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Publicado em Julho-Agosto de 1993 (pp. 7-16)

Violência estrutural – Enfoque teológico

Por Pe. Benedito Ferraro

Pensar a violência estrutural a partir dos pobres e excluídos do mundo, sobretudo a partir da realidade do Brasil, da América Latina e do Caribe, é retomar as indicações provindas de Medellín sobre a violência institucionalizada (Paz, 16), de Puebla sobre o pecado social (Puebla, 28) e de Santo Domingo insistindo no processo de miserabilização que está ocorrendo no continente latino-americano (SD, 178-181). Não se pode pensar apenas nas questões individuais ou apenas na subjetividade como quer a mentalidade pós-moderna, mas temos de levar em consideração o quadro objetivo do crescimento da miséria que, devido ao processo de modernização neoliberal implantado em praticamente todo o continente, está levando setores cada vez mais significativos da população pobre à exclusão e mesmo à morte.

A necessidade de uma reflexão teológica sobre a violência estrutural parte de uma exigência ética e histórica baseada na dor social vivenciada pelos exploradores, humilhados, marginalizados, excluídos economica e socialmente; por ser mulher, por ser jovem, por ser indígena, negro ou migrante. Parte da necessidade de se questionar a sociedade ocidental com sua cultura branca, burguesa, patriarcal-machista, racista, adulta, que cada dia mais, apesar de todo o desenvolvimento tecnológico, está inviabilizando a vida dos pobres no continente latino-americano, nos países pobres do mundo e mesmo no Primeiro Mundo.

Essa necessidade de reflexão teológica parte ainda da exigência da defesa da vida humana e da natureza como mediação fundamental do encontro da pessoa humana com Deus, como decorre da própria palavra de Deus. Se a vida da pessoa humana não for respeitada, se a natureza continuar sendo destruída, não poderemos assegurar a continuidade da obra da criação[1]. E sem vida não haverá mais significação, pois quem em dá sentido às coisas é a pessoa humana. À medida, pois, que a sociedade ocidental está desrespeitando a natureza e a vida dos pobres, ela está cavando a sua própria sepultura e poderá levar a própria terra para a destruição.

 

1. O pobre, o excluído, a natureza devastada como lugares da revelação de Deus

O caminho da maximização do lucro está levando a humanidade à morte. O mercado ao ser apresentado como modelo para a busca da sociedade perfeita, acaba gerando maior acumulação de riqueza e jogando cada vez mais pessoas no mar da amargura e mesmo da exclusão, podendo chegar à morte física. O mercado, apresentado como solução de todos os problemas, deixado a si mesmo, sem controle, com sua busca de produtividade e de lucratividade está excluindo grande parte da população mundial, produzindo empobrecidos e marginalizados em todos os países do mundo. E essa população não está tendo a mínima esperança de uma futura integração[2]. Por causa dessa total liberdade do mercado, tal como a de um “deus” onipotente e todo-poderoso, assiste-se à destruição da natureza e das pessoas, porém, com boas taxas de lucro. O que importa é produzir, para que haja consumo, e assim se possa lucrar. Os excluídos que se virem! Na verdade não contam, pois são considerados como “sobra”, “lixo” ou mesmo estorvo. Na Centesimus Annus, João Paulo II aponta para esta realidade bem presente na mentalidade neoliberal: “… será necessário abandonar uma mentalidade que considera os pobres — pessoas e povos — como um fardo e como importunos maçadores que pretendem consumir tudo o que os outros produzem”[3]. Essa mentalidade está tão presente em nosso meio, que até as bem-aventuranças acabam sendo interpretadas ao avesso: “1) Bem-aventurados os ricos, pois a eles pertence o mercado. 2) Bem-aventurados os ricos, porque saciam a fome dos pobres, dando-lhes trabalho e pão. 3) Bem-aventurados os ricos, que se sacrificam, para que os pobres possam rir. 4) Bem-aventurados os ricos porque são criticados e rejeitados, quando se apresentam como os salvadores do mundo através da utopia do mercado. 5) Alegrem-se vocês, ricos, porque serão recompensados com uma fatia ainda maior do mercado no futuro. 6) Malditos vocês, pobres, porque são indolentes e preguiçosos! 7) Malditos vocês, pobres, porque comem sem trabalhar! 8) Malditos vocês, pobres, porque estão sempre em festa, em rodas de samba, porque vocês vão passar luto! 9) Malditos vocês, pobres, porque são protegidos e defendidos pela Igreja dos pobres e pelos homens e mulheres que recusam o Sistema Sacrifical, porque vocês serão desmascarados pelo Mercado Absoluto”[4].

