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Publicado em Março-Abril de 1979

O que significa salvação para a nossa realidade brasileira?

Por Benedito Ferraro

BRASIL 1979!

“Brasil, ano da criança: 70% de crianças subnutridas. De cada mil crianças, cem morrem antes de um ano de idade”[1].“450 mil crianças morrerão em 79. E quem se importa”?[2].

E NÓS NOS IMPORTAMOS?

Esta é uma das facetas da nossa dura realidade brasileira, bem nossa e que, muitas vezes ou na maioria das vezes, nos passa totalmente despercebida. Acabamos não percebendo que o mal está no nosso meio, caminhando conosco e, assim mesmo, não o enfrentamos ou, melhor, procuramos descobrir outros males em outros lugares, bem distantes de nós, para combatê-los e darmo-nos por satisfeitos. Ou, no máximo esforço, com a tranquilidade que nos é própria, vamos afirmar com clareza e certeza que a fonte desta realidade é o mal, o demônio e, também aí, ficaremos tranquilizados, pois acabamos nos convencendo de que a culpa não é nossa e que nada podemos fazer para mudar. E a realidade ao nosso re­dor continua tal qual…

Sem amarras e sem rodeios, tentemos nos colocar diante desta trágica “profecia”. O que ela nos revela? O que ela denuncia? O que ela significa para nós cristãos? Pois se a criança está sendo a primeira a sofrer as consequências de uma situação sócio-histórica, percebemos imediatamente que o futuro está em peri­go. A criança de hoje é a esperança do amanhã. Ela é o futuro! Diante desta profecia, o futuro está comprometido! E no entanto, nós continuamos a rezar tranquilamente, a crer com segurança… Será que não estaremos sendo cegos diante do que se passa em nossa realidade? Será que procuramos descobrir a ação de Deus dentro dos acontecimentos? Dentro da única História da humanidade?

O HOMEM BRASILEIRO E SUA ESPERANÇA

Aprofundemos o significado desta trágica notícia. Deixemo-nos penetrar pela realidade onde estamos imersos. Abramos os olhos e tentemos enxergar. Por que morrem nossas crianças? Por que esta é sua sina? Por que Deus quer? Parece que já ultrapassamos esta explicação, não é verdade? Já sabemos que as causas de tantas mortes — a tão alta mortalidade infantil — são a desnutrição e a falta de saneamento básico. Mas atenção! Podemos ficar apenas na constatação das causas e darmo-nos por satisfeitos, achando que já chegamos às raízes dos problemas e, por isso, crescidos na maturidade da fé. Esquecemo-nos, porém, de que a constatação das causas é apenas o primeiro passo para o início da salvação-libertação de pessoas que estão em situação de necessidade ou em perigo de morte. Para que haja de fato salvação-libertação, temos que nos comprometer eficazmente com estas pessoas, a exemplo de Jesus Cristo: “Nisto conhecemos o Amor: que ele deu a sua vida por nós. E nós também devemos dar as nossas vidas pelos irmãos. Se alguém, possuindo os bens deste mundo, vê o seu irmão na necessidade e lhe fecha o coração, como permanecerá nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavras nem de língua, mas por ações e em verdade” (1Jo 3, 16-18).

Para haver salvação-libertação necessitamos de ações libertadoras que ataquem os males sociais em suas raízes. É aqui que somos chamados a nos debruçar sobre a nossa realidade, para sentirmos as esperanças e as aspirações de nosso povo sofrido e combatente, oprimido, mas maravilhoso exatamente porque esperançoso. Mas será que ainda resta esperança para o nosso povo sofredor? Será que é possível conquistar a liberdade de comer, de se expressar, de se educar? Será que é possível conquistar a terra? Há ainda esperanças de uma terra prometida? “O Senhor está ou não no meio de nós?” (Ex 17,7)[3].

