Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2023 - ano 64 - número 351 - pp.: 48-51

04 de junho – Santíssima Trindade

Por Marcus Mareano*

O amor, a comunhão e a presença

I. INTRODUÇÃO GERAL

No domingo seguinte a Pentecostes, a Igreja celebra a solenidade litúrgica da Santíssima Trindade. Muitas pessoas não aprofundam suficientemente a fé para melhor compreensão desse mistério central e cultivam a ignorância sobre a revelação divina. Acham que se trata de um tema acessível apenas a alguns.

Por isso, a liturgia da Palavra apresenta a Deus por meio da história da sua relação com seu povo, e não pela linguagem dogmática conceitual. Nos eventos históricos de Israel, Deus se mostra como relação que se plenifica em Jesus, o Verbo feito carne. O Espírito é enviado para que outras pessoas continuem a reconhecer o amor desmesurado do Pai ao Filho e do Filho ao Pai, o qual se derrama nos seres humanos.

De fato, assim como observamos a ação de Deus na história do povo da Bíblia, podemos também contemplá-la em nossa própria história. Concluiremos, com isso, que Deus é amor, porque vemos, em tantos acontecimentos presentes e passados, como ele cuida de nós. A celebração da liturgia deste domingo é uma maneira de confessar esse mistério de comunhão e proclamar a nomeação cristã de Deus: Pai, Filho e Espírito Santo.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Ex 34,4b-6.8-9)

Na primeira leitura, Deus se revela ao seu servo Moisés como “graça e verdade” (v. 6). Ao contrário dos deuses dos outros povos, o Deus de Israel se comunica com seu povo, conhece suas fraquezas e age para libertá-lo da escravidão do Egito (Ex 3,7-12).

Mesmo quando o povo “de cabeça dura” quebra a Aliança (v. 9), Deus a renova e permanecefiel. O evento da travessia no deserto para a Terra Prometida (êxodo) faz que Israel reconheça a presença de Deus invisível, mas real, nos acontecimentos diários. Assim, a graça e a verdade, características de Deus na libertação de Israel, são contempladas na humanidade de Jesus, o unigênito do Pai (Jo 1,14).

A atitude reverente de Moisés demonstra sua confiança em Deus (v. 9), que perdoa e é cheio de ternura e de piedade (v. 6). De igual modo, reverenciamos esse mistério que ouvimos nas Escrituras e percebemos em nossa história de vida.

Deus não é um terrível vingador que guarda os erros humanos para puni-los, nem um cruel que põe o ser humano à prova para reclamar a fé e o amor. Essas imagens pertencem a uma compreensão primitiva, pré-cristã e não bíblica de Deus. Mesmo que, em algumas passagens, ele apareça como um juiz, a revelação divina se plenifica em Jesus Cristo, que mostra quem, de fato, é Deus (Jo 1,18; 14,9).

2. II leitura (2Cor 13,11-13)

Paulo, na segunda leitura, dá suas últimas recomendações práticas às pessoas da comunidade de Corinto. Alegria, paz, concórdia e amor são sinais de que Deus se faz presente entre essas pessoas (v. 11).

O que os coríntios têm pela fé deve ser transmitido uns aos outros (v. 12). O ósculo santo litúrgico representava a fraternidade cristã e comunicava o que se tinha de melhor à outra pessoa (Rm 16,16; 1Cor 16,20; 1Ts 5,26).

Por fim, Paulo expressa sua experiência de fé cristã ao desejar à comunidade de Corinto que “a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós” (v. 13). A “fórmula” à qual o autor recorre demonstra a experiência comunitária de vivência da fé em Cristo, que gera comunhão entre as pessoas.

Observe-se que a saudação permanece em nossas liturgias. Majoritariamente, no Novo Testamento, Jesus é designado como Senhor, que é a maneira de traduzir o tetragrama divino do Antigo Testamento. Deus é o Pai de Jesus, que adota os seres humanos a partir de seu Filho. O Espírito é o de Deus, santo e santificador, que moveu o Filho de Deus e foi dado a todos os que creem nele. A descrição bíblica considera a sobriedade das palavras e a história da salvação plenificada em Cristo.

O pequeno texto da leitura demonstra como a fé na Trindade implica uma forma de ser e de estar no mundo. Nossa presença e nossa missão fazem do mundo em que vivemos um lugar pleno da presença divina. A fé trinitária nos expande, lança-nos em direção à humanidade e nos capacita para sermos seres de encontros fecundos com Deus e com todas as criaturas.

