Roteiros homiléticos

Publicado em março-abril de 2023 - ano 64 - número 350 - pp.: Edição Especial

08 de abril – Vigília Pascal

Por Celso Loraschi*

Exultação e louvor: Jesus ressuscitou!

I. INTRODUÇÃO GERAL

A Vigília Pascal é a reafirmação comunitária da fé na ressurreição. É a celebração da vitória da vida sobre a morte. Depois de um dia de silêncio e meditação sobre a paixão e morte de Jesus, a comunidade cristã exulta pela Páscoa da ressurreição do Senhor. A Vigília Pascal baseia-se numa antiga tradição israelita, conforme se lê no livro do Êxodo: “Esta noite, durante a qual Iahweh velou para fazer seu povo sair do Egito, deve ser para todos os israelitas uma vigília para Iahweh, em todas as suas gerações” (Ex 12,42). Nesta exortação de Jesus, encontramos o sentido cristão da vigília: “Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede semelhantes a pessoas que esperam seu senhor voltar das núpcias, a fim de lhe abrir, logo que ele vier e bater” (Lc 12,35-36). A liturgia da Palavra, assim como a simbologia desta celebração, recorda a ação criadora e libertadora de Deus na história humana, culminando com a ressurreição de Jesus. É o acontecimento central de nossa fé. Quem vive alicerçado na certeza da ressurreição é nova criatura.

II. A SIMBOLOGIA DA CELEBRAÇÃO

Os símbolos que fazem parte da celebração da Vigília Pascal são portadores de sentidos relacionados à vida nova. Os paramentos brancos anunciam a vitória sobre o mal e a paz que Jesus ressuscitado nos dá. Apontam para o viver revestido dos mesmos sentimentos de Jesus: “Como escolhidos de Deus, santos e amados, vistam-se de sentimentos de compaixão, bondade, humildade, mansidão, paciência…” (Cl 3,12). As vestes brancas identificam os que são fiéis a Jesus e estão inscritos no livro da vida (Ap 3,4-5).

O fogo purifica, aquece e ilumina. Na Bíblia, o símbolo do fogo é utilizado para descrever a identidade e a ação de Deus. Pelo fogo, Deus manifestou-se a Moisés e revelou-se como libertador do povo escravizado (Ex 3,1-12). De noite, para iluminar o caminho por onde devia passar o povo rumo à Terra Prometida, Deus andava à sua frente, como uma coluna de fogo (Ex 13,21). João Batista anuncia o batismo de fogo que será realizado pelo Messias (Mt 3,11). Jesus também proclama que veio trazer fogo à terra e deseja ardentemente que esteja aceso (Lc 12,49). O Espírito Santo se revela como “línguas de fogo” (At 2,3). O fogo expressa força, paixão, indignação profética; alastra-se facilmente, como se alastra a boa notícia da ressurreição.

A luz é outro símbolo que revela o ser e o agir divinos. Deus separou a luz das trevas; viu que a luz era muito boa (Gn 1,3-4). Deus é um ser envolto em luz (Sl 104,2); Jesus Cristo é a luz verdadeira que ilumina a humanidade (Jo 1,9), e quem o segue “não anda nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). Ele é o vencedor das trevas e da morte: nesta noite santa, é representado pelo círio pascal. Nele acendemos nossas velas, como gesto de compromisso com o seguimento de Jesus, fonte de vida plena. “Se caminhamos na luz como ele está na luz, estamos em comunhão uns com os outros e o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado” (1Jo 1,7).

A água simboliza a vida, fertiliza a terra, mata nossa sede, nos limpa… Lembra a imersão batismal pela qual nos tornamos filhos e filhas de Deus. Representa o novo nascimento: “Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5). Na celebração eucarística, mistura-se a água (nossa humanidade) com o vinho (divindade). Do lado aberto de Jesus morto na cruz, traspassado pela lança, “saiu sangue e água” (Jo 19,34). O círio pascal mergulhado na água é a íntima união de Cristo com a humanidade. Do interior de quem crê em Jesus morto e ressuscitado “fluirão rios de água viva” (Jo 7,38).

III. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. Leituras do Primeiro Testamento

As leituras da liturgia desta noite refletem as ações de libertação e salvação de Deus ao longo da tradição judaico-cristã. Partem da criação, em que se reconhece a Deus como fonte de toda vida. Todas as coisas são “muito boas”, reveladoras da bondade e da generosidade divinas. O homem e a mulher são criaturas entre as demais. Há íntima relação entre o ser humano e a natureza… O sétimo dia, ponto alto do relato da criação, invoca a importância da gratuidade e da contemplação, para além da exploração utilitarista (I leitura: Gn 1,1-2,2).

O sacrifício de Isaac prefigura o de Jesus. Abraão é caracterizado como aquele que deseja seguir a Deus, o único absoluto. Aprende que Deus é o defensor da vida, diferentemente de outras práticas existentes na época. A obediência a Deus está relacionada com a ruptura com toda espécie de opressão e morte (II leitura: Gn 22,1-18). É o que se constata também no acontecimento do êxodo: Deus suscita o movimento e a organização das pessoas oprimidas em vista de uma sociedade nova. A passagem do povo de Israel pelo mar Vermelho nos oferece a convicção de que a presença divina na história humana garante as condições de superação de todas as dificuldades que impedem uma vida baseada na liberdade, na justiça e na fraternidade (III leitura: Ex 14,15-15,1).

As próximas quatro leituras refletem a teologia que emerge da situação dos israelitas exilados na Babilônia. Por meio do profeta Isaías, Deus dirige-se ao povo sofredor, oferecendo-lhe amor de esposo, incapaz de abandonar sua esposa, pois é sempre fiel à Aliança. Ele é o redentor, o protetor e o doador da paz (IV leitura: Is 54,5-14). Deus se revela a fonte de todos os bens e sacia todo o povo de modo gratuito e generoso. Deixa-se encontrar por todos os que o buscam e atende a todos os que o invocam. O povo no exílio pode contar com ele, pois ele está bem perto. Seus projetos, muito acima dos nossos, realizar-se-ão em favor da vida do ser humano, conforme anunciado pela sua palavra (V leitura: Is 55,1-11).

Por meio da profecia de Baruc, Deus apresenta-se como fonte de sabedoria. Ele oferece ao povo os “preceitos de vida” para que este possa reconquistar a terra e habitá-la em paz com longevidade. A prudência, a força e a inteligência verdadeiras baseiam-se na sabedoria divina, que tudo criou, tudo conhece e tudo governa. É necessário voltar o coração para os desígnios de Deus (VI leitura: Br 3,9-15.32-4,4). Não é Deus o responsável pela situação crítica em que vive o povo; são as más ações deste, baseadas na violência e na idolatria, que atraem as desgraças. O profeta Ezequiel anima a esperança dos exilados, dizendo-lhes que, apesar do mau comportamento do povo, Deus é fiel e cheio de amor; por isso mesmo, intervém para salvá-lo, perdoa-lhe as faltas e lhe dá um coração novo; fará que ande em seus caminhos e oferece-lhe uma nova aliança: “Sereis meu povo e eu serei vosso Deus” (VII leitura: Ez 36,16-17a.18-28).

2. Leituras do Segundo Testamento

As leituras do Primeiro Testamento desta Vigília Pascal são uma espécie de caminho revelador da história da salvação de Deus à humanidade. O ponto alto é a ressurreição de Jesus. O crucificado pela maldade humana é o ressuscitado pela bondade divina, manifestada desde a criação do mundo.

O Evangelho (Mt 28,1-10) faz menção ao “raiar do primeiro dia da semana” (v. 1), referindo-se à nova criação oferecida por Deus à humanidade, redimida pela morte de Jesus. Após as trevas da crucificação, nasce a aurora da vida plena. É a novidade absoluta: a vida venceu a morte! Foi definitivamente destruído o último inimigo do ser humano.

