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Publicado em Julho-Agosto de 1984

Jesus e os marginalizados do seu tempo

Por Benedito Ferraro

Para compreendermos o relacionamento de Jesus com os marginalizados do seu tempo, temos que nos lembrar que Jesus é um judeu, carpinteiro de Nazaré da Galileia, o meio mais pobre de seu país sedento de uma transformação social de base. Não temos documentos e instrumentos capazes de afirmar com absoluta certeza o que Jesus de Nazaré pensava ou pensou sobre este ou aquele aspecto da vida política, econômica, religiosa ou social de seu tempo.

Entretanto, podemos atingir muito do seu meio e aí descobrir aspectos da realidade vivida por Jesus. Nesse sentido, assumindo em plenitude a profissão de fé de Calcedônia — Jesus verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus — e seguindo a orientação da Gaudium et Spes 22 que nos afirma: “Por sua encarnação, o Filho de Deus uniu-se de algum modo a todo homem. Trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana, amou com coração humano”, queremos dizer que Jesus tem sua origem enraizada na tradição de seu povo, é profundamente solidário com seu ambiente vital, é fruto também do seu meio, marcado pela geografia, história e cultura do seu povo, como também é influenciado pelas leis econômicas do seu tempo, pelos conflitos com os diferentes grupos políticos de seu tempo. Em suma, esta sua solidariedade com seu meio e com seu povo o levará a enfrentar o desafio de uma vida voltada aos mais pobres e marginalizados de seu tempo e, devido a esta atitude, terá que enfrentar a perseguição dos que detinham o poder político, econômico e ideológico da época.

1. A PRÁTICA DE JESUS NOS REVELA A REALIDADE SOCIAL DE SEU TEMPO

Jesus de Nazaré, o carpinteiro (cf. Mc 6,3), com seu grupo de discípulos (cf. Mc 3,13-19), recrutados especialmente do meio da classe trabalhadora (pescadores, artesãos, agricultores, pastores…), inicia uma nova prática que causa espanto e escândalo aos grandes de seu tempo: autoridades religiosas e civis. O que produzia tal espanto e escândalo, e acabou originando a perseguição a Jesus, foi o fato de que oferecia a salvação aos pobres. Na mentalidade dos grandes de Israel, guiados pelo sistema de pureza, afirmava-se que os pobres já estavam condenados por antecipação, pois pelo fato de não conhecerem a Lei, tornavam-se “malditos” (cf. Jo 7,49).

Este espanto e este escândalo, aos poucos, se operacionalizam e se transformam em perseguição. A prática de Jesus e de seu grupo sugere uma nova maneira de interpretar a vida, a vida dos pobres, a Lei e consequentemente o próprio Deus. Isso acarretou-lhe inúmeros ataques e perseguições e, no final do processo, a própria condenação. A prática de Jesus, como causadora e reveladora de conflitos, está bem relatada pelos sinóticos nas controvérsias com os dirigentes do povo: “Entraram em Cafarnaum e, logo no sábado, foram à Sinagoga. E ali ele ensinava. Extasiavam-se com seu ensino, porque lhes ensinava com autoridade e não como os escribas” (Mc 1,21-22).

Essa prática suscita oposição e Marcos a retrata já no início de seu evangelho: “Ao se retirarem, os fariseus e os herodianos imediatamente conspiraram contra ele como o matariam” (Mc 3,6). Ou ainda: “Que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais milagres por suas mãos? Não é este o carpinteiro…?” (Mc 6,2-3). Em outras palavras, donde lhe vem o direito de falar ou de fazer gestos, se não passou pelos canais normais da classe dominante da época? Sua autoridade é perigosa, pois contesta a “autoridade” oficial dos escribas, doutores, sacerdotes.

É o que podemos observar com muita clareza na parábola dos dois filhos, relatada por Mateus. Ali Jesus conclui: “Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas estão vos precedendo no Reino de Deus. Pois João veio a vós, no caminho de justiça, e não crestes nele. Os publicanos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, vendo isto, nem sequer reconsiderastes para crer nele, afinal” (Mt 21,28-32). Tal texto, como nos afirma J. Jeremias, traz dentro de si uma exigência radical de Jesus. Normalmente, ficamos satisfeitos com a tradução de que “os pecadores e as prostitutas vão vos preceder” e, consequentemente, acabamos afirmando que o “vós” também entrará e, com isso, nada vemos de contraditório e paradoxal na afirmação de Jesus. Entretanto, como diz J. Jeremias, a tradução não é “vos precederão” e sim eles “entrarão no lugar de vocês”. Isto é, as autoridades “ficarão de fora”[1].Claro está que tal atitude provocou a imediata perseguição a Jesus, pois as “autoridades oficiais” do judaísmo eram deslegitimadas em seu poder. Teriam duas alternativas: ou acatar a palavra de Jesus e se converter; ou eliminá-lo como impostor.

