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A ECLESIOLOGIA DE HANS KÜNG

28/09/2026

Eliseu Wisniewski**

**  Formado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

Hans Küng (1928-2021) foi um dos teólogos católicos mais influentes e provocadores do século XX, distinguindo-se tanto pela vasta produção intelectual quanto pela postura crítica diante de determinadas formulações doutrinais e estruturas eclesiais. Nascido na Suíça e ordenado presbítero em 1954, construiu grande parte de sua trajetória acadêmica na Universidade de Tübingen. Sua atuação como consultor teológico durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), projetou-o no cenário teológico internacional e contribuiu para sua participação nos debates que marcaram a renovação da Igreja no século XX. Nos anos posteriores ao Concílio algumas de suas posições sobre questões centrais da fé e da autoridade eclesial geraram crescentes tensões com o magistério da Igreja Católica. Entre os pontos mais controversos esteve sua crítica à doutrina da infalibilidade papal, em razão da qual, em 1979, foi-lhe retirada a autorização para lecionar teologia católica. Küng continuou, porém, sua atividade acadêmica, dedicando-se especialmente à teologia ecumênica e ao diálogo entre as diferentes tradições cristãs até sua aposentadoria.

A trajetória de Küng não pode ser compreendida simplesmente a partir da oposição entre fidelidade e ruptura com a Igreja. Seu pensamento desenvolveu-se dentro da própria tradição católica e, ao mesmo tempo, submeteu aspectos dessa tradição a uma análise histórica e crítica. Sua preocupação fundamental consistia em perguntar de que modo a Igreja poderia permanecer fiel ao Evangelho sem transformar determinadas formas históricas e institucionais em realidades intocáveis. Diante desse quadro, temas como autoridade, ministério, liberdade teológica, participação dos leigos, ecumenismo e reforma da Igreja tornaram-se elementos recorrentes de sua reflexão.

É justamente nesse contexto que se encontra a obra Igreja, publicada em dois volumes pela Editora Paulus. O conjunto reúne elementos fundamentais de sua reflexão eclesiológica e possibilita acompanhar a maneira como Küng interpreta a identidade, a missão e a estrutura da Igreja a partir das fontes bíblicas, da tradição histórica e das questões colocadas pelo cristianismo contemporâneo. Sua proposta parte da convicção de que a Igreja não pode ser compreendida exclusivamente como instituição jurídica ou estrutura hierárquica, mas deve ser considerada em sua relação com Cristo, com o Espírito Santo e com a comunidade dos fiéis.

O primeiro volume de Igreja (Paulus, 2025, 368 p.), dividido em três partes, apresenta elementos importantes para a compreensão desse projeto. Os textos reunidos abordam questões como o sacerdócio dos leigos, a liberdade dentro da Igreja e a missão própria do teólogo. A partir desses temas, Küng coloca em evidência algumas das tensões que atravessam a experiência eclesial: hierarquia e comunidade, autoridade e serviço, instituição e Espírito. Essas tensões constituem, para o autor, não apenas problemas administrativos ou disciplinares, mas questões propriamente teológicas, pois dizem respeito ao modo como a Igreja compreende sua própria identidade.

A reflexão conduz à análise das principais imagens da Igreja presentes no Novo Testamento e de seu desenvolvimento histórico. Küng recupera categorias como povo de Deus, corpo de Cristo e realidade animada pelo Espírito, procurando mostrar que a Igreja possui uma dimensão comunitária que não pode ser reduzida à sua organização institucional. A referência ao Concílio Vaticano II é decisiva nesse percurso, particularmente em sua tentativa de superar uma compreensão excessivamente jurídica da Igreja e recuperar sua dimensão de mistério, comunhão e missão.

Essa perspectiva permite a Küng sustentar uma eclesiologia marcada pela necessidade de reforma. A Igreja, por estar situada na história, não pode considerar definitivas todas as formas institucionais que adquiriu ao longo dos séculos. A fidelidade ao Evangelho exige capacidade de discernimento, revisão e conversão. A crítica de Küng dirige-se especialmente às situações em que estruturas de poder podem obscurecer a dimensão de serviço própria da comunidade cristã. Sua reflexão sobre o sacerdócio comum dos fiéis e sobre a responsabilidade dos leigos insere-se justamente nessa tentativa de recuperar uma participação mais ampla de todos os membros da Igreja em sua vida e missão.

O segundo volume de Igreja (Paulus, 2026, 392 p.), dividido em quatro partes, dá continuidade a essa reflexão, concentrando-se nas quatro notas tradicionalmente atribuídas à Igreja no Credo: unidade, catolicidade, santidade e apostolicidade. Küng procura interpretar essas características de maneira histórica e crítica, confrontando sua formulação teológica com a realidade concreta do cristianismo e com os desafios colocados pelo pluralismo das confissões cristãs.

