Atualidades

Santo Anjo do Senhor

01/10/2026

– 02 de outubro –  SANTOS ANJOS DA GUARDA

Breve reflexão do Prof. Dr. Fernando Altemeyer Junior, PUC-SP.

“Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, Se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarda, me governa e me ilumina. Amém”. Desse modo, milhões de pessoas começam ou terminam suas preces de cada dia. Repetimos a linda oração composta no ano 1111 em terras inglesas e transcrita do saxônico para tantos idiomas. Queremos viver sob a guarda dos anjos para que olhem por nossos filhos, amigos e familiares. Acreditamos nos seres espirituais para que estes nos iluminem na escura e longa estrada da vida. Guardamos o medalhão do berço, até os dias de adulto, pois são memória profunda e uma prece que nasce no coração. Confesso que sempre gostei dos anjos, mas nunca havia pensado seriamente neles. Chegou a hora desta reflexão teológica como adulto! Quem são esses anjos guardiães? Que fazem? Como sinto e vivo a presença deles em meu cotidiano? Interferem em minha vida? Guardam aos humanos só como fadas e gnomos infantis? E, quando somos adultos, será que ficamos sem anjos?

Quando eu tinha dezessete anos me caiu nas mãos, como bela surpresa, o livro de Peter L. Berger (1929-), professor de sociologia em New Brunswick, Estados Unidos, como um título instigante: Um rumor de anjos. No texto ele fala que a suposta morte do sobrenatural diz muito do que vive o homem moderno, mas pouco sobre o que é o sobrenatural. Dizia o sociólogo americano: “Anjos são mensageiros de Deus ou sinais”. Isto me tocou muito. Seguir os rumores dos anjos é redescobrir o sobrenatural mesclado ao natural. Posteriormente, continuava o autor: “Os anjos sinalizam o cuidado de Deus por este mundo, no julgamento e na redenção. Nada é deixado fora deste cuidado. Tentei também mostrar que nossa situação não é uma fatalidade inexorável e que a consciência secularizada não é o absoluto como ela quer apresentar-se. Se os sinais de transcendência se tornaram rumores em nossa época, então nos podemos lançar na exploração destes rumores, e segui-los até sua fonte”.1 Seguir esses pequenos sinais é o que pretendo fazer neste artigo. Pensando nisso, descobri que os anjos estão agindo sempre. Exemplos é que não irão faltar nem em minha vida, nem de meus familiares. Olhando o álbum de fotografias, eu vejo sempre os sinais secretos de muitos anjos.

Quem são os anjos?

Os anjos são criaturas de Deus, puros espíritos, não corporais, que agem como seus mensageiros. Anjo é um encargo de Deus, disse Santo Agostinho de Hipona (354-430). Anjo deriva do hebraico malak e do grego aggelos, que é o portador de uma mensagem. Anjo é enviado de uma mensagem divina. Anjos são os delegados dos céus. Eles não são substância divina, mas criaturas pessoais, imortais, dotadas de razão e vontade, e criados bons pelo próprio Deus. Ele é espírito pelo que é, e é anjo por aquilo que faz. Os anjos agem, de certa forma, como mediadores entre Deus e os homens, pois Ele concede aos anjos graça, dons de graça celestiais e habitação de Deus. É claro que pela fé cristã sabemos que o único Mediador e Salvador é Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo, mas podemos dizer que os anjos colaboram com Cristo para o bem das pessoas e da criação divina. Assim dizia o papa Leão XIII (1810-1903): ”Nada impede, como ensina o Doutor Angélico, que alguns outros, entre os quais os anjos e os santos do céu, os profetas e os sacerdotes dos dois Testamentos, sejam chamados, sob certo aspecto, mediadores entre Deus e os homens, enquanto cooperam de maneira dispositiva e subordinada a unir o homem a Deus, então na verdade o ornato desta glória convém de maneira mais eminente ainda à Virgem altíssima” (DH 3320). Eles habitam o mundo celestial e adoram ao único Deus e Senhor, do qual são servidores. Realizam grandes feitos, anunciam milagres e presenças do mesmo Deus e assumem papel terapêutico e curativo para os que atravessam dores e doenças graves. Alguns anjos têm nomes especiais para designar seu poder na ação divina. São Paulo Apóstolo (5-62) distingue classes de seres angelicais. Cita aos arcanjos (cf. 1Ts 4,16. E ainda Tronos, Soberanias, Principados e Potestades [cf. Ef 1,21; Col 1,16], e os Poderes Celestiais [cf. Ef 1,21]. Entretanto, São Paulo afirma que Cristo é o centro do mundo angélico e que todos estão submissos a Ele. Assim cremos que os anjos superam em perfeição todas as criaturas visíveis, exceto Cristo, que é o Verbo Encarnado.2

