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Publicado em Novembro-Dezembro de 1984

Morte e utopia, esperança e martírio

Por Pe. Benedito Ferraro

“Nós disputamos os peixes podres com os urubus” (Favelados do lixão do Bairro São Judas — Campinas — SP).

Não há dúvida de que vivemos num continente onde sempre se morreu e continuou-se a morrer “antes do tempo”. Ao mesmo tempo, “morre-se” para que se possa “viver”. Eis aí o paradoxo a se desvendar: Morte e Vida. Este paradoxo já está presente na vida de Jesus que morre para nos dar a vida, morre por nós. Esse é o sentido da palavra de Jesus em João: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Ou “O Pai me ama, porque dou a minha vida para retomá-la. Ninguém ma arrebata, mas eu a dou livremente. Tenho poder de entregá-la e poder de retomá-la; este é o preceito que recebi do Pai” (Jo 10,17-18). Ou ainda: “Se o grão de trigo que cai na terra não morrer permanecerá só; mas se morrer produzirá muito fruto” (Jo 12,24).

Semelhante busca de sentido da doação da vida através da morte, para que outros tenham condições de viver, encontramos presente em muitos testemunhos de mártires latino-americanos: “Estou sendo frequentemente ameaçado de morte. Devo dizer que como cristão, não creio na morte sem ressurreição. Se me matam, ressuscitarei no povo salvadorenho… Como pastor estou obrigado a dar a vida por quem amo, que são todos os salvadorenhos, inclusive aqueles que vão assassinar-me… O martírio é uma graça de Deus, que não creio merecer. Porém, se Deus aceita o sacrifício de minha vida, que meu sangue seja semente de libertação e o sinal de que a esperança será em breve uma realidade. Minha morte seja para a libertação de meu povo e um testemunho de esperança no futuro” (Oscar Romero, fev./1980). Este é um dos muitos testemunhos que se espelha no martírio de Jesus. Na América Latina, muitos são os que deram a vida em favor da justiça, do amor, da paz. Cristãos e não cristãos. Crentes e não crentes. São mártires não da fé cristã, mas mártires do Reino de Deus. Com seu martírio abrem a esperança no futuro. Proclamam o relativo de tudo, inclusive da própria vida e apontam para a grande utopia, a presença de Deus na história dos homens dando o pleno sentido a esta vida sacrificada por amor à justiça do Reino.

1. Nos conflitos e na luta contra a morte, o sentido da vida

Eis o grande desafio lançado na América Latina: “Como testemunhar a força da vida num continente onde a pobreza das multidões prepara a morte prematura e injusta?” Como anunciar a Aliança com Deus numa sociedade que gera a miséria da maioria? Como anunciar a vida no “Reino” da morte? Como dar sentido à vida numa situação de extrema dominação?

Os pobres, no entanto, apesar de toda opressão e repressão, vão resistindo e, nesta resistência, vão encontrando sentido para a vida e para a luta. Talvez um dos grandes motivos de esperança seja justamente esta capacidade de superar a situação de miséria e apesar de todas as condições em contrário, os pobres, as classes populares, ainda encontram forças para se organizar. Quando tudo parece perdido, das cinzas renasce a luta e a certeza da vitória. Como dizia o negro do filme Queimada, diante dos campos arrasados pelo fogo: “A vida vai renascer. A raiz está viva debaixo da terra!”. Mesmo nas situações mais conflitivas e angustiantes, a resistência do povo ainda proclama a vida. Eles vão buscar o sentido da vida, espelhando-se no exemplo do Povo de Deus que teve que enfrentar as duras consequências da dura repressão e opressão do Egito (cf. Êxodo), as amarras do pecado e da quebra da Aliança, acarretando com isto a opressão no meio do povo (cf. Amós, Isaías, Oseias). Bebem também da fonte viva do Evangelho, onde a vida e a prática de Jesus se revelam motivação da luta de libertação e a certeza de que Deus não deixará seus filhos continuamente na situação de escravos e explorados. O grito do Êxodo ressoa ainda forte no meio popular. O eco do anúncio e da prática do Reino por Jesus (Lc 4,16-21; Mt 11,2-6) surge como Boa-Nova (Evangelho) que os pobres buscam concretizar na história, atualizando a missão salvadora e libertadora de Jesus que veio servir e não ser servido (Mc 10,45) e lavar os pés dos discípulos, para manifestar o serviço messiânico no meio dos pobres (Jo 13,1-20).

