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Publicado em maio-junho - 2014

Patativa do Assaré: uma voz poética e profética do Brasil profundo

Por Antonio Iraildo Alves de Brito, ssp

Gustavo Gutiérrez disse certa vez que a “melhor forma de falar de Deus é por meio da poesia”. Patativa do Assaré fez isso durante toda a sua vida e o realizou com “zelo sacerdotal”, sentindo-se, por assim dizer, vocacionado a proferir uma palavra transformadora. Deus permeia sua obra.

“Eu sei, por experiência,

Pois desde a minha inocência,

Nesta estrada, a Providência

Dirigiu os passos meus.

A vida vivo gozando,

Sempre amando e admirando

As maravilhas de Deus.”

Patativa do Assaré

Nota introdutória

Patativa do Assaré, poeta popular. Popular no sentido mais original da palavra, porque poeta do povo. Ele compôs poesia erudita também, fazendo cair por terra os rótulos rígidos, as dicotomias abissais. Para falar de Patativa uma palavra basta: poeta. Poeta que no princípio fora violeiro, repentista, cordelista. E ao longo da vida foi isso tudo junto. Expressões essas oriundas de um saber ancestral que lhe legou a forma primordial da linguagem: a fala. Sua poesia é voz, um eco herdado dos tempos originais.

Envolto no universo da oralidade, desde muito cedo se sentiu vocacionado a ser porta-voz, mediador da palavra. Mensageiro oracular. Recadeiro do “deus”. Qual Hermes grego, um intérprete, veículo da mensagem. Como Homero ou um Profeta bíblico, intermediário e agente do divino. O encargo é o mesmo: portador da linguagem. A audição pela primeira vez da declamação de um cordel abriu-lhe os ouvidos e despertou-lhe a vontade de beleza: poderia explicar o mundo por meio da palavra poetizada. A revelação do belo lhe veio pelos ouvidos. A partir de então nada o detinha na busca por saciar a fome de poesia, a fome de Deus. Daí seus versos fartos, vertidos como que de água limpa de cacimba, nas fontes oásicas do sertão. A marca profética de sua poesia é qual um encargo a serviço de seus pares empobrecidos, a quem sempre devotou palavras de esperança. 

1. Poeta profeta sertanejo

Patativa do Assaré foi agricultor-poeta. Na mesma terra em que cultivou o grão de milho, de feijão, a raiz da mandioca, a semente de algodão, também semeou a palavra vital. Vital porque na secura do sertão fez verter “água poética” de vida, de esperança e de beleza por meio de sua voz. Antes de ser “pássaro”[1] e alçar voo pelo mundo da poesia, Patativa é Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), filho de pais agricultores. Nasceu na Serra de Santana, comunidade rural do município da pequena Assaré (cidade a 623 km de Fortaleza), ao sul do Ceará. É o segundo de uma família de cinco irmãos.

Aos 4 anos de idade, o pequeno Antônio ficou cego do olho direito, consequência do sarampo e da falta de atendimento médico na longínqua Assaré. Com o passar dos anos, o olho esquerdo vê apenas vultos. Na velhice, cega totalmente. Segundo os dizeres de Zumthor (1993), referindo-se à presença dos cegos no mundo da poesia, neles “atuaram as pulsações profundas que para nós significam, miticamente, figuras como Homero ou Tirésias: aqueles cuja enfermidade significa o poder dos deuses e cuja ‘segunda visão’ entra em relação com o avesso das coisas, homens livres da visão comum, reduzidos a ser para nós só voz pura” (ibid., p. 58). Patativa, aludindo à sua cegueira, assim declama:

Nasci dentro da pobreza

E sinto prazer com isto,

Por ver que fui com certeza

Colega de Jesus Cristo.

Perdi meu olho direito

Ficando mesmo imperfeito

Sem ver os belos clarões.

Mas logo me conformei

Por saber que assim fiquei

Parecido com Camões

(In CARVALHO, 2002, p. 29-30).

