Roteiros homiléticos

Publicado em setembro-outubro de 2023 - ano 64 - número 353 - pp.: 38-41

10 de setembro – 23° DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Junior Vasconcelos do Amaral*

Todo ser humano é digno de perdão

I. INTRODUÇÃO GERAL

 

Todo ser humano é digno de compaixão. Somos convidados, neste domingo, à prática do perdão, da correção fraterna. A comunidade cristã é casa de clemência e reconciliação. Na primeira leitura, o profeta Ezequiel, chamado a ser sentinela de seu povo, pronto para atender à vontade de Deus, convida-nos a corrigir, com coragem, aquele que se desviou do caminho da justiça e do bem. O Evangelho de Mateus nos catequiza para a vivência da comunhão eclesial, colocando-nos diante da pedagogia libertadora do perdão, da correção fraterna, baseada na ajuda aos pecadores, na solidariedade e na oração em favor dos que se desviam da comunhão da Igreja. A segunda leitura estabelece o amor como o vínculo perfeito de comunhão que nos ajuda a cumprir os mandamentos de Jesus Cristo.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Ez 33,7-9)

 

Ezequiel é um nome teofórico (que contém a palavra ou o nome de Deus), podendo ser traduzido por “Deus há de fortalecer/endurecer”. Trata-se de nome que exprime bem sua missão, assumida aos 26 anos de idade, em 597 a.C., quando foi exilado para a Babilônia a mando de Nabucodonosor, junto com inúmeros outros, conforme testemunha 2Rs 24,14. Em Ez 1,2-3 se afirma que o profeta e sacerdote Ezequiel, filho do sacerdote Buzi, estava em meio aos exilados. Ele é profeta apocalíptico, capaz de ver se revelar, em tais acontecimentos, o “fim de um tempo”, no qual a glória (KaVoD) de Deus acompanha seu povo ao exílio (cf. Ez 1,1-28, primeira visão do profeta).

Ezequiel é como sentinela que espera, ansiosamente, a salvação para Israel, seu povo. Após a palavra do Senhor vir a ele (Ez 33,1) – o filho do homem (ben Adam) –, o profeta é chamado a proclamar, dizer a seu povo uma palavra de desgraça: virá a espada contra o povo, que colocará Ezequiel como sentinela a vigiar. Ele é chamado a ser sentinela para a casa de Israel (v. 7). O profeta – nabi, em hebraico – é designado também como porta-voz, pois está sempre a escutar (sob a voz de Deus, sob seu Shemah). É-lhe solicitado ouvir a voz de Deus e advertir o povo de sua conduta incoerente com a Palavra do Senhor; sobretudo, incoerente com o direito e a justiça (hesed e tsedaqah).

É válido ressaltar que toda atividade profética se resume a anunciar e denunciar: anunciar a justiça de Deus e denunciar o desvio desse projeto de justiça. Nesta seção do livro de Ezequiel, ele é chamado por Deus a invocar sobre Israel, corajosamente, um tempo de desgraça: o exílio da Babilônia.

Nos v. 8 e 9, diz o Senhor ao profeta: “Se eu disser ao ímpio que ele deve morrer, e não lhe falares, advertindo-o a respeito de seu caminho (pode-se ler ‘conduta’), o ímpio morrerá pela sua iniquidade, mas reclamarei de tua mão o seu sangue. Se, porém, tiveres advertido o ímpio a respeito de seu caminho para que o mude, e ele não o mudar, o ímpio morrerá por sua iniquidade, mas tu salvarás tua vida”.

Embora saiba que todo o povo sofrerá com o exílio babilônico, o profeta não pode se esquivar de advertir o ímpio sobre sua conduta injusta. Para o ser humano fiel, o desvio da justiça traz consequências desastrosas do ponto de vista ético, pois a Palavra de Deus nos convida à prática do amor, que é fruto da justiça; logo, desviar-nos do caminho da justiça nos leva à prática do ódio, da falta de compaixão.

2. II leitura (Rm 13,8-10)

 

O amor aperfeiçoa a lei, o amor justifica nossa vida, assim como a fé, pois evidentemente o amor é o cumprimento de nossa fé em Cristo. Quem diz amar a Cristo se tornou discípulo(a) em toda a sua integralidade, mesmo sob a força da concupiscência, que nos atrai para o pecado. Nessa perspectiva é que Paulo, na passagem deste domingo, convida o discípulo da comunidade eclesial de Roma à perfeita concreção da fé: o amor.

