lc 15; Mt 20,1-16 e comentários de J. Jeremias em As parábolas de Jesus, Paulinas, 1980). O deus dos violentos é o deus que se tem, que se julga ter prendido nas malhas do mérito religioso ou da própria nacionalidade ou grupo como riqueza própria e não como aquele que envia em êxodo para os outros. Tal era o deus dos fariseus e da corrente do messianismo político nacionalista. A pregação de Jesus sobre Deus é vigorosa polêmica anti-farisaica.

O fariseu tinha sua fórmula especial de ter Deus para si. O homem — para ser de Deus ou ter Deus em seu favor, ser justo — havia de observar todas as normas da Lei. Observadas essas, podia brandir o seu mérito perante Deus: “Agora, Deus, tens de me tratar bem, eis o meu mérito!” E com isso se liquida com a Soberania e liberdade divinas (não se “santifica o Nome de Deus”!). É um deus que fica preso nas peias do mérito, que se converte na mais refinada sorte de ter, de riqueza, a riqueza religiosa, que consiste em ter Deus para si. E Deus mesmo deverá reconhecer. E pronto e ponto!

E pronto e ponto, não! — responde Jesus, e revela o reverso da medalha. Desideologiza. O homem que vem a brandir o seu mérito perante Deus, o brande também contra os outros: Eu tenho méritos, tenho Deus; o pecador não tem, por isso Deus não pode tratá-lo bem; e por isso eu também não o trato bem… Usa-se do mérito próprio para se exigir que Deus seja justiceiro, castigue aquele que não se pauta pela Lei, não conceda nada gratuitamente a ninguém, não seja misericordioso, buscando o necessitado, não seja o Deus da “basileia” que Jesus prega. O contrário seria trabalho de sapa na firmeza do código ético, seria subverter a moralidade, afrouxar os costumes, e diminuir o valor adquirido do mérito, inflacionar a moeda! Daí segue poder-se marginalizar e desprezar os que a gente julga ser pecadores.

E não se pense que “pecador” na época de Jesus fosse categoria de conotação apenas religiosa. Pecadores não eram só os que notoriamente desobedeciam a Lei de Deus. Abrangia a classe dos profissionais, de que se suspeitava vulgarmente como desonestos, como os pastores, os publicanos, jogadores de dados, e, por incrível que nos pareça, também os “am ha aretz”, “o povo da roça” em geral, que não tinha instrução e por isso ignorava a Lei e não a observava com exatidão. A elite religiosa da época votava o maior desdenho para com essa camada da população e exatamente por motivos religiosos (cf. Jo 7,49: “… este povoléu que não conhece a Lei… são uns malditos!”).

Temos documentação, segundo a qual se chega ao desplante de se dizer que se podia tratá-los com usura e explorá-los por serem pecadores e malditos! E resulta o maniqueísmo: nós, os bons, e os outros, os maus!

Assim se fecha o círculo. O homem que julga ter o seu deus, porque segue a vida moral, observa a Lei, “paga dízimos” (cf. parábola do fariseu e do, publicano orando no templo) — porque tem, nega que Deus possa ser dos outros que não fazem o mesmo, não seguem a Lei… e se chega a ser contra os outros ou alheio aos outros, a se exigir que o Deus que se tem não seja o Deus dos que não o têm. E a semente da violência está plantada: o que se pensa de mais sagrado me apoia e não apoia os outros. Lança-se aí a raiz de violências em série!

E os pobres e os pequenos é que precisamente padecem essas violências, eles, os sujeitos em favor dos quais Deus instaura o seu reinado e pelos quais Jesus dedica sua vida sob o reinar de Deus e pede aos discípulos que o sigam na mesma vereda.

Quando Jesus percebe o alcance terrível dessa ideia farisaica de Deus e como ela agarra e mexe nos cordéis do teatro social humano e nas formas de os homens agirem para com os outros, marginalizando-os e explorando-os, Jesus defende o seu Deus para defender o homem. Ele é misericordioso, acolhe e faz o bem além e acima do mérito e apesar do demérito, vem mais para o doente do que para o são. Não pode ser brandido para criar grupos exclusivos de bons e salvos, eliminando os outros como alvo do próprio serviço.

O Deus de Jesus não se fecha para os outros, antes se abre para os outros tanto mais quanto mais necessitados eles são. O Deus de Jesus é o Deus dos outros, pelos outros e nos outros, e é tematizado da melhor maneira pela prática nessa linha, a prática da “basileia” dos “filhos da basileia”. “Bem-aventurados os pobres de espírito (de “noia”, que perderam a riqueza da posse desse falso deus que se tem para si), porque Deus reina sobre eles”, eles têm a felicidade de conviver com Deus. E porque se tornam “pobres de noia”, passam a felicitar os pobres, e “bem-aventurados estes” porque se encontraram com os que puseram sua vida sob o comando régio de Deus. Assim se jungem a versão lucânica e a matéica da bem-aventurança dos pobres.