Com tal prática no interior de sua época, Jesus realiza obra de um revolucionário: desmascara os mecanismos de opressão de seu tempo e revela que os verdadeiros culpados pela miséria e marginalização dos pobres, não são os pobres, mas as autoridades do povo. É por isso que o povo se parece a ovelhas sem pastor (cf. Mt 9,36). Jesus percebe isso de modo muito claro em seu relacionamento com os diferentes grupos e estratos sociais de sua época. Sua atitude, relatada pelos textos evangélicos, especialmente pelas controvérsias, nos orienta na compreensão de sua perseguição, pois ela desvela os mecanismos que tiram a vida dos pobres e trabalhadores de seu tempo: “Os anátemas, as controvérsias e o desmascaramento (…) têm uma base objetiva. No fundo, trata-se de esclarecer a verdadeira realidade de Deus e a defesa que Deus faz da vida dos homens. Mas é natural e compreensível que a controvérsia objetiva também se transformasse em controvérsia subjetiva, ou seja, que a ela se seguisse o ataque pessoal e, no caso, a perseguição de Jesus. E esse ataque foi tomando cada vez mais o aspecto de uma alternativa excludente: a perseguição de Jesus tratava de eliminá-lo”[2].

1.1. A fé manifestada por Jesus

Os que duvidam da prática de Jesus, especialmente os chefes do povo judeu, não aceitam os valores que ele propõe, a sua maneira de viver e de atuar, seu compromisso com os pobres e doentes (cf. Lc 4,16-21;7,34; Mc 2,15-16) que eram considerados pecadores e já, de antemão, fora da salvação por não conhecerem a Lei (cf. Jo 7,49). Portanto, não podiam ter a fé manifestada por Jesus, isto é, não aceitavam ser seus discípulos, seus seguidores. Pelo contrário, acusavam-no de realizar as obras de salvação, as curas, os sinais pela força de Belzebu (cf. Lc 11,14-18).

Jesus mostra que toda humanização é sinal da vida de Deus no homem.

Todo sinal de humanização é presença de vida e, portanto, mediação de Deus. Onde quer que haja um homem humanizando-se, Deus aí está ganhando. Daí a razão da desconfiança dos chefes judeus, pois não se comprometeram com a humanização dos marginalizados de seu tempo e, por isso, não podem aceitar o mesmo projeto de Jesus, não têm a mesma fé manifestada por Jesus, não podem ser seus seguidores. Deixam o homem em sua desumanização e por isso vão contra Deus, como no caso de tentar impedir que Jesus cure o homem de mão seca no Sábado (cf. Mc 3,1-6) ou no caso de afirmar que é pela força do Diabo que Deus está curando o mudo (cf. Lc 11,14-18). Ora usar Deus para desumanizar é blasfemar contra o Espírito Santo: “Os que estão de acordo com a humanização do homem têm que ver Deus atuando aí e quem usa Deus para negar a humanização do homem, comete o pecado imperdoável, isto é, a blasfêmia contra o Espírito Santo”[3]. A fé manifestada por Jesus, que deve ser retomada por nós, nos indica que para percebermos a presença atuante de Deus, temos que nos comprometer com o homem e a história. Isso exige sensibilidade histórica e retomada do projeto de Jesus, isto é, sua fé, para poder através dos sinais da história, ter fé nele.

1.2. A vida é mais importante do que a lei

A prática de Jesus indica que a vida é mais importante do que o alimento e mais importante do que a lei. Afirma na sua prática e na prática de seus discípulos que toda lei deve ceder diante de uma necessidade vital. Diante da fome não há lei. Em outras palavras, não se pode encobrir a fome em nome de Deus: “O que está em jogo nesta controvérsia (cf. Mc 2,23-28; Lc 11,3) não é, em primeiro lugar, um problema religioso, mas sim um problema humano: a fome dos discípulos. O que Jesus propõe é que não pode haver uma lei que proíba a satisfação das necessidades vitais, seja ou não num sábado. Tal lei não pode ser a mediação da vontade de um Deus da vida”[4].

Parece-nos claro que a prática de Jesus indica que o sábado e a Lei são feitos para o homem e, consequentemente, o homem tem o direito de refazer este gesto de Jesus que revela o sentido primeiro da vontade de Deus, não expresso na Lei, e que se encontra distorcido pelos interesses dos grupos dominantes de sua época: a vida do homem. Um Deus que se coloca contra a criatura é um falso deus: “Em Marcos encontramos a luta total e constante, até o fim, de Jesus contra aqueles que usam a lei de Deus para oprimirem os pobres. Jesus solapava as bases do poder religioso. Eles acreditavam conhecer a lei de Deus e Jesus mostra que a lei de Deus é precisamente a humanidade do homem. Isto é, que o homem seja curado de seus males, que seja tirado do poder do demônio, que seja restituído em sua plena humanidade e não precisamente honrar o sábado, os ritos etc. Tudo isso é secundário para Deus. Jesus não cessa de fazer uma luta que é política, num sentido bem amplo da palavra, e que é tirar a autoridade daqueles que têm o poder, para que não oprimam com sua autoridade aos pobres. Luta até o ponto de ser considerado intolerável para aqueles que têm e querem seguir tendo a autoridade para oprimir os pobres”[5].

Na verdade, a grande obra de Deus em Jesus é que o homem seja homem. Santo Irineu já o dizia em seu tempo: “A glória de Deus é a vida do homem”. D. Oscar Romero traduziu tal afirmação para o contexto latino-americano: “A glória de Deus é a vida do pobre”.