Consciente da condição de pobre e impossibilitado de ver os belos clarões, o poeta expressa autoestima: mostra afinidade com dois personagens de relevância universal: Jesus Cristo e Camões. Um da religião, outro da literatura. Ser colega de Jesus na pobreza e parecer com Camões na cegueira é ter em si a segurança de um dever ou uma responsabilidade a cumprir. O ser pobre neste caso tem qualquer coisa de missão, de encargo; como o Filho de Deus. Parecer com Camões é o mesmo que dizer: tenho habilidade com a palavra, conheço a língua portuguesa, posso explicar o mundo.

Dessa forma, o “prazer” de ser pobre se traduz na luta, na peleja com a palavra poetizada, anunciando esperança aos seus pares pobres que partilham consigo das mesmas carências, das mesmas “cruzes”. Por isso faz da palavra denúncia contra os que esbanjam e acumulam para si as riquezas, quase sempre fruto do suor das multidões empobrecidas. Faz da palavra ferramenta, sem, no entanto, ser panfletário nem tampouco perder de vista a estética: “Não tenho tendência política, sou apenas revoltado contra as injustiças, que venho notando desde que tomei algum conhecimento das coisas, provenientes talvez da política falsa, que continua muito fora do programa da verdadeira democracia” (ASSARÉ, 2006, p. 12).

Outro acontecimento marcante na vida de Antônio é a perda do pai. Além de um olho cego, agora a dor da orfandade. “Quando completei oito anos fiquei órfão de pai e tive de trabalhar muito, ao lado de meu irmão mais velho, para sustentar os mais novos, pois ficamos em completa pobreza” (ibid., p. 11). Com base nisso, imagina-se que essas perdas já na primeira infância tenham sido parte determinante para a formação de um “coração compassivo”, como se desde menino sentisse em si a “dor do mundo” e depois tivesse de expressá-la em versos, fazendo seu também o padecer do outro.

Ainda na infância, bem cedo, uma janela de encantamento e beleza se abre para ele. Trata-se de seu contato com a poesia de cordel e a alfabetização. O horizonte da criação poética se vislumbra à sua frente. O menino Antônio está em meio às vozes da literatura de cordel, que na Serra de Santana “era peça obrigatória em todas as casas. Em quase todos os terreiros, se liam em voz alta as histórias fantásticas deitadas na escrita dos folhetos” (FEITOSA, 2003, p. 57). O poeta relata a “magia” desse acontecimento:

Quando eu ouvi alguém ler um folheto de cordel pela primeira vez, aí eu fiquei admirado com aquilo, mas no mesmo instante, eu pude saber que eu também poderia dizer em versos qualquer coisa que eu quisesse, que eu visse, que eu sentisse, não é? Comecei a fazer versinhos desde aquele tempo. Sim, a partir do cordel. Porque eu vi o que era mesmo poesia. Aí dali comecei a fazer versos. Em todos os sentidos. Com diferença dos outros poetas, porque os outros poetas fazem é escrever. E eu não. Eu faço é pensar e deixo aqui na minha memória. Tudo o que eu tenho, fazia métrica de ouvido. […] A base era a rima e a medida. A medida do verso, com rima, tudo direitinho. Aí quando eu peguei o livro de versificação de Olavo Bilac e Guimarães Passos, aí eu melhorei muito mais. Eu já tinha de ouvido, porque já nasci com o dom, não é? (ibid., 39).

Ao entrar em contato com a poesia de cordel, o pequeno Antônio percebe que pode explicar o mundo por meio da palavra: poderia dizer em versos qualquer coisa que quisesse, que visse, que sentisse. A partir desse momento de “epifania”, passa a ver o mundo, senti-lo com olhos e tato de poeta. A poesia se torna para ele o espaço da liberdade. Ela será seu “brinquedo” até mesmo nas horas de trabalho na roça. Sim, será distração, mas também peleja, briga, arenga com as palavras, semelhante à luta na batalha pela vida.

Na expressão “fazer versos em todos os sentidos” pode estar implícita a revelação de sua capacidade criadora, imaginação fértil, dom de fazer versos “de cabeça” e deixá-los retidos na memória. Quando se refere à composição de seu poema A triste partida, diz: “Passei o dia trabalhando e pensando e deixando retido na memória. No outro dia, quando eu voltei à roça, eu terminei. Comecei como hoje, terminei como amanhã, viu?” (ibid., 48).