Outra é certamente a visão bíblica dos pobres e empobrecidos, dos excluídos e dos marginalizados. Eles se tornam a mediação fundamental do amor de Deus e o julgamento último em termos de salvação ou perdição. Quem não respeita o pobre não respeita a Deus. Quem ofende o pobre ofende a Deus (cf. Prov 14,31; Ex 3,7-10; Mt 25,31-46). A Bíblia olha a realidade a partir da ótica do oprimido, do empobrecido, do excluído, da vítima. Na verdade, é o lugar da inteligibilidade da totalidade. O lugar da vítima é o lugar da verdade. É aí que Deus se deixa encontrar. É no grito da natureza devastada, desrespeitada pela gana do lucro do Capital, do Moloc devorador de vidas, que se faz sentir o apelo de Deus para que a natureza seja salva da destruição. Seu gemido é um gemido que grita pela libertação (cf. Rm 8,18-27). É na defesa dos pobres e excluídos (mulheres, negros, índios, crianças) que Deus revela sua força e sua presença libertadora: “Ele realiza proezas com seu braço: dispersa os soberbos de coração, derruba do trono os poderosos e eleva os humildes, aos famintos enche de bens, e despede os ricos de mãos vazias” (Lc 1,51-53). A lógica dos evangelhos é a lógica que parte dos últimos. Esse é o lugar da verdade, o lugar da vítima inocente. Declarar o pobre, o excluído, a vítima como inocente, é buscar lugar de onde a verdade pode ser dita. Por isso, Deus escolhe os excluídos para que não haja mais exclusão. E, numa sociedade de classes, para que o desígnio de Deus possa se efetivar plenamente, isto é, para que ninguém seja excluído, Deus tem de preferir os excluídos, pois esta é a garantia de que a misericórdia de Deus possa atingir a todos e a todas e assim se cumpra seu desígnio de salvação[5]. Estamos também na presença de uma afirmação cristológica fundamental, em que se pode encontrar a identidade entre o lugar da verdade, o lugar de Jesus Cristo e o lugar da vítima. Esse é o desafio presente no documento de Santo Domingo: “Descobrir nos rostos sofredores dos pobres o rosto do Senhor (Mt 25,40) é algo que desafia todos os cristãos a uma profunda conversão pessoal e eclesial”[6]. Se a Igreja, pois, reconhece no rosto dos pobres o rosto do Cristo sofredor, o Senhor que nos interpela e questiona[7], ela está declarando que os pobres, que são vítimas do sistema e da política neoliberais, são inocentes, como inocente e não culpado foi Jesus. Por isso, “não há lugar de onde a verdade possa falar, a não ser aquele de onde fala o próprio Cristo, aquele da vítima perfeitamente inocente e não violenta, que somente ele ocupa”[8]. Assim, declarar que a vítima é inocente significa que o vitimário é culpado[9].

 

2. Sistema neoliberal: inferno na terra para os pobres e excluídos

O caminho da maximização da rentabilidade do lucro seguido pelo mercado total está resultando no caminho de morte da própria humanidade. Embora com taxas bem altas de lucro, a destruição continua, fazendo seu caminho, destruindo as matas, envenenando os rios, destruindo a camada de ozônio, tornando irrespirável o ar nas grandes cidades. Esse caminho é fruto do automatismo do mercado, com seus efeitos não intencionais diante dos quais ninguém se sente responsabilizado. Entretanto, são as camadas dominantes que continuam a dominar, oprimir e explorar os mais fracos, para terem mais vida, possuírem mais bens materiais. Na verdade, acabam produzindo o “céu” para eles, mas constroem o “inferno para os excluídos”. Na verdade, podem ter “mais vida” porque estão roubando a vida dos pobres. Como é possível continuar com uma situação como esta: uma criança norte-americana comer 17 vezes mais que uma criança africana ou 13 vezes mais que uma criança latino-americana?[10]. À medida que as classes dominantes, os ricos do mundo, vão construindo o “céu” para eles, vão criando o inferno para os pobres — pessoas e países — do mundo. Criam “ilhas de segurança” para garantir uma qualidade de vida melhor e acabam desgraçando a vida da maioria. De fato, os países ricos do mundo são os maiores poluidores com uma taxa da ordem de 80% e continuam a exportar as tecnologias “sujas” para o Terceiro Mundo! No entanto, acreditam-se “limpos”, pensam estar no “céu”. Quase nunca se sentem os grandes poluidores e produtores de lixo. Como diz Ivone Gebara: “A sujeira vem dos outros: dos pobres, dos favelados, dos desnutridos. São eles enfeiam a cidade, com seus casebres mal construídos. São eles que, do dia para a noite, “invadem terrenos e se plantam sem o menor senso estético, sem pensar no planejamento de ruas ou possíveis avenidas, sem respeitar a proximidade de um bairro burguês ou de uma zona de investimento turístico do futuro… É dos pobres que exala o mau cheiro”[11].

