Roteiros homiléticos

2 de março – 8º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Celso Loraschi

DEUS PAI-MÃE CUIDA DE SUAS CRIATURAS

I. INTRODUÇÃO GERAL

            As leituras deste domingo nos apontam para o amor de Deus que se manifesta em seu cuidado para com todas as criaturas. De maneira especial, o coração materno de Deus se volta para os seus filhos e filhas que se encontram em situação de sofrimento. A primeira leitura, tirada do livro do profeta Isaías Segundo, é dirigida aos israelitas que sofrem no exílio da Babilônia e se sentem abandonados até pelo próprio Deus. A segunda leitura, da primeira carta aos Coríntios, revela o sofrimento de Paulo originado por falsos acusadores. E o Evangelho de Mateus recolhe o sofrimento da comunidade cristã preocupada com sua sobrevivência. A Palavra de Deus vem iluminar o sentido dessas diversas situações com base na certeza do amor atento e fiel de Deus para com seus filhos e filhas. A Palavra nos é dada para que possamos entrar na dinâmica do Espírito de Deus que promove e defende a vida sem exclusão.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Is 49,14-15): A ternura de Deus

            O grupo profético de Isaías Segundo (Is 40-55) atuou no meio dos israelitas exilados na Babilônia, ao redor do ano 550 a.C. O pequeno texto deste domingo nos informa do sentimento que tomava conta do espírito dos exilados. A situação parece caracterizar-se como “sem saída”. De fato, passaram-se já vários anos desde que foram arrancados de Judá, terra da qual sentem imensa saudade. O início do exílio aconteceu em 587 a.C., com a invasão do exército babilônico em Jerusalém e a consequente destruição da cidade e do Templo. O tempo vai passando e não há perspectivas para a volta. A tendência é deixar-se abater pelo desânimo. Sentem-se abandonados e esquecidos pelo próprio Deus.

            Nestes momentos difíceis é que se percebe a importância do movimento profético. A profecia é dom de Deus. É palavra eficaz que não apenas denuncia as injustiças causadas pelos poderosos, mas, sobretudo, revela a solidariedade e o socorro de Deus aos sofredores. O movimento de Isaías Segundo (ou Dêutero-Isaías) faz ecoar o projeto de um “novo êxodo”. Assim como no passado Deus suscitou a organização dos escravos no Egito e os conduziu à terra da liberdade, também suscita agora a possibilidade da libertação dos exilados. O antigo êxodo originou o povo de Israel, com o qual Deus fez aliança, comprometendo-se a defendê-lo e amá-lo. Apesar de frequentemente o povo eleito romper o pacto sagrado, Deus jamais quebra a aliança. Ele é fiel, apesar de ser rejeitado. Ele ama, apesar de ser abandonado. Ele vê o sofrimento de seu povo, ouve o seu clamor, conhece as suas dores e desce para libertá-lo (Ex 3,7-10).

            Os exilados, conforme anuncia o profeta, estão enganados ao dizerem que Deus os abandonou. Devem refazer a sua teologia. Com imagens tiradas do cotidiano de uma família, Deus se revela como a mãe que não consegue esquecer-se dos filhinhos que ela amamentou ou deixar de ter ternura pelo fruto de suas entranhas. E, se tal mulher existisse, Deus Pai-Mãe [f1] jamais esqueceria nem abandonaria os seus filhos.

2. II leitura (1Cor 4,1-5): A luz que vem do Senhor

            Os quatro primeiros capítulos da primeira carta aos Coríntios retratam as divisões existentes na comunidade cristã. Havia grupos diversos, formados por meio da adesão a líderes como Apolo, Paulo e Pedro; até Jesus Cristo era considerado como um líder entre os outros. As discussões provavelmente giravam em torno de qual desses líderes, em suas pregações, manifestavam maior sabedoria e eloquência. Paulo era amado por muitos e criticado por outros. Causava-lhe sofrimento o fato de cristãos se sentirem atraídos pelos anunciadores e não pelo anunciado: Jesus Cristo e seu evangelho. Por isso, advertiu-os de que “ninguém pode colocar outro fundamento diferente daquele que foi posto: Jesus Cristo”. E, falando a respeito da obra de cada um dos evangelizadores, ressaltou que “será descoberta pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um” (1Cor 3,11.13).

            No texto deste domingo, Paulo ensina que a comunidade cristã deve acolher os evangelizadores como “simples operários de Cristo e administradores dos mistérios de Deus”. Sendo julgado em comparação com outros pregadores, Paulo comporta-se com coerência e autenticidade. Sua consciência de nada o acusa, mas nem por isso se sente justificado. O verdadeiro julgamento vem do Senhor. Ele, a luz na qual transparece toda a verdade, põe às claras o que se encontra nas trevas. Toda intenção que se encontra no íntimo de cada pessoa será revelada um dia.

            Paulo, como operário de Cristo e bom administrador dos mistérios de Deus, não busca projetar a si próprio. Convicto da missão que recebeu do Senhor, está disposto a ser fiel até o fim, fundamentado não na sabedoria humana, e sim na luz do Senhor. É admirável constatar em Paulo sua capacidade de transformar todas as situações de conflito e sofrimento em oportunidades de renovar a confiança na graça e na bondade de Deus.