Essa habilidade de memorizar é uma marca do poeta. É comum em entrevista ele se referir à capacidade que tinha de deixar os poemas retidos na memória, sem a necessidade de retoques no papel e a passagem imediata deles para a escrita. Isso certamente exigia exercício, treino intelectual. A triste partida, por exemplo, tem 19 estrofes, cada uma com seis versos, totalizando 114. Tudo retido na memória de um dia para o outro.

É como se o poeta nos remetesse à Antiguidade. No panteão grego havia uma divindade de nome Mnemosine, memória. A memória era, pois, algo sobrenatural, divino. Ela tinha o encargo de presidir a função poética. O poeta era seu intérprete. Segundo Vernant (1973, p. 72), a sacralização de Mnemosine marca o preço que lhe é dado em uma civilização de tradição oral como foi a civilização grega. No caso de Patativa, é como se ele atualizasse essa tradição, pondo a memória a serviço da poesia, entregando-se a ela e deixando-se possuir pela “inspiração divina”, qual poeta/profeta do mundo antigo.

Para os gregos, o profeta é um porta-voz, alguém inspirado por um deus e que fala em nome desse deus. No mundo da Bíblia, o sentido é semelhante: “o profeta é um arauto, um porta-voz de alguém que lhe confia uma mensagem, que autoriza sua comunicação e garante sua veracidade” (SILVA, 1998, p. 12). Em hebraico, a palavra profeta é nâbhî’, traduzida do grego profêtês. Nâbhî’ significa aquele que anuncia ou aquele que proclama a mensagem de outrem (idem). No entanto, os profetas não eram apenas veículos de transmissão da palavra divina. Eles estavam, sim, a serviço dessa palavra, mas não passivamente, como meros repetidores. De acordo com Schökel, “o profeta precisa elaborar os oráculos com o suor da sua fronte, como consciencioso artesão da palavra profética” (ALONSO SCHÖKEL; SICRE DIAZ, 1998, p. 16). De modo que, se nas confrarias de aedos e cantores gregos havia o treinamento para o domínio da língua poética, no mundo bíblico também há o esforço de aprimoramento do discurso.

Como ministro da palavra e artista da linguagem, o profeta utiliza linguagem já elaborada, linguagem que ele continua enriquecendo. Na sua língua, emprega formas tradicionais, gêneros conhecidos, esquemas convencionais; toma empréstimos e dá passagem a reminiscências; transforma e adapta cânticos tradicionais ou cria outros à imitação deles. Os profetas são criadores literários no meio de tradição (idem).

Desse modo, afirma-se que os profetas são também poetas. Sua palavra é a palavra poética, carregada de imagens e símbolos poéticos. Diz-se que “na história da humanidade houve poucas linguagens tão fecundas quanto a linguagem dos profetas bíblicos” (ibid., p. 17). Além disso, nos dois casos, tanto no mundo grego antigo quanto no mundo bíblico, é a oralidade, é a voz a veste que adorna e sustenta o discurso. E mais, a divindade se utiliza do humano como veículo para que sua palavra se cumpra, realize-se. “A palavra profética era, antes de tudo, acontecimento oral. Jamais os profetas pedem que suas palavras sejam lidas, sempre exigem: ‘ouvi a Palavra do Senhor’” (ibid., p. 18).

Nessa perspectiva, pode-se afirmar que Patativa do Assaré foi um artesão da palavra, bem como um “agente do sagrado”. Não como um sacerdote preso ao templo, mas misturado com os sertanejos. Certa vez ele declarou: “(…) o que eu li com mais prazer sempre eram as pregações de Jesus Cristo, viu? Eram os direitos humanos, o direito de cada um (…). A partir da doutrina de Cristo foi que me veio com muito amor, continuar fazendo verso dentro da verdade e da justiça, defendendo o povo” (CARVALHO, 2002, p. 74). Como porta-voz divino e inspirado por uma mensagem cristã libertadora, o poeta sentia-se no encargo de dizer sua palavra: uma palavra que, segundo seus poemas, tinha origem em Deus: “(…) A minha rima faz parte / Das obras da criação” (ASSARÉ, 2002, p. 27).