Percebemos, pois, pela conduta e pela prática de Jesus que não se pode desumanizar o homem (fome) em nome de uma legislação religiosa. Deus não pode ser o fiador da injustiça e nem pode ser invocado ou cultuado como tal. É isso que vemos em Jesus ao comer com os publicanos e pecadores (Mc 2,15-17), ao não se preocupar com as tradições das abluções rituais antes das refeições (cf. Mc 7,1-13), ao multiplicar os pães afirmando que é preciso dar de comer a quem tem fome (cf. Mc 6,30-44; Mc 8,1-10; Mt 14,13-21), ao afirmar que quem der de comer e de vestir ao faminto estaria fazendo isto ao próprio Jesus (cf. Mt 25, 35.40). Será, pois, no contexto de crítica às tradições que Jesus “trata de desmascarar o falso uso que se faz da legislação, como suposta mediação da vontade de Deus, para contrariar a verdadeira vontade de Deus… Jesus desmascara o uso da lei religiosa, porque, na verdade, em nome dela se ignora ou se justifica o que Deus deseja verdadeiramente para a vida dos homens”[6].

Na verdade, Jesus insiste no compromisso com o homem, sobretudo aquele que está em situação de maior carência. E é exatamente aí que aparecerá o Deus da vida que ama aqueles que ninguém ama, que salva aqueles que já estão condenados pela Lei (cf. Jo 7,49) ou aqueles a quem parece ser impossível salvá-los (cf. Mc 10,27). Essa mesma experiência foi sentida pelo próprio Jesus, na medida em que rejeitado pelos dirigentes, foi condenado como impostor, julgado como maldito (cf. Gl 3,13) e, no entanto, o Deus da Vida o ressuscitou dentre os mortos (cf. At 2,36), impedindo que seu santo experimentasse a corrupção (cf. At 2,27).

1.3. Jesus: um homem de seu tempo

“Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas e pregando o evangelho do Reino, enquanto curava toda sorte de doenças e enfermidades” (Mt 9,35).

Jesus, filho de carpinteiro, carpinteiro ele próprio, de Nazaré, é alguém inserido em seu tempo, conhecendo a estruturação básica da sociedade do seu tempo (cidades e aldeias), participante do espaço de liberdade que todo judeu acima de 12 anos tinha (sinagoga), anunciando não a si mesmo, mas uma realidade maior, o Reino. Jesus estava ligado a toda tradição anterior de seu povo, às suas aspirações e esperanças de libertação, de paz, de felicidade para o povo. Por isso, curava, isto é, anunciava a presença da salvação através de gestos e sinais concretos. Ambíguos, é verdade, mas reais.

a) “Ao ver a multidão, teve compaixão dela, porque estava cansada e abatida como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36)

Jesus é o Filho de Deus, o enviado do Pai, o Messias. Como tal ele sofre com o povo, é solidário com o povo que está cansado e abatido. Cansado pelo trabalho duro a que era submetido e abatido pela enorme quantidade de impostos a pagar, empobrecendo-se gradativamente. Basta, para tal, vermos o resultado da pesquisa histórica, para percebermos o olhar crítico de Jesus em oposição ao olhar das classes dominantes que o chamavam de louco ou subversivo (cf. Mc 3,20-22): “O sistema de impostos explica porque com riquezas naturais mais do que suficientes, as massas camponesas tenham vivido ‘numa horrível pobreza’. Realmente, os romanos arrecadavam uma contribuição equivalente ao quarto da colheita de cada ano ou cada dois anos; à qual vêm juntar-se censos in natura e corveias para alimentar as tropas de ocupação e mais numerosos direitos de alfândega e de pedágio. Além disso, por causa da lei judia, cada fazendeiro deve pôr de lado 12%, aproximadamente, do que resta de sua colheita para o dízimo sacerdotal e a oferenda da elevação, e mais um segundo dízimo para os pobres ou a título de provisão depositada no Templo; além do mais, o ano sabático tem como consequência a perda de pelo menos um ano e meio do produto agrícola a cada sete anos. Essas punições excessivas, acrescidas de um aumento contínuo de preços, tornam extremamente difícil a vida das classes trabalhadoras, rurais e urbanas. Fato que explica porque, muitas vezes, os assalariados reduzidos à miséria e os escravos das grandes propriedades juntam-se aos bandos de salteadores que assolam os campos”[7]. Ou como nos afirma D. Barbé: “O poder romano e o poder judaico se juntavam para esmagar econômica e financeiramente o povo palestino. Dois Estados, duas classes dominantes a sustentar! Havia impostos a pagar aos romanos e impostos a pagar ao Estado judaico… Aproximadamente 50% da riqueza produzida pelos camponeses e artesãos da Palestina ia para os cofres do governo e da classe aliada ao governo”[8].

b) Jesus é um judeu

Jesus é alguém profundamente relacionado com as esperanças e aspirações de seu povo. Ele se liga ao anúncio do Reino e a partir de sua prática solidária, fraterna, apresenta o projeto do Reino intimamente ligado à promessa de Deus do Antigo Testamento. Jesus é a encarnação histórica do Deus do êxodo: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi seu clamor por causa de seus opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e vasta, terra que mana leite e mel” (Ex 3,7-8). Jesus, à luz da promessa de vida do Deus do Antigo Testamento, critica o que se faz com o povo de seu tempo. Afirma que estão nesta situação de miséria exatamente pelo fato de serem “como ovelhas sem pastor”. É sem dúvida uma crítica aberta aos que exploravam o povo de seu tempo, os que se aproveitavam do poder religioso-político para espoliar os pobres de seus produtos, utilizando-se como arma legitimadora a própria Lei (cf. Mt 23,1-39; Lc 11,37-53). Com isso, usavam de Deus para desumanizar o homem. Cometiam o grande pecado contra a religião que era o de desumanizar o homem em nome do próprio Deus.