4. Jesus denuncia a sociedade dos violentos

A lei e o poder são conformadores da sociedade dos homens, eles forçam as ações em determinado rumo e para servir a determinados objetivos. Na história das religiões, foram os clássicos lugares de sacralização. Os detentores do poder sempre quiseram a força da divindade para respaldá-los. Os grupos dominantes sempre apelaram para ordens sancionadas divinamente (do tipo “civilização ocidental cristã”), para calar os de baixo e até para justificar a violência contra eles. Ora, se os deuses me defendem, o que poderá atacar-me? Contanto que a convicção seja introjetada na consciência dos outros!

Jesus vai atacar de rijo essas duas realidades e vergá-las no sentido da prática da “basileia”.

a) Jesus denuncia a lei dos violentos. Em inteira ligação com o tema anterior do deus dos violentos — decorrência e aspecto dele — está o ensinamento de Jesus sobre a lei. No seu meio teocrático, trata-se precisamente da lei de Deus. E, como símbolo e síntese dela, emerge o Sábado, em torno do qual se desenrola a discussão de Jesus. A lei é estruturadora da sociedade enquanto amolda outros atos a serem produzidos. Por isso, está carregada de energia e pode escravizar. E, se a lei é de Deus, haverá de sempre estar ligada com os interesses que esse Deus defende e promove no mundo. Se o Deus dessa lei é o dos violentos do item anterior, também a lei será dos violentos. Resumamos a visão de Jesus sobre a lei:

aa. Jesus põe o homem no centro do interesse de Deus. Na cena da cura do homem da mão ressequida (Mc 3,1-6), muito simbólica, temos que os fariseus colocam a Lei, o Sábado no meio. Jesus, porém, lança o homem no centro: “Levanta-te para o meio!” (Mc 3,3).

Em suma, a atitude de princípio de Jesus consiste em pôr a necessidade do homem (mesmo as não urgentíssimas, como é a mão ressequida que não constitui perigo de morte, como é a fome dos discípulos em Mc 2,23-28) acima do Sábado. A expressão marquina em Mc 2,27 (“O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado”) é nítida expressão dessa centralidade do homem, para servir ao qual o próprio Deus renuncia ao seu direito.

ab. Na versão matéica do episódio (Mt 12,1-8), sublinha-se que a vontade de Deus, que é o Senhor do sábado, é que se dê de comer aos pobres: a história em Mateus acentua que Jesus, em nome de Deus, usa de misericórdia para com os discípulos, que são pobres e têm fome, permitindo-lhes “trabalhar” no sábado para se saciarem (cf. o v. 1: “Seus discípulos que tinham fome”, a fome dos pobres da Palestina da época; e o v. 7: “Misericórdia quero e não sacrifício!”). O Filho do Homem é Senhor do sábado, ou seja, o legítimo intérprete e mestre da Lei, e ensina: o seu Deus renuncia ao seu direito para usar de misericórdia, deixando que os homens “trabalhem” no seu sábado para matar a fome!

ac. Na versão pré-marquina do episódio (cf. L. Schottroff-W. Stegemann, “Der Sabbat ist um des Menschen willen da. Auslegung von Markus 2,23-28”, in: VV. AA. Der Gott der kleinen Leute. Muenchen: Chr. Kaiser 1979, pp. 58-70), ter-se-ia frisado que saciar a fome dos pobres é dever religioso mais importante do que a observância do sábado. Não se tomava distância, nem se relativizava o sábado (como em Marcos), mas antes se acentuava o sábado como o máximo para ressaltar que o dever de matar a fome dos pobres era dever religioso ainda mais importante do que observar o sábado.

ad. Acresce que a lei é feita para o bem, só é válida enquanto é depositária da vontade salvífica e evangélica de Deus de socorrer aos homens em suas necessidades. Caso seja contrária em casos concretos ao bem dos homens, não é lei de Deus e não vale mais (legalidade sem legitimidade, diríamos).

Se, conforme o espírito de Jesus, a mais alta instituição cultual de Israel está situada abaixo das necessidades do homem, estamos autorizados a glosar em aberto Mc 2,27: no lugar de “sábado” devem-se pôr todas as instituições divinas e humanas (Igreja: sacramentos, verdades de fé, ministérios de toda ordem; instituições e encargos sociais de toda sorte: poderes políticos — legislativo, executivo, judiciário —, economia, educação etc.); tudo está a serviço do homem e não o homem a seu serviço! O contrário é torcer a vontade salvífica e evangélica de Deus e entregar o mundo às garras dos violentos em nome de um deus violento. Não há alternativa, ou a lei (nesse amplo leque de sentido) serve ao homem, ou torna-se instrumento de violência, violência institucionalizada.

b. Jesus denuncia o poder dos violentos. O poder também é estruturador da sociedade. É outro aspecto da lei. Jesus aborda o tema diretamente e com mordência especial. Está consciente dos abusos do poder: “Os reis das nações as dominam e tiranizam”; e até ironiza o fato: “Os que as tiranizam são chamados de Benfeitores” (“euergétai”, título oficial dos imperadores e reis da época!) — cf. Lc 22,25 = Mc 10,42 = Mt 20,26). Percebe as buscas do poder para dominar: o seu meio ambiente e os próprios discípulos anseiam pelo messianismo político nacionalista, em que se opta pelo poder tomo pedestal de glória, tendo os outros homens ou povos como escabelo dos pés.