Anjo foi sempre um símbolo cultural do invisível, pois representa as forças que ascendem e descendem dos céus. Daí possuir asas e ser representado especialmente por homens alados. Ele une nossa origem em Deus com o nosso viver e nossas fragilidades sempre carentes de uma ajuda celeste. O símbolo dos anjos e dos seres alados sempre acompanhou as culturas dos povos. Desde os querubins babilônicos até os super-heróis alados do cinema contemporâneo. Queremos ser protegidos por seres que nos elevem ou que venham dos céus. Seres que nos sublimam ou volatizam a “vida dura”. Os anjos surgem na iconografia artística desde o quarto milênio antes de Cristo. A arte gótica os exprimiu em numerosas imagens, igrejas e esculturas. Sempre destacando o aspecto protetor e sublime. No Brasil, o barroco introduziu dezenas de anjos nas Igrejas coloniais baianas e mineiras. Verdadeiras obras-primas de nossa cultura e da inspiração angelical de nossos artistas. Com o tempo os anjos foram classificados em uma hierarquia celeste. De anjos, arcanjos, querubins e serafins. São nove as classes de anjos. Essa maneira metafórica de falar dos seres invisíveis já constava da obra de São Cirilo de Jerusalém (313-386), em sua Catequese. Santo Ambrósio (340-397), bispo de Milão, falava da ação dos serafins.

Os anjos da guarda

Crer em anjos faz parte de nossa fé cristã como uma das nossas verdades recebidas e transmitidas de geração em geração, com fundamento bíblico assumido pela Tradição. Nós cremos que anjos são “poderosos executores da Sua Palavra, obedientes ao som da sua Palavra” (Sl 103[102],20). Os anjos estão aí desde a criação do mundo, e agem na história da Salvação, servindo à vontade divina e concorrendo para a sua realização: eles protegem, ajudam, seguram os crentes, comunicam as palavras e profecias aos escolhidos por Deus, anunciam nascimentos e vocações, assistem aos profetas. O salmo 91[90],11-12 diz explicitamente: “Porque Ele ordenou a seus anjos que guardem você em todos os seus caminhos. Mal nenhum poderá cair sobre você. Doenças graves não se aproximarão da sua tenda”; e a Carta aos Hebreus 1,14 pergunta de forma retórica dos anjos guardiães e de sua tarefa delegada pelo Altíssimo: “Não são todos eles espíritos servidores, enviados a serviço daqueles que vão receber a salvação com herança?” O livro do Êxodo 23,20 apresenta o anjo que vai à frente do povo hebreu para protegê-lo e conduzi-lo na caminhada do deserto rumo à terra da liberdade, do leite e do mel. São os anjos protetores do povo hebreu. Há os anjos que protegem a infância de Jesus, o Filho do Altíssimo. Há outros que servem a Jesus quando das provações no deserto (cf. Mt 4,11). Diz o CIC: “[…] São ainda os anjos que ‘evangelizam’ (cf. Lc 2,10), anunciando a boa-nova da Encarnação (cf. Lc 2,8-14) e da Ressurreição (cf. Mc 16,57) de Cristo”. 3 A ciência teológica que estuda os anjos se chama angeologia. A obra clássica que marcou todo o pensamento cristão pertence ao autor Pseudo-Dionisio, o Areopagita, denominado a estrela do Oriente e Mestre do Ocidente, que nos ofereceu tal qual Santo Agostinho, obras arquetípicas da mística cristã. Entre elas, situa-se certamente o clássico livro Hierarquia Celeste (CH-Coelestis Hierarchia), em que podemos ler no início da obra: “Todo bom dom e toda dádiva perfeita vêm de cima, descendem do Pai das luzes. E quanto nos seja possível estudemos as hierarquias dos espíritos celestes conforme a Sagrada Escritura nos revelou de modo simbólico e anagógico. Elevemo-nos porém sobre esta profusão luminosa até o puro Raio de Luz em si mesmo”. 4 Como cristãos das diversas igrejas, ritos e comunhões, cremos que desde a mais tenra infância até nosso último suspiro nossa existência frágil é envolta pela proteção e cuidado de anjos. Assim diz o salmista: “O anjo do Senhor acampa ao redor dos que o temem, e os defende” (Sl 34[33],8).  Por sua intercessão nós, como Igreja, suplicamos ao Deus três vezes Santo que sejamos ladeados por um anjo como nosso protetor e pastor para nos conduzir à vida. 5 Cremos que os anjos influenciam nossa vida no sentido do bem e da paz interior sem suprimir nossa liberdade pessoal e nosso livre-arbítrio. Sabendo que, como disse São Gregório Nazianzeno (329-389): “Neste mundo visível nada se dispõe a não ser pela criatura invisível”.