Sua crítica se dirige também diretamente aos detentores do poder econômico político: “Ide dizer a esta raposa: Eis que eu expulso demônios e realizo curas hoje e amanhã; e no terceiro dia vou terminar! Mas hoje, amanhã e depois de amanhã, devo prosseguir o meu caminho, pois não convém que um profeta pereça fora de Jerusalém” (Lc 13,31-33). Todos nós sabemos o significado de raposa: É um animal que age à noite, roubando e matando. Pois bem, Jesus revela, com esta sua palavra, a consciência clara que tem da exploração feita e mantida pelos invasores, apoiados pelos judeus colaboracionistas e sustentada pelos militares. Entretanto, a culpa maior é lançada aos responsáveis do povo: fariseus, legistas, sacerdotes, que com sua prática acabam legitimando a espoliação e opressão do povo em seu trabalho (economia), em sua participação (política) e em sua cultura (ideologia), impedindo o povo de ter vida (pobreza-miséria), de participar das decisões e de salvar-se (o povo se “vê” como “maldito”).

É nesse contexto de conflito e confronto que devemos analisar as atitudes de Jesus em relação ao desmascaramento da prática ilegítima dos diversos grupos que detêm o poder em seu tempo. É nesse contexto de conflito e confronto de práticas que podemos compreender a análise política que Jesus faz dos diferentes grupos detentores do poder na sociedade de seu tempo: ricos, fariseus, escribas, sacerdotes, governantes.

A análise política da realidade feita por Jesus (cf. Mt 9,35-36) demonstra claramente que a ausência de vida (pobres, doentes, prostitutas), para além de causas naturais, é fruto do pecado dos homens. E pecado bem localizado na exploração dos trabalhadores, na dominação através da manipulação da Lei e na implantação do sistema de pureza, decretando o pobre necessariamente como pecador, impuro e, por isso mesmo, maldito.

c) As maldições

“Ai de vós ricos” (Lc 6,24).

Trata-se de uma condenação da riqueza e daqueles que a detêm, pois com sua acumulação privam os outros da vida. Jesus retoma aqui a crítica profética contra a acumulação dos bens, impedindo os pobres de terem acesso à mediação da vida — o pão —, por causa de um sistema montado não na humanização das pessoas, mas na defesa dos interesses de grupos dominantes. Bastaria lembrarmo-nos dos textos de Amós (4,1-3; 5,21-25; 6,1-7; 8,4-8), Miqueias (2,1-2), Isaías (1,11-17; 3,12-15; 5,8.9.20-24; 10,1-4; 58,1-12), Jeremias (7,9-11), Sofonias (1,7-9), sem nos esquecer de Eclesiástico (34,18-24).

Poderíamos, à luz da prática e da crítica de Jesus, compreender a mensagem dos Santos Padres que denunciam na origem de quase todas as riquezas uma injustiça: “Ora, todas as riquezas descendem da injustiça e, sem que um tenha perdido, o outro não pode achar. Por isso, parece-me que é muito verdadeiro aquele provérbio: ‘O rico é injusto ou herdeiro de um injusto’”[9]. Ou como dizia santo Ambrósio: “Não dás da tua fortuna ao seres generoso com o pobre, tu dás daquilo que lhe pertence. Porque aquilo que te atribuis a ti, foi dado em comum para o uso de todos. A terra foi dada a todos e não apenas aos ricos”[10].Podemos nos lembrar também do texto de são Gregório de Nissa, em seu sermão contra os usurários:

“Talvez tu dês esmola. Mas de onde a tiras, senão de teus roubos cruéis, do sofrimento, das lágrimas, dos suspiros do povo?

Se o pobre soubesse de onde vem a esmola, ele a recusaria, porque teria a impressão de morder a carne de seus irmãos e de sugar o sangue de seu próximo.

Ele te diria estas palavras corajosas: ‘Não dês ao pobre o pão endurecido com os soluços de meus companheiros de miséria. Devolve ao teu semelhante aquilo que lhe roubaste, e eu te serei muito agradecido. De que vale consolar um pobre, se tu fazes outros cem?’”

Essa crítica dos profetas, de Jesus e dos Santos Padres torna-se hoje mais clara ao tomarmos o rico como uma classe que acumula tudo para si, impedindo a circulação da vida, dos bens, do alimento, do pão. Esta crítica está presente nos documentos pontifícios (PP 3.8.24.26.30.45.47.57); no Documento de Medellín (Paz, 15-16); Puebla, 27-30; nos últimos Documentos da CNBB: Igreja e Problemas da Terra, 18-22.35-36.38; Reflexão Cristã sobre a Conjuntura Política, 14; Solo Urbano e Ação Pastoral, 14.17.31.35.87.93.95.

Ai de vós fariseus” (Lc 11,42-44).

Ai de vós, escribas e fariseus” (Mt 23,13-32).

Ai de vós legistas” (Lc 11,46-52).