Mateus ressalta o protagonismo das mulheres. São as primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus. Elas assistiram à sua morte, viram onde e como seu corpo havia sido sepultado. Na madrugada do primeiro dia da semana, dirigem-se ao túmulo. Surpreendentemente participam da epifania divina, revelada por meio do terremoto e da descida do anjo do Senhor, que tem um aspecto de relâmpago, vestido com roupa branca como a neve. Ele remove a pedra e senta-se sobre ela: definitivamente, Deus vence a morte! Os guardas tremem de medo e ficam como mortos: o poder deste mundo, que domina e mata, é extremamente frágil. As mulheres, marginalizadas pelo sistema oficial judaico, mas profundamente acolhidas e amadas por Jesus, “vieram ver o sepulcro” tomadas pela tristeza. Eis que o anjo do Senhor lhes dá uma notícia de extraordinária alegria e força: “Não tenham medo! […] Ele ressuscitou!” (v. 5.6) Com pressa, comovidas e com grande alegria, afastam-se do túmulo e assumem a missão de discípulas missionárias, anunciadoras do acontecimento extraordinário aos demais discípulos.

Elas creem! A pedra da dúvida está removida: Jesus ressuscitou! A certeza que provém da fé descarta a necessidade de ver Jesus com os olhos da carne. Mesmo assim, são duplamente agraciadas: são informadas não somente pelo anjo, mensageiro de Deus, mas também pelo próprio Jesus ressuscitado. Ele lhes vem ao encontro e reforça a certeza que já carregavam no coração: “Alegrai-vos!” (v. 9) Elas abraçam os pés de Jesus e prostram-se diante dele: tornam-se definitivamente suas seguidoras, testemunhas da ressurreição do Senhor. São confirmadas pelo próprio Jesus na missão de apóstolas dos apóstolos: anunciar-lhes, sem medo, o caminho da Galileia (lugar social das pessoas marginalizadas) como o local do encontro com o Ressuscitado.

 Algum tempo depois desses fatos, Paulo de Tarso também foi contemplado com a experiência de Jesus ressuscitado, que transformou radicalmente sua vida. Escrevendo aos romanos (Rm 6,3-11), duas décadas depois de sua conversão, expressa o significado da morte e ressurreição de Jesus para os cristãos. Para ele, o batismo é o mergulho na morte de Jesus, como passagem para uma vida nova. A fé em Jesus Cristo, morto e ressuscitado, desdobra-se em prática cotidiana: crucificar a “velha criatura”, escrava do pecado, para ressuscitar como “criatura nova”, liberta de todo egoísmo e imersa na vida divina. Enfim, a vida da pessoa batizada está íntima e decisivamente relacionada com o próprio ser de Jesus Cristo. Em outras palavras, o que caracteriza o cristão é a permanente “vigília pascal”, no sentido de prosseguir a mesma causa de Jesus, cultivando o mesmo jeito de viver, morrer e ressuscitar.

IV. PISTAS PARA REFLEXÃO

– Criação e libertação são duas notas características do agir de Deus. Gratuitamente, ele criou todas as coisas; fez-nos à sua imagem e semelhança e nos deu a missão de administrar os bens com justiça e fraternidade. Toda forma de ganância e de concentração de bens é uma afronta à bondade e à generosidade divinas. Caracteriza-se como roubo do que é dom de Deus para a vida de todos os povos. O futuro de boa parte da humanidade, atingida pelo flagelo da fome, está ameaçado por causa da utilização egoísta dos recursos disponíveis. Porém, não há situação que não possa ser transformada. Deus nos possibilita um coração novo; liberta-nos do egoísmo e nos indica caminhos de vida em abundância. Para isso, a Campanha da Fraternidade nos oferece sugestões para ações concretas.

– A ressurreição de Jesus é a boa notícia que transforma o mundo. A morte foi vencida definitivamente. A exemplo das mulheres na madrugada do primeiro dia da semana, nós acreditamos, sem duvidar, que Jesus ressuscitou e vive em nosso meio. Assumimos a missão de discípulos missionários, testemunhando a fé e o amor, a começar de nossa casa. Como batizados, crucificamos o egoísmo na cruz de Jesus para viver como novas criaturas, promovendo relações de diálogo, reconciliação, justiça, paz e fraternidade.

 – Os símbolos da celebração da Vigília Pascal evocam a vitória do bem sobre o mal, da vida sobre a morte. Queremos viver com a veste resplandecente de Cristo ressuscitado, purificados pela água batismal, no fogo do seu amor e na luz de suas palavras. Seguindo Jesus, anunciamos a aurora de um mundo novo.

Celso Loraschi*

*é mestre em Teologia Dogmática com Concentração em Estudos Bíblicos.