3. Evangelho (Mt 6,24-34): A providência divina

            Este texto faz parte do “Sermão da Montanha” (Mt 5-7). A comunidade de Mateus faz a memória dos ensinamentos de Jesus, refletindo sobre a própria realidade ao redor do ano 85. Constata-se que a ideologia dominante exerce influência também sobre os cristãos. O fetiche da riqueza exerce forte atração, mesmo no coração de pessoas pobres. É justo e necessário o trabalho em prol da vida digna de cada pessoa, da família e da comunidade. O evangelho, porém, alerta para a preocupação inquietante que tolhe a confiança na providência divina. Deus é bom e generoso. É o criador de todas as coisas e também é quem cuida de suas criaturas e as sustenta. Esta verdade está comprovada ao longo de toda a história da humanidade, conforme testemunham os relatos bíblicos. Mas também os relatos bíblicos testemunham que os seres humanos tendem a deixar-se arrastar pela cobiça, pela autossuficiência e pela ganância. Por causa disso, originaram-se muitos males no mundo, prejudicando a vida das pessoas e a harmonia de toda a criação.

            Jesus, o Filho de Deus encarnado, participando da história humana, vem resgatar a proposta do Reino de Deus. Da contemplação das maravilhosas obras divinas espalhadas na natureza e do trabalho cotidiano dos habitantes da região onde ele se criou, Jesus extrai os elementos para explicar a dinâmica desse Reino. Relaciona as aves do céu com o trabalho do homem agricultor que semeia, ceifa e recolhe os frutos no celeiro para alimentar a sua família; relaciona os lírios do campo com o trabalho da mulher que tece a roupa para vestir a todos em sua casa.

O alimento e a veste sintetizam as necessidades básicas para a vida e a proteção de todos os homens e mulheres. Ora, o Pai do céu sabe muito bem do que seus filhos e filhas necessitam. E nada lhes faltará, desde que pratiquem a fraternidade e a justiça: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo” (6,33). É a frase-chave para a compreensão de todo o texto. É a chave que abre o caminho possível para a nova sociedade que respeita os bens da criação, vive o presente com simplicidade e alegria e trabalha de forma criativa e pacífica, sem a preocupação inquietante com o acúmulo. Toda comunidade cristã, como a de Mateus, é chamada a ser sinal deste Reino de Deus.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Deus Pai-Mãe [f2] nunca abandona os seus filhos e filhas. Há situações em nossa vida, como a dos israelitas exilados na Babilônia, que parecem “sem saída”. Sentimo-nos abandonados e esquecidos, questionando-nos: onde está Deus?  No entanto, a Palavra nos lembra, de forma sempre nova, que Deus nunca nos esquece nem nos abandona. Ele cuida de nós com a ternura de mãe, ama-nos e nos protege como seus filhinhos muito amados. Podemos imaginar os efeitos positivos, no meio do povo exilado, destas palavras do profeta: “Mesmo que uma mulher se esquecesse dos que ela amamentou e não tivesse ternura pelo fruto de suas entranhas, eu não te esqueceria nunca”. O mesmo Deus dos exilados é o nosso Deus.

Deus julga a cada um com amor e justiça. Considerando a experiência concreta vivida na comunidade cristã de Corinto, Paulo não se deixa abater pelos que o subestimam, comparando-o com outros pregadores. Também nós, a exemplo de Paulo, podemos transformar as situações de sofrimento em oportunidade de graça benfazeja, de renovação da nossa confiança em Deus, cuja luz brilha nas trevas. Paulo nos ensina a viver nossa missão neste mundo “como simples operários de Cristo”. Isso significa renunciar à pretensão de poder e de prestígio social, ser autênticos e coerentes com a fé que professamos e fazer tudo como servidores uns dos outros.

Deus cuida de nós e de todas as suas criaturas. Talvez mais do que em outros tempos, vivemos ansiosos, com uma infinidade de preocupações. O evangelho deste domingo nos adverte de que não podemos servir a dois senhores. Sempre é tempo de nos perguntarmos seriamente como administramos nossa vida, nossos trabalhos, nosso tempo…  Jesus nos oferece a proposta do Reino de Deus, que se fundamenta na fraternidade, na simplicidade, no respeito à natureza, na solidariedade e na confiança em Deus, que sabe muito bem do que necessitamos. É justo o esforço em busca das condições necessárias para uma vida digna. Porém quantas coisas supérfluas nos amarram e nos impedem de ser verdadeiramente livres e solidários! Para onde poderá nos levar o ritmo da vida atual? Que frutos estamos colhendo com essa busca ansiosa de ter sempre mais bens materiais, poderes, prazeres, prestígio social…?


 [f1]Verificar, cf. comentário anterior.

Verificar, cf. comentário anterior. [f2]

Celso Loraschi

Mestre em Teologia Dogmática com Concentração em Estudos Bíblicos, professor de evangelhos sinóticos e Atos dos Apóstolos no Instituto Teológico de Santa Catarina (Itesc).
E-mail: loraschi@itesc.org.br