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Publicado em maio-junho de 2016

A consciência e o discernimento sociopolítico no Catecismo da Igreja Católica

Por Pe. Ademir Nunes Farias

Este artigo nos provoca a pensar sobre qual é o papel da consciência moral no que respeita ao empenho do cristão na vida social e política da comunidade humana, e também sobre qual a maneira mais eficaz para uma devida formação desta mesma consciência em vista de um envolvimento sempre mais comprometido com as realidades sensíveis da sociedade.

  1. O que nos ensina o Catecismo da Igreja Católica a respeito da Consciência Moral?

O Catecismo da Igreja Católica, no capítulo dedicado à reflexão sobre a dignidade da pessoa humana, nos números 1776-1802, trata do tema da consciência moral. O número 1776 define a consciência como “uma lei que o homem não se deu a si mesmo, mas à qual deve obedecer e cuja voz ressoa, quando necessário, aos ouvidos do seu coração, chamando-o sempre a amar e fazer o bem e a evitar o mal”, e esta lei é “uma lei escrita pelo próprio Deus”. E assim, citando a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, n. 16, o Catecismo afirma que “consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual ele se encontra a sós com Deus, cuja voz ressoa na intimidade do seu ser”. É por isso que, “quando presta atenção à consciência moral, o homem prudente pode ouvir Deus a falar-lhe” (n. 1777). E é também por isso que se exige a retidão da consciência moral, da qual depende a dignidade da pessoa humana (cf. n. 1780). Diz o número 1780:

A consciência moral compreende a percepção dos princípios da moralidade (“sindérese”), a sua aplicação em determinadas circunstâncias por meio de um discernimento prático das razões e dos bens e, por fim, o juízo emitido sobre os atos concretos a praticar ou já praticados. A verdade sobre o bem moral, declarada na lei da razão, é reconhecida prática e concretamente pelo prudente juízo da consciência. Classifica-se de prudente o homem que opta em conformidade com este juízo.

Também o Documento 50 da Conferência Nacional do Bispos do Brasil, fruto da 31ª Assembleia Geral, ocorrida em Itaici-SP, de 28 de abril a 7 de maio de 1993, em conformidade com o Catecismo, apresenta-nos uma definição de consciência e sua função:

A consciência se apresenta – na linguagem que tenta expressar simbolicamente a sua experiência – como uma “voz” ou uma “luz”. As religiões, também a cristã, dirão: a voz de Deus, a luz de Deus. Porque o imperativo moral manifesta-se à pessoa como algo que está no ser humano, mas que não é dele, não se reduz à sua vontade. O ser humano se descobre não como dono do mundo e dos outros, mas como responsável perante eles (responsável = chamado a dar uma resposta à voz ou ao apelo da consciência). O ser humano descobre o que revela a imensa dignidade de que é portador (CNBB, Doc. 50, n. 71).

Daí que é a consciência que permite assumir a responsabilidade dos atos praticados, de forma que, “se o homem comete o mal, o justo juízo da consciência pode ser nele a testemunha da verdade universal do bem e, ao mesmo tempo, da maldade da sua opção concreta […]. Atestando a falta cometida, lembra o perdão a pedir, o bem a praticar ainda e a virtude a cultivar incessantemente com a graça de Deus” (Catecismo, n. 1781).

Aqui, vê-se a necessidade da formação contínua da consciência moral, uma vez que “uma consciência bem formada é reta e verídica; formula os seus juízos segundo a razão, em conformidade com o bem verdadeiro querido pela sabedoria do Criador. A formação da consciência é indispensável aos seres humanos, submetidos a influências negativas e tentados pelo pecado a preferir o seu juízo próprio e a recusar os ensinamentos autorizados” (n. 1783).