Para compreendermos o que significa salvação para a nossa realidade brasileira, temos que conhecer esta realidade. Como diz a Gaudium et Spes é necessário “conhecer e entender o mundo no qual vivemos, suas esperanças, suas aspirações e sua índole frequentemente dramática”[4]. Ou como nos fala Medellín: “Para conhecer a Deus é necessário conhecer o homem”[5]. Debrucemo-nos, pois, sobre a nossa realidade e tentemos ver as amarras e os sinais de libertação

O ÍNDIO E A TERRA

“O índio americano é o dono milenar da terra; a terra é do índio. O índio é a própria terra. O índio é o dono da terra, com títulos de propriedade ou sem eles.”

Todos nós sabemos que o indígena se identifica com a terra. Define-se pela terra. A terra é sua mãe, sua vida, sua família, sua história, sua sobrevivência. “O domínio de uma extensão de terra, contínua, coletiva e inalienável é a condição necessária primeira para a sobrevivência de qualquer grupo indígena com dignidade.”[6] Sabemos que desde o início da colonização do Brasil, os indígenas estão sendo mortos, explorados e expulsos de suas terras, sendo deste modo, praticamente exterminados como povo, como raça e cultura. Salvação para os indígenas significa ter terra para se identificar como povo, para sobreviver, para conservar sua cultura e, acima de tudo, serem respeitados em seu modo próprio de vida: “Eles não têm apenas o direito de serem como nós, mas o de serem eles próprios”[7].

O POSSEIRO E SUA INSEGURANÇA

Somos conhecedores de que a má distribuição da terra no Brasil vem desde o início da colonização, mas hoje ela se acentuou de modo profundamente agudo, de tal modo que os posseiros estão sendo expulsos de suas terras, das quais detêm a posse, mas não o título definitivo de propriedade. Isto tem como causa a política de incentivos fiscais que acaba sempre colaborando com os donos do capital em detrimento dos pequenos proprietários e posseiros que não conseguem documentar a terra, sendo “expulsos, tangidos para mais longe, até para países vizinhos, ou transformados em nômades destinados a vagar pelas estradas do País”[8].Quando tentam se defender, geram conflitos de terra e de morte e são tratados como criminosos pelas autoridades que normal­mente defendem os interesses das classes dominantes. Sem possibilidade de prosseguirem na luta pela terra, pois defrontam-se com grandes empresas muito bem aparelhadas com recursos jurídicos e financeiros, procuram as cidades, onde irão morar no “não lugar”, isto é, nos barracos das favelas, debaixo das pontes ou viadutos, sendo marginalizados de todas as dimensões da vida: econômica, porque não encontram empregos, por falta de especialização; social e política, porque não podem participar de nenhuma decisão; cultural e religiosa, porque perderam sua identidade com a terra e a própria cultura popular de origem. Em todo este processo são vítimas de todas as injustiças, explorações e aviltamentos, causando enormes males para todos os membros da família e sobretudo para as crianças que são mal alimentadas, não têm atendimento médico, não desfrutam de saneamento básico onde vivem e ficam impossibilitadas de participarem do processo educativo.

Diante desta pequena caricatura da vida dos posseiros e dos homens do campo, temos, que nos perguntar o que significa salvação para eles. Precisamos escutá-los. São eles que necessitam de salvação. Ou acreditamos ainda que eles devem sofrer aqui na terra, para depois conseguirem o céu? Aqui também acreditamos ter ultrapassado este tipo de legitimação da situação de exploração. Mas será que de fato fazemos algo de concreto para se modificar tal realidade? Será que estamos com os ouvidos atentos para “escutar os clamores do Povo” e para “ver a sua aflição”? (cf. Ex 3,7-9).

O BOIA-FRIA E A ESPOLIAÇÃO

“Todas as análises dos dados dos recadastramentos do IBRA/INCRA, de 1967 e, 1972, indicam essas tendências:

—  maior concentração da propriedade da terra;

—  diminuição dos pequenos proprietários, parceiros e arrendatários;

—  diminuição dos assalariados permanentes;

—  aumento significativo do número de assalariados temporários;

—  comprovação da baixa produtividade das grandes propriedades, em comparação com as pequenas”[9].