A crítica de Jesus não visa apenas a hipocrisia religiosa, no seu fórum subjetivo, íntimo, mas também na sua repercussão objetiva, ou seja, na medida em que a manipulação da Lei causa a opressão dos pobres e obriga-os ao caminho da morte, privando-os dos bens necessários à vida: “Destaca-se a maldade intrínseca dos legistas e fariseus: eles não só trilham o caminho errado (cf. Mt 23,13.16.24), mas também conduzem mal o seu povo, levando-o ao despenhadeiro… Jesus condena a vaidade e a hipocrisia pela maldade intrínseca que supõem, mas condena a base objetiva para que possa haver tal hipocrisia: privar os homens da vida nas diversas áreas de sua existência”[11].

d) Crítica aos sacerdotes (Mc 11,15-19; Mt 21,12-17; Lc 19,45-49)

Para compreendermos a crítica de Jesus aos sacerdotes, é importante percebermos a significação que o Templo possui no contexto de seu tempo. Toda crítica de Jesus aos sacerdotes está centrada no uso que fazem do Templo e seu culto como legitimação de seus negócios e lucros. É nesse contexto polêmico que devemos compreender as parábolas dos vinhateiros homicidas (Mc 12,1-12), dos trabalhadores da vinha (Mt 20,1-16), dos dois filhos (Mt 21,28-32), do bom samaritano (Lc 10,29-37). Todas essas parábolas mostram quem são os verdadeiros pecadores e os verdadeiros responsáveis pela situação de miséria em que vive o povo de seu tempo. Jesus mostra, por sua prática e análise, que “o grande pecado das autoridades de Israel é serem os depositários da palavra de Deus, sem terem o compromisso prévio, fazendo-os realizar exatamente o contrário daquilo que Deus quer. As parábolas são políticas, desideologizadoras, que chamam os pobres a não obedecerem as autoridades que não estão de acordo com o coração de Deus”[12].

A crítica de Jesus aos sacerdotes enraíza-se no fato de se apoderarem de Deus para desumanizar o homem. Em outras palavras, tentam legitimar a exploração dos pobres através dos dízimos, impostos, sacrifícios, em nome de uma instituição divina, o Templo.

É importante relembrarmos aqui o valor legitimador do Templo na organização sociopolítico-econômico da época neotestamentária:

1º) Não podemos nos esquecer que o Templo era o lugar do Tesouro, ou seja, o Banco da época. Era o lugar do comércio por excelência. Muitos viviam do comércio do Templo (sumos sacerdotes, sacerdotes, nobreza sacerdotal, levitas, soldados, comerciários, músicos, carpinteiros etc.). O povo pobre dependia dele, pois dele esperava, em momentos difíceis, receber o dízimo que lhes era devido e que era depositado no Templo. Os sacerdotes eram os grandes latifundiários da época. Possuíam grande quantidade de terra e praticamente controlavam o comércio dos produtos necessários à manutenção do Templo, com seu sistema de sacrifícios. O Templo era mantido através de diversos recursos: doações, comércio das vítimas, impostos do Templo, remissão de votos e promessas, gestão dos bens imobiliários etc. Mas tudo sob o controle dos sacerdotes.

2º) O Templo era o lugar do Sinédrio, o grande Conselho que detinha as decisões. Era o lugar das decisões políticas, que no tempo de Jesus estavam totalmente controladas pelo grupo dos saduceus. Tais decisões tinham força de lei para toda a Palestina e na Diáspora. Não nos esqueçamos que a condenação de Jesus partiu deste grupo (cf. Jo 11,47-53).

3º) O Templo era o lugar santo por excelência. Nele estava o “Santo dos Santos”: “Horizontalmente, Jerusalém é o centro do mundo, a concentração máxima de pureza-santidade; verticalmente é o eixo do mundo, porque lá o céu encontra-se com a terra”[13]. O Templo é o lugar da Sabedoria, da pureza e da Santidade. É o símbolo de toda organização social.

Jesus, pela sua prática, se insurge contra esta organização e contra tal uso do Templo. Afirma poder destruir o Templo e reconstruí-lo imediatamente (cf. Jo 2,13-22). Todos acabam perseguindo-o, pois Jesus tenta destruir a influência do Templo na base, ao perdoar e ao curar (cf. Mc 2,1-3-6). Destruiria, com isso, o comércio do Templo que tornava dependentes dele todos, e, especialmente, pelo sistema de pureza, os pobres. Esta perseguição a Jesus se explica pelo relacionamento das pessoas com o Templo:

Pobre — Pecador — Impuro

Necessidade do sacrifício

Necessidade do dom — Dinheiro

No Templo

Sacerdote

Purificação — Perdão

Puro.