Esta formação da consciência é o dever ético mais fundamental e tarefa para toda a vida, desde os primeiros anos, quando a criança desperta para o conhecimento e para a prática da lei interior reconhecida pela consciência moral. Exige-se uma educação prudente em que se destaque o ensino da virtude (cf. n. 1784). E é certo também que, quanto mais pesadas as responsabilidades que vão sendo assumidas na sociedade, tanto maior deve ser a preocupação com apropriada formação da consciência moral. Essa formação garante a liberdade e gera a paz do coração. A liberdade, a responsabilidade e o bem moral estão estritamente ligados ao compromisso da constante formação da consciência. Aqui, terá um papel fundamental, como principal formadora da consciência, a Palavra de Deus, que ilumina o caminho do ser humano, de modo que “devemos assimilá-la na fé e na oração, e pô-la em prática. Devemos também examinar a nossa consciência, de olhos postos na cruz do Senhor. Somos assistidos pelos dons do Espírito Santo, ajudados pelo testemunho e pelos conselhos dos outros e guiados pelo ensino autorizado da Igreja” (n. 1785).

Não se pode esquecer que a competência e a responsabilidade da família devem ser realçadas de maneira especial. Antes de tudo, em relação à formação básica. Também outros agentes da formação, a começar da escola, não podem renunciar às responsabilidades que lhes dizem respeito na formação da consciência moral. Este compromisso, por sua vez, não pode deixar de ser sentido, de uma maneira ainda mais decidida, pela comunidade cristã. A verdade do Evangelho, que lhe foi confiada, pede-lhe que se torne, como Paulo, “tudo para todos, a fim de, a todo custo, salvar alguns” (1Cor 9,22-23). A exigência do testemunho produz fruto que conduz ao caminho dos valores.

Por fim, o número 1789 do Catecismo nos apresenta algumas regras básicas e essenciais que favorecem a devida formação da consciência e possibilitam o discernimento moral, a saber: “nunca é permitido fazer mal para que daí resulte um bem; a ‘regra de ouro’ é: ‘Tudo quanto quiserdes que os homens vos façam, fazei-o, de igual modo, vós também’ (Mt 7,12); a caridade passa sempre pelo respeito do próximo e da sua consciência: ‘Ao pecardes assim contra os irmãos, ao ferir-lhes a consciência, é contra Cristo que pecais’ (1Cor 8,12). ‘O que é bom é não […] [fazer] nada em que o teu irmão possa tropeçar, cair ou fraquejar’ (Rm 14,21)”. Assim, “a consciência boa e pura é iluminada pela fé verdadeira. Porque a caridade procede, ao mesmo tempo, ‘dum coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera’ (1Tm 1,5)” (Catecismo, n. 1794).

  1. As Virtudes: ponte necessária entre a consciência e o empenho sociopolítico

O Artigo 7, que segue ao que trata da consciência, fala das virtudes. As virtudes servem de ponte fundamental entre a consciência e o exercício do bem comum, a vida comunitária, enfim, o empenho sociopolítico. A carta de são Paulo aos Filipenses nos diz que: “Tudo o que é verdadeiro, nobre e justo, tudo o que é puro, amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor, isto deveis ter no pensamento” (Fl 4,8). De forma que “a virtude é uma disposição habitual e firme para praticar o bem. Permite à pessoa não somente praticar atos bons, mas dar o melhor de si mesma. A pessoa virtuosa tende para o bem com todas as suas forças sensíveis e espirituais; procura o bem e opta por ele em atos concretos” (n. 1803).

Entre todas as virtudes, se destacam as teologais, que “fundamentam, animam e caracterizam o agir moral do cristão. Informam e vivificam todas as virtudes morais. São infundidas por Deus na alma dos fiéis para torná-los capazes de proceder como filhos seus e assim merecer a vida eterna. São o penhor da presença e da ação do Espírito Santo nas faculdades do ser humano” (n. 1813). E, entre as virtudes teologais, destaca-se, ainda, a caridade.

Aliás, o Catecismo nos diz que “o exercício de todas as virtudes é animado e inspirado pela caridade. Esta é o ‘vínculo da perfeição’ (Cl 3,14) e a forma das virtudes: articula-as e ordena-as entre si; é a fonte e o termo da sua prática cristã. A caridade assegura e purifica a nossa capacidade humana de amar e eleva-a à perfeição sobrenatural do amor divino” (n. 1827). Dessa forma, é impossível falar em realizar o bem de forma cristã prescindindo da prática das virtudes, sobretudo da caridade. É impossível ter uma consciência retamente formada se não se leva em conta a necessidade de crescer virtuosamente. E é impossível, ainda, um autêntico envolvimento cristão na vida social e política da comunidade sem a caridade. A primeira encíclica do papa Bento XVI tratou justamente do tema da caridade, apontando esta virtude como elemento essencial que firma a identidade do cristão, amado por Deus e chamado a ser sinal deste amor no meio da sociedade. Nos ensina o papa:

Deus amou-nos primeiro e este amor de Deus apareceu no meio de nós, fez-se visível quando Ele “enviou o seu Filho unigênito ao mundo, para que, por Ele, vivamos” (1Jo 4,9). Deus fez-se visível: em Jesus, podemos ver o Pai (cf. Jo 14,9) […] Na história de amor que a Bíblia nos narra, Ele vem ao nosso encontro, procura conquistar-nos […] Também na sucessiva história da Igreja, o Senhor não esteve ausente: incessantemente vem ao nosso encontro, através de homens nos quais Ele se revela; através da sua Palavra, nos Sacramentos, especialmente na Eucaristia […] Deus não nos ordena um sentimento que não possamos suscitar em nós próprios. Ele ama-nos, faz-nos ver e experimentar o seu amor, e desta “antecipação” de Deus pode, como resposta, despontar também em nós o amor (Deus Caritas Est, n. 17).

Assim, as virtudes teologais, sobretudo a caridade, dispõem-nos a viver uma relação com Deus e, ao mesmo tempo, animam-nos no nosso agir moral, uma vez que vivificam em nós todas as virtudes morais, tornando-nos capazes de agir como filhos de Deus em benefício do próximo. As virtudes educam a consciência e a fortalecem no discernimento que impulsiona ao envolvimento na vida concreta da comunidade humana.

  1. O empenho sociopolítico no Catecismo da Igreja Católica

O segundo capítulo da primeira seção da terceira parte do Catecismo da Igreja Católica trata da comunidade humana, da vida em sociedade e da participação do cristão na vida política. A Igreja tem uma preocupação bastante grave quando se refere à vida social e política, pois é ali na vida concreta, na comunidade, nas relações humanas, no quotidiano da existência do ser humano que devem aparecer os frutos não menos concretos que emergem do imperativo cristão, da consciência cristã devidamente formada, que se torna experiência cristã aplicada. Neste sentido é que o documento número 40 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, fruto da 26ª Assembleia Geral, ocorrida em Itaici-SP, de 13 a 22 de abril de 1988, lembra:

A consciência que tem a Igreja da sua missão evangelizadora a leva a: publicar documentos sobre a nossa situação política e suas exigências de justiça social e de consciência moral; criar organismos de solidariedade em favor dos oprimidos e valorizar as organizações populares e suas iniciativas de participação; denunciar as violações dos direitos humanos, alertando contra novos mecanismos discriminatórios e contra entidades que se apresentam com falsa feição democrática; encorajar a opção evangélica pelos pobres e a suportar a perseguição e, às vezes, a morte, como testemunho de sua missão profética; contribuir para a educação política a fim de que a pessoa humana seja sujeito de sua história e exerça com responsabilidade a sua cidadania política; acompanhar os cristãos engajados na política partidária (CNBB, Doc. 40, n. 214).

O Catecismo nos ensina no número 1878 que “todos os homens são chamados ao mesmo fim, que é o próprio Deus”, e dessa forma “existe certa semelhança entre a unidade das pessoas divinas e a fraternidade que os homens devem instaurar entre si, na verdade e no amor”. Ou seja, Deus é Comunidade de pessoas que se amam mutuamente. É o que chamamos de pericórese trinitária, ou seja, “inter-relacionamento eterno que existe entre os Divinos Três. Cada Pessoa vive da outra, com a outra, pela outra e para a outra Pessoa. Elas estão desde sempre interlaçadas e interpenetradas, de sorte que não podemos pensar nem falar de uma pessoa, como, por exemplo, do Pai, sem ter que pensar e falar também do Filho e do Espírito Santo” (BOFF, 1999, p. 173). Assim, vemos que o amor ao próximo é inseparável do amor a Deus e que o fato de amar a Deus traz necessariamente a exigência do amor ao próximo, o que implica necessariamente o envolvimento na vida dos indivíduos e dos grupos.