Não se contrapondo em momento algum ao automatismo do mercado, pois acreditam que ele seja a solução para todas as questões, os dominantes constroem o inferno para os pobres e excluídos e acreditam estar no céu! Acabam sendo os torturadores dos pobres e excluídos, pois estão sempre a castigar os pobres com as piores condições de vida (desemprego, analfabetismo, péssimas condições de moradia, destruição ecológica, destruição da camada de ozônio, criação da cultura da desesperança…) e, no entanto, sentem-se bem. Maltratam, a todos e não são maltratados por ninguém[12]. Mas quando os pobres e excluídos reclamam do “inferno”, são vistos como “demônios” que querem construir o “inferno” na terra. São vistos como “câncer” da sociedade e elementos perigosos. Todo e qualquer enfrentamento à utopia do mercado total é visto como demoníaco. Não há alternativa e toda alternativa é vista como atentado ao mercado total, o novo “deus”, e, por isso mesmo, passível de reprimenda.

 

3. Violência estrutural

Falar de violência estrutural é falar da violência que é exercida contra a vontade da vítima e, normalmente, na estruturação social, como resultado de efeitos não intencionais. Ninguém se sente responsável por tal situação, mas a vida da maioria, sobretudo dos pobres e excluídos, está sempre ameaçada. Por isso ela é chamada de violência institucionalizada ou pecado social, que garante a morte em vida para a grande maioria da população. Concretamente, na realidade de “nossos povos latino-americanos, ela se experimenta, sobretudo no ar que respiramos, no pão que não se pode levar a boca dos filhos, no ócio imposto pelo desemprego nas casas de papelão ou de lata que desmorona a cada chuva nova e torrencial, nos corpos nus e sardentos das nossas crianças, no desespero de viver sem saúde, na ordem institucional que violenta a vida e tira a alegria do futuro”[13].

Na situação de injustiça que se pode chamar de violência institucionalizada, os pobres e excluídos são “sacrificados” no altar da rentabilidade e da lucratividade. Quem estiver excluído do mercado é visto como subumano, sem qualquer direito, considerado como “sobrante”. E como qualquer sobra, pode ser atirado no lixo. Falar em sistema sacrificalista é desvendar os mecanismos geradores da miséria da imensa maioria da população, sem que ela tenha possibilidade de alternativas: “O sacrificalismo da opressão requer um quadro referencial que priorize os efeitos destrutivos derivados dos desequilíbrios macroeconômicos e da ausência de metas sociais (fome, subnutrição, carências elementares, mortes prematuras, condições de vida subumanas etc.). Um elemento-chave desse sacrificalismo consiste, precisamente, no seu caráter compulsório, que inclui tanto as coações acompanhadas de uso da força em graus variados, como o ‘não ter outra saída’, ou seja, a compulsoriedade dos ajustamentos funcionais dentro da lógica de um sistema opressor, independentemente de chegarem as pessoas a ‘adesões voluntárias’ ou não”[14]. Os pobres são excluídos porque não entram na lógica do mercado. São excluídos naturalmente pela simples razão de que não servem ao processo do próprio mercado. E como não se pode admitir nenhum obstáculo ao livre desenvolvimento do mercado, os pobres são excluídos e “sacrificados”. Desse modo, falar de violência estrutural é falar de sacrificalismo compulsório, onde as vítimas não têm outra alternativa a não ser aceitar a exclusão. Esse processo gera no meio popular a cultura da desesperança, que acaba matando toda a utopia e todo o sonho de uma possível alternativa. Nesse ponto, o ídolo do mercado, com seu deus-­Moloc-Capital, mostra toda a sua força e parece impe­rar como o detentor absoluto da vida e da morte dos pobres e excluídos.

A “Nova Ordem Mundial”[15] está se configurando cada vez mais como o “Mundo dos Ganhadores”. Um capitalismo selvagem sem nenhum rosto humano e apenas vendo nos outros países a possibilidade de dominar. O Terceiro Mundo, sobretudo depois da queda do socialismo histórico, torna-se palco de uma guerra econômica de grande poder devastador. O próprio neoliberalismo — ideologia destinada a conseguir a livre entrada no Terceiro Mundo, mas sem abrir para os produtos deste os próprios mercados[16] — exige a abertura dos países do Terceiro Mundo ao mercado mundial, promovendo a internacionalização da economia e sucateando, como consequência, as indústrias nacionais. Fomenta a privatização das estatais quebrando o prestígio do Estado, quer política, quer economicamente, implantando a ótica do “Estado-mínimo” a serviço não da satisfação das necessidades dos pobres e excluídos, mas a serviço do maior lucro e rentabilidade. Com esse processo, os pobres perdem o acesso aos serviços mínimos de saúde educação, moradia, transporte.