No que diz respeito aos boias-frias ou “assalariados temporários”, “nestes cinco anos eles passaram de 3.900.000 para 6.800.000. A maior parte deles é formada de pequenos proprietários, de arrendatários e de parceiros que perderam suas terras e seus lugares de trabalho. Diminuíram também os ‘assalariados permanentes’, o que quer dizer que a tendência, no campo brasileiro, é a utilização de trabalhadores ‘volantes’, sem contrato fixo, usados no tempo em que se precisa de mão de obra”[10]. Estes trabalhadores vivem praticamente em situação de miséria, pois não são reconhecidos por Lei, não possuem contrato de trabalho, não têm onde morar, não têm emprego fixo, mudam-se constantemente, o que acarreta um contínuo desenraizamento cultural e psicológico maléfico para as pessoas. Há ainda o grave problema dos menores que trabalham no campo, em número talvez superior a 5.000.000, ocupando o lugar de adultos e, com cada vez menos resistência devido à má alimentação.[11]

Constatamos, pois, que nas relações do homem trabalhador com a terra brasileira, há um contínuo processo de exploração, onde o trabalhador acaba sempre desapropriado, seja da terra, seja de seu produto. Este é o caso concreto e bem visível do boia-fria, que praticamente é quem sustenta o nível da produção agrícola e que mal pode alimentar-se para sobreviver e reproduzir-se. Fica, pois, espoliado da terra e da participação de seu fruto. Seu fim é a miséria e a marginalização, quase sempre apoiada e sustentada pela repressão que defende os interesses dos donos do capital.

No momento em que os trabalhadores procuram lutar pelos seus direitos, são vistos e apresentados como agitadores, que seguem líderes “fanáticos”[12].No entanto, nada se faz para se promover uma política social global, onde o trabalhador do campo possa ser respeitado em sua dignidade de ser humano. Os boias-frias ou “trabalhadores volantes” nem sequer são reconhecidos pela lei. Em outras palavras, eles não existem juridicamente. E no entanto, atualmente, eles são mais de 8.000.000![13].Será que estamos atentos a este fenômeno? Ou fechamos os olhos e enterramos a cabeça como a avestruz durante a tempestade? Temos que nos preocupar com este enorme contingente de pessoas que são obrigadas a se mudarem constantemente para encontrar trabalho, teto e pão. Certamente salvação para eles é, em primeiro lugar, poder cultivar a terra para dela tirar o seu sustento, o sustento de sua família e o alimento para os seus semelhantes. É ter um pedaço de chão, para se enraizar e sentir-se gente convivendo com gente. É certamente a esperança de se criar uma sociedade onde possam participar da vida e onde seus filhos possam se realizar como pessoas. Mas será que isto é possível? Parece-nos que o processo de desenvolvimento do Brasil está sendo, cada dia, mais marginalizador: “A existência, em vastas regiões, do fenômeno da marginalização é prova da não realização do bem comum”[14]. O procedimento utilizado em relação ao campo revela a existência de uma política econômica que não pretende modificar “a atual e histórica estrutura fundiária, em que a terra está nas mãos de poucos e grandes proprietários”[15].O que se produz no campo está orientado para resolver os problemas da balança de pagamentos, totalmente desequilibrada pelo alto custo da tecnologia importada. Com isto, percebemos que é a imensa maioria da população que sofre as consequências de um sistema que concentra a terra nas mãos de poucos e não oferece a mínima possibilidade aos trabalhadores de se realizarem como pessoas. Percebemos, pois, que a salvação para este imenso número de pessoas, é algo que requer uma profunda e radical mudança das relações sociais e uma profunda e radical mudança da atual sociedade. Esta salvação requer uma nova libertação, como a do Povo de Deus no Egito, mas com uma diferença fundamental: “Sua terra é a mesma em que vive, não outra; a Jerusalém dos brasileiros é o Brasil mesmo, não a Bolívia, ou o Paraguai, ou as beiras subumanas das cidades. Sua “terra prometida” é uma nova sociedade, construída com a sua participação, em que os milhões de hectares de terra sirvam ao povo todo, tanto para morar e trabalhar, quanto para produzir o que o próprio povo do Brasil, e das outras nações, precisam para viver”[16].