Como percebemos por esta reflexão, a prática de Jesus propunha a superação da Lei e do Templo como lugares privilegiados do encontro com Deus. O lugar privilegiado, a partir de agora, é o seu corpo. E, na verdade, o homem e especialmente o homem-pobre (cf. Jo 2,13-22; 1Jo 4,20-21; Jo 13,1-20; Jo 14,6-10; Mt 25,40). Prolongando a intenção de Jesus, Puebla retoma este lugar privilegiado do encontro do homem com Deus, no irmão que sofre (cf. Puebla, 31-39). Por sua prática e por sua análise política do Templo, Jesus e a comunidade primitiva mostram que o Templo não deve ser mais o legitimador de uma teocracia política, social e econômica. De agora em diante, a economia, a política e a ideologia devem estar centradas no homem, o Homem Novo, o Novo Adão, o princípio de uma nova humanidade (cf. 2Cor 5,17; Rm 5,12-21), a partir de novas relações sociais provenientes da prática de Jesus e de seu grupo: a partilha (cf. Mc 6,30-44), a não dominação, a fraternidade no serviço mútuo (cf. Mc 10,42-45), o respeito pela interioridade do homem e seu direito de pensar a sua própria vida (cf. Mc 7,1-23). Nessa prática está a legitimação da ação política de Jesus que suscita um movimento contrário ao uso da Lei como legitimadora do status quo opressivo de seu tempo, especialmente através da carga de impostos (civis e religiosos) que pesava sobre a massa trabalhadora, empobrecendo-a.

e) Crítica aos detentores do poder (Mc 10,42-45; Lc 13,32)

Jesus, como trabalhador-carpinteiro (Mc 6,3; Mt 9,35-36), vivendo na “terra de pagãos”, mal vista pelos grandes (cf. Mt 4,12-17; Jo 1,45-46; 7,45-52), tem um projeto que inclui a partilha, a não dominação e o respeito pela dignidade do outro. Jesus tem consciência da exploração que os grandes fazem sobre o povo trabalhador e por isso lança sua crítica contra eles, na medida em que com tal poder privam as pessoas, sobretudo os pobres, do direito à vida e à participação.

1.4. Jesus, homem de seu tempo, que assume o lugar social dos pobres

Jesus provém da classe dos excluídos do poder, da riqueza e dos privilégios. Como artesão de uma cidade periférica faz parte da base da pirâmide social de seu tempo ao lado de pescadores, agricultores, sapateiros, tecelões, padeiros, açougueiros, copistas, perfumistas, marceneiros, carpinteiros, lavandeiros, funcionários do Templo e músicos. Ao lado desses trabalhadores qualificados, que eram explorados em seu trabalho, contam-se ainda as profissões ditas “impuras”: transportadores, pastores, trabalhadores ligados aos jogos de azar, médicos, escravos… E há também as profissões de “impurezas ainda mais graves”: mercadores de produtos sabáticos, trabalhadores das casas de banho, marinheiros, cobradores de impostos… Em outras palavras, Jesus faz parte dos setores explorados de seu tempo: o proletariado agrícola e o proletariado urbano, contando ainda com os escravos do setor produtivo e do setor de serviços.

De modo geral, a situação dos trabalhadores do tempo de Jesus era precária. Devido aos impostos, a grande maioria se empobrecia, contraía dívidas pesadas, perdia suas terras, acarretando com isso a concentração da propriedade da terra nas mãos de poucos. Isso gerava um enorme contingente de mão de obra barata e desocupada nas cidades, com grande mendicância, sobretudo em Jerusalém. Esta enorme massa era marginalizada do processo de produção e vivia de esmolas.

Jesus se dirige à classe pobre, aos “Am-Ha-Ares”, o “povo da terra”, os “humildes da terra”. Sua mensagem de salvação-libertação é para os pobres, doentes, prostitutas e possessos. Sua pregação visa sobretudo a massa marginalizada do processo de produção e o proletariado rural e urbano espoliado e explorado em seu trabalho. Recruta seus discípulos da faixa da classe baixa que superou a situação de miséria absoluta. Cria seu projeto a partir dos trabalhadores de seu tempo. Denuncia a miséria das grandes massas como fruto da exploração dos grandes, e exige dos membros das classes dominantes que o procuram a “conversão”, a ruptura com sua classe e uma prática diferente que demonstre efetivamente a mudança de posição social (cf. Mc 10,17-27; Lc 19,1-10).

Jesus responde às esperanças, aspirações e angústias dos “Am-Ha-Ares”, o “povo da terra”, como também se dirige aos camponeses e setores da pequena burguesia urbana. Sua prática e seu discurso, no quadro da sociedade de seu tempo, adquirem um peso significativo, quando confrontados com a organização sociopolítico-econômico-religiosa da época. Confrontar-se com fariseus e saduceus, significou romper com as classes dominantes que, servindo-se da legitimação da Lei, mantinham o povo na opressão. Criar um novo projeto de sociedade, o projeto do Reino, a partir dos trabalhadores de seu tempo, significou romper com a denominação cultural de que o pobre é ignorante, maldito por não conhecer a Lei. Escolher os apóstolos do meio da classe oprimida significou romper com o sistema de pureza que classificava os pobres como impuros. Romper com o Templo, acarretou-lhe a morte, mas ajudou a desmascarar os mecanismos legitimadores da opressão de seu tempo.

Jesus, homem do seu tempo, inserido em seu meio, assumindo os conflitos sociais da época, abre com sua vida e prática a possibilidade de uma nova compreensão da vida e da sociedade. Sua prática lançou e continua a relançar as bases de uma sociedade “outra” que aquela alicerçada na exploração do homem pelo homem.