Ao abordar a unidade, o autor considera particularmente o problema da divisão entre os cristãos e a necessidade de uma perspectiva ecumênica. A unidade da Igreja não é identificada simplesmente com uniformidade institucional, mas deve ser pensada em relação à diversidade existente no cristianismo. A catolicidade, por sua vez, é apresentada em sua dimensão universal, indicando a abertura da Igreja à totalidade dos povos e culturas. A santidade é analisada em tensão com a realidade histórica do pecado e da fragilidade presentes na comunidade cristã. Já a apostolicidade é examinada de modo crítico, especialmente quando relacionada exclusivamente à continuidade institucional da sucessão apostólica. Para Küng, é necessário considerar também a continuidade da missão e do testemunho apostólico.

Essa abordagem repercute diretamente na compreensão dos ministérios eclesiais. Ao reafirmar o sacerdócio comum dos fiéis, Küng questiona uma concepção segundo a qual a ação e a responsabilidade eclesial estariam concentradas fundamentalmente no clero. O ministério ordenado deve ser compreendido a partir de sua função de serviço à comunidade e à missão da Igreja. Trata-se de uma posição que possui forte potencial de renovação eclesiológica, mas que também toca questões sensíveis relacionadas à tradição católica sobre o sacerdócio, a sucessão apostólica e a estrutura hierárquica da Igreja.

O volume reúne ainda textos dedicados a temas que estiveram no centro dos debates teológicos de Küng, entre eles a sucessão apostólica, a intercomunhão, o ecumenismo, os casamentos mistos e a infalibilidade. Esses escritos permitem perceber que sua eclesiologia não se desenvolve de maneira abstrata, mas está diretamente relacionada às controvérsias concretas que marcaram a Igreja no período pós-conciliar. Nesse sentido, a obra também constitui um testemunho dos debates em torno da recepção do Concílio Vaticano II e das diferentes interpretações sobre o alcance de suas propostas de renovação.

Particular importância possui a correspondência entre Hans Küng e Yves Congar (1904-1995), apresentada no segundo volume. O diálogo entre os dois teólogos permite identificar tanto pontos de convergência quanto diferenças significativas em suas respectivas compreensões da Igreja. A correspondência mostra que a renovação eclesiológica posterior ao Concílio não constituiu um movimento uniforme. Havia diferentes perspectivas sobre a relação entre tradição e reforma, autoridade e liberdade, estrutura institucional e participação comunitária. O diálogo com Congar ajuda a situar o pensamento de Küng dentro de um contexto teológico mais amplo.

As cartas dirigidas aos jovens, incluídas ao final do segundo volume, revelam outra dimensão de sua reflexão: a preocupação em tornar acessíveis as questões fundamentais da teologia eclesiológica e relacioná-las com a experiência concreta da fé. A preocupação pastoral aparece, assim, associada à crítica institucional e à reflexão acadêmica. Para Küng, pensar a Igreja não significa apenas discutir sua estrutura, mas perguntar por sua capacidade de comunicar o Evangelho de maneira significativa e convincente às novas gerações.

Os dois volumes de Igreja devem ser compreendidos como expressão de uma eclesiologia que procura articular Escritura, tradição, história e desafios contemporâneos. A contribuição de Küng encontra-se na disposição de colocar em questão formas e estruturas que, em sua avaliação, podem dificultar a realização da missão evangélica da Igreja. Ao mesmo tempo, sua proposta não está isenta de tensões e controvérsias, especialmente nos pontos em que suas interpretações e propostas de renovação confrontam aspectos consolidados da doutrina, da tradição e da organização institucional da Igreja Católica.

Uma leitura adequada de Küng não deveria limitar-se nem à sua exaltação como teólogo renovador nem à sua classificação como simples crítico da Igreja. Sua importância teológica está justamente na capacidade de provocar o debate sobre questões que permanecem abertas: qual deve ser a relação entre autoridade e serviço? Como articular o sacerdócio ministerial com o sacerdócio comum dos fiéis? Como preservar a unidade sem eliminar a diversidade? De que modo a Igreja pode permanecer fiel à tradição e, simultaneamente, responder às transformações históricas? E, sobretudo, como pode a instituição eclesial tornar visível e crível, em suas estruturas e práticas, o Evangelho que anuncia?

Os dois volumes de Igreja permanecem uma obra relevante para o estudo da eclesiologia, não apenas pelas respostas propostas por Hans Küng, mas também pelas questões que sua reflexão suscita e coloca diante da Igreja. Sua teologia convida a compreender a reforma eclesial não como mera adaptação às mudanças culturais, mas como uma exigência permanente de retorno às fontes da fé e de discernimento acerca daquilo que, na vida da Igreja, efetivamente contribui para o cumprimento de sua missão evangelizadora ou, ao contrário, pode dificultá-la.