Artigos

Publicado em Maio-Junho de 1989 (pp. 11-18)

Democracia como conquista

Por Pe. Benedito Ferraro e Renato Simões

Não há dúvida que a grande novidade da Igreja na América Latina é a inserção (entrada) dos cristãos e cristãs na luta política de libertação dos pobres. A partir sobretudo de 1960, mais e mais cristãos e cristãs, por causa de sua fé, se comprometem politicamente por uma mudança qualitativa da sociedade. Inserem-se nos movimentos populares (reivindicações por melhores condições de vida: água, luz, esgoto, creche, posto médico, telefone, passarela, escola, moradia, preço do produto, estradas etc.). Participam das lutas das mulheres que querem resgatar seus direitos e sua dignidade. Assumem a luta dos povos indígenas e dos negros, mostrando o valor das diferenças e a importância fundamental das diferentes culturas na criação de uma sociedade pluricultural e pluriétnica. Os cristãos e cristãs entram na luta sindical reforçando tese de um sindicalismo autêntico e de base, instinto na participação e na direção dos trabalhadores do campo e da cidade. As frentes de luta são imensas: terra para plantar, reforma agrária, 40 horas semanais, salário desemprego, reajustes mensais, estabilidade no emprego etc. Assumem a luta política contribuindo na construção de partidos políticos que estejam articulados com as lutas sociais populares, preocupando-se com seu programa, sua prática e sua metodologia. É essa inserção na luta política de libertação que dá uma rivalidade nova à prática dos cristãos e aponta na direção de uma contribuição em relação à construção do novo modelo social e do novo modelo eclesial. É isto que afirma Gustavo Gutiérrez: “A inserção nas lutas populares pela libertação tem sido — e é — o vício de um novo modo de viver, transmitir e celebrar a fé para muitos cristãos da América Latina… Esse é o ato maior da comunidade cristã na América Latina nos últimos anos. Esse fato tem sido e continua sendo a matriz do esforço de esclarecimento teológico que levou à teologia da libertação. Com efeito, a teologia da libertação não é compreensível sem relação com essa prática”[1].

O principal agente deste processo de transformação que se vai operando no interior da experiência histórica da América Latina são as classes populares e aqueles setores que se associam organicamente a elas. É o que Gustavo Gutiérrez chama de irrupção dos pobres. Os pobres se fazem presentes na história e gritam seus direitos fundamentais de viver, de pensar de decidir os rumos da história. São eles o novo sujeito histórico e o novo sujeito eclesial.

Essa participação popular é responsável pela esperança que surge na possibilidade de uma mudança no modelo de sociedade e no modelo de Igreja. Essa esperança está consignada no documento Igreja: Comunhão e Missão: “A Igreja crê contribuir positivamente na formação política, sobretudo das classes populares, através das suas comunidades eclesiais de base, verdadeira escola de compromisso. Essas comunidades, com sua função estritamente eclesial, desenvolvem qualidades humanas que servem para plasmar verdadeiros militantes cristãos. A pedagogia aí desenvolvida, de respeito à opinião das bases, cimenta uma prática política realmente democrática, procurando superar elitismos, dogmatismos, conchavos, deliberações de cúpula impostas ao povo tão comuns em nossa vida política”[2]. Logo adiante, os bispos apontam o valor dos partidos políticos e o valor da participação dos cristãos: “A Igreja espera que os cristãos oriundos das CEBs e dos outros grupos e movimentos eclesiais sejam verdadeiras sementeiras de uma nova política no país”[3]. A novidade dessa participação política dos cristãos, saídos das camadas populares e membros das CEBs, é que tal participação respeita critérios e valores descobertos durante a caminhada: democracia de base, busca de consenso, participação da mulher, do negro, dos grupos marginalizados, apontando sempre na perspectiva socialista. Mesmo sabendo que tal ação não é isenta de ambiguidades e preocupações, ela é um dos componentes básicos da gestação da nova sociedade. Tal participação se coloca na linha da parteira ou forjadora do novo projeto social.

