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Publicado em Setembro-Outubro de 1983

Autonomia das organizações populares e identidade da Igreja

Por Benedito Ferraro

“São os pobres, as classes populares, novo sujeito histórico e emergente que, provavelmente, decidirá os destinos da sociedade futura.”

Falar da autonomia do movimento popular é falar do povo, das classes populares como seu sujeito histórico. Na sociedade latino-americana, é falar dos pobres, como conjunto das classes sociais revolucionárias que levam adiante um projeto histórico, tendo em seu bojo como que o esboço de uma sociedade alternativa ao atual sistema capitalista que é antivida, excludente e idólatra.

Falar da identidade da Igreja no seu relacionamento com o movimento popular, é falar da Igreja Povo de Deus, tendo em seu interior os pobres como o novo sujeito eclesial. É falar da modificação — e mesmo transformação — da Igreja por causa da participação consciente e ativa dos cristãos no movimento operário e camponês. Esta participação mostra uma Igreja construída e edificada a partir dos pobres como seu sujeito evangelizador (cf. Puebla, 1147).

O relacionamento entre o Movimento Popular e a Igreja coloca novas questões à fé, pois exige dela um novo posicionamento em relação ao contexto histórico atual, especialmente no tocante à inserção dos cristãos na prática sindical, reivindicatória e política. Este relacionamento nos coloca diante de uma questão política e uma questão teológica. Na verdade, estamos diante de uma dupla exigência que deverá ser resolvida simultaneamente, na medida em que as duas estão implicadas no mesmo processo histórico: a prática do movimento popular influencia a Igreja e a prática social da Igreja, organicamente ligada, ao movimento popular, influencia as organizações populares.

1. Questão preliminar

Partimos do princípio de que a base de nossa reflexão não é o confronto fé e razão (fé-ciência), mas fé e prática social, que no caso latino-americano e brasileiro se resume na contradição básica OPRESSÃO LIBERTAÇÃO. É esta contradição básica e fundamental que questiona a identidade da Igreja, pois no interior da formação social capitalista dependente da América Latina, a Igreja como instituição histórica é parte integrante dela, e vive internamente todas as suas tensões e contradições.

Em outras palavras, na medida em que a Igreja assume um compromisso social de defesa das classes exploradas, das raças marginalizadas, dos pobres deserdados, tal compromisso assume ao mesmo tempo uma forma política. O conflito social se torna conflito político e, consequentemente, o compromisso social se torna compromisso político. E é neste processo que o peso da Igreja, como instituição, à luz do seu relacionamento com o movimento popular; deve pender para o lado dos pobres. E daí o desafio: tornar-se “Igreja dos pobres”, como já o anunciara João XXIII: “A Igreja é a Igreja de todos, mas hoje, mais do que nunca ela é a Igreja dos Pobres” (11/10/1962). Sem dúvida alguma, deve fazer tal conversão, porque se tornara a “Igreja dos ricos”.

A razão de sua conversão está, pois, diretamente ligada à questão opressão-libertação: “O processo político de rompimento entre Igreja e classes dominantes é o contexto onde se dá o processo eclesiológico de rompimento entre Igreja e cristandade. De maneira semelhante, o processo político de identificação da Igreja com as classes exploradas tem sido o contexto histórico onde se dá o processo eclesiológico de reencontro da Igreja com sua identidade própria e específica”[1]. Neste sentido, a aliança da Igreja com as classes exploradas é o primeiro passo. O segundo é ela tornar-se o povo pobre. Isso tudo é ainda esperança semeada.

De fato, estamos falando do grande impacto que têm causado à consciência dos cristãos latino-americanos a crise do sistema capitalista dependente e a ascensão das massas. Neste processo, notamos que atrás de cada conflito político está subjacente um conflito teológico, pois o enfrentamento político, a partir do movimento popular, desmascara a idolatria do sistema capitalista que se quer legitimado pela “ordem natural” e permanente. Este enfrentamento político torna-se enfrentamento teológico contra os “ídolos” do sistema. Mas a questão básica e fundamental continua sendo a existência de um sistema capitalista de opressão, que se quer legitimado por uma teologia abstrata e a-histórica. Embora hoje busque outras legitimações mais eficazes, sem contudo desprezar a teologia.

Diante desse quadro, podemos perceber algumas exigências do movimento popular à Igreja, alguns riscos neste relacionamento, como também algumas pistas de saída (propostas).

