Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2021 - ano 62 - número 339 - pág.: 60-62

12º DOMINGO DO TEMPO COMUM – 20 de junho

Por Izabel Patuzzo

A tempestade acalmada

I. INTRODUÇÃO GERAL

As leituras deste domingo nos fazem refletir sobre o sentido do sofrimento humano e sobre a certeza de que, nas adversidades e tempestades da vida, o Senhor caminha conosco. As provações que a vida nos apresenta não são sinais da ausência de Deus, pois ele se preocupa com os dramas humanos, cuida da criação com amor, inspirando e apontando caminhos de superação.

A primeira leitura nos diz que o Senhor é forte e se manifesta por meio das forças da natureza. Apresenta o lamento de Jó, que finalmente recebe a resposta divina. Deus lhe fala como verdadeiro amigo e companheiro, sempre presente com sua força majestosa, capaz de dominar a natureza. Jó, por meio de sofrimentos e provações, aprende que há alguém maior do que seu sofrimento.

No evangelho, Marcos narra a história da tempestade acalmada para refletir sobre as dificuldades da Igreja primitiva depois da partida de Jesus. A comunidade enfrentou enormes adversidades, que se assemelhavam a uma grande tempestade em alto-mar. Somente a presença de Jesus consegue devolver a calma e possibilitar o prosseguimento da viagem com serenidade e tranquilidade.

A segunda leitura garante-nos que nosso Deus não é um Deus indiferente, que abandona o ser humano à própria sorte. Paulo recorda que Cristo se entregou à morte por nós e fomos redimidos por seu amor, por isso morremos para o pecado para ter a vida em plenitude com Ele.

Neste domingo celebramos também o dia mundial do migrante e do refugiado. O papa Francisco nos recorda que as pessoas deslocadas nos proporcionam a oportunidade de encontrar o Senhor, mesmo que nossos olhos sintam dificuldade em reconhecê-lo com as vestes rasgadas, os pés sujos, o rosto desfigurado, o corpo chagado e a cultura diferente da nossa.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

2. I leitura (Jó 38,1.8-11)

O livro de Jó pertence à literatura sapiencial do Antigo Testamento e traz uma reflexão fundamental para a existência humana: por que o justo sofre? A concepção do sofrimento, no mundo antigo, fundamentava-se na crença de que ele era consequência do pecado. Acreditava-se que as tribulações eram castigo de Deus. O livro de Jó consiste neste grande questionamento: por que o justo que segue os caminhos de Deus pode sofrer tanto?

O personagem Jó é um homem justo, íntegro diante de Deus e das pessoas; repentinamente lhe sobrevém toda sorte de desgraças. Ele perde todos os bens que havia conquistado na vida, depois perde a família e, por fim, a saúde. Então dirige a Deus grande lamento e se interroga acerca da origem de seu sofrimento e de qual é o papel de Deus nessa sua situação. Seus amigos tentam convencê-lo de que suas desgraças são consequência dos pecados por ele cometidos. Jó tem consciência de sua integridade diante de Deus, por isso se recusa a aceitar essa explicação, não condizente com a verdade. Sua atitude questiona uma doutrina que precisava ser superada, segundo a qual seu sofrimento era simplesmente castigo de Deus.

Como Jó rejeita essa explicação tradicional para o drama do sofrimento, dirige-se àqueles que o acusam de pecador e passa ele mesmo a dar nova explicação. Ele dialoga com o próprio Deus, em forma de lamento, queixas, dúvidas e revoltas, mas com confiança e esperança de que Deus lhe responderá. E, de fato, Deus lhe responde, recordando-o de seu lugar de criatura limitada e finita. Mostra-lhe também sua preocupação e seu amor por cada pessoa. A história termina com Jó percebendo seu lugar e reconhecendo a grandeza da transcendência divina, a qual o ser humano jamais poderá compreender.

2. II leitura (2Cor 5,14-17)

O texto da segunda leitura é fortemente marcado pela ideia da morte. Paulo nos diz que formamos com Cristo uma unidade; seu amor por nós é tão grande, que de algum modo nos identificamos com Ele. Os destinatários da carta são os membros da Igreja de Corinto, a qual esteve em conflito com o apóstolo; havia nessa comunidade um espírito de divisão, por isso Paulo propõe uma reflexão sobre a profunda unidade entre nós e Cristo. O único objetivo da missão paulina é levar o amor de Cristo ao conhecimento de todos. Ele morreu por todos, a fim de que todos compreendessem a lição de um amor que foi até as últimas consequências. Assim, contemplando o Cristo que oferece sua vida aos irmãos, quebram-se as barreiras que dividem as pessoas. E essa Boa-nova absorve completamente o apóstolo.