 

1. Novas questões à vivência da fé

A novidade (Evangelho) da Igreja da América Latina que se alegra (cf. Lc 1,44.46-56; 6,20) com a irrupção dos pobres na história, coloca novas questões à fé: “Como viver a fé no relacionamento com grupos revolucionários? Na luta sindical? Nos movimentos populares? Nos partidos políticos? Como expressar essa fé? Como celebrá-la? Como relançá-la?”. Essa preocupação levou a Igreja da América Latina a compreender o relacionamento fé-vida a partir da realidade social dos pobres. A exigência de uma nova ordem social incide também na exigência de um novo modelo eclesial e vice-versa. É nessa interação Igreja-Mundo, bem a gosto do Vaticano II, especialmente na Gaudium et Spes[4], que se dá a exata compreensão da Nova Evangelização apregoada por João Paulo II: a retomada da prática de Jesus que veio para evangelizar os pobres e manifestar o Reino presente entre os homens. Tal manifestação se dá quando cegos veem, coxos andam, leprosos são purificados (cf. Lc 4,16-18; Mt 11,2-6). Libertação-salvação que se faz através dos sinais e da pregação em ato do Reino, pois evangelizar é tornar o Reino presente, de modo especial para os pobres[5]. Essa é a obra de evangelização dos pobres na América Latina, qualificada pelo documento de Puebla como o “grande potencial evangelizador”[6]. Com sua luta de libertação e trazendo dentro dela os valores da partilha, da justiça, da participação, da comunhão, da ternura, do respeito à cultura do outro, do respeito à identidade do outro e sua alteridade, da solidariedade, da democracia de base, os pobres contribuem para “evangelizar a cidade”, isto é, criar novas relações sociais, dentro de um novo modelo de convivência social, que mais se aproxima do desejo de Deus, expresso pela sua Palavra. Sobretudo por sua Palavra feita carne (Jo 1,14), feita pobre (cf. Fl 2,5-11), feita classe: negro, índio…[7].

 

Essas novas questões à fé indicam que o compromisso com as classes populares advém não tanto de um pressuposto “político”, mas de uma motivação cristológica. É a vida de Jesus e seu Reino que são o fio condutor para a prática dos cristãos a partir de sua experiência eclesial. Essa práxis eclesial quer reto­mar a “práxis de Jesus” (Puebla 279), como alguém que cativa não por ter um “título” especial, mas pelo fato de responder às aspirações profundas das pessoas de seu tempo. Pela sua práxis ele chamou a atenção e acabou interessando as pessoas de sua época. É à luz dessa mesma práxis que as CEBs interessam as pessoas e, como Jesus, seus membros são perseguidos.

Tal ação dos cristãos das CEBs, articulados com as lutas das classes populares, provoca reações no interior da sociedade e também no interior da Instituição-Igreja, porque aponta na perspectiva da mudança do projeto social e eclesial. Exige a aceitação da luta política dos pobres e a consequente ruptura com as classes dominantes. Indica a política como instrumento valioso para a implantação da justiça, na medida em que se torna um serviço e um canal para a concreção de um projeto que atenda as necessidades e aspirações dos pobres. Nesse sentido, torna-se uma forma de dar “culto a Deus” (Puebla 521), pois “a glória de Deus é a vida do pobre” (D. Oscar Romero). Relança a importância do uso dos instrumentos de análise e de transformação da sociedade que colaboram na descoberta e na superação dos mecanismos geradores da miséria. Confirma a espiritualidade da libertação, na medida em que os mártires, com seu sangue, dão credibilidade a esta nova práxis, que traz em seu bojo a necessidade de um novo projeto social e um novo modelo eclesial.