2. Exigências do movimento operário e camponês à Igreja

O fato de que cada vez mais cristãos estão participando dos diferentes espaços de luta no interior da sociedade civil e da sociedade política, tem obrigado a Igreja como instituição a posicionar-se diferentemente. Se num primeiro momento, através sobretudo do trabalho realizado pelas CEBs (1964-1978), a Igreja apareceu como espaço de liberdade e de organização, reunindo inclusive militantes de grupos políticos de várias tendências em seu interior, hoje, com a assim chamada “abertura política”, este espaço ampliou-se. O movimento popular ganhou novas dimensões, colocando à Igreja novas questões e exigências. Vamos tentar explicitar algumas delas.

a) Exigência do rompimento com as classes dominantes

Na medida em que a Igreja, especialmente através das CEBs espalhadas por quase todo o Brasil, no campo e nas cidades, criava espaço de participação e organização, ela se aproximou do movimento popular, do movimento operário e camponês. Esta aproximação exigiu dela tomadas de posição em defesa do posseiro, do camponês, do operário, dos subempregados, dos índios, dos negros, dos favelados… Este compromisso social, aos poucos, adquiriu forma política, pois ao entrar nos conflitos ficando do lado dos “pobres”, das classes populares, a Igreja começava o processo de rompimento com as classes dominantes. E é exatamente esta a novidade que vemos surgir na Igreja do Brasil e da América Latina, embora nem sempre de modo total e uniforme.

É um processo de deslocamento do poder político da Igreja que, durante séculos, legitimou o poder de exploração das classes dominantes que agora começa a tender para o lado das classes exploradas. É ainda prematuro dizer que toda Igreja fez tal deslocamento em suas práticas eclesiais. Há, no entanto, várias Igrejas Particulares, onde este processo de mudança tem merecido o repúdio, a revolta e a perseguição por parte das classes dominantes, que se veem frustradas em sua costumeira legitimação a partir do religioso tradicional.

É, pois, neste rompimento com as classes dominantes, e na sua aproximação das lutas do povo, que percebemos a Igreja descobrindo sua verdadeira identidade, na medida em que retoma historicamente a prática de Jesus de Nazaré e tenta reproduzir a novidade evangélica no interior da atual formação social, assumindo a causa dos oprimidos e explorados, no interior dos conflitos e ambiguidades históricas. Neste sentido, o movimento popular “força” a Igreja a reencontrar sua identidade nos pobres. Afinal ela deve ser a continuadora da missão de Jesus Cristo!

b) Exigência de entrada no projeto de uma sociedade alternativa à sociedade capitalista dependente da América Latina

Esta exigência parece cada dia mais claramente saltar aos olhos, embora ainda haja muita resistência. Sem dúvida, encontramos ainda muitos setores da Igreja que acreditam numa reforma do atual sistema, tornando-o “mais humano”. Mas, mesmo que ainda lento e apreensivo, vai-se percebendo um processo de crítica ao atual sistema, definido pelos documentos da Igreja como “injustiça institucionalizada”, “pecado social”, “pecaminoso e antievangélico”, que está exigindo sua mudança.

Esta exigência é fruto da prática do movimento popular, que através de suas lutas tem demonstrado a falácia de tais tentativas reformistas. Percebe-se claramente que o número de pessoas famintas, sem casa, sem terra, sem emprego, sem saúde, sem lazer, sem participação, aumenta gradativamente. Percebe-se que a dependência, em relação aos países dominantes, é cada vez mais profunda. Basta ver a nossa dívida externa (100 bilhões de dólares!). A distância entre ricos e pobres é cada vez maior e sempre em detrimento dos pobres (“Ricos cada vez mais ricos às custas de pobres cada vez mais pobres”).

Este processo histórico está levando a Igreja a entrar na luta por uma sociedade alternativa e consequentemente a romper com o sistema de dominação capitalista. Esta entrada num projeto alternativo não é fruto de uma reflexão abstrata e apriorística, mas é consequência da luta das classes populares pela vida. E como a Igreja defende a vida, ela é obrigada a escolher entre a vida e a morte. Hoje, concretamente, optar pelo sistema capitalista dependente de América Latina é optar pela morte, no sentido em que tal sistema gera a fome, o desemprego, a mortalidade infantil, a espoliação da terra, da cultura, da participação…

Em outras palavras, para ser fiel à sua afirmação da vida (cf. Jo 10,10), a Igreja deve assumir a luta por uma sociedade alternativa, cujo esboço — ou mesmo projeto inicial — está sendo forjado no interior das lutas do movimento popular. Tal projeto deverá ser a resultante destas lutas e das experiências alternativas que se fazem no interior da sociedade civil e da Instituição-Igreja, especialmente no tocante às CEBs.

