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Publicado em julho-agosto de 2023 - ano 64 - número 352 - pp.: 32-39

A solidariedade como possibilidade para um mundo pós-pandemia: uma releitura da teologia do Servo sofredor na paixão de Jesus segundo o Evangelho de Marcos (14,1-16,8)

Por Padre Junior Vasconcelos do Amaral*; Gustavo César dos Santos**

Valendo-nos tanto da Doutrina Social da Igreja quanto das catequeses Curar o mundo de Francisco, assim como dos textos da exortação Evangelii Gaudium (2013) e das encíclicas Laudato Si’ (2015) e Fratelli Tutti (2020), também do Sumo Pontífice, desejamos compreender, a partir do horizonte pastoral, o sentido hermenêutico da solidariedade, alargando esse conceito, aplicando-o aos “povos crucificados” do presente e afirmando a necessidade de descê-los da cruz.

 

Introdução

“Por que há, ainda, no mundo de hoje tanto sofrimento, tanta paixão humana, tão escandalosa como aquela sofrida na cruz por Jesus? Há, nos dias de hoje, meios de suscitar a misericórdia, a com-paixão para com os sofredores, ungindo-os em suas debilidades e descendo-os da cruz […]” (AMARAL, 2016, p. 222), de modo a amenizar seus sofrimentos, especialmente os daqueles atingidos pela pandemia? A covid-19 tem acentuado imensamente o sentimento de crise do mundo contemporâneo, a sensação real de impotência humana e o sofrimento das pessoas, de modo particular dos pobres e dos marginalizados. Assim, a pergunta fundamental, motivadora deste artigo, é: como a reflexão teológica – ou ainda, como o Evangelho de Jesus – ilumina toda esta realidade tão complexa em que vivemos atualmente? Como o Filho de Deus, centro da fé cristã, responde aos dilemas contemporâneos, especialmente àqueles acentuados pela pandemia da covid-19?

 A relevância e a justificativa deste artigo giram em torno da possibilidade de superação das dificuldades da contemporaneidade, entre as quais se encontram as consequências pandêmicas: luto, desamparo, dor e sofrimento; desemprego, fome e desigualdade social; não acesso à saúde, à educação e à dignidade de vida. Desse modo, a solidariedade torna-se horizonte hermenêutico de superação das dificuldades atuais.

Todo esse cenário pode ser lido e interpretado segundo o paradigma da solidariedade para com Jesus Cristo, que caminha rumo à morte. O cenário no qual se insere o Filho de Deus – que se reveste do ebed IWHW veterotestamentário –, o “servo individual”, é desolador, de modo que se podem traçar paralelos com a humanidade e a coletividade – o “servo coletivo” (CULLMANN, 2002, p. 79) –, que padece com o cenário contemporâneo, marcado duramente pela pandemia da covid-19. O intercâmbio de perspectivas horizontais e relacionais, da morte de Jesus e da morte e sofrimento, hoje, de inúmeras e incontáveis pessoas, faz que se pergunte sobre o real sentido da vida e as possibilidades da solidariedade humana em meio à dor. Há, assim, sentido em amar e servir os que sofrem!

1. A teologia do Servo sofredor no relato da paixão do Evangelho de Marcos (14,1-16,8)

No Antigo Testamento, depara-se com a figura do profeta. Ele “é mediador, lugar-tenente do Senhor, receptor e articulador de sua palavra, sentinela e guardião. […] não mantém posto fixo: é trombeta volante que invade a praça, o palácio, o átrio do templo. Ressoam seus gritos em todas as camadas da sociedade” (SCHÖKEL; SICRE DIAZ, 1988, p. 37). Os profetas estão à disposição de Deus, sobretudo pelo uso da linguagem. Eles são homens da palavra e, por isso, estão a serviço dela.

Os profetas estão na raiz da teologia de Israel. Diante das diferenças existentes entre eles, todos convergem em dois aspectos principais, a saber: a fidelidade à Aliança e a certeza da salvação. Deus é quem faz aliança com seu povo, mostrando-se sempre fiel às suas promessas. Em contrapartida, o mesmo Deus corrige e adverte o povo, mantendo-o sempre num caminho de retorno à fidelidade (BÍBLIA SAGRADA, 2014, p. 1007). Nesse sentido, o livro do profeta Isaías, além de ser relevante para a tradição cristã, ocupa um espaço considerável na teologia de Israel. Aqui, nosso esforço, entrementes, volta-se ao segundo bloco de Isaías, entre os capítulos 40 e 55, bloco em que se encontram os quatro cânticos do Servo sofredor (42,1-4; 49,1-7; 50,4-11; 52,13-53,12).