Nesse sistema neoliberal, a introdução das novas tecnologias não tem contribuído para a satisfação das necessidades vitais das maiorias, mas tem colaborado com um processo ainda maior de exclusão. A sociedade do espetáculo, com seus meios de comunicação que impulsionam a ilusão da vida na cidade, está acelerando, o êxodo rural. Mas ao chegar à cidade, o trabalhai T campo não encontra trabalho. O próprio trabalhador, que até há bem pouco tempo estava no centro da vida humana perde sua importância e, com isso, o neoliberalismo levado ao extremo apresenta-se com uma face desumana, pois pensa a economia sem o trabalhador, onde a preocupação fundamental não é com as pessoas com a natureza, mas com a rentabilidade das “novas máquinas” (tecnologia avançada) e sua inserção no mercado mundial. Os pobres, que não têm condição de competir no mercado, devem desaparecer, pois são massa sobrante — como, aliás, os países pobres — à medida que a mão de obra é dispensável (devido à automação e robotização. O mesmo acontece com a matéria-prima, deixando de ser procurada, devido aos novos materiais. Com isso, os países pobres do Terceiro Mundo são considerados “sobrantes”[17].

Na verdade, a partir de 1982, com a crise do pagamento da dívida externa, generaliza-se a economia de exportação e gera-se então uma economia para se pagar a dívida externa. Tudo gira em torno da transferência de um excedente cada vez maior para os países centrais, gerando um estancamento do desenvolvimento ocorrido nas décadas de 60 a 70, proporcionando um empobrecimento gradativo da população latino-americana. O pagamento da dívida externa é um mecanismo para se continuar extraindo da América latina o máximo de excedentes possível. Isso concretamente significa para as camadas pobres da população: menos casas, menos comida, menos escolas, menos saúde, menos participação, menos lazer e, consequentemente, mais marginalização, mais desemprego, mais idosos abandonados, mais prostituição de menores, mais crianças nas ruas. Em síntese, menos vida e morte. Essa é a tradução da violência estrutural. Processo semelhante ocorre noutras partes do Terceiro Mundo.

Essa situação de injustiça institucionalizada, concretizada hoje no sistema neoliberal, aponta para alguns resultados bem concretos e que contribuem para se impedir a vida dos pobres e excluídos.

 

a) Negação de toda e qualquer alternativa

O sistema capitalista selvagem em sua tradução neoliberal tenta inviabilizar qualquer mudança. Apresenta-se como o “fim da história” e não admite qualquer tentativa de se modificar a “ordem” atual, que privilegia economia de mercado e dá toda a liberdade ao mercado, como possibilidade de solução dos problemas da humanidade. No tocante ao pagamento divida externa, verdadeira sangria da vida dos pobres, o atual sistema neoliberal vê, como ato de desafio ao equilíbrio do mercado, toda e qualquer tentativa para se inverter tal pagamento. Tal atitude será vista como ato de rebeldia e, consequentemente, passível de castigo. Os organismos guardiões da “ordem internacional” entraram imediatamente em ação, para preservar o equilíbrio do mercado. Esse é o ponto fundamental. A vida dos pobres e excluídos não conta.

 

b) Todo o protesto é visto como rebelião do lixo

O que conta para o sistema neoliberal é sua continuidade e permanência. Toda e qualquer ação que procura modificar esse equilíbrio será vista como “demoníaca”. Todas as tentativas provenientes das camadas populares em defesa da vida serão vistas como rebeliões daqueles que não aceitam a “ordem” e que procuram introduzir o “inferno na terra”. Os movimentos sindicais que lutam por melhores condições de trabalho e de salário, os movimentos populares que reivindicam melhores condições de vida (moradia, saúde, transporte, educação), os movimentos de reivindicação das mulheres, negros, indígenas, crianças, aposentados, as lutas dos partidos políticos populares visando a construção de uma sociedade alternativa, serão sempre malvistos e acusados de “demoníacos” ou mesmo indicados como “câncer” da sociedade. Em outras palavras, os excluídos devem se calar. Se falam, estão exorbitando e devem ser calados. Calados a bala ou pela fome. Mas silenciados para não atrapalhar o “equilíbrio” do mercado.

Essa situação parece se tornar uma realidade em nossa sociedade brasileira e em vários outros lugares do mundo, sobretudo no quadro das grandes cidades. Os excluídos começam a ter a sensação de não existir, em contraposição à exuberância de vida apresentada pela propaganda. Por isso reagem e tentam mostrar que a miséria é o outro lado da abundância. O saque se torna uma forma do excluído se dizer vivo e presente no cenário da vida social. É sua autoafirma­ção. É uma forma de se identificar como os “caras-pintadas” da fome[18].