Talvez neste aspecto, a Igreja, impulsionada por tal exigência de mudança de sistema, possa colaborar não apenas com a prática efetiva das CEBs, como também com sua palavra de legitimação à luta do povo. Com isto queremos dizer que a Igreja ligada ao movimento popular deve romper com o sistema de dominação capitalista e consequentemente com as classes dominantes. Deve lutar pela vida, que se concretiza no trabalho, pão, teto, saúde, educação, lazer e especialmente na ternura de viver e na participação, que no caso brasileiro e latino-americano só poderá ser atingido através de um sistema alternativo. É nesta luta que podemos enraizar o verdadeiro encontro da Igreja com os pobres. Neste processo, poderá mesmo reforçar o movimento popular à medida que respeitar sua autonomia e ser reforçada à medida que perceber que o movimento político de libertação das classes populares tem sua legitimação no interior do próprio processo revolucionário. Em outras palavras, o movimento popular não mais necessitará da legitimação da Igreja, mas terá sua própria legitimação no interior mesmo da luta política de libertação.

Claro está que tal situação será o termo de chegada de um longo e penoso processo de conversão e maturação quer do movimento popular, quer da Igreja como instituição. No momento em que estamos ainda em pleno processo de transição de uma Igreja que se declara a favor dos pobres (opção pelos pobres) e que possui ainda práticas ambíguas dentro das ambiguidades e contradições históricas, por causa de sua inserção em uma formação social capitalista dependente, para uma Igreja efetivamente popular, devemos notar nesta exigência de entrada no projeto de uma sociedade alternativa, algumas contribuições que ela está prestando ou poderá prestar à mudança de sistema.

1º) Queremos chamar a atenção para o valor do religioso, enquanto instrumento legitimados de um processo político qualquer. À medida que a Igreja se volta às reais necessidades das classes populares e assume com elas a luta de libertação, contribui para a superação da religião como ópio do povo e a torna instrumento libertário, incidindo, pois, como reforço à luta social que se opera no interior da sociedade.

2º) À medida que a Instituição-Igreja se deixar invadir pelo popular (classes populares como novo sujeito eclesial), ela tenderá a se modificar em sua institucionalidade, rompendo com uma prática autoritária, recriando espaços participativos e abrindo a possibilidade para o exercício comunitário das decisões (poder como serviço). Esta parece ser uma das contribuições das CEBs na Igreja do Brasil. Com este movimento, embora ainda ambíguo, cheio de resistência no interior de uma Igreja tradicional e autoritária, está-se criando espaço para um novo tipo de institucionalidade que poderá ajudar na crítica ao modelo social implantado em nosso meio[2].Para ser mais popular a CEB tem que abandonar a “eclesialidade” modelo piramidal, clericalista…

Como percebemos, o movimento é dialético: O movimento popular força a Igreja a se modificar e a Igreja, modificando-se, pode contribuir para a mudança social. Ao mesmo tempo, à medida que o movimento popular modifica a sociedade, este processo força a Igreja a se modificar[3].

3. Riscos no relacionamento entre Igreja e Movimento Popular

Esta reflexão nos ajudará a compreender alguns riscos no relacionamento entre o Movimento Popular e a Igreja. Estes riscos estão presentes na dinâmica histórica das lutas, especialmente no tocante à sua cooptação quer pelo aparato político quer pelo aparato institucional eclesiástico.

a) Risco da manipulação eclesiástica do político

A Igreja, a partir do Vaticano II, foi convidada a se perceber de novo como Igreja no mundo. Parece incrível, mas foi necessário um Concílio e um documento como a Gaudium et Spes, para se tomar consciência de que a Igreja e a fé deveriam responder a problemas reais de homens reais. De certo modo, foi forçada a pensar mais nas respostas a homens vivos do que preocupar-se apenas com os mortos. Nesse ponto, basta olharmos às nossas celebrações eucarísticas e veremos que ainda nós nos voltamos muito mais aos mortos do que aos vivos. E, no entanto, o Deus bíblico é o Deus dos vivos e não dos mortos!

