Artigos

Publicado em setembro-outubro - ano 61 - número 335 - Pág.: 14-22

Revelar o amor de Deus: Uma chave para o livro do Deuteronômio

Por Carlos Mesters; Francisco Orofino

INTRODUÇÃO

O Deuteronômio é o quinto livro da Bíblia. Faz parte de um conjunto de cinco livros chamado Pentateuco, também conhecido como Torá ou Lei sagrada. A palavra Deuteronômio vem da língua grega. Significa “Segunda Lei”: deutero (segunda), nomos (lei). Trata-se da segunda apresentação da Lei de Deus ao povo, feita por Moisés, no fim dos 40 anos de travessia pelo deserto (Dt 1,1-5; 4,46). A primeira apresentação foi feita pelo próprio Deus no monte Sinai, logo após a saída do Egito (Ex 20,1-21). Esta segunda apresentação da Lei, o Deuteronômio, é uma atualização ou releitura da mesma Lei de Deus em vista dos fatos novos, acontecidos depois da primeira edição. Entre uma edição e outra, houve longa caminhada histórica.

Na Bíblia hebraica, o nome do livro do Deuteronômio é Debarim, que significa “Palavras”, por ser esta a primeira palavra do livro, que começa assim: “[Estas são as] Palavras que Moisés dirigiu a todo Israel no outro lado do Jordão” (Dt 1,1).

O nome Deuteronômio também tem a ver com a ordem de Deus para os reis de Israel. Ele disse:

Quando subir ao trono, ele [o rei] mandará escrever num livro, para seu próprio uso, uma cópia desta lei, ditada pelos sacerdotes levitas. Ela ficará sempre com ele, que a lerá todos os dias de sua vida, para que aprenda a temer a Yhwh seu Deus, observando todas as palavras desta lei e colocando estes estatutos em prática (Dt 17,18-19).

Assim, todos os reis deviam ter em mãos esta segunda cópia da Lei de Deus (Deutero-nômio) como norma para poderem governar bem o povo de Deus.

O Deuteronômio trata de temas fundamentais para a fé e a espiritualidade do povo de Deus. O tema central está bem expresso nesta frase do próprio livro:

Ouve, ó Israel: Yhwh nosso Deus é o único Yhwh! Portanto, amarás a Yhwh teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força. Que estas palavras que hoje te ordeno estejam em teu coração! Tu as inculcarás aos teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando em teu caminho, deitado e de pé. Tu as atarás também à tua mão como um sinal, e serão como um frontal entre os teus olhos; tu as escreverás nos umbrais da tua casa, e nas tuas portas (Dt 6,4-9).

1. O MOVIMENTO DEUTERONOMISTA

Antes de chegar a ser um livro, o Deuteronômio era todo um movimento de renovação que vinha de longe. Começou no Reino de Israel no Norte, na época do profeta Elias (século IX a.C.). Elias, junto com outros irmãos profetas, suscitou uma reação muito forte contra a política do rei Acab e da rainha Jezabel, os quais, com seus desmandos, levavam o povo a abandonar a fé em Yhwh para seguir o deus Baal dos pagãos. Esse movimento de renovação, iniciado pelos profetas, continuou e cresceu com maior força depois da destruição do Reino de Israel por Sargon, o rei da Assíria, no ano de 721 a.C. (2Rs 17,3-6; 18,9-12).

A destruição do Reino de Israel no Norte foi um aviso muito sério para o povo do Reino de Judá no Sul. Era como se dissessem: “Se não observarmos a Lei de Deus, teremos o mesmo destino de Israel e em breve seremos totalmente destruídos!” Por isso, o povo de Judá no Sul, junto com os refugiados que tinham escapado do desastre do Reino de Israel no Norte, resolveu implantar uma grande reforma, cujo objetivo era observar com maior fidelidade a Lei de Deus. Era o assim chamado Movimento Deuteronomista.