Aqui, porém, não se pode perder de vista que os conceitos de caridade e de justiça caminham juntos e não podem ser dissociados da dimensão política. Estas duas virtudes complementam uma à outra. Estão intimamente ligadas, de modo que a integração completa da justiça e da caridade ou amor é uma característica essencial da doutrina moral individual e social cristã. O amor ao próximo se revela ineficaz se não tivermos a intenção de modificar as causas das situações nas quais ele se encontra, sejam situações de ordem social, cultural, econômica ou política. Nesta perspectiva, diante de um pobre, não podemos nos contentar com o dar-lhe comida, mas devemos buscar as causas da sua pobreza e, uma vez encontradas, juntamente com ele, vencê-las para que ele se sinta verdadeiramente uma pessoa. Isso nos faz lembrar do bispo brasileiro dom Helder Câmara, que disse certa vez: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que os pobres não têm comida, me chamam de comunista”.

Somos, então, chamados pela Igreja a lutar contra toda espécie de inversão dos meios e dos fins. O ser humano não pode, em circunstância alguma, ser coisificado. A dignidade da pessoa deve ser sempre defendida e salvaguardada. E é por isso que o cristão deve ser e ter uma postura verdadeiramente cristã na sociedade para lutar contra todas as estruturas de morte presentes. “A inversão dos meios e dos fins, que chega a dar valor de fim último ao que não passa de meio para a ele chegar ou a considerar as pessoas como puros meios com vista a um fim, gera estruturas injustas que ‘tornam árduo e praticamente impossível um procedimento cristão, conforme com os mandamentos do divino legislador’” (Catecismo, n. 1887).

É na participação ativa no meio da sociedade, no socorro dos irmãos, nas práticas concretas do bem, no envolvimento com os problemas e dificuldades dos outros, enfim, no bom desempenho das atividades sociais, que se vai, cada dia, tornando-se mais santo. Se o amor é a chave, a fonte, a porta, o meio e fim para a santidade, sem dúvida a caridade “constitui o maior mandamento social. Ela respeita o outro e os seus direitos, exige a prática da justiça, de que só ela nos torna capazes e inspira-nos uma vida de entrega: ‘Quem procurar preservar a vida, há de perdê-la; quem a perder, há de salvá-la’ (Lc 17,33)” (Catecismo, n. 1889). O cristão é, pois, chamado a agir nas instâncias públicas, a fim de favorecer o estabelecimento de situações legais, econômicas e políticas justas, nas quais os direitos da pessoa sejam respeitados, de forma que não haja nenhuma espécie de discriminação e as pessoas, por si próprias, tenham a possibilidade de vencer os limites da pobreza e da exclusão social. Nesta perspectiva, compreendemos o que nos ensina o papa Bento XVI, logo no início da sua terceira carta encíclica:

A caridade na verdade, que Jesus Cristo testemunhou com a sua vida terrena e sobretudo com a sua morte e ressurreição, é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. O amor é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz. É uma força que tem a sua origem em Deus, Amor eterno e Verdade absoluta. Cada um encontra o bem próprio, aderindo ao projeto que Deus tem para ele a fim de o realizar plenamente: com efeito, é em tal projeto que encontra a verdade sobre si mesmo e, aderindo a ela, torna-se livre (Caritas in Veritate, n. 1).

Toda ação deve ser para promover o bem comum, a partir da aplicação coerente da lei moral. Isso vale, sobretudo, para aqueles que desempenham a grave missão do exercício da autoridade em meio à sociedade. Tal autoridade “só é exercida legitimamente se procurar o bem comum do respectivo grupo e se, para o atingir, empregar meios moralmente lícitos. No caso de os dirigentes promulgarem leis injustas ou tomarem medidas contrárias à ordem moral, tais disposições não podem obrigar as consciências. “Neste caso, a própria autoridade deixa de existir e degenera em abuso do poder’” (Catecismo, n. 1903).