Mas voltemos à constatação de base: Igreja no mundo, respondendo às interrogações, angústias e problemas dos homens, como servidora. Isto significa que ela deve servir ao movimento popular e não manipulá-lo para se fortalecer, como poder paralelo ao poder popular. A Igreja não é uma entidade voltada para si, mas deve se voltar ao mundo. Neste sentido, toda vez que a Igreja chamar a si o controle das lutas populares, estará prestando um desserviço à mudança social e ao próprio movimento popular. O movimento popular e sua luta de transformação não necessita da legitimação da Igreja, pois sua legitimação já está no interior mesmo do processo revolucionário. Neste sentido, a Igreja não deve atrelar ou dificultar o Movimento Popular, mas aceitar sua nacionalidade histórica própria.

b) Risco da manipulação política da Igreja

A Igreja, ao romper com as classes dominantes e com o sistema de dominação capitalista, liga-se aos pobres e suas lutas, mas não deixa de manter sua identidade como instituição. É claro que esta institucionalidade sofrerá uma transformação à medida que a Igreja se tornar, de fato, “Povo de Deus”, assumindo as angústias e necessidades dos homens de seu tempo, especialmente dos pobres (GS 1-4). Sua prática será pautada pela prática das classes populares, mas nem por isso deixará sua especificidade própria.

Em outras palavras, não poderá deixar-se manipular pelo político, a ponto de perder sua função no interior da sociedade, pois de fato a política, embora perpasse tudo, não esgota a realidade social. De fato, a inserção dos cristãos e das comunidades cristãs na sociedade civil deve manter as tarefas de conscientização, informação, comunicação e organização a nível popular, tentando com este trabalho animar o movimento popular. Esta é a esfera do ético e do ideológico. A questão de fundo é como se relacionar com o nível político. Como manter o peso político da instituição voltada para os pobres, sem no entanto deixar-se atrelar ao político. Como ser força animadora permanente do movimento popular sem ser considerada apenas como mais um elo da correia de transmissão do poder político.

Tudo isto tem relação com o projeto da sociedade alternativa: como elaborar um projeto político capaz de dar dimensão global às lutas particulares que estão sendo levadas nos bairros, favelas, campo, fábricas, sindicatos, dando-lhes uma verdadeira orientação política? Todas essas questões querem mostrar o perigo de um reducionismo político da Igreja com a consequente perda de sua identidade. Com isto perderia a Igreja e o movimento popular.

4. Ultrapassando e superando contradições e conflitos…

Esta nossa reflexão visa compreender a Igreja em seu relacionamento com o movimento popular. Isto significa que devemos “perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de tal modo que possa responder, de maneira adaptada a cada geração, às interrogações eternas sobre o significado da vida presente e futura e de suas relações mútuas”[4]. Ou como ainda diz a Gaudium et Spes: “Movido pela fé, conduzido pelo Espírito do Senhor que enche o orbe da terra, o Povo de Deus esforça-se por discernir nos acontecimentos, nas experiências e nas aspirações de nossos tempos, em que participa com os outros homens, quais sejam os sinais verdadeiros da presença ou dos desígnios de Deus. A fé, com efeito, esclarece todas as coisas com luz nova. Manifesta o plano divino sobre a vocação integral do homem. E por isso orienta a mente para soluções plenamente humanas[5].

Vemos, pois, que a missão da Igreja é colaborar, movida pela fé, nas soluções plenamente humanas às questões suscitadas pelos homens de seu tempo. Esta missão manifesta-se como religiosa, mas por causa da imagem e semelhança do homem com Deus, torna-se humana no mais alto grau. E como são os pobres, as classes populares, que mais sofrem as agruras do sistema de dominação capitalista na América Latina, queremos apontar algumas pistas que, à luz do movimento popular e de uma Igreja mais popular, poderão colaborar na superação dos conflitos e contradições e abrir caminho para um projeto social alternativo ao sistema de dominação capitalista em que vivemos.

a) “Quanto mais popular mais evangélica”

A exemplo de Jesus de Nazaré que “nasceu e viveu pobre no meio de seu povo de Israel, que se compadeceu das multidões e fez o bem a todos”[6], a Igreja é convidada a pautar-se pelas necessidades urgentes de um povo que, em sua maioria, não tem trabalho, pão, teto, saúde, terra, lazer, participação e que, por isso mesmo, clama pela chegada do Reino (cf. Lc 4,16-21; Mt 11,2-6). Deste modo, quanto mais popular se tornar em sua forma, organização e institucionalidade, mais se aproximará do desejo de Deus-Pai que enviou seu Filho ao mundo por amor (cf. Jo 3,16) e para que todos tivessem vida e vida de gente (cf. Jo 10,10). Na medida em que se luta para que os últimos da sociedade sejam respeitados, luta-se pelo bem de toda a sociedade. E com isso, as marcas do Reino estarão presentes na nova organização social. E devem estar presentes também na nova organização da Igreja.