Quando falamos de salvação, quando pregamos a libertação, estamos atentos a esta nossa realidade? Afinal são nossos irmãos que estão sofrendo, não é mesmo? (cf. lCor 12,12-30). Percebemos que isto só pode mudar através de uma política que faça justiça aos deserdados da terra? Ou você acredita que a salvação cairá do céu? E por falar em salvação que cai do céu, permita-nos introduzir aqui a letra de uma música cantada numa reunião de favelados que exigem um terreno para construírem suas casas:

“Não adianta ficarmos de braços cruzados.

Nem esperar que caia sempre tudo do céu.

Vamos unidos lutar para o bem de nós todos.

Pois só assim nós vamos saber ao certo,

Se vamos ou não vencer nosso plano.

Todos os pais devem pedir em nome dos seus filhos,

Para o prefeito atender esse nosso projeto.

Vamos lutar pra ver se venceremos.

Não adianta é sentar e esperar e fazer coisa errada.

Pois nós também somos gente e gente bem pensada.

Pois se o sol que nasce e cobre os ricos barões,

Também cobre nós que aqui vivemos e somos cristãos”.

O OPERÁRIO E SUA LUTA

A atual política econômica que rege a sociedade brasileira cria a ilusão da cidade através dos meios de comunicação social, especialmente a TV, e atrai as pessoas para os grandes centros urbanos industrializados. Sabemos, entretanto, que esta “ilusão” é gerada pela própria expulsão dos trabalhadores do campo através da violência, do boicote aos produtos, a não facilidade de acesso aos empréstimos são cedidos aos “grandes colonizadores” e, também, através de uma excelente propaganda bem montada e que beneficia os donos do capital. Atraídos aos centros urbanos, tornam-se mão de obra barata para as indústrias, constituindo-se no grande “exército industrial de reserva”. De um modo geral, a classe trabalhadora passa por um processo de empobrecimento. Quanto mais o trabalhador trabalha, mais pobre ele fica, de tal modo que os pobres ficam cada vez mais pobres e os ricos mais ricos. Para se confirmar isto, basta tomarmos a distribuição da renda no Brasil nestes últimos anos e com os dados do IBGE. Em 1960, os 50% mais pobres da população recebiam 17,7% da renda nacional. Em 1970, estes mesmos 50% recebiam apenas 14,9% da renda nacional e, em 1976, apenas 11,8%! Os 30% seguintes na ordem crescente de renda recebiam, em 1960, 27,9%. Em 1970, passaram a receber 22,8% e, em 1976, apenas 21,2%. Entretanto, a situação se inverte a partir dos 15% seguintes da população que recebem maior renda: em 1960, recebiam 26,6% da renda nacional; em 1970, 27,4%; e, em 1976, 28%. Mas a maior parte do “bolo”, a parte do leão, fica com os 5% da população de renda cada vez maior: em 1960, recebiam 27,7%; em 1970, 34,8% e, em 1976, 39% da renda nacional.[17]Como percebemos, a renda se concentra cada vez mais nas mãos de poucos, gerando uma desigualdade social catastrófica. É a constatação que faz a “Comunicação Pastoral ao Povo de Deus”: “Por que uns ganham 30, 50, 100 mil cruzeiros por mês, e tantos não fazem mais do que o salário mínimo? Há países em que a diferença entre os salários mínimo e máximo não excede a 12 vezes, enquanto no Brasil passa de 200 vezes. Por que alguns podem ir passear e conhecer o mundo todo, e a maioria não pode tirar uma semana de férias e sair com a família?”[18].

Notamos ainda que os trabalhadores devem aumentar o número de horas de trabalho para poderem comprar a mesma quantidade de alimentos, a cada ano que passa. Este processo de aviltamento de salários obriga a quase todos os membros da família a trabalharem, inclusive os menores[19].Isto leva a uma desintegração familiar e aos 16 milhões de crianças “desesperançadamente marginalizadas no Brasil”[20],pois entre 1970 e 1972, “a população já elevada dos que não chegam a auferir sequer um salário mínimo ampliou-se ainda mais, passando de 50,2% para 52,5% da população com rendimentos monetários… e a persistir a tendência verificada entre 1970 e 1972, teríamos em 1980 mais de 60% da população ganhando menos de um salário…”[21].Isto sem falar da repressão política e policial sobre os operários e trabalhadores das cidades que não têm a mínima chance de se reunirem para discutir os seus problemas e que, muitas vezes, trabalham com os policiais dentro das fábricas… Os sindicatos são “castrados” na função de defesa da classe trabalhadora e os operários que são demitidos por assumirem uma posição crítica diante da exploração da classe.