Assumida pelo próprio rei Ezequias (716-687 a.C.) (2Rs 18,1-8), essa reforma deuteronomista foi abandonada durante o longo e desastroso governo do rei Manassés (687-642 a.C.), filho de Ezequias (2Rs 21,1-4), e durante o breve governo de Amon, filho de Manassés (642-640 a.C.) (2Rs 21,19-23). Amon foi assassinado, vítima de uma conspiração (2Rs 21,23). Aí, o povo se revoltou, matou os assassinos de Amon e colocou no trono o pequeno Josias, filho do rei Amon, um menino de apenas 8 anos. Josias, quando assumiu o governo aos 18 anos de idade, retomou com vigor a reforma deuteronomista. Ele foi rei durante mais de 30 anos (640-609 a.C.).

 2. O LIVRO DO DEUTERONÔMIO

2.1. A origem

Durante os dez anos da menoridade do rei Josias, o grupo de regentes, que assumiu o governo, retomou a reforma iniciada pelo rei Ezequias. Depois, aos 18 anos de idade, o próprio rei Josias deu continuidade à reforma, sobretudo a partir do ano 622, quando foi encontrado no templo o assim chamado “livro da Lei” (2Rs 22,8-10). Ocorreu que, nos trabalhos da restauração do prédio do templo, os sacerdotes encontraram o que eles chamaram de o “livro da Lei”. Provavelmente, era o rascunho do futuro livro do Deuteronômio.

Eles levaram o “livro da Lei” ao rei Josias e o leram diante dele. Diz a Bíblia:

Ao tomar conhecimento sobre o conteúdo do livro da Lei, o rei rasgou a roupa e deu esta ordem ao sacerdote Helcias, a Aicam, filho de Safã, a Acobor, filho de Micas, ao secretário Safã e ao ministro Asaías: “Vão consultar Yhwh por mim e pelo povo, a respeito do conteúdo deste livro que foi encontrado. A ira de Yhwh deve ser grande contra nós, porque nossos antepassados não obedeceram às palavras deste livro e não praticaram tudo o que nele está escrito” (2Rs 22,11-13).

Eles então foram consultar a profetisa Hulda, que confirmou a veracidade do livro (2Rs 22,14-20).

O “livro da Lei” encontrado no templo era uma releitura atualizada da Lei de Deus, feita, provavelmente, pelos levitas em vista da situação difícil que o povo estava enfrentando naquele momento. Assim, na origem do livro do Deuteronômio, não existe uma pessoa determinada como autor ou escritor, mas existe todo esse movimento de reforma, iniciado pelos profetas, aprovado pelo rei Ezequias e levado à frente pelos levitas e pelo rei Josias.

2.2. A divisão

O Deuteronômio se apresenta como o testamento de Moisés. Ocorreu que, no fim dos 40 anos de peregrinação pelo deserto, pouco antes de morrer, Moisés fez três discursos, dando ao povo as instruções finais, alertando sobre os perigos, indicando os caminhos a seguir e pedindo fidelidade a Deus, que os tinha acompanhado ao longo da travessia pelo deserto. Por isso, o livro se divide em três partes desiguais, conforme o tamanho dos três discursos de Moisés:

> Primeiro discurso Dt 1,1 até 4,43:
> discurso de introdução ao livro da Lei;

> Segundo discurso Dt 4,44 até 28,68:
> a Lei propriamente dita;

> Terceiro discurso Dt 28,69 até 30,20:
> o objetivo da Lei: escolher a vida (Dt 30,20);

> Apêndice Dt 31,1 até 34,12:

> o final da vida de Moisés e alguns cânticos.

2.3. A mensagem

O Movimento Deuteronomista recolhe todo esse espírito de renovação iniciada pela pregação dos profetas do Reino do Norte, sobretudo dos profetas Elias, Eliseu, Amós e Oseias. Ele é o ponto de partida de toda uma releitura da história do povo de Deus, a qual agora está relatada nos livros de Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel e 1 e 2 Reis. Esse conjunto de livros, às vezes, é chamado de História Deuteronomista. No espírito do Deuteronômio é que foi feita a redação final da história do povo de Deus, registrada no Antigo Testamento.

