Pe. Antonio Iraildo Alves de Brito*
* Antonio Iraildo Alves de Brito é padre da Sociedade de São Paulo (Paulinos). Doutor em Comunicação e Semiótica. Professor no curso de Jornalismo da Faculdade Paulus de Comunicação, FAPCOM e membro do Observatório da Comunicação Religiosa.
A polarização política frequentemente deixa marcas dolorosas na vida comunitária. Esses dias, uma fiel católica desabafou com um sacerdote: “Padre, me sinto constrangida. Na minha comunidade, dizem que um católico não pode votar em candidatos de esquerda, porque a esquerda seria ‘contra a família’ e contra Deus. Fico me perguntando se estou em pecado por pensar diferente.” No outro extremo do alcance midiático, a mesma confusão ganha os palcos. Ao lamentar a morte do cantor Rick (da dupla com Renner), o sertanejo Zezé Di Camargo declarou em tom de exortação: “Ele está do lado direito de Deus… Do lado direito que ficam as coisas boas. Pessoa direita é pessoa do bem. E eu espero que o Brasil logo, logo esteja totalmente do lado direito.”
Tanto a dúvida sincera da fiel no banco da igreja quanto a declaração do artista diante do público expõem a mesma armadilha: um jogo de palavras anacrônico que projeta sobre escolhas partidárias o prestígio teológico e a autoridade do texto sagrado. Na corrida para as eleições de 2026, a busca pelo eleitorado dito “cristão” intensifica essa instrumentalização de símbolos sagrados. A tentativa de aproximar a “mão direita de Deus” da “direita política” pretende conferir chancela divina a projetos eleitorais. Trata-se de um erro hermenêutico que pretende transpor uma convenção parlamentar europeia do século XVIII para escritos formulados há mais de dois milênios no Antigo Oriente.
As Escrituras utilizam a linguagem antropomórfica para traduzir realidades que extrapolam a compreensão humana. Ao afirmar que Deus é espírito, a tradição cristã deixa claro que a divindade não possui anatomia, lado físico ou limitação espacial. No contexto do Mediterrâneo antigo, os termos yamin (no hebraico) e dexia (no grego) possuem sentido figurativo. A “mão direita” indica honra, autoridade e co-regência. Nas monarquias orientais, o assento à direita do soberano pertencia ao seu segundo em comando. Quando o Novo Testamento afirma que Jesus “está assentado à direita do Pai”, a declaração proclama sua soberania sobre a História, sem qualquer relação com geografias territoriais ou correntes ideológicas.
Em contrapartida, a divisão entre “direita” e “esquerda” no campo político possui uma gênese puramente secular. O conceito surgiu em 1789, durante a Assembleia Nacional Constituinte na França revolucionária. Por razões de organização do espaço físico, os deputados partidários do rei e da manutenção da ordem sentaram-se à direita do presidente da mesa. Já os defensores de transformações radicais e do fim do absolutismo ocuparam as cadeiras à esquerda. Tratou-se de um arranjo prático de assentos em um parlamento europeu, sem inspiração teológica ou vínculo com os textos sagrados. Para o leitor leigo, a diferença é cristalina: a expressão bíblica é uma figura de linguagem sobre a autoridade de Cristo; a categoria política é apenas o nome dado a um conjunto de ideias sobre a gestão do Estado. São duas realidades distintas que não se confundem.
A literatura teológica e filosófica oferece balizas precisas para superar essa confusão e assegurar a autonomia da fé e da política. No campo da teologia, o escritor britânico C. S. Lewis, no clássico Cristianismo Puro e Simples (Mere Christianity), explica que a linguagem bíblica sobre o Céu funciona por meio de símbolos. Lewis adverte contra a tentativa de transformar o Cristianismo em plataforma partidária, destacando que a pretensão de reivindicar “Deus do nosso lado” reduz a transcendência divina às paixões humanas.
Da mesma forma, no campo da ciência política, o jurista italiano Norberto Bobbio, na obra Direita e Esquerda: Razões e Significados de uma Distinção Política (Destra e sinistra), demonstra a natureza histórica e contingente dessas classificações. Bobbio esclarece que esses termos pertencem à história secular do Ocidente, tornando conceitualmente injustificável sua projeção retrospectiva sobre a cosmovisão do mundo antigo.
A tentativa de enquadrar o Evangelho em bandeiras ideológicas limita a própria universalidade da mensagem cristã. Nos relatos evangélicos, Jesus recusou o alinhamento com as facções políticas e religiosas de seu tempo — como fariseus, saduceus e zelotes —, preservando a autonomia de sua missão. A expressão “à direita do Pai” afirma a soberania de Cristo sobre a História: uma verdade de fé que não se submete às disputas de poder nem se curva ao utilitarismo dos palanques eleitorais.
30/09/2026 