3. Evangelho (Jo 3,16-18)

O trecho do Evangelho de João sugerido para esta solenidade explicita a dinâmica do mistério trinitário, narrando o envio do Filho pelo Pai por amor à humanidade: “Deus amou tanto o mundo, que deu seu Filho único, para que todo que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (v. 16).

Conforme visto na primeira leitura, Deus age em prol de seu povo, e essa ação atinge a plenitude no envio de seu Filho amado. Jesus é o amor de Deus (Pai) feito história humana. Ele nos ensina a chamar o Deus de Israel de Pai – não apenas de um único povo, mas de toda a humanidade (Mt 6,9). O Espírito Santo vem em nosso auxílio para clamarmos Abbá (Pai), de acordo com o ensinamento de Jesus (Rm 8,15).

A imagem de um Deus severo e punitivo não se sustenta a partir de Jesus Cristo, que veio para salvar, e não para julgar ou condenar (v. 17). A missão de amor do Filho é a salvação humana. Ela se realizou por sua morte e ressurreição. Quem acredita em Jesus acolhe o dom da salvação oferecida por ele. Quem recusa essa oferta de amor se condena a si próprio. Deus, que visitou Moisés e o povo no deserto, mostra-se na humanidade de Jesus, que viveu movido pelo seu Espírito, doado a toda a humanidade.

A Trindade é, antes de tudo, amor recíproco entre as três Pessoas. Os antigos Padres da Igreja entendiam o mistério da Trindade não de uma forma estática, e sim ativa, como uma dança. Eles fizeram uso de um termo inspirador para descrever tal dança trinitária: perichoresis. Essa imagem expressa bem a contínua interação recíproca que caracteriza o dinamismo intratrinitário. Nela, um faz a dança ao redor do outro, o outro dança ao redor do primeiro, em um constante e recíproco circundar-se.

Assim, a salvação oferecida pelo Filho pode ser compreendida como um convite a entrar nesse baile, no belo movimento coreográfico da vida de Deus em nós e da nossa vida em Deus. A participação na dança divina da Trindade é o coração da vida cristã, é o tornar-se filho(a) na ação do Espírito Santo.

Dançamos juntos enquanto deixamos Deus nos tomar pela mão, conduzir-nos pelo seu Espírito para irmos ao encontro do seu Filho. A grande dignidade do ser humano está no fato de estarmos no centro do “círculo dançante de Deus”.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

O mistério da Trindade não é uma “invenção” dogmática da Igreja posterior, mas a maneira cristã de experimentar a Deus, que é amor (1Jo 4,8.16). E o amor exige relação com o diferente.

O cristão conhece a Deus com base na existência humana de Jesus. Jesus revela que Deus é Pai e está unido a ele, e ele ao Pai, por meio do Espírito Santo. Portanto, o amor de Deus manifestado na vida de Jesus, por meio de seus ensinamentos com palavras e gestos, revela a paternidade de Deus, e o ser humano se torna filho(a) de Deus no Filho, Jesus.

O Espírito Santo, que habitou Jesus em sua vida, transborda de amor do Pai para o Filho e do Filho para o Pai. Tal amor transbordante chega ao coração (interior) humano para vivermos como filhos e filhas de Deus. O Espírito Santo é o amor de Deus presente em nosso coração para vivermos na comunhão com o Pai e o Filho.

A presença divina no ser humano é para movê-lo ao amor. O dom de Deus presente em nós é para amarmos uns aos outros como ele nos amou (Jo 15,12; 1Jo 3,23; 4,21). Para as Escrituras, o amor consiste mais em ações de verdade do que em palavras (1Jo 3,18). Viver a fé trinitária
significa praticar o amor conforme Jesus nos apresentou em sua existência humana.

Que a celebração do mistério da Trindade colabore com uma vida de comunhão uns com os outros na comunidade. O que professamos com os lábios na liturgia deve ser praticado em nosso cotidiano. Crer no Deus trino é também se dispor para amar o diferente e comungar com todos.

Marcus Mareano*

*Pe. Marcus Mareano é bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece); bacharel e mestre
em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje); doutor em Teologia Bíblica com dupla
diplomação: pela Faje e pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica (KU Leuven); professor adjunto de
Teologia na PUC-MG e de disciplinas isoladas em diferentes seminários. Desde 2018, é administrador
paroquial da paróquia São João Bosco, em Belo Horizonte-MG. E-mail: [email protected]