 

c) Cultura da desesperança

O sistema neoliberal, com sua ideologia da pós-modernidade, que chegou à América Latina em sua forma perversa, acaba criando, no meio popular, o culto do “ensimesmamento insolidário”[19]. Na verdade, com sua ideologia individualista e subjetivista, imprime nas camadas populares a busca da solução individual, quebrando toda a solidariedade existente no meio popular. Tal quebra da solidariedade gera uma cultura da desesperança, à medida que os excluídos são impedidos de relatar seus sonhos e criar a possibilidade do novo. Em outras palavras, o sistema neoliberal quer impedir que os pobres e excluídos sonhem e, no sonho, possam projetar a nova sociedade.

 

d) Destruição da natureza e dos trabalhadores(as)

A agressividade competitiva do mercado[20] está acarretando a destruição da natureza com suas matas, rios, ar. Se deixado ao seu livre curso, certamente esse processo nos levará à destruição do habitat natural dos seres humanos. E embora estejamos diante de um vertiginoso desenvolvimento tecnológico, assistimos, porém, uma queda cada dia mais significativa da qualidade de vida dos trabalhadores e trabalhadoras do mundo inteiro. Embora se insista no caráter da “mundialização da economia”, na “internacionalização do capital”, o que vemos são setores importantes da população mundial excluídos da possibilidade da vida. Estamos, pois, diante de um sistema desumano que vai contra os interesses da humanidade.

 

4. Celebração da morte ou afirmação da vida?

A violência estrutural nos coloca diante de um dilema e nos lança um desafio. O dilema consiste na opção entre manter o atual desenvolvimento tecnológico e caminhar para a destruição do planeta ou reverter tal processo, abrindo possibilidades para alternativas. O desafio lançado aponta para a construção da alternativa, mas exige a desmontagem do atual sistema sacrifical, que exclui os pobres e que, portanto, é desumano e idolátrico, pois vive a partir da morte dos excluídos.

 

a) Crítica à cultura ocidental

A sociedade ocidental está alicerçada na cultura ocidental, que é fundamentalmente branca, burguesa, patriarcal-machista, racista, adulta. Quem não entra nesse figurino acaba sendo visto como “doentio”: “No capitalismo se verifica, na esteira da profanização, a dominação a partir do Uno: intenta-se criar um só capital total, um só mercado, um só mundo de consumidores, uma só visão legítima do mundo, uma só forma de relacionamento com a natureza, uma só maneira de encontrar-se com o Absoluto. As diferenças são consideradas patologias e desvios da única norma; por isso ou são erradicadas, ou mal toleradas”[21].

Na sociedade ocidental, os valores são definidos pela cultura branca, burguesa, patriarcal, racista, adulta, impedindo que as outras alteridades possam dizer sua palavra. Há, na verdade, uma negação da alteridade, à medida que os índios, negros, mulheres, crianças, migrantes, trabalhadores não podem se expressar com identidades próprias. São negados em seu ser. Acabam sendo considerados intrusos, estorvos, pois não preenchem o “figurino” ditado pela cultura ocidental.

Para se viabilizar uma alternativa é preciso des-ocidentalizar a cultura. Isso requer um processo de afirmação das outras identidades e culturas relativizando a cultura ocidental, que se apresenta como a única e verdadeira. Certamente nesse processo de des-ocidentalização, a crítica à idolatria do mercado é de fundamental importância, pois o mercado se apresenta como o único absoluto e ao redor do qual gira tudo. Os principais representantes da sociedade ocidental a entendem como o “melhor dos mundos possíveis” e não admitem mudança. As diferenças são vistas como desvios e desestabilizadoras para o equilíbrio do mercado. Por isso mesmo são reprimidas em nome da manutenção da “ordem”.

Esse processo de homogeneização do mercado mundial, visando maximizar a rentabilidade do capital, procura homogeneizar a cultura para que, a partir dela, não possa haver a mínima possibilidade de protesto contra a ordem do mercado mundial. Todos devem agir de acordo com a Ordem do Norte, isto é, de acordo com os países ricos e com seus representantes mais poderosos. Toda a tentativa de pensar a vida, a cultura, a economia, a partir do Sul, isto é, dos países pobres do mundo, é vista como perigosa. O diferente é visto como desvio da regra e acaba sendo rejeitado.

Essa homogeneização do mercado mundial impede de ver nas diferentes identidades e culturas a epfania do Deus da Vida. Tal processo econômico inviabiliza a compreensão da Trindade como comunhão de diferentes e impede que os oprimidos possam manifestar seu modo de compreensão da vida. Nesse sentido, além de serem cada vez mais excluídos do mercado, acabam sendo impedidos de manter sua cultura. Concretamente isso significa morte física e morte cultural, ou seja, negação dos pobres e excluídos pelo sistema ocidental. Portanto, sem a des-ocidentalização da cultura na forma de sua relativização, não haverá possibilidade de alternativa. Nesse sentido, a crítica teológica à idolatria do mercado tem como função desvendar e desmascarar o sacrificalismo do sistema capitalista neoliberal que se apresenta como sagrado e, portanto imutável. Revelar aqueles que sacrificam, explicando que os sacrifícios são exigidos pelo ídolo, como também aqueles que estão dispostos a se sacrificar ou a se deixar sacrificar[22]. O processo de des-ocidentalização apresenta-se como uma luta dos oprimidos para a afirmação de sua identidade e cultura.