E não podemos nos esquecer que estamos falando da maioria da população: as pessoas que criam os bens e a riqueza da nação e que são as menos favorecidas. O que significa salvação para elas? Será que estamos atentos para a sua realidade? Será que percebemos que esta realidade global necessita e exige uma libertação? Estamos conscientes que a salvação bíblica é uma salvação comunitária? Não estamos ainda muito presos ao conceito individualista de salvação? Será que, de fato, ainda não ultrapassamos o conceito de “salva tua alma?”.

O OLHAR DE JESUS CRISTO

“Jesus mandou que a Igreja anunciasse e promovesse a salvação. Em plenitude ela será vivida na casa do Pai. Mas já deve aqui na terra começar a manifestar os seus frutos pelo amor e pela fraternidade”[22].A Igreja é a continuadora da missão de Jesus Cristo e, por isso, ela deve reavivar sua memória na História dos homens. Ela deve ser o instrumento pelo qual a salvação anunciada por e em Jesus de Nazaré e proclamada pela fé pascal da Igreja primitiva possa passar aos homens. E este Jesus que passou a vida fazendo o bem (cf. At 2,22) foi criticado, acusado, perseguido e morto, exatamente porque percebia a situação em que viviam as pessoas de seu tempo: “Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas e pregando o Evangelho do Reino, enquanto curava toda sorte de doenças e enfermidades. Ao ver a multidão, teve compaixão dela, porque estava cansada e abatida como ovelhas sem pastor” (Mt 9,35-36). Parece-nos que é exatamente pela consciência que tinha da realidade de seu tempo e reassumindo as aspirações de seu povo, através da memória de sua história, que Jesus projeta sua missão de salvação-libertação: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19).

Neste projeto, a Igreja Primitiva percebeu toda a dimensão do ministério profético-salvífico da missão de Jesus Cristo. Um projeto que reassume a história de seu povo e suas mais profundas aspirações e anseios e os recoloca em confronto com a situação existencial de sua época. E por causa de seu comprometimento com esta realidade, ele pôde afirmar: “Hoje realizou-se essa Escritura que acabastes de ouvir” (Lc 4,21). Sem dúvida, estamos diante da profissão de fé da Igreja primitiva que confessava Jesus como Messias e Senhor (cf. At 2,36), mas esta profissão de fé deve estar enraizada em seu ministério, voltado preferencialmente aos mais pobres e aos menos favorecidos, como nos deixa entrever o texto de Mt 11,2-5: “João, ouvindo falar, na prisão, a respeito das obras de Cristo, enviou a ele os seus discípulos para lhe perguntarem: ‘És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?’. Jesus respondeu-lhes: ‘Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados’”.

Como percebemos, o projeto de missão de Jesus é, como diríamos hoje, testado na realidade através da “cobrança” de João Batista que também esperava a era messiânica, a era da libertação. E a resposta de Jesus é bastante significativa e mostra que de fato o Evangelho está sendo anunciado aos pobres, pois eles estão sendo salvos pela ação de Jesus e, no contexto do Novo Testamento, salvos pela ação da Igreja, continuadora de sua missão. Cegos, coxos, leprosos, surdos, pobres eram pessoas marginalizadas da época de Jesus, não tendo a mínima participação ou decisão na vida econômica, social, política, cultural e religiosa do país. Não será sem razão que Lucas apresentará Jesus, em seu Evangelho da Infância como “sinal de contradição” (cf. Lc 2,33-35), pois Jesus de Nazaré, com sua ação e suas atitudes, rompia com a mentalidade discriminatória da época, onde pobres e doentes eram desprezados como gente incapaz de conhecer a lei e, portanto, incapaz de amar a Deus: “Este povo, que não conhece a Lei… são uns malditos” (Jo 7,49).