O Deuteronômio é o livro do Antigo Testamento mais citado nos escritos do Novo Testamento: mais de 200 vezes! Isso é sinal de sua importância para as comunidades cristãs. É com citações desse livro que Jesus vence as tentações do demônio no deserto:

  • “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Dt 8,3; Mt 4,4).
  • “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Dt 6,16; Mt 4,7).
  • “Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto” (Dt 6,13; Mt 4,10).

3. OS SETE TEMAS CENTRAIS DE DEUTERONÔMIO

O objetivo da reforma era este: levar o povo a observar melhor a Lei de Deus.

Hoje tomo o céu e a terra como testemunhas contra vós: eu te propus a vida ou a morte, a bênção ou a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas tu e a tua descendência, amando a Yhwh teu Deus, obedecendo à sua voz e apegando-te a ele. Porque disto depende a tua vida e o prolongamento dos teus dias (Dt 30,19-20).

Ao redor desse objetivo central aparecem sete temas que concretizam o objetivo da Lei. São como sete janelas diferentes para olhar para dentro da mesma casa e descobrir a mensagem do livro do Deuteronômio. A seguir, os sete temas ou as sete janelas.

1o O perfume do amor. Ser a revelação do amor de Deus no meio dos povos.

O amor de Deus é a chave para interpretar os fatos da história. Foi por amor que Deus tirou o povo do Egito.

Se Yhwh se afeiçoou a vós e vos escolheu, não é por serdes o mais numeroso de todos os povos – pelo contrário: sois o menor dentre os povos! – e sim por amor a vós e para manter a promessa que ele jurou aos vossos pais; por isso Yhwh vos fez sair com mão forte e vos resgatou da casa da escravidão, da mão do faraó, rei do Egito (Dt 7,7-8).

2o Memória. Quem perde a memória perde o rumo na vida

Sem memória, o povo perde a sua identidade e o rumo da sua missão. Por isso, sem parar, do começo ao fim, o livro do Deuteronômio pede que o povo não esqueça nunca o seu passado: “Amanhã, quando o teu filho te perguntar: ‘Que são estes testemunhos e estatutos e normas que Yhwh nosso Deus vos ordenou?’, dirás ao teu filho: ‘Nós éramos escravos do faraó no Egito, mas Yhwh nos fez sair do Egito com mão forte’” (Dt 6,20-21). É quase um refrão que volta sempre: Dt 1,30; 4,20.34.37; 5,6.15; 6,12.21; 7,8.18; 8,14; 9,26; 11,3-4; 13,6.11; 15,15; 16,1.12; 20,1; 24,18.22; 26,8; 29,1; 34,11).

3o Serviço. Pelo seu jeito de servir, o povo revela o rosto de Deus

Libertado da escravidão no Egito, o povo recebeu a missão de ser a revelação do rosto desse Deus no meio dos outros povos: “Yhwh vos tomou e vos fez sair do Egito, daquela fornalha de ferro, para que fôsseis o povo da sua herança, como hoje se vê” (Dt 4,20), ou como o próprio Deus falava ao povo por meio do profeta Isaías: “Eu, Yhwh, te chamei para o serviço da justiça, tomei-te pela mão e te modelei, eu te pus como aliança do povo, como luz das nações” (Is 42,6). Por isso, os que têm a função de governar devem ser para o povo aquilo que o próprio povo deve ser para toda a humanidade: “Abre a mão em favor do teu irmão, do teu humilde e do teu pobre em tua terra” (Dt 15,11). Essa frase é o lema do mês da Bíblia deste ano de 2020. Ser o povo eleito de Deus não é privilégio, mas é serviço, é missão. Nosso privilégio é poder servir os outros.