 

b) Afirmação da vida

O atual sistema econômico parece ter um domínio quase incontestável, sobretudo por causa de sua eficácia, sua competitividade e sua lucratividade. Porém, tal sistema econômico parece ser cada vez mais desumano, pois exclui parcelas cada vez maiores da população da possibilidade de satisfazer suas necessidades básicas. Torna-se um sistema excludente, sacrificador e injusto e, por isso mesmo, contrário aos interesses da humanidade. Eis aí o dilema diante de nós: celebrar a morte ou afirmar a vida! Novamente estamos diante da opção fundamental: escolher a bênção ou a maldição (cf. Dt 11,26). A vida depende da escolha. Se continuarmos aceitando esse tipo de desenvolvimento, certamente a desgraça irá atingindo parcelas maiores da população mundial, que serão excluídas da satisfação de suas necessidades básicas. Escolher a vida é afirmar o direito à satisfação das necessidades primárias do ser humano. É apostar na ressurreição do corpo. O sistema que aceita a necessidade de sacrifícios humanos nega a ressurreição do corpo. Na verdade, enquanto o Deus da vida ressuscita a Jesus para que todos os seres humanos tenham vida, o deus-Moloc-Capital suga o sangue dos trabalhadores(as) para se imortalizar e, em nome do automatismo do mercado, elimina os “sobrantes” para evitar a desestabilização do conjunto. Estamos, pois, diante de um sistema anti­vida, necrófilo, negador da ressurreição. E por sinal nada mais contraditório, quando acopla a palavra “cristã” ao “ocidental”: “civilização cristã ocidental” ou “cultura cristã ocidental”.

A afirmação da vida como mediação fundamental do encontro com Deus passa hoje pela afirmação da vida dos pobres e excluídos. A grande tarefa que se impõe hoje é visibilizar a invisibilidade. Durante cinco séculos os pobres (índios, negros, mulheres, migrantes) foram “invisibilizados” na América Latina e no Caribe. Hoje, o atual sistema neoliberal tenta “excluí-los”, porque enfeiam a cidade, causam trans­torno ao mercado, atrapalham o trânsito, cobram pelos serviços básicos que o Estado-mínimo não “pode” responder. Diante da onda da exclusão em nível mundial, a afirmação da vida passa pela visibilização dos pobres e excluídos. Eles continuam presentes e, por sua teimosia em continuar vivos, apontam para uma possível alternativa.

 

5. Utopia: um mundo onde todos possam viver

Embora os representantes mais poderosos do sistema neoliberal o apresentem como “o céu na terra”, visto a partir da ótica dos excluídos, este sistema é desumano e o verdadeiro “inferno na terra”. Como tal sistema tem uma aura religiosa, sustentada pela força do ídolo-mercado, não se pode esperar nenhuma mudança a partir de seus representantes, que o julgam “imutável”. A saída ou alternativa deve surgir a partir dos excluídos. Tentando colaborar na busca dessa alternativa, apontamos em duas direções que nos parecem complementares: o primado da satisfação das necessidades básicas sobre as preferências e a certeza de que a morte não tem a última palavra.

 

a) Prioridade da satisfação das necessidades básica[23]

Afirmar a possibilidade de uma alternativa ao atual sistema econômico requer criar condições da produção e reprodução da vida para os excluídos, como também exige o respeito pela natureza. Isso significa concretamente dar prioridade ao nível das necessidades básicas, pois sem sua satisfação a vida se torna impossível, como também exige manter a possibilidade da reprodução da própria natureza, como fonte renovável de riqueza. O atual sistema de economia de mercado apresenta-se como o “evangelho realizador da melhor convivência humana”[24]. Entretanto a existência de milhões ou mesmo bilhões de seres humanos, empobrecidos e excluídos da satisfação de suas necessidades básicas, indica sua desumanidade e revela a idolatria do mercado. É contra essa idolatria que se insurge a luta dos oprimidos e é a partir de seus valores que se está forjando um novo projeto social.