 

2. Democracia: ganhos e conquistas

Vários espaços têm contribuído para fazer avançar a democracia em seu aspecto participativo: as CEBs, o Movimento Popular, o Movimento Sindical, a Participação no Partido Político. Embora essas práticas não estejam ainda plenamente englobadas em um projeto definido e pronto, apontam nessa direção. Vamos tentar mostrar isso através da indicação dos ganhos e conquistas a partir da participação nessas diferentes instâncias.

 

 

2.1. CEBs

Na expressão dos bispos do Brasil, as CEBs são “um novo modo de ser Igreja”[8]. Ao encarar o pobre, a partir do evangelho e da teologia da libertação, como valor universal (cf. Mt 25,31-46), as CEBs apontam para a grande exigência de transformação de toda a Igreja, na medida em que pretendem ser, na expressão do 6º Encontro Intereclesial das CEBs em Trindade (GO), “o modo novo de toda a Igreja ser”.

A partir das vivências na base, as CEBs contribuem para uma maior participação dos cristãos(ãs) na Igreja. Elas se tornam:

a) Um lugar de liberdade, onde o povo simples e disperso das periferias das grandes cidades e do mundo rural pode discutir seus problemas. É o lugar onde muitas mulheres iniciam sua participação e despertam para defender seus direitos.

b) É o lugar da reidentificação dos pobres. Sobretudo pela migração forçada pelo êxodo rural, os pobres são jogados de um lado para outro. Na comunidade de base (católica ou protestante), os pobres voltam a ter nome, a se identificarem, a serem irmãos, a serem reconhecidos como pessoas. Para tal contribuem muito os círculos bíblicos: reunião feita nas casas para, à luz do texto da Bíblia, pensar a vida e seus problemas.

c) É o lugar da criatividade, onde os pobres retomam sua cultura, criam e recriam seus contos, seus cantos, seus poemas, suas músicas.

d) É o lugar do consenso, onde todos podem falar, participar, decidir. Não há donos da verdade. A coordenação se faz sempre de modo participado e em equipe.

e) É o lugar da partilha, da entreajuda, da solidariedade entre os irmãos. Os exemplos de mutirões no campo e na cidade indicam a força da colaboração.

f) É o lugar da vivência e do testemunho que liberta. Espaço celebrativo e de tomada de consciência à luz da práxis de Jesus e dos mártires-santos dos nossos dias. Celebrando a memória do martírio, as CEBs, por sua espiritualidade, sua mística, relançam a vida, a obra e o projeto de luta dos seguidores de Jesus Cristo.

g) É o lugar da leitura da Bíblia a partir do lugar social do pobre. Os pobres se apropriam da Bíblia como memória da luta do povo oprimido. Ou na expressão de D. Luzia, no 6º Encontro das CEBs: “A Bíblia é o livro dos pobres, escrito para os pobres, dizendo aos pobres: chega de pobreza!”.

h) É o lugar da descoberta, do exercício dos novos ministérios e da nova prática do exercício do poder. Os pobres começam a ter maior espaço de participação nos ministérios da Palavra, do culto, dos sacramentos (Batismo, Matrimônio), na articulação fé-vida (Pastoral Operária, CPT, Agentes Negros, CIMI, Pastoral do Menor, da Mulher, do Migrante…). As decisões são mais democráticas, exigindo a participação de todos, o respeito pela opinião do outro e, na maioria dos casos, a busca do consenso.

i) É o lugar do treinamento participativo. A partir dessas vivências, abrem-se os horizontes para uma participação maior que vai exigindo mudanças no interior da Igreja e, na medida da inserção dos cristãos(ãs) nas lutas populares, mudanças na sociedade.

 

Tais vivências, ainda que não plenamente conceitualizadas e articuladas por um marco referencial maior e acabado, mostram o potencial revolucionário dos cristãos inseridos nas CEBs e nos movimentos sociais populares. São virtualidades que estão implementando um novo modelo eclesial com suas práticas, seus valores, seu código de ética e que, certamente, estão dando seu contributo para o surgir de uma nova sociedade.