4o Êxodo. Viver em estado permanente de êxodo, de “saída”

Constantemente, do começo ao fim, o livro do Deuteronômio manda lembrar o êxodo: “Recorda que foste escravo na terra do Egito, e que Yhwh teu Deus de lá te resgatou. É por isso que eu te ordeno agir deste modo” (Dt 24,18). Sem parar, falando ao povo, Moisés lembra e evoca o êxodo. Para eles, o êxodo não era um fato só do passado. Era o hoje deles. Era a experiência que estavam vivendo. Do começo ao fim, repete-se: Hoje lhes ensino! Hoje ordeno! Hoje proclamo (cf. Dt 4,1.8.20.38.40; 5,1.3; 6,2.6.24; 7,11; 8,1.11.18; 10,13; 11,8.13.22.27.32; 13,19; 15,5.15; 19,9 etc.). O livro do Deuteronômio pede que o povo viva em estado permanente de êxodo, pois a libertação não termina nunca, continua até hoje. Por isso, como diz o papa Francisco, temos de “ser uma Igreja em saída”.

5o Comunidade. “Entre vocês não haverá nenhum pobre” (Dt 15,4)

A vida do povo deve ser um sinal da presença de Deus. Quando vê cacos de vidro no chão, você conclui: “Alguém quebrou um copo!” Naquele tempo, quando aparecia um pobre na comunidade, o profeta denunciava: “Alguém quebrou a Aliança!” Pois a Aliança era o compromisso solene de observar os Dez Mandamentos. Quando todos observam os Mandamentos de Deus, não surge pobre, nem poderia surgir. O povo responde à iniciativa de Deus vivendo em comunidade como irmãos e irmãs. Comunidade verdadeira é aquela que, na vivência da Palavra de Deus, revela igualdade, solidariedade e acolhida aos pobres:

Quando houver um pobre em teu meio, que seja um só dos teus irmãos numa só das tuas cidades, na terra que Yhwh teu Deus te dará, não endurecerás teu coração nem fecharás a mão para com este teu irmão pobre; pelo contrário: abre-lhe a mão, emprestando o que lhe falta, na medida da sua necessidade (Dt 15,7-8).

6o Libertação. Deus nos libertou da escravidão no Egito

O Deuteronômio revela que o verdadeiro Deus é aquele que libertou o seu povo da escravidão do Egito e lhe garantiu a vida. Por isso, ele pede que o povo se liberte do culto aos ídolos e adore só a Yhwh, o Deus verdadeiro, que prefere a misericórdia e a justiça aos cultos nos lugares altos:

Eu sou Yhwh teu Deus, aquele que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida de nada que se assemelhe ao que existe lá em cima, no céu, ou cá embaixo, na terra, ou nas águas que estão debaixo da terra (Dt 5,6-8).

O motivo principal que os levava a transmitir a história do passado era o desejo de nunca esquecer a libertação que Deus havia realizado em favor do seu povo, tirando-o da escravidão do Egito. Parece até um refrão que sempre volta: “Não esqueça que Deus libertou você da escravidão do Egito” (Dt 1,30; 4,20.34.37.45; 5,6.15; 6,12.21-22; 7,8.18; 8,14; 9,7.12.26; 10,22; 13,6.11; 15,15; 16,1.3.12; 17,16; 20,1; 24,9.18.22; 26,5.8; 29,1.24; 34,11).

7o Aliança. Compromisso mútuo entre Deus e o povo

O livro do Deuteronômio é o livro da Aliança de Deus com Israel. Foi Deus quem tomou a iniciativa da Aliança. Escrito vários séculos depois do Êxodo, o livro do Deuteronômio afirma: “O Senhor nosso Deus fez aliança conosco em Horeb. Não foi com os nossos pais que o Senhor fez essa aliança, mas com nós que aqui estamos, todos vivos, hoje!” (Dt 5,2-3). Isso significa que, após mais de 600 anos, o êxodo continuava sendo o hoje deles! Na lembrança do povo, os tempos se misturam. O povo volta ao tempo do êxodo e traz o êxodo para o seu hoje. Nós fazemos o mesmo. Cantamos: O povo de Deus no deserto andava” e acrescentamos: “Também sou teu povo, Senhor, e estou nesta estrada”.