O amor, segundo Paulo, pode ser nossa única dívida: “não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor”, pois o amor é a única forma de aperfeiçoarmos a Lei, a Torá divina, a qual, para os cristãos, está representada em Cristo, que levou a Lei e os Profetas ao pleno cumprimento. Para o autor, o amor não faz nenhum mal contra o próximo, pois aperfeiçoa a Lei, assim como Cristo, que nos amou até o fim, entregou sua vida para nos salvar. O amor é o vínculo perfeito de união com Deus, bem como o vínculo perfeito entre os seres humanos, criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27).

3. Evangelho (Mt 18,15-20)

 

No coração do terceiro sermão, da comunidade Ekklesia – um dos cinco discursos (cf. Mt 5-7; 11; 13; 18; 24-25) que perfazem o Evangelho de Mateus –, encontramos a narrativa deste domingo, que trata da pedagogia do perdão com base na prática da correção fraterna. Esse sermão eclesial situa-se na segunda parte do Evangelho, que tem como intuito ressoar todo o ensinamento de Jesus, por parábolas e sentenças, bem como por sua prática missionária, levando a comunidade de fé a ser uma extensão do seu messianismo.

A correção fraterna e a oração fazem parte do rol de práticas que nós, cristãos, somos chamados a tornar nossas. A narrativa de Mt 18,15-20 começa com o condicional se: “Se teu irmão pecar contra ti, vai e corrige-o, em particular”. Trata-se da possibilidade real de que haja, na comunidade cristã, um litígio, uma rusga nas relações, que deveriam se basear sempre no respeito e no amor. Contudo, pecar é algo a que tanto nós como os outros estamos propensos. A pedagogia do perdão se inicia na intimidade, na correção que ajuda o outro a reconhecer o próprio erro, responsabilizando-se pela volta aos bons princípios da justiça e daquilo que é correto. “Se ele não te ouvir, toma uma ou duas pessoas como testemunhas”: trata-se da ajuda de outras pessoas que façam o pecador tomar consciência de seu delito, daquilo que ele fez e que tem sempre uma consequência social. “Se ele não te ouvir, nem às testemunhas, apresente o caso à Igreja”: ou seja, à comunidade, que tem o múnus de corrigir, de reorientar. “Se à Igreja ele não ouvir, trate-o como um pagão, um publicano”: como alguém que não merece estar em comunhão.

Na comunidade cristã, é o amor que nos une, mas quem não deseja vincular-se pelo amor não deve consumir nossas expectativas e anseios.

O v. 18 pode ser entendido como o nexo fundamental para compreender as duas partes do Evangelho: a prática do perdão e da oração. Tanto o perdão quanto a oração são práticas que nos vinculam aos irmãos e a Deus. A comunidade eclesial é lugar constante da unidade com os irmãos e irmãs e com Deus, que nos criou.

Os dois últimos versículos da narrativa, v. 19-20, tratam da prática da oração, que faz a presença sacramental de Cristo se efetivar: dois ou mais formam comunidade eclesial, os “convocados”, como o termo ekklesia sugere em sua etimologia. Se dois estiverem em sintonia e concordarem em pedir alguma coisa, isso será concedido pelo Pai, origem e fonte de todas as realidades. O último versículo é explicativo-conclusivo: “Pois, onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali eu estarei no meio deles”. A presença de Cristo efetiva a práxis da Igreja, tanto na reconciliação e no vínculo de amor quanto na oração, que concretiza nossa união com Deus, pois toda oração da Igreja é realizada por Cristo – como na Eucaristia, fonte e cume da ação litúrgica da Igreja, ação de graças do Filho ao Pai, pelo vínculo amoroso do Espírito Santo.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

 

Mostrar a relação entre as três leituras, a importância de viver em Igreja, a comunidade discipular de Jesus. Recordar que somos pecadores, mas, ao mesmo tempo, somos convidados à vigilância, assumindo a posição de sentinelas, capazes de ajudar os irmãos e irmãs na prática da justiça e do direito, que fundamentam uma ética cristã. Ressaltar que somos capazes de reconstituir o tecido de nossa convivência fraterna, rasgado pelo pecado. O perdão e a oração são práticas fundamentais, que ultrapassam a mesquinharia do julgamento e da condenação.

Junior Vasconcelos do Amaral*

*Pe. Junior Vasconcelos do Amaral é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG. Doutor em Teologia
Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seu doutorado
na modalidade “sanduíche”, estudando Narratologia Bíblica na Université Catholique de Louvain (Bélgica). É
professor de Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e publicou vários artigos sobre o Evangelho de Marcos
e a paixão de Jesus em perspectiva narratológica. E-mail: [email protected]