 

2.2. Da luta por democracia na sociedade à luta por uma sociedade democrática

Essas características vividas na experiência das CEBs, construídas ao longo de mais de vinte anos de organização, lutas e reflexão teórico-teológica, jogaram-nas no seio de um movimento mais amplo de setores da sociedade brasileira, de resistência à ditadura militar brasileira, de luta pela redemocratização e por transformações mais profundas na estrutura econômica, política e social do país. A contribuição das CEBs e das Pastorais Populares das Igrejas no Brasil é hoje inquestionável, tanto pelas ciências políticas quanto pelo conjunto das forças políticas envolvidas nesse mesmo movimento.

As CEBs estão muitas vezes na origem e quase sempre na sustentação da lutas de importantes movimentos populares, sindicais e políticos. No campo político, os cristãos tem se constituído em base para o fortalecimento da autonomia dos movimentos populares frente ao Estado e aos partidos; para o fortalecimento de um campo classista, democrático e de lutas, no movimento sindical, cuja maior expressão é a Central Única dos Trabalhadores (CUT); para a construção de uma alternativa político-partidária nascida do seio das lutas populares e operárias e identificada com o projeto histórico dos setores explorados e oprimidos na sociedade capitalista. Para a grande maioria dos cristãos inseridos na lutas populares e operárias, o Partido dos Trabalhadores (PT) tem sido o desaguadouro natural de sua participação político-partidária, em que pesem experiências de participação dos cristãos oriundos das CEBs e Pastorais Populares em outros partidos políticos.

O fato é que as lutas sociais desenvolvidas no último ano com grande participação das CEBs colocaram bandeiras democráticas com eixo de sua articulação: lutas pelo fim do regime ditatorial, pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte que ampliasse os espaços democráticos de organização da sociedade; pela liberdade de organização sindical e por sua autonomia frente ao Estado e partidos políticos; pela liberdade de organização partidária; pela liberdade de organização dos trabalhadores no local de trabalho; pelo reconhecimento de movimentos populares por parte do Estado; por participação popular institucionalizada nos trabalhos legislativos; por direitos econômicos e sociais dos trabalhadores das classes populares, sem os quais os exercícios de cidadania política será impossível.

No interior dessas lutas, algumas conclusões foram sendo construídas e constituem hoje em consenso orientador da prática das comunidades e dos cristãos delas oriundos engajados na luta popular, sindical e política.

 

a) Democracia e socialismo — Articulação inevitável

A articulação das demandas democráticas com as demandas econômicas e sociais dos trabalhadores e das classes populares e o confronto violento entre essas demandas e o bloco do poder dominante, que constantemente vem usando da repressão militar contra esses movimentos, colocaram a discussão sobre a possibilidade de atendimento dessas demandas por parte do Estado e das classes dominantes dentro dos marcos estruturais do sistema capitalista. A dinâmica imposta pelas classes dominantes ao Brasil, inserido num quadro de divisão internacional da produção econômica do mundo capitalista, com consequências diretas sobre a vida política da nação, favorece uma crescente articulação entre democracia e socialismo. Ou seja, a consciência da impossibilidade histórica de que os trabalhadores e as classes populares tenham seus interesses contemplados sem a ruptura estrutural com as estruturas capitalistas e sem a construção de uma sociedade socialista. Essa compreensão não e fenômeno propriamente brasileiro, mas perpassa toda a America Latina e o Terceiro Mundo em geral, com o avanço das lutas de caráter anticapitalista em todos os continentes nos últimos vinte anos (Nicarágua, El Salvador, Guatemala, Colômbia, Chile, África do Sul, Angola, Moçambique, Coreia, Vietnã etc.).