A nossa confissão cristã católica celebra como Igreja peregrina aqui na terra, unida aos anjos e santos que vivem nos céus, e juntos damos Glória a Deus, recordando dos anjos em cada liturgia pelos fiéis defuntos, quando cantamos o hino querubínico da liturgia oriental bizantina e na memória dos arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael, comemorados desde o século VIII e na festa anual de cada 29 de setembro. Além disso, os católicos celebram a linda festa dos Anjos da Guarda, uma crença e devoção formulada por Honoré d’Autun (1080-1157), em pleno século XII e que foi assumida em 1670, pelo papa Clemente X (1590-1676). Tornou-se memória obrigatória da Igreja Universal, a ser recordada anualmente em dois de outubro. Assim consta do Martirológio Romano: “Memória dos santos Anjos da Guarda, que, especialmente chamados à contemplação do rosto de Deus, foram também enviados por Deus em auxílio dos homens e mulheres, para que os acompanhem e aconselhem com a sua invisível, mas solícita presença”. 6 A Liturgia das Horas, no dia dos anjos, apresenta um trecho dos Sermões do Abade São Bernardo de Claraval (1090-1154), no qual este reza e pede aos monges cistercienses: “Sejamos-lhes fiéis, sejamos-lhes gratos a tão grandes protetores; paguemos-lhes com amor, honremo-los tanto quanto pudermos, quanto devemos”. 7 Uma lenda antiga diz que os anjos pesam as almas dos defuntos e depois as levam para estar na presença da Santa Luz do Altíssimo. Os principais promotores da piedade popular em torno dos anjos são as ordens religiosas dos beneditinos, dos dominicanos e particularmente dos franciscanos.

Os cristãos não inventaram os anjos, mas aprenderam a sentir sua presença invisível. Os cristãos descobriram pela Páscoa de Cristo em nossas vidas, que esta presença de anjos é sempre algo secundário e ação coadjuvante. Mas isto não quer dizer que precisemos desprezar estes sinais e seres de Deus. Saber ouvir os “rumores de anjos” sussurrando em nossos ouvidos ou movendo nossos corações certamente pode nos elevar de um reducionismo estéril. Renegar os anjos pode nos tornar ainda mais melancólicos, tristes e doentes da alma. Crer nos anjos e escutar suas asas batendo pode certamente nos conduzir a surpresas oferecidas por Deus gratuitamente por meio dos anjos. Anjos podem abrir a porta de nosso coração empedrado. A beleza dos anjos pode tornar a vida mais leve e suave. As asas de anjos poderiam nos elevar para além de mediocridade atual. A obediência dos anjos pode ser uma inspiração para superar a rebeldia infantilizada. A amorosidade angelical certamente nos faria melhores na hora do fracasso. Crer em seres de existência sobrenatural pode ampliar nosso horizonte atrofiado. Ateus negam Deus e seus anjos. Materialistas desprezam o sobrenatural considerando-o banal e vazio. Saduceus de todas as épocas negam anjos por arrogância ideológica.

