Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2021 - ano 62 - número 339 - pág.: 54-57

10⁰ DOMINGO DO TEMPO COMUM – 6 de junho

Por Izabel Patuzzo

Destruição de satanás

I. INTRODUÇÃO GERAL

As leituras deste domingo nos põem no caminho do discernimento para identificar as obras que vêm de Deus e as obras que são do maligno. O evangelho relata a volta de Jesus para casa, em meio à sua missão. Seus familiares se deixam influenciar por opiniões negativas acerca de seu ministério e concluem que Ele estava ficando louco. Os escribas julgam que Jesus expulsa os demônios porque compactua com estes. O Mestre, porém, demonstra que sua atividade libertadora se opõe aos poderes do mal e que sua missão é revelar o Deus verdadeiro.

A primeira leitura é uma narrativa poética do diálogo entre Deus e o primeiro homem e a primeira mulher, depois de serem tentados e enganados pela serpente. O orgulho de querer ser igual a Deus tem como resultado a perda da condição de felicidade. Eles tomam consciência de sua nudez, isto é, da perda da proteção proveniente da fidelidade a Deus; com o pecado, tornaram-se vulneráveis às tentações.

Na segunda leitura, Paulo mostra que sua força carismática é fruto de seu espírito de fé. Sua fé é dom do Espírito Santo; por isso, as tribulações não apagam seu ardor missionário. A fé na ressurreição faz que sua vida apostólica seja pautada pela esperança futura. Por isso, o apóstolo diz, com convicção, que as alegrias da vida futura em Cristo em nada se comparam com os sofrimentos presentes.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Gn 3,9-15)

O relato da queda de Adão e Eva não quer explicar, do ponto de vista histórico, como o pecado entrou no mundo, mas sim apresentar questões existenciais que o ser humano enfrenta acerca de quem somos, qual é o sentido de nossa existência, por que o mal se instalou no mundo. A primeira parte do livro de Gênesis retrata, de forma poética, lições catequéticas importantes para Israel, sobretudo no período do exílio.

O texto desta liturgia faz parte do segundo relato da criação, o qual descreve a transgressão não como algo que vem de Deus, mas como consequência das escolhas humanas. Deus, porém, toma a iniciativa de ir ao encontro da criatura humana e dialogar sobre suas escolhas erradas; a pedagogia divina parte do princípio de não condenar ou julgar, mas questionar, para proporcionar consciência sobre as consequências do mal.

A primeira pergunta que Deus faz ao homem e a mulher é:  “Onde estás?” Ela não tem por objetivo indagar o lugar geográfico onde se encontram, mas sim o lugar existencial. A desobediência faz que homem e mulher percam o rumo enquanto pessoas. A transgressão leva-os ao sofrimento, ao medo, a ter dificuldades de se relacionar com Deus na serenidade. Os questionamentos que o Senhor faz é para ajudá-los a retomar o caminho do Bem. As respostas deles consistem em se desculpabilizar, desresponsabilizar e autojustificar, dizendo que foram enganados. Por meio do diálogo, Deus os faz tomar consciência de que usaram mal de sua liberdade e realizaram escolhas erradas. Eles podiam ter recusado a proposta da serpente. No final, Deus não condena o ser humano, apenas a serpente recebe punição, porque usou de mentira.

2. II leitura (2Cor 4,13-5,1)

A segunda leitura é endereçada aos cristãos de Corinto. Paulo fala de seu testemunho evangélico a respeito da ressurreição de Cristo e da nossa. Isso é o que o torna firme. Mesmo que agora estejamos na tribulação, frágeis como vasos de barro, esse sofrimento é leve em comparação à grandeza da glória que iremos experimentar no futuro, junto de Deus. Segundo Paulo, nossa morada neste mundo é passageira e será desfeita. Somos chamados à comunhão com Deus e com os irmãos para toda a eternidade. O apóstolo fala daquilo que acredita e se deixa mover em sua missão pela fé; ele estabelece um contraste nítido entre este mundo, marcado pelas tribulações e sofrimentos, de coisas passageiras e fugazes, e as alegrias futuras, na habitação eterna ao lado de Deus.