Os pobres, ao manifestarem sua utopia o fazem dando prioridade aos interesses sociais, mostrando assim que, “apesar de parecer que o projeto socialista tenha perdido vigência, a utopia socialista se mantém viva. São as instigações dos pobres que lhe dão essa vitalidade”[25]. Ao se contrapor ao sistema de dominação que nega o direito fundamental aos meios de vida, os pobres recriam a utopia, com a esperança de poder construir um mundo viável para todos, onde todos possam ter vida. Essa utopia está alicerçada na certeza de que a opressão não tem a última palavra sobre a história. Essa atitude é reforçada na perspectiva da esperança apocalíptica que recria a profecia, à medida que reconstrói o céu para poder transformar a terra[26]. Concretamente, os pobres e os excluídos, com sua luta, procuram radicalizar a democracia apresentando-se como novos agentes e novos protagonistas de uma nova convivência social, onde ninguém é excluído da efetiva participação dos bens necessários à vida[27]. Essa radicalização da democracia aponta pra uma democracia econômica, política, social, cultural, religiosa, em que a vida é vista a partir da ótica dos pobres e oprimidos, apontando para a construção de uma nova ordem econômica mundial, com as características da equidade, justiça, liberdade dos seres humanos, com a inclusividade, afirmação da vida para todos, solidariedade e paz[28].

 

b) A morte não tem a última palavra sobre a vida

Pensar uma alternativa a partir dos excluídos do sistema neoliberal é apostar na capacidade de resistência dos pobres do mundo, que com sua luta e seus valores vão apontando a possibilidade do novo, no interior da própria situação de opressão. A chegada do Reino vem como antecipação da Nova Terra, onde a possibilidade da vida acontece para todos a partir dos últimos (cf. Is 65,17-25; Ap 21,1-7). Apostar na vida é acreditar que os índios, negros, mulheres, migrantes, trabalhadores(as) excluídos do mercado mundial são a epfania de Deus na história e por isso mesmo, apresentam-se como a possibilidade de se viver o mistério da Trindade como comunhão dos diferentes. Quem defende a alteridade, está tornando visível a Trindade na História. Quem trabalha na construção de uma sociedade que respeita a pluralidade de culturas e as diferentes etnias numa comunhão de diferentes, está concretizando a vida trinitária na História. Essa certeza vem alicerçada na fé do ressuscitado que, embora perseguido, maltratado e violentamente sacrificado pelo sistema sacrifical da época, foi ressuscitado por Deus Pai (At 2,36) e se tornou o princípio da nova humanidade (2Cor 5,17). Sendo a pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular (Mc 12,10; Ef 2,20; 1 Pd 2,7).

Os pobres e excluídos pelo sistema neoliberal, rejeitados como escória, lixo, tornam-se hoje a pedra angular, a pedra principal, o alicerce de uma nova convivência social, à medida que apontam para uma sociedade viável para todos, onde não haja excluídos. Além disso, apontam para uma sociedade respeitadora da natureza, vendo-a não como objeto de domínio, mas como a casa comum, onde todas as pessoas possam encontrar lugar. Embora sem lugar, como, aliás, o próprio Jesus (Lc 2,7), os pobres continuam apontando para os interesses sociais antes dos privados, para manifestar que o mundo para todos ainda é viável. E que continuar pensando o impossível é condição necessária para se antecipar o Reino de Deus na história. Pensar o impossível é condição do realismo político, fonte permanente de inspiração, referência para o julgamento e busca de sentido para a vida e para a história.



[1] Boff, L., Seminário: “Dimensão política e teológica da ecologia”, CEPIS, SP, 1992; “Religión, justicia societaria y reencantamiento de Ia creación”, in Pasos, 45 (janeiro/fevereiro de 1993), pp. 9-10: “Nós cristãos afirmamos que o Cristo cósmico está fermentando em toda a massa do universo, conduzindo a totalidade para o ponto ômega de Deus. E o Espírito Santo habita a criação, dando-lhe movimento e vida, impulsionando-a e atraindo-a à suprema síntese no Reino da Trindade. As realidades não deixam de ser o que são. Mas pela presença do divino nelas, tornam-se sinais, símbolos e sacramentos do Mistério que as habita, mistério vital, amoroso e de comunhão”.

[2] Cf. Hinkelammert, F., “La lógica de Ia expulsión del mercado capitalista mundial y el proyecto de liberación”, in Pasos Especial (3/1992), pp. 11-13.

[3] João Paulo II, Centesimus Annus, 28. O termo “maçador”, de acordo com o “Novo Aurélio”, significa amolador, chato, chateador, aborrecedor. Isso está bem próximo da mentalidade neoliberal, que vê o pobre como estorvo, sobra, lixo.

[4] Ferraro, B., Cristologia em tempos de ídolos e sacrifícios, Ed. Paulinas, SP, 1993, pp. 11-12.

[5] Cf. Tamez, E., “La elección como garantia de Ia inclusión”, inédito, Dei, San José, 1992, pp. 12-13.

[6] Documento de Santo Domingo, 178.

[7] Puebla 31-39. “Temos de aumentar a lista dos rostos sofridos que já havíamos assinalado em Puebla (…), todos eles desfigurados pela fome, aterrorizados pela violência, envelhecidos por condições de vida infra-humanas, angustiados pela sobrevivência familiar. O Senhor nos pede que saibamos descobrir seu próprio rosto nos rostos sofridos dos irmãos” (SD 179).