O Evangelho paulino tem como centro de pregação a revelação de Deus na pessoa do Crucificado. Assim como o encontro com Jesus ressuscitado transformou sua vida, Paulo deseja que todos os cristãos façam também sua experiência com o Cristo morto na cruz e ressuscitado.

3. Evangelho (Mc 4,35-41)

Na narrativa do milagre da tempestade acalmada destaca-se a serenidade de Jesus, que dorme na popa. À tranquilidade de Jesus se opõe o medo, que torna os discípulos descontrolados e agressivos: “Mestre, não te importas que pereçamos?” Nesse pano de fundo, com os elementos da natureza ameaçadores e os discípulos amedrontados, sobressaem a segurança e o domínio de Jesus. Ele não responde imediatamente aos discípulos, mas repreende o vento e o mar com sua palavra. O medo dos discípulos cede lugar à fé; o milagre os faz progredir na descoberta da pessoa de Jesus. Nesse ponto, o relato do milagre deixa de ser a simples descrição de um episódio dramático no lago e torna-se evocação de uma experiência de fé. Essa nova dimensão do gesto de Jesus se obtém graças à releitura da ação libertadora de Deus na história do povo escolhido.

A interrogação final dos discípulos: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” é uma confissão de fé. O sentimento de temor que toma conta dos discípulos, na concepção bíblica, significa a admiração do ser humano diante do divino. Desse temor se origina a obediência, a adesão e a confiança da parte do ser humano. Tal atitude positiva deriva da experiência que o crente tem de Deus. O temor dos discípulos significa que eles reconhecem que Jesus é o Deus presente no meio deles e que todas as pessoas são convidadas a aderir, confiar e obedecer incondicionalmente.

Esse relato de Marcos tem finalidade catequética. Deseja mostrar que o poder de Jesus cresce continuamente e se revela à vista dos discípulos, primeiro pela autoridade sobre o poder caótico desencadeado pelas ondas, depois pela superação do medo. O poder misterioso de Jesus liberta, em primeiro lugar, do medo que aprisiona as pessoas; aquele medo que tem sua raiz última na morte. Só a vitória sobre a morte será a garantia da libertação definitiva. Por isso, Marcos vai concluir sua seção de milagres narrando uma cura e a ressurreição da filha do chefe da sinagoga. Jesus vence a morte com a vitória de sua ressurreição.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

A imagem do barco dos discípulos em meio à tempestade, na travessia para a outra margem do lago, oferece-nos uma descrição das primeiras comunidades em sua caminhada em busca da vida nova oferecida por Jesus. Esse texto nos convida a tomar consciência de que a comunidade nascida de Jesus é comunidade missionária, que enfrenta os perigos para ir ao encontro das pessoas. Ser discípulo de Jesus supõe deixar as instalações cômodas e tranquilas dos espaços seguros e protegidos, defendidos dos perigos do mundo e alheios aos grandes problemas que afligem a humanidade, sobretudo os pobres, os migrantes e os marginalizados. No entanto, o evangelho deste domingo nos garante que Jesus não abandona o barco de seus discípulos. Ele está sempre lá, embarcando com eles na mesma aventura, dando-lhes segurança e paz. Nos momentos de crise, desânimo e medo, os discípulos têm de ser capazes de descobrir sua presença silenciosa, mas sempre amorosa, que não os deixa sós.

A missão dos que se dedicam ao serviço do Reino de Deus não é fácil. A vida de discípulos não raro comporta momentos de solidão, oposições, incompreensões do mundo. Seguir Jesus não livra o discípulo do confronto com suas fragilidades e impotências diante de determinadas circunstâncias. Muitas vezes, nossa fé não é suficiente e precisamos ouvir a pergunta de Jesus – “Ainda não tendes fé?” –, porque não conseguimos identificar sua presença amorosa em meio às tempestades da existência. Ele não faz intervenções mágicas em nossa vida, mas está em comunhão conosco sempre, em qualquer lugar e situação.

À luz do dia mundial do migrante e do refugiado e dos acontecimentos dramáticos que têm marcado os últimos tempos, sobretudo da pandemia que assolou o mundo, o papa Francisco nos exorta ao cuidado amoroso para com todas as pessoas deslocadas internamente devido a grandes perdas na vida, incluindo aquelas que atravessaram e ainda vivem experiências de precariedade, abandono, marginalização e rejeição por causa da Covid-19.

Izabel Patuzzo

pertence à Congregação Missionárias da Imaculada – PIME. É assessora nacional da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB. Mestre em Aconselhamento Social pela South Australian University e em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é licenciada em Filosofia e Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção,
em São Paulo. E-mail: [email protected]