O Evangelho nos deixa ver que Jesus tem uma sensibilidade histórica bastante aguda. Sua preocupação é voltada para as pessoas que estão à margem da vida, à margem da política e da economia e, à margem da própria religião. O critério último de sua ação é sempre a libertação das pessoas. Em termos teológicos, podemos dizer que toda pergunta teológica começa com uma situação humana[23]e o “critério último na teologia de Jesus é o remédio, por mais temporal e provisório que seja, de uma dor humana”[24]. É por isto, que Jesus não teme olhar com o coração aberto ao que se passa em seu redor. Não teme iniciar a pregação do Evangelho com o anúncio do Reino (cf. Mc 1,14-15), mesmo conhecendo toda a ambiguidade desta palavra, que na sua época, era “portadora da mais explosiva ideologia”[25]. Não teme o perigo de seu comprometimento com a classe pobre nem a periculosidade do emprego do anúncio do Reino que o levaria, mais tarde, à morte. Como vemos, Jesus está preocupado com a libertação do homem e alegra-se com toda ação libertária por mais provisória que seja, pois percebe que atrás de toda libertação está a presença de Deus, dispensador de toda salvação.

Respeitando os diferentes contextos sócio-históricos, temos de nos questionar sobre o sentido da salvação para o homem concreto com quem convivemos todo dia e do qual dependemos para a nossa sobrevivência. No caso de Jesus de Nazaré e da comunidade primitiva, percebemos a preocupação de atualizar e celebrar a salvação nos acontecimentos do dia a dia: curas, partilha do pão, a conversão de um rico… Esta sensibilidade histórica presente na ação de Jesus de Nazaré e presente na Comunidade primitiva que celebravam a salvação nos acontecimentos que pareciam ser ambíguos — curas, anúncio do Reino, conversões — deve estar presente, hoje, em nossa ação e em nossas atitudes diante deste homem brasileiro que tentamos rapidamente analisar, com sua vida sofrida e sedenta de libertação: o índio, o posseiro, o boia-fria, o migrante, o operário.

A salvação bíblica é sempre o anúncio de uma salvação comunitária. É o anúncio da chegada do Reino. E a era messiânica se define como a era da paz, alegria e, portanto, de novas relações humanas não mais baseadas na opressão e dominação, mas alicerçadas na justiça, na verdade e na fraternidade (cf. Is 32, 17; Jr 31-34; Ez 36,26-30; Os 2,18-23; Jo 1,14-17). Para que tal época seja atualizada e celebrada em nossa realidade, de novo, como continuadora da missão profético-salvífica de Jesus Cristo, a Igreja deve proclamar para este homem brasileiro: “Hoje realizou-se essa Escritura que vocês acabaram de escutar!”. Portanto, longe de ser um anúncio a-histórico, intemporal, a salvação requer uma sensibilidade histórica perante a fome, a espoliação, a miséria de populações inteiras que não têm nem mesmo o necessário para sobreviver. E esta sensibilidade histórica deve ser vivida com nossa gente, nosso povo, com o nosso índio, com nosso posseiro, com nosso boia-fria, com nosso operário, com nossas crianças, com as 450.000 crianças que vão morrer, no Brasil, em 1979! Isto é libertação. Isto é salvação aqui e agora! Isto é lutar pela libertação com todos os riscos e ambiguidades e não simplesmente esperar um “modelo adequado” que evite todos os erros e desvios no futuro! Nossa ação deve ser a ação de Jesus Cristo que percebe a ligação do histórico com o escatológico, ou seja, a Salvação oferecida por Deus. Não há duas histórias, mas há a História dos homens dentro da qual se realiza a salvação. E a salvação acontece hoje, quando: os cegos veem, os surdos ouvem, os coxos andam, os doentes são curados; os índios são respeitados; as crianças têm comida, escola, possibilidade de se realizarem como pessoas; os trabalhadores têm empregos, casas; as pessoas são respeitadas e valorizadas. Assim o Evangelho é anunciado aos pobres!