b) Espaço de liberdade e autonomia (mesmo que relativa)

A ascensão das massas e a crise do sistema capitalista causaram um grande impacto na consciência dos cristãos latino-americanos. Percebeu-se, nestes últimos anos, a existência de milhões de famintos, analfabetos, desempregados, sem terra, sem casa, sem saúde, sem escola, sem lazer, que questionam abertamente, por suas práticas e por sua própria existência, o atual modo de se organizar a sociedade. Os pobres não são mais um apelo à comiseração ou à esmola, mas são um protesto vivo contra a maldade de um sistema injusto, idólatra e necrófilo. Neste sentido, o pobre, como classe, é um apelo à mudança.

Não há dúvida de que, ao lado do movimento popular, onde o novo sujeito histórico são as classes populares, a Igreja mais próxima das camadas populares, tornou-se um espaço de liberdade e de organização. Com isto, dialeticamente o movimento de transformação que se opera no interior da Instituição-Igreja, pode tornar-se um incentivo à mudança do modelo social: “A missão da Igreja é profética e tem como perspectiva a construção da fraternidade. Assim, todos os que nela exercem uma função pastoral, desde seus bispos até suas comunidades de base, têm que se fazer presente corresponsavelmente, sempre que o exija sua coerência com o Evangelho pelo qual procuram conduzir-se. Desse modo, a Igreja não é uma instituição que se possa “aliar” ou “romper” com partidos ou governos. Ela é espaço de livre expressão da consciência frente às exigências do respeito à dignidade de todos os seres humanos, que ela vê como irmãos porque filhos do mesmo Deus”[7].

Este espaço de liberdade deve, pois, em nome do próprio futuro do Movimento Popular, ser mantido, na medida em que de seu interior possam surgir sempre mais pessoas motivadas a levar adiante o projeto da fraternidade, que se traduz concretamente na luta por uma sociedade alternativa, onde os pobres poderão ser respeitados no trabalho, no pão, no teto, na educação, na cultura, no lazer, na participação… A Igreja precisa ter uma estrutura onde se exercite o poder popular para ser mais livre e ter mais autoridade nas denúncias.

c) Renúncia ao poder paralelo

A Igreja, “Povo de Deus e a humanidade, na qual ele se insere, prestam-se serviços mútuos”[8]. No interior da luta política de libertação, levada avante pelo Movimento Popular que questiona o sistema de dominação capitalista vigente na América Latina, a Igreja, especialmente aquela que fez a opção, em sua prática, pelos pobres, tornou-se sinal e símbolo da nova era, onde a vida é partilhada entre os filhos do mesmo Pai e em que a terra se torna o lugar da grande família, tendo como base a partilha do pão. Por isso, a exigência do Movimento Popular é a de que esta Igreja não se torne um poder paralelo, mas que seja, de fato, a comunidade de fé e de esperança, que saiba alegrar-se com as vitórias das classes populares e que celebre “as maravilhas do poder libertador de Deus na história de libertação de seu povo”[9].


[1] P. Richard. A igreja latino-americana entre o temor e a esperança. São Paulo: Paulinas, 1982, p. 115.

[2] A “opção pelos pobres” não significa um processo exclusivamente “pastoral”, de extensão da Igreja a um novo “campo” de evangelização, mas significa, fundamentalmente, um processo interno de transformação radical e de conversão profunda da Igreja como totalidade. A opção pelos pobres não é, para a Igreja, uma opção acidental, preferencial ou privilegiada, mas uma opção constitutiva, estrutural e essencial (P. Richard, op. cit., pp. 116-117).

[3] “No esforço que costumamos chamar de ‘caminhada’, o lugar central vai sendo pouco a pouco tomado pelo pobre, como portador simples e confiante da esperança da fraternidade, pela qual anseia toda a humanidade. Isto implica em rupturas, nem sempre fáceis, com hábitos, comportamentos e estruturas do mundo velho. A crise que estamos vivendo em nossa sociedade também não estará exigindo substanciais rupturas nos modos tradicionais de governar?” (P. E. ARNS. “Nossa responsabilidade coletiva”, em FSP, 29/5/1983), p. 3.

[4] Gaudium et Spes, 4.

[5] GS, 11. O grifo é nosso.

[6] Puebla, 190.

[7] Paulo E. Arns, op. cit., p. 3.

[8] GS, 11.

[9] P. Richard, op. cit., p. 119.

Benedito Ferraro