É diante deste contexto de luta levada pelos pobres (camponeses, operários, posseiros, desempregados, sem-terra, índios) — que, a cada dia, estão assumindo uma progressiva tomada de consciência da situação opressiva em que vivem —, que os bispos, em Medellín, lançaram o grande alerta: “Não se há de abusar da paciência de um povo que suporta durante anos uma condição que dificilmente aceitaria quem tem uma maior consciência dos direitos humanos” (Medellín, Paz, 16). Tal alerta é retomado por Puebla: “Do coração dos vários países que formam a América Latina está subindo ao céu um clamor cada vez mais impressionante. É o grito de um povo que sofre e que reclama justiça, liberdade e respeito aos direitos fundamentais dos homens e dos povos. Há pouco mais de dez anos, a Conferência de Medellín já apontava a constatação deste fato, ao afirmar: ‘Um clamor surdo brota de milhões de homens, pedindo a seus pastores uma libertação que não lhes chega de nenhuma parte’ (Pobreza da Igreja, 2). O clamor pode ter parecido surdo naquela ocasião. Agora é claro, crescente, impetuoso e, nalguns casos, ameaçador” (Puebla, 87-89).

2. Jesus, fonte do sentido do martírio

Os Evangelhos nos relatam a morte de Jesus como consequência de uma prática e de uma mensagem. A evocação do martírio dos profetas serve de quadro de fundo para a apresentação de Jesus como o último e maior dos profetas e como a testemunha que vai até o fim para ser fiel ao mandamento do Pai (Jo 10,18; Fl 2,6-11). Talvez estejamos aqui diante de um dos veios mais profundos da Escritura e que perpassa toda experiência histórica do povo de Deus, oprimido no Egito, dominado no interior do próprio Estado Judeu, explorado no exílio e sob o domínio romano. Jesus experiencia a vida dos pobres de seu tempo, por ser pobre e assumir a luta dos pobres (cf. Mc 6,1-6; Puebla, 190). Os Evangelhos ligam sua missão à prisão e morte de João Batista (Mc 1,14-15; Mt 11,2-6). Os Sinóticos e o próprio Evangelho de João mostram que Jesus é perseguido pelos dominantes de seu tempo e se insere na longa tradição do martírio dos profetas (cf. Lc 11,47-54; Mt 23,29-32; Jo 5,10-18; 7,14-30). Jesus é perseguido e morto por causa do Reino e da Boa-Nova que anuncia a salvação e libertação aos pobres. Os primeiros cristãos, com toda a tradição do Antigo Testamento em mãos, procuram compreender, através da evocação do martírio dos profetas (Hb 11,1-40; At 8,1-60), a entrega de vida que Jesus faz em favor de muitos (cf. Mc 10,45). Os próprios Evangelhos procuram aprofundar o sentido da morte de Jesus, dando-lhe títulos que revelam um grande enraizamento bíblico e já retratam a vivência da comunidade: Jesus é o Justo Sofredor; Jesus é o Servo que assume as dores do povo e se entrega para os outros; Jesus é o Profeta perseguido e assassinado, é o Justo Inocente…

A morte de Jesus assume sua plena significação com sua ressurreição. A ressurreição de Jesus dá pleno sentido à sua vida e ratifica a aceitação desta sua vida e mensagem, por Deus Pai que o constitui “Senhor e Cristo” (At 2,36). A ressurreição de Jesus afirma que a morte não tem a última palavra sobre a história. Revela que a morte não é a última possibilidade de Iahweh. Enfim, na ressurreição de Jesus, em sua significação teológica, em sua dimensão escatológica, fica confirmado que quem dá a vida por amor, poderá retomá-la (Jo 10,17-18; Mt 16,24-25). Quem entrega a vida pela justiça será recompensado, recebendo-a em plenitude. Esta é a certeza que acompanha os seguidores de Jesus: Deus não deixará que seu Santo sofra a corrupção (cf. At 2,27). Não importa o tipo de exclusão feita pela classe dominante que, inclusive, pode utilizar-se da Lei (cf. Jo 19,7), do poder político (Jo 19,12-15) e da Religião ou do próprio culto para condenar e eliminar (cf. Jo 16,1-2). O que importa é que em Jesus, morto pela justiça, o seguidor de Cristo, mesmo sendo amaldiçoado pela Lei, pela Sabedoria dos homens, pode ter a plena convicção da vitória final, pois Jesus “se fez maldição por nós” para nos ser motivo de bênção (cf. Gl 3,13-14; cf. Is 52,13-53,12).

Pe. Benedito Ferraro