A doutrina de Jesus sobre o poder foi posta pelos evangelistas no contexto característico da disputa pelo poder como dominação. Mateus e Marcos situam-na após os três anúncios programáticos da paixão (o grande exercício do poder segundo o exemplo de Jesus: servir dando a vida!). Seguem as disputas entre os discípulos por serem maiores do que os outros. Jesus responde com sua doutrina sobre o poder como serviço e lugar de dar a vida. O exemplo de Jesus (“O Filho do Homem — essa figura tão soberana, cf. Dn 7,13 — não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”: Mc 10,45) e o seu serviço como garçom à mesa para os apóstolos (cf. Lc 22,27) impulsionam os discípulos e a Igreja nas mesmas vias de superar a dominação entre os homens. O poder, que, sob o ponto de vista sociológico, é a capacidade de influenciar a vida dos outros, deve ser o lugar onde o homem depõe o senhorio e dominação e serve aos outros. O programa de Jesus é: quanto mais poder, tanto mais obrigação de mais serviço, mais eficaz e mais amplo! Fora disso os que se fazem chamar de “Benfeitores” da humanidade não passam de seus aproveitadores e instrumentos da violência.

c. Jesus e a utopia da sociedade fraterna no uso das riquezas. Para ser breve, pois nos falta espaço, apenas constatamos, em linha geral que o Jesus histórico teve uma proposta exigente para o discipulado, no que concerne ao ter riquezas.

Em Mc 10,28-30 vamos achá-la nitidamente. O seu grande contexto é a exigência que Jesus faz ao homem rico de dispor do que tem, em favor dos pobres, para ser seu discípulo (bem mais do que apenas cumprir os mandamentos!); em seguida, temos o dito sobre a dificuldade de os ricos entrarem no reinado de Deus, o espanto dos discípulos e o dito de Jesus sobre que “para Deus tudo é possível” (Mc 10,27), ou seja a sua graça pode criar a sociedade de fraterna partilha dos bens, como se descreverá abaixo; e segue o nosso trecho, onde Pedro diz: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos!” (v. 28), ao que Jesus responde: “Quem houver deixado tudo (casa, família terrena, terras), para entrar na aventura do discipulado dos que tudo dispõem em favor dos outros, haverá de achar tudo de novo na nova família da comunidade fraterna, onde nada lhe faltará, pois que os irmãos haverão de cuidar dele e ele cuidará dos irmãos” (cf. Mc 10,29-31).

Jesus conhece a violência da posse exclusivista das riquezas e possui sua proposta, utópica e inspiradora, de suprimi-la pela comunidade fraterna. Era de se perguntar: As comunidades cristãs acaso a representam e atualizam pelo menos em germe e prenúncio? Propõem-na como esperança para a sociedade política de que fazem parte?

5. Algumas ideias para concluir

Perguntávamos no início em que lugar, na hierarquia de sua doutrina, Jesus abordara o tema da violência, se no centro e raiz dela ou na sua periferia. Verificamos que na centralidade do lado positivo de sua doutrina achamos a negação dialética da violência e uma resposta utópica inspiradora para superá-la. Jesus age na raiz e fonte, de onde brotam as violências: lá onde se define quem é Deus e o que ele promove e apoia no mundo. Os violentos procuram um Deus (e o seu Messias) que fundem a busca da própria glória. Jesus ensina que Deus (e o seu Messias) decidiram, em sua imensa majestade, serem servos dos homens, dando o exemplo de lavar os pés dos homens para que sejam seguidos (cf. Jo 13 com Jo 14,9). Até para Deus, sua onipotência é onipotência de serviço e misericórdia (cf. Mt 5,45): “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais!” (Jo 13,15).

O Deus violento e demoníaco, porém, introjeta-se nas consciências (conceito de Deus — fruto e fator ao mesmo tempo do que o homem faz), passa para os moldes éticos que o homem imprime à sua ação (a lei) e para as instituições sociais (o poder). É, pois, na prática dos homens (da ética, da lei e do poder, e da distribuição das riquezas no corpo social) que se detecta qual o Deus que está em jogo e exercício da realeza: o Deus dos violentos ou o Deus da fraternidade? O Deus que emerge na prédica e prática de Jesus é aquele que depôs sua glória (cf. Fl 2,5-11), para servir e que sempre situa o homem no êxodo para os outros. O discípulo, para ser “divino” (Mt 5,48) e ser “cristão” ou “messiano”, haverá de ser como é este Deus e este Messias de Deus.

Todo o restante da doutrina de Jesus, em que acaso venham a entrar temas relativos à “violência”, só se poderão bem interpretar a partir destes marcos centrais.

João Rezende Costa