A atitude de Paulo diante das tribulações serve de modelo para os cristãos de todos os tempos em seus momentos de provações, sejam aquelas advindas da missão, sejam as que surgem das circunstâncias da vida. É a atitude de fé e de confiança em que não fomos criados apenas para este mundo, mas para a comunhão eterna. A comunhão eclesial que somos chamados a viver pelo batismo é pequena faísca da comunhão na eternidade.

3. Evangelho (Mc 3,20-35)

Com este relato, Marcos completa a apresentação das categorias de pessoas que estão ao redor de Jesus. Faltavam apenas seus parentes e os escribas vindos de Jerusalém. Parece que a intenção do evangelista é mostrar quem são os verdadeiros irmãos de Jesus e quem são seus inimigos. Aqueles dois grupos de pessoas fazem dois julgamentos sobre Jesus: os parentes diziam que ele havia enlouquecido, e os escribas, que estava possuído por Belzebu.

A aglomeração da multidão em torno da casa onde Jesus se encontrava suscita preocupação nos parentes de Nazaré e sua intervenção. Esse é um traço característico de Marcos, empenhado em explicar que os parentes e familiares temem que a maneira de Jesus exercer seu ministério possa trazer problemas para a família. Isso também explica o fracasso de sua pregação em Nazaré, onde ele afirmou que nenhum profeta era aceito em sua própria terra.

Se os parentes procuram neutralizar a ação de Jesus em nome da normalidade e do equilíbrio, os escribas mais refinados se tornam extremamente duros em suas críticas, buscando gerar um descrédito total ao afirmarem que Jesus age por meio do príncipe dos demônios. A essa dupla acusação, Jesus deixa claro que não está louco, sobretudo ao narrar a parábola do homem forte, fazendo alusão à sua vitória. Diante da acusação de que seu poder vem de satanás, afirma ser este um insulto ao poder de Deus, um pecado contra o Espírito Santo. Por isso, tal atitude de rejeição e fechamento à proposta salvífica de Deus não tem perdão. O pecado contra o Espírito não tem remissão não porque seja mais grave que todos os outros, mas porque inclui em si a rejeição ao perdão, excluindo a atitude de fé e de conversão. O evangelista, por meio desse relato, faz um questionamento fundamental aos discípulos: Quem é Jesus para eles? Para segui-lo, é preciso ter clareza de sua real identidade. Para estabelecer uma relação de familiaridade com ele, é necessário seguir seu exemplo. Jesus é o primeiro a fazer a vontade do Pai, e sua obediência acarreta rejeição e incompreensão. Continuar no mundo sua missão significa fazer também a vontade do Pai, como pedimos continuamente na oração que Jesus nos ensinou, o pai-nosso.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Fazer parte da família de Jesus é a vocação de cada batizado. Todos são chamados a participar da comunidade de discípulos que Jesus instituiu. Ele é o centro da vida cristã, e sua única missão é fazer a vontade do Pai, eliminando o espírito do mal que oprime as pessoas.

Como batizados, escolhemos trilhar os mesmos caminhos de Jesus. Isso implica necessariamente renunciar às obras do mal, como nos recorda a liturgia do batismo. Assim como Jesus estabelece clara distinção entre o serviço a Deus e o poder de satanás, somos chamados, desde o primeiro momento de nossa vida cristã, a renunciar às obras do mal, não caindo em suas ciladas, como fizeram o primeiro homem e a primeira mulher. Somos chamados a continuamente fazer nossa profissão de fé. As leituras deste domingo nos convidam a sempre discernir a realidade da vida à luz da fé, da proposta divina; a perseverar no diálogo amigo com Deus; a ser verdadeiramente membros da família de Jesus.

Izabel Patuzzo

pertence à Congregação Missionárias da Imaculada – PIME. É assessora nacional da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB. Mestre em Aconselhamento Social pela South Australian University e em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é licenciada em Filosofia e Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção,
em São Paulo. E-mail: [email protected]