Buscamos, assim, o resgate da figura veterotestamentária do Servo sofredor de Adonai, presente tanto na teologia de Israel, de modo geral, quanto nos quatro cânticos do profeta Isaías, de modo específico. Nesse sentido, constatamos que o ebed Adonai, em grego παις θεού, é, segundo Cullmann (2002, p. 80), o Servo do Senhor que sofre. Ele tem vocação dramática e trágica, contudo gloriosa, por meio do sofrimento. É o estabelecimento do máximo paradoxo: é a vitória por meio do fracasso; é a luta entre o ser e o não ser, entre a vida e a morte; é a palavra e o silêncio; é a presença misteriosa de um “Deus escondido”. O Servo de Adonai é o mediador da salvação que virá; ele é luz das nações, pregador da verdadeira fé, e, por sua morte, expia os pecados do povo, sendo glorificado por Deus. Além desses, outros aspectos podem ser levados em consideração, por exemplo: a identidade do Servo – se ele seria um indivíduo ou uma coletividade; a ideia de substituição – se o ebed é o Servo de Deus que sofre, seu sofrimento é substitutivo, pois o sofrimento de inúmeras pessoas corresponde ao seu, de modo que a aliança de Deus para com seu povo é restabelecida por meio da obra do ebed.

Afinal, com certa inquietação, perguntamo-nos: quem é esse personagem? Ou com quem ele se parece? A exemplo do eunuco de Candace, no livro dos Atos dos Apóstolos, que pediu a Filipe uma explicação daquele trecho de Is 53,7s, depois de tanto tempo ainda nos fazemos a mesma pergunta. “Abrindo a boca e partindo dessa passagem da Escritura, Filipe lhe anunciou a Boa-nova de Jesus” (At 8,35). Para Schökel e Sicre Diaz (1988, p. 358), “Jesus Messias quis modelar a sua vida segundo o modelo de Is 53 […]. Em Jesus, a figura poética tornou-se realidade, nele ‘realizou essa passagem’ (Lc 4,21)”. Em última instância, Jesus Cristo, o Filho de Deus, assumiu e realizou plenamente, em si mesmo, a missão do Servo sofredor de Adonai. Além disso, ainda nessa unidade, sob a égide do relato da paixão segundo o Evangelho de Marcos (14,1-16,8), relemos essa figura do Antigo Testamento à luz de Jesus Cristo, compreendendo como o Filho de Deus realiza, em si mesmo, a obra do Servo sofredor de Adonai. Nesse sentido, percebemos que, ao longo de sua missão, Jesus, paulatinamente, foi tomando consciência de ser ele mesmo o Servo sofredor, aquele que cumpriria por completo a figura misteriosa dos cânticos de Isaías.

2. Hermenêutica cristológica entre o Crucificado e os “crucificados” da pandemia da covid-19

Este segundo momento de nosso artigo possui como moldura espaçotemporal a contemporaneidade, com seus limites e possibilidades. O tempo atual possui outra gramática simbólica, diferente de todas as anteriores, que, historicamente, já experimentamos: o modo como entendemos o tempo, o espaço, o corpo, o outro, a sociedade, a verdade e a linguagem, por exemplo, não é o mesmo que em outros tempos. A subjetividade dos sujeitos está aflorada de um modo como nunca esteve antes, incentivada, muitas das vezes, pelo uso das tecnologias e pelo acesso às redes sociais. Tudo muda tão rapidamente, que se vive num tempo de grande insegurança e imprevisibilidade. É nesse universo complexo e multifacetado que emerge a pandemia da covid-19.

