Eliseu Wisniewski*
* Presbítero da Congregação da Missão Província do Sul, mestre em Teologia pela Pontíficia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).
Eis o Artigo:
A comemoração dos 135 anos da Carta Encíclica Rerum Novarum, publicada em 15 de maio de 1891 pelo papa Leão XIII, oferece espaço para retomar um texto que, simultaneamente, inaugurou uma tradição magisterial e firmou um modo profundamente cristão de compreender e intervir na realidade social. Não se trata de recordar apenas um documento histórico, mas de reconhecer a continuidade viva de uma intuição eclesial que se tornou fonte permanente de reflexão e ação pastoral.
A Rerum Novarum surgiu em um contexto marcado pelas transformações profundas provocadas pela Revolução Industrial, pela emergência da classe operária, pelos conflitos entre capital e trabalho e pela polarização ideológica entre liberalismo e socialismo. É nesse cenário que o magistério eclesial toma a palavra pela primeira vez de forma orgânica e sistemática sobre a chamada “questão social”, inaugurando o que seria posteriormente designado como Doutrina Social da Igreja. Por isso, foi chamada de “carta magna da atividade cristã no campo social” e reconhecida como um “texto fundador” de uma tradição doutrinal que marcou decisivamente o século XX e continua a inspirar o século XXI.
A encíclica não foi um acontecimento isolado, nem resultado exclusivo da sensibilidade pessoal do Papa. Ela se insere em um longo processo histórico e eclesial: por um lado, o amplo movimento do “catolicismo social”, que, ao longo do século XIX, desenvolveu iniciativas concretas, obras sociais, reflexões e propostas políticas diante da miséria operária; por outro, o esforço de Leão XIII de restaurar uma presença social e cultural da Igreja no mundo moderno, reagindo tanto ao liberalismo anticlerical quanto ao socialismo militante que conquistava grande parte da classe trabalhadora. A Rerum Novarum nasce como “ponto de chegada” de múltiplos esforços sociais e pastorais, e simultaneamente como “ponto de partida” de uma nova fase da reflexão e da prática social da Igreja. Diferentes autores reconhecem que ela consagrou movimentos e iniciativas de base: leigos, religiosos, bispos, que buscavam traduzir o Evangelho na vida concreta do operariado. Por isso, falar de seus 135 anos significa reconhecer uma história mais ampla, que a precede e que dela decorre, revelando um dinamismo que ultrapassa largamente o ano de 1891.
Do ponto de vista magisterial, a Rerum Novarum apresenta uma posição complexa e equilibrada diante do liberalismo e do socialismo. Embora rejeite a proposta socialista de abolição da propriedade privada e critique energicamente a luta de classes, a encíclica não se alinha ao liberalismo econômico. Pelo contrário, denuncia a miséria imerecida dos trabalhadores como fruto direto da exploração promovida por um sistema que reduz o trabalho humano a mercadoria e confia ao “livre acordo” entre patrões e operários a definição de salários injustos. Daí emergem três pilares centrais do documento: a afirmação da dignidade do trabalho humano, a defesa da intervenção do Estado em favor dos mais frágeis e a legitimidade das associações operárias como instrumentos de promoção da justiça. Esses elementos, que à época soavam ousados e até mesmo disruptivos, antecipam preocupações que marcariam profundamente o século XX e encontrariam eco nas encíclicas que, ao longo das décadas, celebraram o aniversário da Rerum Novarum. Assim surgem Quadragesimo anno (1931), Mater et magistra (1961), Octogesima adveniens (1971), Laborem exercens (1981) e Centesimus annus (1991), cada qual reinterpretando, em novas conjunturas históricas, o núcleo antropológico e moral inaugurado em 1891. A vitalidade dessa tradição confirma que sua relevância não reside apenas em seu impacto imediato, mas em sua fecundidade contínua.
No âmbito pastoral, os 135 anos da Rerum Novarum convocam a Igreja a um renovado compromisso com a dignidade humana e com a justiça social, especialmente diante das formas atuais de precarização do trabalho, exclusão econômica e desigualdade estrutural. A mesma inspiração que levou o magistério a olhar para os operários do século XIX nos impele, hoje, a olhar para os trabalhadores informais, migrantes explorados, desempregados crônicos, jovens sem oportunidades e populações vulneráveis que vivem às margens de um modelo econômico globalizado. A Doutrina Social da Igreja, inaugurada pela Rerum Novarum, não é um corpo estático de ensinamentos, mas um processo vivo que integra fé, razão e ação pastoral. Ela recorda que a evangelização não se reduz ao anúncio da Palavra, mas inclui o compromisso concreto com a promoção da justiça, da reconciliação e da paz social. A ação pastoral da Igreja é chamada a articular comunidades que sejam espaços de acolhida, discernimento e ação transformadora, encarnando a opção preferencial pelos pobres como expressão da fidelidade a Jesus Cristo e ao seu Evangelho.
Celebrar os 135 anos da Rerum Novarum significa, renovar o horizonte da missão cristã no mundo. O documento de 1891 continua a interpelar a consciência da Igreja, desafiando-a a olhar as realidades sociais com lucidez crítica. Sua relevância permanece porque suas intuições fundamentais: a centralidade da dignidade humana, a primazia do trabalho sobre o capital, a responsabilidade moral do Estado, o valor das associações e da participação social, continuam a iluminar questões que, embora novas em suas formas, permanecem antigas em sua raiz. Em um mundo marcado por novas tecnologias, novas formas de organização econômica, novos conflitos e novas pobrezas, a inspiração da Rerum Novarum oferece critérios sólidos para discernir caminhos de justiça e fraternidade. Mais do que comemorar uma data, trata-se de assumir uma herança que impulsiona a Igreja a um compromisso sempre renovado com os trabalhadores, com os pobres e com todos aqueles que esperam, da fé cristã, um testemunho de esperança ativa e transformadora.
18/05/2026 