 

b) Caráter estratégico da democracia no socialismo

A articulação entre democracia e socialismo passa também pela compreensão do caráter estratégico da democracia na construção do socialismo, O socialismo passa a ser cada vez mais compreendido como a democracia dos trabalhadores e das classes populares. Nesse sentido, como a sociedade plenamente democrática. Essa compreensão está na base da crítica às experiências autoritárias dos países do chamado “socialismo real”, especialmente dos regimes burocráticos do Leste europeu, e ao aplauso internacional às buscas de reformas democráticas e de novos caminhos para a democracia no socialismo. São marcos nesse sentido o apoio à luta pela liberdade sindical na Polônia; a esperança no aprofundamento dos processos da glasnost e da perestroika na União Soviética e do processo de retificação cubana; os avanços representados pelo sandinismo nicaraguense, processo que conta com ampla e decisiva participação dos cristãos; e o fortalecimento, no Brasil, da democracia interna nos movimentos sindical e político dos trabalhadores e das classes populares, processo este que também conta com a decisiva participação dos cristãos.

 

c) Democracia já, condição de democracia depois

As práticas políticas desenvolvidas nas CEBs, no movimento popular, no movimento sindical cutista e na experiência da construção do PT, indicam que a articulação entre democracia e socialismo dá-se não somente após o triunfo revolucionário e a construção da sociedade socialista, como perpassa o próprio processo de superação do capitalismo. Ou seja, a consciência de que os meios empregados na luta pelo socialismo prefiguram a nova ordem a ser construída e são determinantes para o sucesso ou para o fracasso da identificação do processo revolucionário com interesses históricos dos trabalhadores e das classes populares. Nesse sentido, a pratica política que vem sendo construída com intensa participação dos cristãos em nosso país rompe decididamente com a tradição herdada das esquerdas tradicionais, desde a esquerda reformista à experiência dos grupos que partiram para a luta armada nas décadas de 1960 e 1970 sem lograrem inserção dos meios populares, ambas profundamente marcadas pelo autoritarismo estalinista.

 

d) O pluralismo político

Outro forte ganho no processo político que descrevemos — e cremos aqui estar uma contribuição original dos cristãos no seio das esquerdas latino-americanas — é o reconhecimento do pluralismo político como base para o aprofundamento da democracia no processo de construção do socialismo. Permitindo-nos aqui citar uma importante contribuição do nicaraguense Orlando Nuñez a esse respeito: “O pluralismo político é parte integrante da democracia. A existência do partido único não é uma condição indispensável para manter, alimentar e desenvolver uma hegemonia revolucionária. Eu penso que se pode manter perfeitamente a hegemonia revolucionária com o pluralismo de partidos. Naturalmente supõe que o pluralismo se dá numa sociedade em que tem um projeto revolucionário e no seio da qual as massas são revolucionarias: nenhum partido, mesmo de direita, pode, nem de longe, ser um sujeito de preocupações para nos, já que a burguesia é uma classe minoritária e tira sua força da manipulação das massas. Portanto, a existência de numerosos partidos de esquerda não deve ser preocupante. O pluralismo político é parte do processo revolucionário. A própria esquerda tem que ser pluralista[9].

O pluralismo político no campo das esquerdas tem sido um tema profundamente mal tratado em nosso país e na própria tradição latino-americana. A critica e autocrítica, o direito de tendência, o trato ético às divergências políticas no campo da independência de classe, o respeito às eventuais minorias, a busca de consenso, a prática da proporcionalidade na constituição dos organismos dirigentes no movimento popular, sindical e no partido são temas correlatos que têm sido exaustivamente levantados ao debate nos últimos três anos no Brasil.