NOSSA AÇÃO COMO IGREJA QUE REVIVE A MEMÓRIA DE JESUS CRISTO

Esta sensibilidade histórica para com o povo latino-americano reapareceu de modo bastante marcante em Medellín, onde se propõe a necessidade de uma grande mudança e onde se percebe claramente que há uma só história e é nesta história dos homens, como na história do Povo de Deus no Antigo Testamento, que se realiza a salvação através de passagens de condições menos humanas a condições mais humanas em todos os níveis e dimensões da vida dos homens: econômico, social, político, cultural e religioso[26].

Percebe-se ainda, sobretudo a partir de Medellín, que na América Latina e, portanto também no Brasil, que vivemos “numa situação de injustiça que pode chamar-se de violência institucionalizada…” e que esta “situação exige transformações globais, audazes, urgentes e profundamente renovadoras”[27].E os bispos da América Latina, reunidos em Medellín, nos orientam a estarmos atentos à nossa realidade, onde a maioria de nosso povo está sendo marginalizada de toda participação nas decisões políticas, espoliada dos bens materiais e culturais, explorada em sua força de trabalho e impedida de se expressar como povo e como cultura. E estes bispos nos lançam o grito de alerta: “Não se há de abusar da paciência de um povo que suporta durante anos uma condição que dificilmente aceitaria quem tem uma maior consciência dos direitos humanos”[28].

Devemos, pois, estar atentos à realidade brasileira, onde o índio, o posseiro, o boia-fria, o migrante, o operário estão sendo espoliados de seu ser de homem e precisamos descobrir onde é que está acontecendo a salvação, mesmo que ela nos pareça ambígua. E ainda mais, para que este processo seja, de fato, um processo de salvação comunitária, como é o processo bíblico, ele só será viável com a participação efetiva mais ampla possível de toda a população e, sobretudo, com a participação dos trabalhadores do campo e operários, pois, como dizem os bispos do Brasil: “Só um povo convocado a participar do processo de seu desenvolvimento aceita com dignidade os sacrifícios exigidos, os quais, de outra forma, podem criar tensões e revoltas sociais, com agravamento do estado de violência, de repressão e de corrupção”[29].

Há, pois, no Brasil a necessidade de uma mudança radical na estrutura e no funcionamento de nossa sociedade e isto só acontecerá com a participação de todos, pois se os trabalhadores do campo e os operários não forem ouvidos, não haverá possibilidade nem de justiça nem de paz. Percebemos, pois, que a salvação que Jesus Cristo nos oferece e que é proclamada pelo Querigma da Igreja Primitiva traz em seu bojo uma clara dimensão política, de tal modo que é a união da sensibilidade histórica com o compromisso político de um lado e, de outro, a reflexão teológica que nos mostra a íntima ligação do histórico com o escatológico, que nos abrirá o caminho para a salvação do povo brasileiro que vive oprimido, mas que possui uma grande esperança em seu futuro.

Como a própria pedagogia bíblica nos mostra, precisamos prestar atenção ao fato de que Jesus foi rejeitado por aqueles que deviam estar mais preparados para recebê-lo, pois possuíam o conhecimento da revelação de Deus nas Escrituras e, no entanto, “deixaram passar a Jesus sem reconhecer nele a nova e definitiva revelação divina. Pelo contrário, a mensagem cristã chegou até nós por meio dos amaretz de Israel, quer dizer, por aqueles que, por uma ou por outra causa, tinham ficado fora do interesse da lei e de sua compreensão”[30].

Concretamente, hoje, no Brasil, diante do que foi exposto, podemos perceber que a salvação deverá passar pela classe trabalhadora, na medida em que ela se organiza e luta para defender seu direito de participar dos bens materiais e culturais, direito de participar na organização da nossa sociedade através das decisões políticas. Em outras palavras, a salvação, sendo um dom de Deus que se realiza na história, não deixa de ser uma conquista dos homens que lutam pela sua libertação concreta e histórica, provisória e determinada por um contexto histórico, ligando-a ao Absoluto pela certeza de que atrás desta libertação está a ação salvadora de Deus que continua a agir na história dos homens.