Assim, devemos repensar a pandemia no mundo contemporâneo na perspectiva dos sofrimentos e dificuldades das pessoas, especialmente das mais vulneráveis. Importantes também são as reflexões do sumo pontífice Francisco, quando ele questiona se as dificuldades vivenciadas atualmente não são faces diferentes de uma mesma crise. “E se os desafios econômicos, sociais e ecológicos que enfrentamos forem produtos de uma única e mesma crise?”, interpela-nos Francisco. Destacamos aqui a referência à ecologia integral, termo explorado na encíclica Laudato Si’ (2015).

Em seguida, desejamos nos apropriar do termo cunhado por Ellacuría (1978; 1981) e bastante utilizado por Jon Sobrino (1994) – “povos crucificados” –, na tentativa de realizar uma hermenêutica dos sofrimentos e dificuldades dessas pessoas, os “crucificados” da realidade de hoje, em relação a Jesus Cristo, o Crucificado, Servo sofredor de Adonai. A plausibilidade do emprego do termo “povos crucificados” – e expressões equivalentes –assenta-se, para Sobrino (1994, p. 83), não somente em razões históricas, pensando em como está a realidade atual, mas, principalmente, em razões teológicas, refletindo sobre como está a criação divina, especialmente o ser humano. “Povos crucificados”, decerto, é linguagem metafórica que comunica uma realidade histórico-material e aponta, diretamente, seu significado para a fé.

Nesse sentido, pode-se perguntar qual seria um caminho possível diante deste cenário difícil que se apresenta a todos. Sobrino (1994, p. 90) fala da necessidade de descer da cruz os “povos crucificados”. Em paralelo a essa linha de pensamento está o papa Francisco (2020b, p. 60-61), que afirma: “quando a Igreja fala da opção preferencial pelos pobres, significa que devemos sempre considerar o impacto das decisões que tomamos na vida dos mais pobres. Mas também significa que devemos pôr os pobres no centro do nosso modo de pensar”. Assim, com base nesses autores e reflexões, intuímos que um dos modos de descer da cruz os “crucificados” é colocar os pobres como centro do modo de pensar e agir do ser humano, seja no nível religioso, seja no nível social.

3. A solidariedade como chave hermenêutica para a realidade contemporânea: possibilidades para os “crucificados” de hoje

Neste artigo, a solidariedade é apresentada como caminho possível para a superação das dificuldades do mundo contemporâneo, de modo geral, e das consequências da pandemia da covid-19, de modo particular. A solidariedade se torna chave hermenêutica em vista da superação das questões já abordadas. Para tanto, nas perspectivas de Amaral (2016) e de Brown (2011), é importante intuir, por exemplo, o significado da presença de personagens solidários na cena da paixão de Jesus segundo o evangelista Marcos, sobretudo a mulher que unge Jesus em Betânia (14,3-9), Simão Cirineu (15,21), José de Arimateia (15,43-46) e as mulheres que acompanhavam e serviam a Jesus desde a Galileia (15,40-41.47; 16,1ss).

A solidariedade é valor que atua como princípio permanente, iluminando as ações que compõem a convivência. Ser solidário com o próximo é tecer laços de comunidade, é dar prioridade à vida de todos, ainda que isso dificulte ou impeça a prosperidade de alguns. A solidariedade é força motora da história. Se for levada até as últimas consequências, ela vai tornar a Terra – nossa Casa Comum – um espaço de vida abundante, capaz de acolher a todos os homens e mulheres e todas as espécies vivas numa grande e complexa comunidade.

Considerações finais

Ao final deste artigo, chegamos a algumas conclusões: Jesus Cristo é o Servo sofredor de Adonai, profetizado por Isaías nos quatro cânticos do ebed e atualizado no relato marcano da paixão; vimos, também, que Jesus Cristo experimentou, no caminho do Calvário, expressões de solidariedade de pessoas humanas; refletimos que, do mesmo modo, também se pode pensar a solidariedade humana, em tempos de pandemia, com os “crucificados” de hoje. Luto, dor, sofrimento, desamparo, desemprego, fome, desigualdade social, violência, não acesso à saúde, à educação e à dignidade de vida são exemplos de situações que podem ser superadas, de forma conjunta, com a prática da solidariedade fraterna. Observa-se a relação entre o texto bíblico da paixão de Jesus, as expressões de solidariedade presentes no próprio texto e o horizonte pandêmico que se descortina, em consonância também com as expressões de solidariedade e compaixão em favor dos que sofrem na atualidade, os “crucificados” da pandemia.