 

e) A participação dos cristãos

Dentro dessa perspectiva plural, insere-se a contribuição dos cristãos na construção do socialismo. Os cristãos sabem-se não portadores de um projeto político próprio; consequentemente, não se constituem num partido político próprio nem em uma tendência ou facção no interior dos movimentos sociais e dos partidos políticos. O dado de fé não é um elemento aglutinador dos cristãos em torno de projetos ou propostas políticas, mas basicamente um motor para a ação, o fundamento que ilumina e dá sentido à prática transformadora da realidade. Necessita, pois, de outras mediações (teóricas, ideológicas, políticas…) antes de se transformar em práxis. No entanto, os cristãos, pela prática social que desenvolvem, pelos princípios oriundos da experiência de fé e da vivência eclesial, pela metodologia ensaiada nas CEBs e nas Pastorais Populares, têm uma contribuição específica, uma palavra a dizer, um aporte ao debate que se trava neste campo de construção do socialismo. Os cristãos no Brasil, identificados com os interesses históricos dos trabalhadores e das classes populares, estão vencendo o preconceito de alguns de seus parceiros na luta para transformarem-se em interlocutores válidos no processo revolucionário. E as questões ligadas à democracia, à participação popular, ao controle das divisões pelas bases, à garantia do pluralismo político no campo da independência de classe, a mecanismos efetivos de democracia interna têm sido temas sobre os quais os cristãos têm procurado levantar.

 

3. Frentes de exercício da democracia

Cabe-nos agora ressaltar algumas frentes de exercício da democracia que vêm ocupando recentemente boa parte do tempo dos cristãos militantes e que se constituem em desafios para o tripé democracia–participação dos cristãos–construção do socialismo.

 

3.1. Os Conselhos Populares

A partir da experiência acumulada pelos movimentos populares que se desenvolveram nas décadas de 1970 e 1980 (moradores de bairros e loteamentos clandestinos, favelados, mulheres, negros, jovens etc), ensaia-se um salto de qualidade na participação popular no processo político com a constituição dos Conselhos Populares (CPs). Embora esta tenha sido uma das propostas-chave da campanha do PT nas eleições municipais do ano passado, há consciência da imunidade de manutenção do caráter autônomo dos CPs em relação à administração municipal e aos partidos políticos. Em suas diferentes etapas de construção, os CPs vivenciarão a experiência de dirigir demandas da luta imediata dos trabalhadores e das classes populares do Estado ao exercício da cidadania política e do debate a respeito dos interesses históricos dos trabalhadores e das classes populares. Nesse sentido, a contribuição dos cristãos organizados no meio popular, a experiência acumulada da rede de CEBs nos bairros e a metodologia de participação popular já desenvolvida nesses últimos anos têm importância capital para a mobilização dos CPs.

 

3.2. A participação político-partidária

Os cristãos percebem, hoje mais do que nunca, a importância da luta política e a necessidade do partido político como mediação estratégica na condução do processo de transformação social, econômica e política da sociedade brasileira. A tradicional imagem da política como “atividade impura”, o sonho de restauração de um projeto de neocristandade, a ideia de que nosso papel é fazer a “política com P maiúsculo” fora dos partidos vêm sendo substituídos pela consciência do necessário engajamento dos cristãos nos partidos que mais se identificam com as lutas sociais e com o combate à estrutura de exploração e dominação imposta pelas classes dominantes. Essa mediação política é um dado novo na prática social dos cristãos e apresenta inúmeros desafios à reflexão teórica e teológica. Em nível teológico, há que se avançar na reflexão sobre o caráter plural do engajamento político dos cristãos, em partidos diferentes ou em correntes diferenciadas no interior do mesmo partido, bem como sobre a incidência desta reflexão na pastoral da Igreja.

 

3.3. Democracia nos movimentos sociais

“A democracia interna na CUT não é apenas um princípio a ser respeitado, mas também uma condição fundamental da ação sindical… A possibilidade de os trabalhadores participarem efetivamente das decisões das instâncias da CUT, de poderem interferir em todas as decisões e discussões são os elementos básicos da vida democrática e cotidiana de nossa central sindical; e que deve iniciar-se desde os locais de trabalho e os sindicatos de base do campo e da cidade. A definição precisa dos mandatos das diversas instâncias de direção e seus limites, bem como o controle das bases sobre as direções, incluindo a possibilidade de destituí-las com decisões democráticas e representativas quando os princípios da CUT forem desrespeitados, são condições fundamentais para impedir a burocratização. Do mesmo modo a crítica aberta e autocrítica sincera são valores fundamentais a serem resgatados para avançarmos na prática democrática e superarmos nossos equívocos”[10].