2. A VIDA DE JESUS: CRITÉRIOS E CONSEQUÊNCIAS PARA O

COMPROMISSO CRISTÃO NOS DIAS DE HOJE

Teologicamente afirmamos que a Igreja é a continuadora da missão de Jesus. A Igreja é o Corpo de Cristo. Ela é a seguidora de Jesus e a comunidade da consciência da salvação, sinal-instrumento-sacramento da salvação (LG, 1). Como seguidora e continuadora da missão de Jesus, deve, como seu fundador, lutar para “que todos tenham vida e tenham vida em abundância” (Jo 10,10). Este é o sentido fundamental da revelação de Deus-Pai por Jesus, não enquanto personagem abstrato, mas como o doador da vida, promessa presente na história desde a criação do homem-mulher (Gn 1,26-28), chamados à vida e à vida como um povo (Gn 12,1-3), povo que caminha para a terra da liberdade (Ex 3,8) e que é chamado a realizar a verdadeira vida de Comunhão-Aliança com Deus e com os irmãos (Dt 8,1-10; Jr 31,31-34). Esta dinâmica salvífica de busca de vida, liberdade e comunhão perpassa toda a Escritura e aponta para a nova terra (cf. Gn 12,1-3; Ex 3,8; Is 65,17-25; Ap 21,1; 22,1-5; 2Pd 3,13). Esta dinâmica esteve sempre presente na vida de Jesus e de seus discípulos, mostrando pela sua prática de partilha e fraternidade, o verdadeiro projeto do Deus da vida. Este projeto está bem sintetizado na oração do Pai nosso (Lc 11,1-4; Mt 6,9-13): Deus é nosso Pai e ele quer ser o nosso pão, nossa vida.

2.1. Deus é o Deus da Vida

Partindo do fato de que a vida é o conjunto das trocas nos níveis econômico, político e ideológico, somos chamados a descobrir no momento histórico atual a melhor media­ção que possibilite maior chance de vida. Esta parece ser a luta do povo: a luta pela vida. E vida na luta do povo está intimamente relacionada com o trabalho e a participação. Desses dois centros de força surge tudo o mais: pão, saúde, casa, educação, ternura, carinho, alegria… Este desejo de vida se manifesta na luta pela infraestrutura, pelo posto médico, por mais escolas, pela participação na política, por melhores condições de trabalho e salários, na luta pela retomada dos sindicatos como arma de defesa dos direitos dos trabalhadores, como também a partir de sua experiência de partilha, suscitando na prática cotidiana uma nova maneira de organizar a vida em sociedade. O povo faz esta luta, política, com uma motivação religiosa, embasada profundamente na fé bíblica.

Não há dúvida de que a intuição básica presente nas comunidades de base está imbuí­da da experiência do Povo de Deus em seu processo de libertação, especialmente no êxodo, e da figura histórica de Jesus de Nazaré com seu projeto do Reino (cf. Jo 10,10; Le 4,16-21). Este programa-anúncio de Jesus Cristo se refere a todas as dimensões da vida humana. Ele está presente na oração de Maria (Lc 1,46-56). João Batista, que espera a vinda do Messias (Jo 1,24-34), envia seus discípulos para perguntarem a Jesus sobre o significado de sua missão (Mt 11,2-3; Lc 7,18-19). A resposta confirma o projeto do Reino: a presença do Deus da vida se faz através da cura dos doentes, do respeito aos pobres, da entrega da vida a quem está escravo da morte. Tal realidade provoca a ira dos dirigentes judeus, pois a salvação é oferecida a quem julgam já condenados por antecipação e sem a possibilidade de serem salvos (cf. Jo 7,49; Mc 10,27). Jesus, com sua prática de partilha e de fraternidade na base, suscitando o perdão e a cura dos doentes, aponta os verdadeiros culpados pela miséria em que vivia o povo de seu tempo. Tal desideologização de que os pobres têm a sorte que merecem é algo de positivamente subversivo na Palestina de seu tempo! Isto tudo porque Jesus mostra que Deus ama a quem ninguém quer amar. Que Deus dá a vida, como dom, gratuitamente, àqueles que são considerados “injustos”, “impuros”. Por isso afirma a bondade do Pai: “Ele faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5,45).

2.2. Deus é o Deus do alimento

A afirmação da vida é uma das realidades mais presentes na vida de Jesus. Ele come com os pecadores (Mc 2,15-17), multiplica os pães (Mc 6,30-44), participa da ceia com seus discípulos (Mc 14,22-25; Lc 22,14-20), mesmo depois de ressuscitado continua partilhando o pão com seus discípulos (Lc 24,30.41-42; Jo 21,9). Ensina os discípulos a relacionar Deus com o pão, na oração do Pai Nosso, mostrando o grande projeto de Deus presente em sua vida (Lc 11,14). Apresenta-se e torna-se o “Pão da Vida” (Jo 6,35; Mt 26,26).

Toda esta prática de Jesus indica que Deus cuida de seu povo, alimentando-o em suas necessidades, dando-lhe vida. Tal dimensão foi retomada pelos primeiros discípulos em sua vivência de fraternidade: “E todos que tinham fé, viviam unidos, tendo todos os seus bens em comum. Vendiam as propriedades e os bens e dividiam com todos, segundo a necessidade de cada um. Todos os dias se reuniam unânimes no Templo. Partiam o pão nas casas e comiam com alegria e simplicidade de co­ração, louvando a Deus entre a simpatia de todo o povo” (At 2,44-46). Isso parece ser o eco da parábola dos trabalhadores da vinha, onde todos recebem o necessário para viver (cf. Mt 20,1-16). Através desta prática, percebemos que o “pão eucarístico” da “comunidade dos crentes” era um pão que tinha saciado a necessidade, na justiça (“dividiam…”), na alegria do consumo, do comer, da satisfação. Era um pão de vida, comunitário, de amor. É a utopia do cristianismo originário e a utopia do Reino último; é o horizonte de compreensão crítica de todo sistema econômico histórico, justiça como condição prática de possibilidade da celebração eucarística que salva”[14].