2. Sertão bonito

O poeta lançou a semente da poesia a partir do chão sagrado da Serra de Santana, como o semeador da parábola bíblica: uma semente aparentemente pequenina, caindo em terreno bom, produziu muito fruto.

(…)

Meu verso é como a simente

Que nasce inriba do chão;

(…)

Canto as fulô e os abróio

Com todas coisas daqui:

Pra toda parte que eu óio

Vejo um verso se bulí.

(…)

Assim que óio pra cima,

Vejo um diluve de rima

Caindo inriba da terra

(ibid., p. 27-28).

Nesses fragmentos e no poema todo, é como se o poeta declamasse um “hino à criação”: rimas, ritmo, canto, tudo é dádiva, é dom supremo. Para o eu poético o sertão é belo, é o espaço da contemplação. A poesia está em toda parte: nas flores, nos abrolhos. Ela cai do céu como um dilúvio de rimas em cima da terra, tornando a paisagem cheia de vida, pois em todo canto “há um verso se bulindo”. Patativa traduz o sertão pela beleza. Em vez de uma imagem de dor, miséria, esterilidade, o sertão é belo, cheio de sonoridade, de vida. Se no sertão existe fome e miséria e outras mazelas, isso se dá noutra ordem: pelo descaso político ou por uma visão deturpada de quem o vê apenas na aparência e do lado de fora. O título mesmo do poema Cante lá que eu canto cá parece indicar isso, ao que o poeta cobra sua autoridade de cantar o sertão: “(…) a dor só é bem cantada, / cantada por quem padece” (ibid., p. 26).

3. Um tripé: poesia, fé e política

O teólogo peruano e principal mentor da teologia da libertação, Gustavo Gutiérrez, disse certa vez que a “melhor forma de falar de Deus é por meio da poesia”.[2] Patativa do Assaré fez isso durante toda a sua vida e o realizou com “zelo sacerdotal”, sentindo-se, por assim dizer, vocacionado a dizer uma palavra transformadora: Deus permeia sua obra.

O Deus pronunciado por Patativa, embora revestido de uma linguagem com tons nitidamente cristãos, não se identifica unicamente com um tipo de fé estabelecida. Com liberdade poética, Patativa se permitiu falar do divino de um modo muito livre. E mais: é de notar que, na totalidade de sua obra, a vida é mais que todos os esquemas estanques, sejam eles relacionados à religião, à literatura ou à política.

A vida é o que conta. Por isso uma poética caracterizada pelo anúncio e pela denúncia. Semelhante a um profeta bíblico, ele clama por justiça em nome dos camponeses pobres, dos operários oprimidos, das crianças famintas, dos discriminados pela miséria, pela cor, pela origem, enfim, sua voz brota de uma realidade que pede atenção aos que são esquecidos e renegados ainda hoje pela história oficial.

Nessa perspectiva, é ilustrativo o poema Ingratidão, em que o poeta se põe numa espécie de diálogo aberto com o Cristo, contando-lhe o que se passou com um camponês oprimido:

A histora do pobre João,

Aconteceu mesmo aqui,

Nesta invejada nação,

Nas terras do meu Brasí.

Sem um raio de esperança

Começou derne criança

A trabaiá no roçado,

Pro causa das consequença

Dos home sem consiença,

Já nasceu sendo agregado

(ibid., p. 192).

O poema é composto de 19 estrofes, cada uma de dez versos, totalizando 190 versos. Nas sete primeiras estrofes o narrador se concentra no exemplo de Jesus Cristo, dirigindo-se a ele como modelo, por seu padecimento na cruz para o mundo melhorar. Refere-se às suas pregações na Palestina: “de paz, amor e igualdade”. Ressalta que, para provar seu poder, Jesus fez aleijado correr e morto ressuscitar e, além disso, no ápice do sofrimento, perdoou àqueles que o mataram na cruz. O poeta, portanto, situa a figura de Jesus Cristo para finalmente dizer que, apesar de todo esse empreendimento, a humanidade não aprendeu a ser feliz. Aprendeu a desenvolver-se no poder da ciência e até viajar à Lua, mas descuidou na prática do amor.