[8] Girard, R., Des choses cachées depuis Ia fondation du monde, Grasset, Paris, 1978, p. 588. “Uma teoria é cientificamente válida, se suas realizações não pro­duzirem vítimas em sua atuação histórica. A vítima deve ser o critério de verdade de qualquer teoria” (Hinkelammert, F., “Economia y teologia: Ias leyes del mercado y la fe”, in Pasos, 23 [maio/junho de 1989], p. 7).

[9] Cf. Hinkelammert, F., “La lógica de Ia expulsión…”, op. cit., p. 19.

[10] Afirmação de Leonardo Boff, em palestra sobre a Dimensão política e teológica da ecologia, no Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região, em 16 de março de 1993.

[11] Gebara, I., “Espiritualidade: escola ou busca cotidiana?”, in Vida Pastoral, 164 (maio/junho de 1992), p. 12.

[12] “Na Idade Média muitas vezes se pintam quadros do inferno, que nada mais são do que a visão da terra sob o aspecto de sua transformação no inferno. Nesta imaginação do inferno, os condenados são torturados e maltratados. Os diabos os maltratam. Porém, aos diabos ninguém maltrata; andam com o sorriso estampado no rosto. Estes diabos, que fazem o inferno, acreditam que estão no céu. Eles estão bem; ninguém os trata mal e eles tratam mal todos” (Hinkelammert, F., “La Iógica de Ia expulsión…”, op. cit., p. 16, nota 21).

[13] Hernandez Pico, L, “Revolución, violencia y paz”, in Mysterium Liberationis. Conceptos fundamentales de Ia teologia de Ia liberación, II, UCA Editores, São Salvador, 1991, p. 603.

[14] Assmann, H., e Hinkelammert, F., Idolatria do mercado, Vozes, Petrópolis, 1989, p. 353.

[15] Essa expressão foi usada pelo ex-presidente dos Estados Unidos, G. Bush, no início da Guerra do Golfo, em 16/1/1991: “Só os Estados Unidos têm tanto a estrutura moral como os meios para realizar a velha aspiração de uma nova ordem mundial. Somos a única nação capaz de aglutinar as forças da paz. Na nova ordem mundial, a brutalidade não terá recompensa e a agressão se enfrentará com a resistência coletiva. Triunfaremos no Golfo Pérsico. E quando o tivermos feito, a comunidade mundial terá enviado uma advertência duradoura a todo e qualquer ditador ou déspota, presente ou futuro, que sonhe cometer uma agressão ilegal. Na guerra está em jogo uma grande ideia, uma nova ordem mundial, em que as diversas nações caminhem juntas com uma causa comum para conseguir as aspirações universais da humanidade: a paz, a segurança, a liberdade e o império da lei”.

[16] Cf. Comblin, J., “Sinais dos tempos no final do século XX”, in Vida clamor e esperança, Loyola, SP, 1992, p. 31.

[17] Cf. Boff, C., “0 mundo do trabalho: desafios e perspectivas no Brasil hoje. Síntese e comunicação final”, in O mundo do trabalho. Desafios e perspectivas, Ed. Paulinas, SP, 1992, pp. 194-195; Comblin, J., op. cit., pp. 34-35.

[18] Cf. Jabor, A., “Saques mudam a face de nossa miséria”, FSP, 6/4/1993, pp. 4-8.

[19] Expressão cunhada por Hélio Gallardo, pesquisador do DEI, São José, Costa Rica.

[20] Cf. Santa Ana, J., “Os pobres e o novo sistema econômico mundial”, in Vida, clamor e esperança, op. cit., pp. 53-55.

[21] Boff, L., A Trindade, a sociedade e a libertação, Vozes, Petrópolis, 1986, pp. 187-188.

[22] Cf. Santa Ana, J., op. cit., p. 57.

[23] “A satisfação das necessidades torna possível a vida; a satisfação das preferências (desejos) a torna agradável. Mas para poder ser agradável, antes tem de ser possível” (Hinkelammert, F., Crítica a la razón utópica, DEI, São José, Costa Rica, 1984, p. 241. Trad. brasileira foi feita por Ed. Paulinas).

[24] Assmann, H., e Hinkelammert, F., op. cit., p. 428.

[25] Santa Ana, J., op. cit., p. 65.

[26] Cf. VV. AA., “Apocalíptica. Esperança dos pobres”, in RIBLA, 7 (1990/3), p. 6.

[27] Cf. CNBB, Exigências éticas da ordem democrática, n. 70; cf. também a “Carta final do 8º Encontro Intereclesial das CEBs”, Santa Maria, RS, 1992 (Esta carta foi publicada em Vida Pastoral, 167, pp. 2-3).

[28] Cf. Santa Ana, J., op. cit., p. 65.

Pe. Benedito Ferraro