Mas, afinal, que bem comum é este? O que significa? No número 1906 o Catecismo, citando a Constituição Pastoral Gaudium et Spes n. 26, explica que, por bem comum, deve entender-se “o conjunto das condições sociais que permitem, tanto aos grupos como a cada um dos seus membros, atingir a sua perfeição, do modo mais completo e adequado” e que “o bem comum interessa à vida de todos. Exige prudência da parte de cada um, sobretudo da parte de quem exerce a autoridade”. E inclui três elementos essenciais: o respeito da pessoa como tal, onde, em nome do bem comum, os poderes públicos são obrigados a respeitar os direitos fundamentais e inalienáveis da pessoa humana (cf. Catecismo, n. 1907), o bem-estar social e o desenvolvimento da própria sociedade, de forma que à autoridade compete arbitrar, em nome do bem comum, entre os diversos interesses particulares; mas deve tornar acessível a cada qual aquilo de que precisa para levar uma vida verdadeiramente humana: alimento, vestuário, saúde, trabalho, educação e cultura, informação conveniente, direito de constituir família (cf. n. 1908), e, finalmente, o bem comum implica a paz, quer dizer, a permanência e segurança duma ordem justa, de maneira que a autoridade assegure, por meios honestos, a segurança da sociedade e dos seus membros (cf. n. 1909). É por isso também que “é necessário que todos tomem parte, cada qual segundo o lugar que ocupa e o papel que desempenha, na promoção do bem comum. Este é um dever inerente à dignidade da pessoa humana” (n. 1913).

Mas, na prática, como se pode realizar este imperativo? “A participação realiza-se, primeiro, ao encarregar-se alguém dos setores de que assume a responsabilidade pessoal: pelo cuidado que põe na educação da família, pela consciência com que realiza o seu trabalho, o homem participa no bem dos outros e da sociedade” (Catecismo, n. 1914). E ainda, “os cidadãos devem, tanto quanto possível, tomar parte ativa na vida pública. As modalidades desta participação podem variar de país para país ou de uma cultura para outra” (n. 1915).

O Catecismo fala também da necessidade de uma conversão incessantemente renovada dos parceiros sociais, em que seja combatida toda espécie de fraude e subterfúgios, usados para se esquivar do dever social (cf. n. 1916). E aqui uma tarefa bastante grave daqueles que exercem cargos de autoridade de garantir, sobretudo por meio da educação e da cultura, os valores que motivam o serviço ao próximo (cf. n. 1917). Dessa forma, todos devemos zelar para que haja verdadeiro respeito para com a dignidade do ser humano respaldada nos seus direitos genuínos que diferem de reivindicações abusivas e falsas. Este dever vale, sobretudo, para as autoridades (cf. n. 1930).

Mais uma vez, aparece em destaque a necessidade de promover sempre mais uma cultura da caridade. Não de um assistencialismo interesseiro, ou forma de desencargo de consciência, mas a prática de uma caridade genuinamente evangélica, a única capaz de fazer desaparecer os temores, os preconceitos, as atitudes de orgulho e egoísmo, que são obstáculo ao estabelecimento de sociedades verdadeiramente fraternas. Uma caridade verdadeira, que, antes de tudo, quer a justiça, base necessária da vida social. Uma caridade que não seja somente afetiva, mas efetiva e eficaz. Só por meio da caridade é que se pode reconhecer cada ser humano como um próximo, um irmão (cf. n. 1931). Neste contexto, categoria muito importante usada pelo Catecismo é a da solidariedade, também enunciada sob o nome de amizade ou de caridade social, exigência direta da fraternidade humana e cristã (n. 1939). A solidariedade “manifesta-se, em primeiro lugar, na repartição dos bens e na remuneração do trabalho. Implica também o esforço por uma ordem social mais justa, em que as tensões possam ser resolvidas melhor e os conflitos encontrem mais facilmente uma saída negociada” (n. 1940).

É certo que a solidariedade vai além dos bens materiais e inclui também os bens espirituais da fé, que precede qualquer bem, mas, ao mesmo tempo, deve favorecer, por acréscimo, o desenvolvimento dos bens temporais, conforme diz a Palavra de Deus: “Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo” (Mt 6,33) (cf. Catecismo, n. 1942).