Para os cristãos, a ajuda dos anjos se dá de forma individual em muitas ocasiões e realidades pessoais bem como em momentos coletivos de um povo (cf. Dn 12,1). Cada cristão pode desempenhar um papel de guardião e mensageiro de paz para seus irmãos. Assim o fizeram tantos sacerdotes como São Maximiliano Kolbe (1894-1941), dom Luciano Mendes de Almeida (1930-2006), dom Tomás Balduíno (1922-2014) ou religiosas como Irmã Dulce (1914-1992) e Madre Teresa de Calcutá (1910-1997). De modo especial o padre Renzo Rossi (1926-2013), missionário florentino, assumiu o papel de anjo dos encarcerados políticos das prisões brasileiras a quem visitava diuturnamente, durante toda a ditadura militar. 8 Muitos cristãos sempre conversam com seus anjos como revelam em seus diários, dom Helder Pessoa Câmara (1909-1999) e o santo papa João XXIII (1881-1963). Certamente todos eles foram dóceis ao Espírito Santo e muito atentos aos sussurros de seus anjos da guarda. Se, como diz Santo Agostinho: “Cada uma das coisas visíveis deste mundo é confiada a um poder angélico”, certamente precisamos destas forças e moções angelicais para superar aquilo que sozinhos jamais teríamos forças nem visão para ultrapassar. Como nos diz tão suavemente Santo Tomás de Aquino (1225-1274): “Os anjos podem, servindo-se para tanto de agentes corporais, produzir tais efeitos, como o ferreiro que usa o fogo para tornar o ferro maleável”. 9 Deixemos o fogo dos anjos tornar maleável nossa dureza interior para louvar a Deus e viver a felicidade como filhos amados.

Hoje sei e posso proclamar que os anjos sempre estiveram comigo. Sei e vivenciei essa presença misteriosa em um momento dramático em que a vida de meu filho Gabriel estava por um fio e eu quase o perdia. Houve um milagre angelical. Soube que anjos acompanharam meus familiares durante a guerra na Alemanha, salvando e protegendo minha mãe, minha avó e minhas tias em uma fuga de Leipzig para Frankfurt em 1947, em pleno inverno rigoroso. Sei que um anjo salvou a vida de meu avô materno Karl Godfried Müller, indicando-lhe o caminho para o Porto de Hamburgo. Sei que esteve com minha esposa, Maria, durante o delicado e dramático parto de minha filha Ana Clara, salvando ambas da morte. Posso hoje afirmar com Santo Tomás que os anjos iluminam, protegem nossa existência e, sobretudo, existem e ofertam os milagres e sinais de Deus, agindo em nossa imaginação, em nossos sentidos, em nossos corpos e em nossas histórias reais. Embora pareça que, às vezes o anjo da guarda nos abandona, Deus nunca nos abandona, pois Ele sabe que os demônios sempre estão à espreita para encontrar a quem devorar (cf. 1Pe 5,8). A guarda dos anjos é um dos modos pelos quais Deus exerce Sua Providência. De forma invisível, inexplicável, mas real. Se sofrermos, por pena ou culpa, Deus sempre estará presente para nos consolar. Ele envia os Seus anjos e suas graças. Quando carentes ou se estivermos no fundo de algum poço, rezemos ao anjo guardião”.

Notas

1 BERGER, Peter L. Um rumor de anjos: a sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural. 2. ed. Petrópolis, Vozes, 1997. p. 124-125.

2 PAULO II, Papa João. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2006. p. 330.

3 Ibidem.

4 AREOPAGITA, Dionisio. A hierarquia celeste. In: MARTIN, Teodoro H. (Org.). Obras completas del Pseudo Dionisio Areopagita. Madri: BAC, 1995. p. 119-120.

5 MAGNO, São Basílio. Adversus Eunomium, PG 29, 656B.

6 CONFERÊNCIA EPISCOPAL PORTUGUESA. Martirológio Romano. Fátima: Secretaria Nacional de Liturgia, 2013. p. 515.

7 LITURGIA DAS HORAS: Ofício das Leituras. São Paulo: Paulinas, 1987. p. 1577.

8 JOSÉ, Emiliano. As asas invisíveis do padre Renzo. São Paulo: Casa Amarela, 2002.

9 AQUINO, Santo Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2002. p. 797. v. II, parte I, questão 110, artigo 3, ad. Sec.

10            Ibidem, p. 827. v. II, parte I, questão 113, artigo 6.