A certa altura do poema, enquanto João cortava uns galhos secos de um cajueiro, caiu lá de cima e “esbagaçou a bacia” na terra dura, ficando impossibilitado para o trabalho. Se o patrão já era carrasco, ainda mais o será depois de tal acidente: abandona o operário na hora em que mais precisava de socorro. João fica numa situação de total abandono, em quarto de hospital, vivendo verdadeiro calvário, e só conta com ajuda das “mué piedosa”. É interessante esse detalhe da presença da mulher na “via crucis” de João. Na narrativa bíblica, as mulheres estão muito presentes no caminho de Cristo até a crucifixão.[3] Para completar ainda mais sua situação de abandono, o operário nem sequer tinha “a cartera do sindicato Rurá”. Ou seja, estava totalmente desprovido de qualquer proteção da sociedade e era, portanto, um homem sem cidadania, excluído.

O poeta apresenta o João operário como “outro Cristo” hoje; e o patrão, nomeado no poema como “fazendeiro judeu”, representa o sistema injusto que escraviza pessoas em nome do progresso e só as considera enquanto podem produzir. Dessa maneira, o sofrimento e a dor de alguém nos rincões do sertão, aqui representados na pessoa do operário João, são também o padecimento de quem é pobre e explorado no mundo inteiro. E como quem tem a posse de uma voz necessária, porque portadora da “verdade”, o poeta brada noutra composição, intitulada Eu quero:

Eu quero o agregado isento

Do terrível sofrimento,

Do maldito cativeiro,

Quero ver o meu país

Rico, ditoso e feliz

Livre do jugo estrangeiro (ibid., p. 117).

Esse poema é também elucidativo do aspecto compassivo da poética patativana, apresentando uma sensibilidade enraizada no sertão que se reveste de força contestatória, tomando para si as dores da comunidade dos que sofrem. Além disso, o poeta, em suas composições e visão de mundo, vislumbra aspectos do cotidiano camponês que, para a multidão, poderiam passar invisíveis, por serem aparentemente secundários e efêmeros. Isso, porém, no olhar do poeta se torna lampejos de inspiração e fonte para a enunciação de uma palavra duradoura. Como ensina Coutinho (2008, p. 84-85):

o poeta é capaz de absorver as experiências dos semelhantes, colocá-las dentro de si, torná-las suas próprias graças à simpatia imaginativa. Destarte, o que ele traduz são os sentimentos da comunidade também, e por isso ele lidera pelo seu canto, que é de todos. O poeta fala não apenas em seu nome, mas exprime os instintos universais da humanidade.

Seria justamente nesse sentido que o poeta de Assaré entoa seu canto, traduzindo nele a dor, o abandono, o “peso da cruz”, bem como a esperança e a alegria que o sertanejo leva dentro de si. No poema ele se personifica num operário oprimido:

Senhô Dotô, meu ofiço

É servi ao meu Patrão,

Eu não sei fazê comiço,

Nem discurso e nem sermão

Nem sei a letra onde mora,

Mas porém eu quero agora

Dizê com sua licença

Uma coisa bem singela

Que a gente pra dizê ela

Não precisa de sabença

(…)

Se a terra foi Deus quem fez,

Se é obra da criação,

Deve cada camponês

Ter um pedaço de chão,

Quando um agregado solta

O seu grito de revolta,

Tem razão de reclamá,

Não há maió padicê

De que o camponês vivê

Sem terra pra trabaiá

(…)

Escute o que eu tô dizendo,

Seu dotô, seu coroné,

De fome tão padicendo

Meus fio e minha muié,

Sem briga, questão, nem guerra,

Meça desta grande Terra

Uma tarefa pra eu,

Tenha pena do agregado,

Não me dêxe diserdado

Daquilo que Deus me deu

(ASSARÉ, 2004, p. 141; 143; 145).

Nesse sentido, poesia, fé e política formam um tripé que, embora pareça inconciliável, converge muito bem em Patativa. Por fidelidade à arte da poesia, sempre tomou partido, mas nunca como filiação político-partidária. O partido do poeta era a defesa da vida, tanto a humana quanto a dos animais e da natureza em geral. Sua poesia oral e a passagem desta para a letra mostram uma marca especial do poeta: a sensibilidade para os que mais sofrem. A essa marca se pode atribuir relevante valor humano, religioso, social e político.