De fato, o ser humano se realiza nas suas relações com os outros, na prática do bem, na participação da vida social, no cuidado para com seus semelhantes, na busca incessante de parceria no desenvolvimento de seu próprio ser sociocultural, na promoção da sua própria dignidade exercendo seus direitos e deveres, mas também na promoção da dignidade do outro, reconhecendo e favorecendo o exercício desses mesmos direitos. E a vida pública, a política, revela-se um meio privilegiado por meio do qual o ser humano pode dar a sua contribuição particular no propósito da construção de um mundo cada vez mais justo, de uma humanidade cada vez mais humana, de uma sociedade cada vez mais equilibrada, de uma caridade cada vez mais efetiva. Sem dúvida, o envolvimento na vida da sociedade, sobretudo na participação ativa na vida pública, caracteriza uma situação propícia para a realização do ser humano. O documento conclusivo de Puebla, no número 521, diz:

A política, em seu sentido mais amplo que visa ao bem comum […] corresponde-lhe precisar os valores fundamentais de toda comunidade – a concórdia interna e a segurança externa – conciliando a igualdade com a liberdade, a autoridade pública com a legítima autonomia e participação das pessoas e grupos, a soberania nacional com a convivência e solidariedade internacional. Define também os meios e a ética das relações sociais. Neste sentido amplo, a política interessa à Igreja e, portanto, a seus pastores, ministros da unidade. É uma forma de dar culto ao único Deus, consagrando o mundo a Ele (Documento de Puebla, n. 521).

É importante recordarmos as palavras do papa Pio XI, no seu discurso aos dirigentes da Fuci (Federação Universitária Católica Italiana), em que respondia à tentação de certo número de católicos italianos de renunciar à ação política em uma sociedade que se inspirava em princípios diferentes destes. Ali se desenvolveu a ideia de “caridade política” para qualificar o empenho dos cristãos na realização do bem comum. Pio XI afirmou que o domínio da política é o campo mais propício à caridade, de modo que a caridade política consiste em um compromisso ativo e operante, fruto do amor cristão aos outros homens, considerados como irmãos, em vista de um mundo mais justo e fraterno, com uma atenção particular às necessidades dos mais pobres:

Cumprem um dos maiores deveres cristãos, porque é mais vasto e importante o campo em que se pode trabalhar, mais importante é a exigência. E tal é o campo da política que diz respeito aos interesses da sociedade e que, sob este perfil, é o maior campo da caridade, da caridade política, a qual se poderia dizer sem dúvida, fora da religião, ser superior (L’Osservatore Romano [23 dez.1927], p. 3).

Por fim, aprendemos que a pessoa humana é dotada de razão e consciência. É isto que lhe permite discernir o que é verdadeiramente bom e justo. A filosofia antiga e a tradição cristã ensinam que a consciência distingue o justo e o injusto e que a pessoa só se realiza na polis, na ordem social (cf. CNBB, Doc. 50, n. 11).

Bibliografia

BENTO XVI. Deus Caritas Est (25 dez. 2005): carta encíclica sobre o amor cristão. São Paulo: Paulinas, 2006. (Voz do Papa, 189).

______. Caritas in Veritate (29 jun. 2009): carta encíclica sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade. São Paulo: Paulinas, 2009. (Voz do Papa, 193).

BOFF, Leonardo. A Santíssima Trindade é a melhor comunidade. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 3. ed. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Paulinas: Loyola: Ave-Maria, 1993.

CELAM. Documento de Puebla: evangelização no presente e no futuro da América Latina. São Paulo: Paulinas, 1979.

CNBB. Igreja: comunhão e missão na evangelização dos povos, no mundo do trabalho, da política e da cultura. São Paulo: Paulinas, 1988. (Documentos da CNBB, 40).

______. Ética, pessoa e sociedade. São Paulo: Paulinas, 1993. (Documentos da CNBB, 50).

CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Gaudium et Spes (7 dez. 1965): constituição pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje. São Paulo: Paulinas, 1967. (Voz do Papa, 41).

PIO XI. Discorso agli universitari cattolici (18 dez. 1927). L’Osservatore Romano, Roma, 23  dez. 1927, p. 3.

Pe. Ademir Nunes Farias

Sacerdote da Diocese de São José dos Campos-SP. Mestre em Teologia Moral pela Academia Alfonsiana – Roma.
E-mail: ademirfarias@terra.com.br