A solidariedade torna-se, nesse sentido, chave hermenêutica, caminho concreto e passível de ser trilhado em vista da superação dessas dificuldades. A solidariedade é indicativo de que, na realidade pandêmica atual, é possível se inspirar em ações evangélicas e promovê-las, de modo que ajudem a minimizar os impactos causados pela covid-19. Em nosso tempo, a solidariedade é caminho a ser percorrido rumo a um mundo pós-pandemia, para a cura das doenças interpessoais e sociais. Contemporaneamente, existem cruzes escandalosas, sinônimas de injustiça e desigualdade sociais, de altos índices de desemprego e fome, de violência e marginalização, de falta de acesso aos sistemas de saúde e educação de qualidade, por exemplo. Essas cruzes escandalosas fazem ainda muitas vítimas em todo o mundo. Afirma-nos Amaral (2016, p. 267) que, “suspensos nessas cruzes, estão os incontáveis rostos desfigurados pelas feridas causadas por um sistema que viola os direitos, assassina, tortura, massacra, com suas aversões, tanto aos estrangeiros, aos pobres, às mulheres, aos homossexuais e às classes minoritárias”. Na tarefa de anunciar e testemunhar o Evangelho de Jesus Cristo na fidelidade, deve haver o esforço para descer esses “crucificados” de suas cruzes.

Enfim, se o Crucificado, Filho de Deus, está em profunda intimidade e relação teológica com os “crucificados” de hoje, então o Evangelho veicula grande “potencial de sentido”, atualiza-se nas intempéries do tempo e torna-se sinal de esperança, de seguimento e de superação das dificuldades.

Referências bibliográficas

AMARAL, Junior Vasconcelos do. A paixão de Jesus no Evangelho de Marcos (14,1-16,8): uma leitura narratológica. 2016. Tese (Doutorado em Teologia) – Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, Belo Horizonte, 2016. Disponível em: https://faculdadejesuita.edu.br/wp-content/uploads/2022/05/A-PAIXAO-DE-JESUS-NO-EVANGELHO-DE-MARCOS-141%E2%80%93168-UMA-LEITURA-NARRATOLOGICA.pdf. Acesso em: 3 fev. 2023.

BÍBLIA Sagrada: Nova Bíblia Pastoral. São Paulo: Paulus, 2014.

BROWN, Raymond E. A morte do Messias: comentário das narrativas da paixão nos quatro Evangelhos. Tradução de Barbara Theoto Lambert. São Paulo: Paulinas, 2011. v. 2.

CULLMANN, Oscar. Cristologia do Novo Testamento. Tradução de Daniel de Oliveira e Daniel Costa. São Paulo: Custom, 2002.

ELLACURÍA, Ignacio. Discernir “el signo” de los tiempos. Diakonía, Managua, n. 17, p. 57-59, 1981.

ELLACURÍA, Ignacio. El pueblo crucificado: ensayo de soteriología histórica. Revista Latinoamericana de Teología, San Salvador, n. 18, p. 305-333, 1978.

FRANCISCO. Evangelii Gaudium: Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulus, 2013.

FRANCISCO. Fratelli Tutti: Carta Encíclica sobre a fraternidade e a amizade social. São Paulo: Paulus, 2020a.

FRANCISCO. Laudato Si’: Carta Encíclica sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulus, 2015.

FRANCISCO. Vamos sonhar juntos: o caminho para um futuro melhor. Tradução de Austen Ivereigh. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020b.

SCHÖKEL, L. Alonso; SICRE DIAZ, J. L. Profetas I: Isaías e Jeremias. Tradução de Anacleto Alvarez. São Paulo: Paulus, 1988. (Grande Comentário Bíblico.)

SOBRINO, Jon. O princípio misericórdia: descer da cruz os povos crucificados. Petrópolis: Vozes, 1994.

Padre Junior Vasconcelos do Amaral*; Gustavo César dos Santos**

*é doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje). Professor adjunto no Departamento de Teologia da PUC-Minas. Autor do livro A paixão de Cristo: uma leitura narrativa, pela Editora Saber Criativo. Presbítero do clero de Belo Horizonte-MG. E-mail: [email protected]
**é graduado em Filosofia e em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas). E-mail: [email protected]