O poeta faleceu em 8 de julho de 2002, aos 93 anos, deixando grande legado poético e profético, porque prenhe de vontade de um mundo conforme a vontade de Deus.

 Nota conclusiva

Com beleza e também peleja, Patativa desde cedo passou a ver o mundo por meio da poesia. Mundo pequeno e também grande. Pequeno, se considerado apenas o espaço geográfico, uma vez que o poeta não foi homem de longas viagens: nunca foi ao exterior. Pelo que se sabe, viajou a algumas cidades do Brasil em eventos culturais. Seu mundo é humano e a natureza é a origem de sua inspiração. Qual menestrel a cantou, em sua aldeia e nos arredores. Foi cantor de sua terra. Por meio da literatura de cordel, descobriu a força da palavra.

O sentido religioso e até filosófico que se pode tirar dessa característica visão de mundo é que o homem não é capaz de tudo. Há um “mistério” no começo, no meio e no fim de sua vida, que ele não pode domar. Em essência, é uma “força” que move a existência, não somente humana, mas de todo o universo. Em Patativa, somente Deus pode tudo.

Conhecer Patativa e sua obra é conhecer um pouco mais do Brasil, usando uma expressão do próprio Patativa: o “Brasil de baixo”. A obra do poeta pode ser bastante relevante na pastoral. Apreciar sua poesia é entrar em contato com uma expressão artística que nasce da força, da resistência e da criatividade peculiar do “mundo dos simples”. Para Patativa, o destino de todas as coisas está em Deus. Nele tudo parece começar e terminar no mistério.

 Bibliografia

 ALONSO SCHÖKEL, L.; SICRE DIAZ, J. L. Profetas I: Isaías, Jeremias. São Paulo: Paulus, 1988.

ASSARÉ, Patativa do. Aqui tem coisa. São Paulo: Hedra, 2004.

______. Cante lá que eu canto cá. 13. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.

______. Digo e não peço segredo. Organização e prefácio de Tadeu Feitosa. São Paulo: Escrituras, 2001.

______. Inspiração nordestina. São Paulo: Hedra, 2006.

BRITO, A. I. A. de. Patativa do Assaré, porta-voz de um povo: as marcas do sagrado em sua obra. São Paulo: Paulus, 2010.

CARVALHO, G. de. Patativa Poeta Pássaro do Assaré. 2. ed. Fortaleza: Omni, 2002.

COUTINHO, A. Notas de teoria literária. Petrópolis: Vozes, 2008.

FEITOSA, L. T. Patativa do Assaré: a trajetória de um canto. São Paulo: Escrituras, 2003.

SILVA, A. J. da. A voz necessária: encontro com os profetas do século VIII a.C. São Paulo: Paulus, 1998.

VERNANT, J. P. Mito e pensamento entre os gregos. São Paulo: Difel, 1973.

ZUMTHOR, P. A letra e a voz. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.



[1] Batizado com o nome de Antônio Gonçalves da Silva, depois “crismado” como Patativa, uma ave canora do sertão. Essa representação icônica da ave pequenina, de canto mavioso, foi cunhada pelo folclorista cearense José Carvalho de Brito, quando da viagem do jovem poeta ao Norte do país (Pará e Amapá), em 1928.

[2] Cf. Vida Pastoral, ano 50, n. 266, p. 39, maio-jun. 2009.

[3] Na tradicional via-sacra celebrada, sobretudo, na Sexta-feira da Paixão há três estações em que as mulheres se fazem presentes: na quarta estação, Jesus se encontra com sua mãe; na sexta estação, Verônica limpa o rosto de Jesus; na oitava estação, Jesus encontra as mulheres de Jerusalém.

Antonio Iraildo Alves de Brito, ssp

Padre paulino, jornalista, bacharel em Filosofia e Teologia. É mestre em Letras, Cultura e Regionalidade pela UCS (Caxias do Sul-RS). Publicou o livro Patativa do Assaré, porta voz de um povo pela Paulus. É vice-diretor da Fapcom. E-mail: irabrito@yahoo.com.br