Escolhemos esse texto para apenas registrar a centralidade que a questão da democracia vem assumindo nos debates internos dos organismos de massas nos últimos tempos em nosso país. Cresce a consciência de que o caráter efetivamente transformador desses organismos está não apenas na combatividade de suas práticas no confronto com as classes dominantes, mas igualmente nas suas relações internas, na vida democrática que incorpora valores como a organização de base e sua participação nas discussões e decisões, com participação direta da base nas decisões gerais; a proporcionalidade como critério para composição dos órgãos diretivos; a revogabilidade dos mandatos; a crítica e autocrítica; a ética como valor a orientar as relações sociais internas nos movimentos de massa.

 

3.4. A importância da luta institucional

Temos participado de várias lutas institucionais nesses últimos dez anos: pelas diretas-já; pela convocação da Assembleia Nacional Constituinte; pela participação popular no Congresso Constituinte; eleições municipais e estaduais para o Legislativo e Executivo; pelo voto dos analfabetos, maiores de 16 anos, dos cabos e soldados; por reformas sociais; pela democratização do Estado. Utilizamos como formas de luta o voto, abaixo-assinados, manifestos, panfletos, assembleias, concentrações, passeatas, até greves. Foi um rico aprendizado, onde verificamos os limites e as possibilidades da luta institucional. Neste ano, a CNBB realiza a sua Assembleia Geral sob o tema “Exigências éticas de uma nova ordem institucional”, na esteira de outros importantes documentos sobre as “Exigências cristãs de uma ordem política”, “Igreja e problemas da terra”, “Reflexão cristã sobre a conjuntura política”.

A perspectiva da participação dos cristãos na luta institucional tem sido a de ampliar os espaços de participação popular, de liberdade de organização e de intervenção das massas no cenário político — de explorar ao máximo os espaços conquistados para o avanço da organização autônoma dos trabalhadores e das classes populares. Ao mesmo tempo em que a luta institucional abre esses espaços, esgotam-se no enfrentamento com o Estado burguês as expectativas de que os interesses históricos dos trabalhadores e das classes populares sejam contemplados sem alterações estruturais na vida política e econômica do país. Nesse sentido, a luta pela cidadania política alia-se a outras lutas pela democracia econômica e social, utilizando-se das mais variadas formas de organização e luta, fazendo avançar a consciência política das massas e sua referência na perspectiva socialista de organização da sociedade.

 

Conclusão

Esses avanços e conquistas apontados, como também as novas questões que deverão ser enfrentadas pelo movimento social histórico, indicam o caminho de uma nova sociedade e de um novo modelo de Igreja que se querem mais próximos do desejo do Deus libertador, Pai-Mãe comum de todos.

Os valores da partilha, da solidariedade, da participação de todos, do respeito à alteridade do outro (cultura, sexo, etnia) querem ser concretizações históricas, ainda que tímidas, da vida trinitária de Deus. Independentemente de se ter ou não consciência, a vida trinitária está presente sempre e onde o amor e a justiça estiverem sendo exercidos nos relacionamentos humanos.[11] Deus não está fora desses valores. Pelo contrário, ao respeitar esses valores descobertos na caminhada de luta, aproximamo-nos do grande modelo para toda a humanidade, inclusive para a Igreja. Isso porque, como nos afirma L. Boff, “o mistério trinitário acena para formas sociais onde se valorizam todas as relações entre as pessoas e as instituições, de forma igualitária, fraterna e respeitadora das diferenças. Só assim superar-se-ão as opressões e triunfarão a vida e a liberdade”[12].