4. CHAVES PARA ENTENDER ALGUNS TEXTOS VIOLENTOS DO DEUTERONÔMIO

Certas passagens do livro do Deuteronômio nos surpreendem. Elas parecem legitimar, em nome de Deus, a violência extrema. É como se houvesse na Bíblia uma garantia para as ações violentas por parte dos poderosos, não só do governo, mas também dentro das comunidades e das casas. Como se a Bíblia legitimasse e sacralizasse as ações violentas e punitivas contra pessoas que, segundo os textos do Deuteronômio, não teriam direito nem defesa.

Eis uma lista de alguns desses textos violentos que provocam medo e indignação entre nós:

  • Dt 13,2-19: Punições aos que se deixam seduzir pela idolatria.
  • Dt 16,21 a 17,7: Punições para os que promovem desvios no culto.
  • Dt 17,8-13: Instruções para os juízes levitas.
  • Dt 19,16-21: Instruções para testemunhas em juízo.
  • Dt 21,18-21: Punição para filhos rebeldes.
  • Dt 22,22-29: Punições para delitos sexuais.
  • Dt 24,7: Punição para sequestradores.
  • Dt 25,11-12: Punição para mulher que defende o marido.
  • Dt 28,15-68: Violentas maldições contra a infidelidade do povo.

São textos tão fortes, que nos levam a questionar a razão da existência deles. Como estão dentro de um livro que consideramos sagrado, após a leitura desses textos temos de dizer: “Palavras do Senhor!” Mas como? Deus exigirá tantas punições e maldições para quem comete um delito ou transgressão? Como entender esses textos? Vamos dar algumas chaves.

1ª chave: situar esses textos no contexto da época.

Nenhum texto bíblico pode ser absolutizado. Temos sempre de situá-los em seu contexto de origem. Como já vimos, o Deuteronômio foi assumido como Lei pelo Reino de Judá após o trauma da destruição do Reino de Israel e da sua capital, Samaria, no ano 721 a.C. O povo do Reino do Norte foi disperso e exilado pelo rei da Assíria e nunca mais voltou para a sua terra. O aviso ameaçador desses fatos para o Reino de Judá foi este: “Ou mudamos de vida ou teremos o mesmo destino que Israel”. Surge o medo da quebra da Aliança e o consequente castigo do exílio. Dessa forma, tendo em vista a manutenção dos compromissos entre Deus e o povo, surgem as leis que punem exemplarmente os que poderiam provocar a ruptura da Aliança, a saber: os que promovem a idolatria; os que quebram as leis religiosas e as instruções para o culto; os que quebram a unidade familiar. É como quando surge a ameaça grave de uma epidemia mortal. Aí, todos se esforçam para observar rigorosamente as normas de defesa e condenam os que não observam as normas, pois eles, pela sua desobediência, colocariam em perigo a vida de todo o povo.

Para evitar o desastre do exílio, já vimos que o rei Ezequias (716-687 a.C.) iniciou uma reforma religiosa logo após a queda de Samaria. No entanto, essa reforma foi desfeita no longo e desastroso reinado de Manassés (687-642 a.C.). Reinado violento que durou 45 anos e “derramou sangue inocente a ponto de inundar Jerusalém toda” (2Rs 21,16). A idolatria estrangeira voltou a dominar o culto e os sacerdotes. Tudo parecia caminhar para nova ruína. O reinado de Manassés, com suas transgressões e violências, é o pano de fundo da legislação rigorista presente no Deuteronômio. Uma legislação repressiva, violenta e punitiva é sinal de uma sociedade insegura e medrosa. A presença desses textos no Deuteronômio mostra que Judá e Jerusalém estavam traumatizados pela destruição horrível ocorrida em Israel e Samaria.

2ª chave: nossa chave de leitura deve ser Jesus.