Esta salvação que é profundamente comunitária nos engaja a todos na luta por melhores condições de vida para todos os brasileiros. E para nossa realidade, embora a palavra traga consigo uma carga histórica e uma ambiguidade profunda, poderíamos traduzir este anseio de liberdade, esta procura de libertação e aspiração de paz por uma anistia ampla e irrestrita, no sentido de dar ao povo brasileiro a possibilidade de comer, de alimentar seus filhos que estão morrendo de subnutrição e por falta de saneamento básico e que têm o direito de viver, de se educar; anistia que dê ao povo a possibilidade de se expressar como povo, de ter acesso aos bens culturais, de poder se expressar com liberdade, de se organizar pa­ra decidir seus destinos… Como percebemos, a salvação para a realidade brasileira significa uma luta ampla, um novo êxodo, para que o povo possa sair da opressão e conquistar a “terra prometida”, ou seja, uma nova sociedade, alicerçada na justiça e na fraternidade, onde Deus seja o Pai de todos os homens e os homens sejam irmãos entre si (cf. Mt 6,9), onde não haja opressão e exploração e que possa reinar a Paz, como fruto da era messiânica inaugurada por e emJesus Cristo.


[1] Jornal da Tarde, 3/1/1979, p. 22.

[2] Jornal da Tarde, 4/1/1979, p. 8.

[3] Esta pergunta não visa colocar o problema especulativo da existência de Deus, mas a sua presença concreta através de ações libertárias. Cf. Ex 14-17.

[4] Gaudium et Spes, n. 4.

[5] A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio. Conclusões de Medellín. Petrópolis: Vozes, 1969, p. 41.

[6] “Parecer conjunto de antropólogos sobre a emancipação de comunidades indígenas”, in: Boletim do CIMI, ano 7, n. 49, set., 1978, p. 16.

[7] “Parecer conjunto de antropólogos…”, op. cit., p. 14.

[8] “Comunicação Pastoral ao Povo de Deus”, pp. 10-11.

[9] “Puebla e os trabalhadores rurais”, em Sedoc 10, n. 112, col. 1089, junho, 1978. Cf. também M. Grechi. “O problema do homem e a terra no Brasil”, em Sedoc 10, n. 105, cols. 317-318, out.-nov., 1977.

[10] “Puebla e os trabalhadores rurais”, op. cit., Cols. 1090-1091.

[11] “Puebla e os trabalhadores rurais”, op. cit., col. 1091.

[12] Cf. M. Grechi, op. cit., cols. 309-310.

[13] “Um pastor no meio do conflito”, em Sedoc 10, junho, 1978, n. 112, col. 1139, entrevista com D. Pedro Casaldáliga transcrita do Jornal do Bra­sil de 6/4/1978.

[14] “Exigências cristãs de uma ordem política”, n. 22.

[15] M. Grechi, op. cit., col. 313.

[16] “Puebla e os trabalhadores rurais”, op. cit., col. 1093.

[17] Cf. Folha de S. Paulo, 6/6/1978, p. 24; Folha S. Paulo, 18/9/1978, p. 3.

[18] “Comunicação Pastoral ao Povo de Deus”, p. 16.

[19] Cf. São Paulo — 1975, Crescimento e pobreza. Loyola, São Paulo, pp. 90-94.

[20] Cf. O Estado de S. Paulo, 15/9/1978, p. 39; cf. também “Exigências cristãs…” nn. 22-23.

[21] Cf. São Paulo — 1975, op. cit., pp. 65-66.

[22] “Exigências cristãs…”, n. 3.

[23] Cf. J. L. Segundo. Libertação da Teologia. Loyola, São Paulo, 1978, p. 88.

[24] J. L. Segundo, op. cit., p. 88.

[25] J. L. Segundo, op. cit., p. 142.

[26] “A Igreja na atual transformação…”, op. cit., pp. 42-43.

[27] “A Igreja na atual…”, op. cit., p. 61.

[28] “A Igreja na atual…”, op. cit., p. 61.

[29] “Exigências cristãs…”, op. cit., n. 31.

[30] J. L. Segundo, op. cit., p. 91.

Benedito Ferraro