Novembro – Dezembro de 2026
Prezadas irmãs, prezados irmãos, graça e paz!
Viver é peregrinar. É travessia – e, como bem nos lembra Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas, “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. No tear do tempo, nossas existências são tecidas por fios de busca, de silêncios, de quedas, de profundas saudades e de sede de Deus – como reza o salmista: “A minha alma tem sede de vós, minha carne vos deseja com ardor, numa terra árida, exausta, sem água” (Sl 63,2). Nesta edição de Vida Pastoral, somos convidados a nos sentarmos à mesa com um dos maiores caminhantes da travessia da fé: Santo Agostinho (354-430), o bispo de Hipona, cujo coração inquieto continua a pulsar no ritmo das nossas próprias buscas.
A conversão não é um evento estático, um ponto final onde a alma repousa sem mais perguntas. Os místicos nos ensinam isso com propriedade; São João da Cruz já nos alertava de que, “para chegar aonde não sabeis, haveis de ir por onde não sabeis”. A conversão é, fundamentalmente, um itinerário. Silvia Maria de Contaldo nos apresenta o itinerário espiritual agostiniano. Nas idas e vindas, nos labirintos interiores e exteriores de Agostinho, vislumbramos nossos próprios passos. Suas inquietações não foram erros de percurso, mas o próprio motor que o empurrou em direção à Verdade.
Essa mesma teia de humanidade e transcendência ganha contornos de prece no artigo de Heres Drian de O. Freitas. Ao debruçar-se sobre as Confissões, o clássico texto agostiniano, o autor nos recorda que a vida pode – e deve – ser lida como uma experiência da graça, fazendo ecoar no peito a resposta do Senhor ao apóstolo Paulo: “Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que a força se manifesta plenamente” (2Cor 12,9). Agostinho faz de sua memória um altar. Nele, até mesmo as marcas do pecado e os desertos da ausência são ressignificados. Sob o olhar da fé, as noites escuras da alma transformam-se em madrugadas de misericórdia. É um convite para que todos façamos o mesmo: uma leitura teológica da própria história, bendizendo a Deus por nos conduzir, em meio a tudo, à santificação, tateando em nossas fragilidades humanas.
“Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei!” A poesia agostiniana nos lembra que o amor de Deus sempre nos ganha pelo cansaço de nossas próprias autossuficiências.
Contudo, o caminho da Graça também conhece o bom combate. Como exortava o apóstolo Paulo: “Combati o bom combate, acabei minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4,7). A fidelidade ao Evangelho exige de nós o discernimento diante das ilusões da própria existência. Cleber de Lira Farias nos oferece luzes preciosas ao resgatar o combate de Agostinho contra as heresias de seu tempo. O ontem espelha o hoje: os velhos erros reaparecem sob novas roupagens e sutilezas contemporâneas, ameaçando a comunhão e a vida entre nós, discípulas e discípulos de Jesus. Com profundidade teológica e aguçada sensibilidade pastoral, o santo de Hipona nos ensina que a verdade nunca deve ser separada da caridade. Afastar-se dos falsos caminhos é um ato de amor à vida e à Igreja, um chamado a caminhar na unidade que cura e edifica.
Por fim, a herança agostiniana atravessa os séculos e deságua no magistério da Igreja, mostrando a perenidade de sua voz. Fernando Altemeyer Junior nos presenteia com uma ponte histórica e espiritual ao traçar o perfil do papa Leão XIV e pontuar as conexões vitais entre o pontífice e o pensamento de Agostinho. Além disso, para alargar nossa meditação sobre a Palavra de Deus, temos a valiosa contribuição de Ir. Izabel Patuzzo com os roteiros homiléticos. Boa leitura!
Pe. Antonio Iraildo Alves de Brito, ssp
Editor