Jesus é a grande chave que nos permite interpretar o texto bíblico. Nossa leitura de um texto deve ter como pano de fundo a prática libertadora de Jesus. Em seus ensinamentos, ele ressalta o amor, a gratuidade, o perdão e a misericórdia. Só assim venceremos uma sociedade fechada no medo e no castigo. Temos de saber ler os textos violentos com a seguinte pergunta: como será que o próprio Jesus os leu e interpretou? No sermão da montanha, por seis vezes, Jesus faz uma releitura de textos bíblicos de antigamente, fazendo a ressalva: “Eu, porém, vos digo…” (Mt 5,21-48). Ele também soube enfrentar a turba de linchadores que, em nome da legislação antiga, queriam apedrejar a mulher adúltera. Jesus simplesmente escreve algo na areia do chão e os violentos vão embora (Jo 8,1-11). Ele não veio para condenar, castigar e punir. Veio para nos ensinar a resistir ao mal por meio do amor e da reconciliação. Essa proposta de Jesus fica bem clara no momento de sua paixão e morte. Ele foi vítima dessa legislação violenta presente no Deuteronômio. Foi considerado maldito de Deus (Dt 21,22-23; cf. Gl 3,6-14). Mesmo sendo justo e inocente, foi condenado e crucificado. Na hora de sua maior angústia, perdoa a seus algozes: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que estão fazendo!” (Lc 23,34).

3ª chave: a Bíblia traz, lado a lado, posições distintas e opostas.

Isso faz parte de sua proposta pedagógica. No Deuteronômio temos, lado a lado, as bênçãos e as maldições. Aproximando essas duas posições antagônicas, o autor não diz tudo o que tem para dizer, mas apenas sugere ao leitor tomar uma posição: “De que lado você está?” O autor deixa o sentido em aberto, por conta do leitor, que deve descobri-lo. Entendendo bem essa proposta, própria do pensamento hebraico, seremos capazes de superar a leitura fundamentalista, que absolutiza determinado texto. O livro do Deuteronômio segue essa pedagogia.

Assim, com base na proposta de amor e de gratuidade de Jesus, também podemos elencar textos do Deuteronômio que trazem a proposta do amor gratuito.

Eis uma lista desses textos que falam do amor de Deus pelo seu povo e mandam não ter medo nunca:

  • Dt 4,35-39: O amor que Deus sempre mostrou pelos antepassados.
  • Dt 5,10: O amor de Deus até a milésima geração.
  • Dt 6,4-9 O mandamento de amar a Deus sempre.
  • Dt 7,7-9: Deus os escolheu não por eles serem perfeitos, mas porque ele os amava.
  • Dt 7,12-13: Deus mantém o amor que jurou aos nossos pais.
  • Dt 10,12-15: Deus só pede que o povo o sirva de todo o coração.
  • Dt 11,1: Amar a Deus sempre e observar o que ele pede.
  • Dt 11,18-23: Colocar as palavras no coração, como faixa ante os olhos, amando Yhwh sempre.
  • Dt 32,10-12: Deus tratou o povo como a menina dos seus olhos.

Conclusão

Deus nos aceita do jeito que somos, com nossas qualidades e nossos defeitos. Estamos em um longo processo. O apóstolo Paulo diz que tudo foi escrito para nós (Rm 15,4), que tocamos o fim dos tempos, para que possamos aprender a não errar onde nossos antepassados erraram (1Cor 10,6; 2Tm). Como a mãe em casa, Deus nos vai educando e atraindo. Às vezes, a mãe puxa a orelha, mas o amor sempre prevalece e acolhe o filho, quando este mostra boa vontade e arrependimento. Diz o profeta Isaías que a paciência e o amor que Deus tem para conosco são até maiores que a paciência e o amor da nossa mãe (Is 49,15).

Carlos Mesters; Francisco Orofino

é frade carmelita. Estudou Bíblia em Roma e Jerusalém. Trabalha com Bíblia, animando as comunidades de base. É um dos fundadores do Centro de Estudos Bíblicos (Cebi). Mora em Unaí-MG.
é leigo católico. Estudou Bíblia na PUC-Rio. Trabalha com Bíblia, animando as comunidades de base. É assessor do Cebi e do Iser Assessoria. Mora em Nilópolis-RJ.