Embora saibamos que o Reino não se identifica com nenhuma mediação histórica, ele passa por elas.[13] O fato de tentarmos aproximar o projeto advindo das lutas populares do grande projeto de Deus para a humanidade, é a certeza que nos advém de que a Trindade é o grande projeto social para a humanidade. Para tanto, os ganhos e avanços já conquistados pelas lutas do Movimento Social Popular e as diversas frentes de exercício democrático mostram que o novo modelo eclesial e o novo modelo de sociedade, incoativamente presentes nessas lutas, aproximam-se deste projeto, à medida que se valoriza a participação democrática de todos, especialmente dos setores marginalizados, as diferenças sexuais, culturais e étnicas são respeitadas, a partilha vai sendo efetiva numa maior divisão dos bens. O caminho, certamente, será longo. Mas já foi iniciado. O importante agora é fazer com que ele avance.



[1] G. Gutiérrez. A força histórica dos pobres. Petrópolis: Vozes, 1981, p. 245.

[2] Igreja: Comunhão e Missão, nº 221.

[3] Igreja: Comunhão e Missão, nº 223.

[4] A fé deve contribuir na solução dos problemas reais da humanidade: “A fé, com efeito, esclarece todas as coisas com luz nova. Manifesta o plano divino sobre a vocação integral do homem. E por isso orienta a mente para soluções plenamente humanas” (GS 11). Neste mesmo número, a GS reforça a solidariedade que existe entre a Igreja, povo de Deus, e a humanidade, afirmando que ambas “prestam-se serviços mútuos”.

[5] A missão de Jesus orienta-se para o mundo. Sua missão significa anunciar a Boa-Nova que liberta a pessoa, especialmente os mais pobres (cf. Lc 4,16-18; Mt 11,2-6.25-26). Daí o sentido dos sinais: enfermos curados, água transformada em vinho, pão multiplicado e mortos ressuscitados (cf. EN 12). Sua missão suscita e realiza a libertação dos pobres. Sua libertação é sinal da chegada do Reino: “Os pequeninos, os pobres são evangelizados, tornam-se seus discípulos, reúnem-se ‘em seu nome’ na grande comunidade daqueles que acreditam nele” (EN 12).

[6] Puebla 1.147.

[7] Ou como D. Pedro Casaldáliga se expressa em seus poemas:

“No ventre de Maria / Deus se fez homem. / Mas na oficina de José / Deus também se fez classe.” (“Cantigas Menores”, Projornal, Goiânia, 1979, p. 29).

 

Ou ainda:

“O Verbo se fez carne / O Verbo se fez pobre / O Verbo se fez índio… / Planta entre nós / A sua maloca.” (“E o Verbo se fez índio” (Disco), Verbo Filmes, SP, 1986, 1ª música).

[8] Comunidades Eclesiais de Base na Igreja do Brasil, 3.

[9] Entrevista de Orlando Nuñez a Eric Toussaint, “Democracia, Socialismo e Revolución”, in Imp.—Selección para América del Sur, ano V, nº 17, jul./ago., 1988. Orlando Nuñez é autor de “Democracia y Revolución em las Américas”, que recebeu o prêmio “Carlos Fonseca” da Nicarágua em 1987, em coautoria com o norte-americano Roger Burbach.

[10] “Uma CUT democrática, pluralista, unitária e representativa”, Resolução do III Congresso Nacional da CUT, 7 a 11/9/88, in Resoluções do III CONCUT, p. 41.

[11] “Cf. L. Boff. A Santíssima Trindade é a melhor comunidade. Petrópolis: Vozes, 1988, p. 45. Cf. também LG 9.

[12] L. Boff, op. cit., p. 110; cf. também p. 97.

[13] Puebla 193.

Pe. Benedito Ferraro e Renato Simões