A luta por uma justa organização da vida em sociedade faz parte integrante da missão do cristão e da Igreja, como continuadores da missão de Jesus de Nazaré que veio para que “todos tenham vida e vida em plenitude” (Jo 10,10) e “para dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10,45). Nesta dinâmica libertadora presente na história do Povo de Deus e na vida de Jesus, temos que descobrir que o alimento é a mediação da vida e que a vida é a primeira mediação de Deus. É neste sentido que Deus é o Deus dos vivos e não dos mortos. Sua glória é a vida dos homens, a vida dos pobres.

2.3. Nossa tarefa: colaborar na destruição do sistema antivida

O atual modelo socioeconômico-político brasileiro é necrófilo. Tem em si uma lei antivida. Impede à grande maioria da população a ter acesso aos meios da vida: trabalho, casa, saúde; educação, lazer…[15]Impede a participação nas decisões políticas. É autoritário. Castra a criatividade das pessoas e, pelos meios de comunicação social e escola, incute nelas o sentimento de que são incapazes. Proporciona a invasão cultural. Mata a cultura das classes populares. Leva o país ao endividamento criminoso. Com isso gera a morte. Nega a vida. Mata a vida.

Nossa tarefa de cristãos, como seguidores da prática de Jesus, é testemunhar a presença do Deus da vida. É clamar que Deus é Pai e que ele não deseja a morte, mas a vida. “Dar de comer ao faminto, devolver a vida ao morto, dar a vida a quem falta a vida é o culto que o Altíssimo ama”[16].

3. Concluindo

“Vemos, à luz da fé, como um escândalo e uma contradição com o ser cristão, o abismo crescente entre ricos e pobres. O luxo de alguns poucos converte-se em insulto contra a miséria das grandes massas. Isto é contrário ao plano do Criador e à honra que lhe é de vida” (Puebla, 28).

Como Igreja, como cristãos que procuram estar atentos à realidade histórica (cf. GS, 1.11), necessitamos descobrir o novo sujeito emergente. Este novo sujeito histórico hoje são as classes populares que com sua prática estão suscitando um novo projeto social. Estão também tornando-se o novo sujeito eclesial. Estão fazendo com que a Igreja esteja no seu tempo. Estão concretizando historicamente a palavra de João XXIII: “A Igreja é a Igreja de todos, mas hoje, mais do que nunca, ela é a Igreja dos pobres” (11/10/1962).

Se quisermos, como Jesus, olhar a vida a partir dos pobres, está chegando o momento de jogarmos a força política dos cristãos e da Igreja na direção dos interesses das classes populares, rompendo com as classes dominantes e reforçando, no processo histórico de busca de mais vida, o projeto social que está emergindo da luta do povo.



[1] Publicanos e prostitutas “precederão” aos piedosos na Basileia de Deus (Mt 21,31), onde proágousin hymâs = meqaddemin lekon não conota prioridade de tempo, mas um chegar antes que exclui os outros, de tal modo que a proposição diz: “Publicanos e prostitutas entrarão na Basileia de Deus, e não vós” (J. Jeremias. Teologia do Novo Testamento, Parte. A pregação de Jesus. São Paulo: Paulinas, 1977, p. 181).

[2] J. Sobrino. “O aparecimento do Deus da Vida em Jesus de Nazaré”, em A luta dos deuses. São Paulo: Paulinas, 1982, p. 121.

[3] J. L. Segundo. “Fé de Jesús”, Montevidéu, 1981, p. 25. Mimeo.

[4] J. Sobrino, op. cit., p. 104.

[5] J. L. Segundo. “Ese hombre Jesús”, Montevidéu, 1978, p. 9. Mimeo.

[6] J. Sobrino, op. cit., pp. 119-121.

[7] M. Clévenot. Enfoques materialistas da Bíblia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, pp. 60-61.

[8] D. Barbé. Teologia da Pastoral Operária — Experiência de Osasco. Petrópolis: Vozes, 1983, pp. 155-156.

[9] São Jerônimo. Carta ML, 22, 984, citado por J. Sobrino, op. cit., p. 110.

[10] Santo Ambrósio, De Nabuthe, c. 12, n. 53; P. L., 14 747, citado em PP 23.

[11] J. Sobrino, op. cit., p. 113.

[12] J. L. Segundo. “Fé de Jesús”, op. cit., p. 35.

[13] M. Clévenot, op. cit., p. 67.

[14] E. Dussel. “Pão da celebração: Signo-Comunitário de Justiça”, em Concillium, 172 (1982/2), pp. 84-85.

[15] “Tiram-me a vida, se me tiram os meios pelos quais vivo” (Shakespeare), citado por F. Hinkelammert (As armas ideológicas da morte. São Paulo: Paulinas, 1983, p. 52.

[16] E. Dussel, op. cit., p. 84.

Benedito Ferraro