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Publicado em Julho - Agosto. Ed.322 - Ano 59

Dom Helder Camara e as juventudes

Por Ivanir Antonio Rampon

Introdução

Dom Helder Pessoa Camara (1909-1999), juntamente com Gandhi e Martin Luther King, é tido como símbolo mundial para as juventudes que buscam, de modo pacífico, a paz e a justiça no mundo. Descreverei brevemente como dom Helder fomentou o apostolado juvenil, tendo a “juventude” como nota essencial da sua personalidade, espiritualidade, mística, profecia e missão pastoral (RAMPON, 2013).

  1. Dom Helder e o apostolado juvenil

Desde jovem seminarista, Helder fomentou o apostolado juvenil, sendo fundador da Juventude Operária Católica do Ceará. Como padre, foi o configurador da Ação Católica do Brasil, ao estilo da Juventude Operária Católica belga. Como arcebispo, missionário de Jesus e animado pelo espírito do Vaticano II, viajou o mundo inteiro conclamando as juventudes para se unirem na luta a fim de superar as divisões entre primeiro, segundo, terceiro e quarto mundos e criar “um mundo de irmãos”. No Brasil, sempre trabalhou cercado de jovens e com as juventudes; criou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, o Conselho Episcopal Latino-Americano, a Cruzada de São Sebastião, o Banco da Providência, o Movimento de Educação de Base, a Operação Esperança, o Encontro de Irmãos, a Ação Justiça e Paz…

Durante o período ditatorial, vários jovens diretamente ligados a dom Helder foram presos e torturados, e o jovem padre Henrique Pereira Neto (hoje sepultado ao lado do arcebispo), que animava a Juventude Universitária, foi trucidado. Dom Helder acompanhava os jovens presos e torturados, bem como as suas famílias, que padeciam profundamente.

A ditadura perseguiu dom Helder, caluniou-o e impôs-lhe uma das piores censuras, a chamada “lei do gelo”, porque ele evangelizava e conscientizava as juventudes de seus direitos e deveres. O arcebispo foi, com as juventudes, um dos mais importantes fomentadores da luta em prol da abertura democrática.

Enfim, dom Helder entendia que o futuro da Igreja na América Latina estava ligado ao “mundo” – especialmente às “periferias”, como tem repetido o papa Francisco – e, por isso, ele fomentou a articulação da pastoral da juventude com as pastorais da terra, da saúde, da educação, operária, indígena, afro…

  1. Juventude, nota essencial da personalidade helderiana

A par de sua atuação junto às juventudes, podemos dizer que a “juventude” era nota essencial da personalidade helderiana. Ele não conseguia nem queria ser diferente. Sentia necessidade de estar com os jovens para escutá-los, animá-los, defendê-los e dirigir-lhes mensagens de compromisso evangélico.

Mesmo depois dos 60 anos, o rosto de dom Helder, seus gestos, palavras e humor transmitiam juventude. Seus olhos recônditos e profundos possuíam a luminosidade de um místico e de um profeta. Conservava o dinamismo otimista dos anos floridos. Como homem de Igreja, não tinha idade: vivia a novidade do Espírito, o novo Pentecostes da Igreja sempre nova, que está com a juventude nova.

Por isso, ele atraía as juventudes, compreendia suas ideias, reivindicações e fraquezas. Fazia questão de visitar os jovens na própria casa, conversava com eles informalmente, e estes lhe revelavam coisas íntimas sobre temas religiosos e morais, sociais e políticos. Os jovens frequentavam o “palácio episcopal” e a casinha do bispo, na sacristia da Igreja das Fronteiras. Muitos jovens do mundo inteiro apoiavam as suas mensagens e, quando ele convocava para atividades, respondiam positivamente.

Para dom Helder, a juventude não era somente a falta de rugas e a velhice não era unicamente a idade avançada. O que importava mesmo era a idade do coração e do espírito. Ele gostava de dizer:

O segredo de ser jovem – mesmo quando os anos passam, deixando marcas no corpo –, o segredo da perene juventude de alma é ter uma causa a dedicar a vida. E temos mil razões para viver… Com 20 anos, sem sombra de ruga ou cabelo branco, é possível ser um vencido da vida, um pessimista, um velho! […] Abraçar uma grande causa, ser-lhe fiel, sacrificar-se por ela, é importante como acertar a escolha da vocação (CAMARA, 1976, p. 38).

Sabia que o evangelho nos lança para grandes causas, como a “causa do século”, ou seja, completar o 13 de maio – a libertação de todas as escravidões –, e o 7 de setembro – a verdadeira independência dos países. Por isso, ele podia dizer que “é também possível ter várias vezes dezoito anos, ser velho por fora e conservar intacta a juventude do espírito, do pensamento e do coração: o jovem mais jovem com quem encontrei no meu caminho tinha mais de oitenta anos e se chamava João XXIII” (CAMARA, 1976, p. 39).

Paulo VI gostava de recordar que, depois de anos, o sorriso e o olhar de dom Helder não envelheciam… A criança e o jovem continuavam vivos dentro dele (RAMPON, 2013, p. 45). Como afirma a canção “Dom”, dedicada a dom Helder: “Continuas um menino, querido ancião do povo. […] Meu menino-ancião […] o teu velho coração, sempre jovem, sempre bom, é o que me leva a chamar-te Simples, Simplesmente Dom”.

A vocês, jovens do tempo presente, o que diria hoje dom Helder? Continuaria deixando suas mensagens de paz, de esperança, de fé. Penso que pronunciaria o que está dizendo o papa Francisco:

Sim, jovens; ouvistes bem: ir contra a corrente. Isto fortalece o coração, já que ir contra a corrente requer coragem e Ele dá-nos esta coragem. […] Com Ele, podemos fazer coisas grandes; Ele nos fará sentir a alegria de sermos seus discípulos, suas testemunhas. Apostai sobre os grandes ideais, sobre as coisas grandes. Nós, cristãos, não fomos escolhidos pelo Senhor para coisinhas pequenas, ide sempre mais além, rumo às coisas grandes. Jovens, jogai a vida por grandes ideais! (FRANCISCO, 2013).

Bibliografia

CAMARA, H. O deserto é fértil: roteiro para as minorias abraâmicas. 4 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.

PAPA FRANCISCO. Santa missa e crisma: homilia do santo padre Francisco. Disponível em: <http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2013/documents/papa-francesco_20130428_omelia-cresime.html>. Acesso em: 28 fev. 2018.

RAMPON, I. A. Francisco e Helder, sintonia espiritual. São Paulo: Paulinas, 2016.

______. O caminho espiritual de dom Helder Camara. São Paulo: Paulinas, 2013.

Ivanir Antonio Rampon

Pe. Ivanir Antonio Rampon é presbítero da Arquidiocese de Passo Fundo (RS) e professor da Itepa Faculdades. Mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Belo Horizonte) e doutor em Teologia Espiritual pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma). E-mail: iarampon@yahoo.com.br.